Tag Archives: colorido

O TERROR DE JERRY LEWIS

29 abr

Esta semana liguei a tv paga e lá estavam, programados um atrás do outro, o “Oito e meio” de Fellini e “O terror das mulheres” de Jerry Lewis. O que fazer, ou melhor, o que rever?

Os dois de uma vez só não dá. Não tenho mais resistência física pra aguentar quatro horas sentado numa cadeira, machucando os ossos das nádegas.

O que vocês acham que escolhi rever?

Sim, claro que foi o filme de Lewis, que amo. Nada contra o de Fellini, aliás, um dos filmes que está na lista dos dez mais da crítica internacional. Mas, sabe como é, o que Fellini quis dizer ali, eu já sei de cor; já li tanto sobre que estou farto, e uma revisão não iria mudar nada – trata-se de um cineasta em crise, uma crise que estamos cansados de conhecer: metalinguagem e megalomania juntas. Aplaudo, porém, não me empolgo mais.

Já o filme de Lewis é bem mais modesto e bem mais agradável. Aliás, ponho o “modesto” entre aspas, pois o que ele, com seu “surrealismo” desbragado, realiza, artisticamente falando, é muita coisa. Toda vez que o revejo, fico pensando naquele pessoal que tentou o surrealismo no cinema e fez uns filmes experimentais, a maior parte chata, inclusive Buñuel.

“O terror” de Lewis é surrealista sem defender programa, e o é em plena Hollywood do começo dos anos sessenta, e mais, com um cenário suntuoso da Paramount e vivamente colorido – dizem que o mais caro cenário indoor da era clássica.

A história não podia ser mais simples, nem mais tola. Nem mais louca. O jovem Herbert (Jerry Lewis) sofre um golpe amoroso e desenvolve um pavor psicótico a mulheres. Quando avista uma moça à sua frente, foge às léguas, apavorado. Por ironia do destino arranja emprego numa suntuosa mansão que – de início ele não sabe – é uma pensão de moças. A cena do confronto é impagável: ao acordar de manhã, ele desce as escadas da mansão e se dirige lépido ao refeitório, para se deparar com pelo menos umas quarenta moças, cada uma em sua mesa, fitando-o de frente. O choque é feio e o rapaz quase pira de vez.

O que se segue é um amontoado de absurdos nunca vistos numa produção hollywoodiana, salvo talvez nas velhas películas de O gordo e o magro, ou dos Irmãos Marx. Só que agora esses absurdos parecem mais deliciosamente absurdos por estarem acontecendo numa produção requintada da Paramount, com um cenário colorido e de luxo. Naturalmente, quando o primeiro deles quebra a regra da verossimilhança, o espectador fica preparado pra o que der e vier.

Seria cansativo citar, mas lembro ao menos algumas cenas de – chamemo-lo assim – “surrealismo extremo”.  As borboletas que, sem querer, o desastrado Herbert deixa fugir do mostruário e que a ele retornam obedientemente no momento certo. Herbert dançando um tango com o ator George Raft (ele mesmo), com a música saindo do nada e o spotlight idem acompanhando os passos do casal. O leão que, no final, atravessa o salão onde um apavorado Herbert descobre ser aquele o pet da casa que todos chamam de Baby.

Eu sei, eu sei, é só mais um filme cômico de Jerry Lewis, porém, o requinte deste trabalho supera o conceito de “madcap comedy” e, como disse, dialoga com esse outro conceito, tão high brow, de surrealismo. E se sai bem… Buñuel que me perdoe.

Francamente, não me arrependo de ter trocado “Oito e meio” por ele. Vamos deixar Fellini pra outro dia; afinal, a programação da tv paga é repetitiva.

Longe do paraíso, perto de Sirk

15 out

Por que não vi “Longe do paraíso” ao tempo de sua estréia, em 2002? Ou não foi exibido localmente? Se não, por que me escapou na TV? Francamente, não sei dizer, mas agora corrijo a lacuna com a versão em DVD de um filme que entra no rol dos meus prediletos.

poster

A estória se passa na capital de Connecticut, a bela e ainda pequena Hartford dos anos cinquenta, cheia de seus jardins floridos, suas ruas arborizadas e seus bosques frondosos com cujo dourado resplandecente a câmera tanto se ocupa. Cathy Whitaker (Julianne Moore) é uma jovem senhora casada que leva a vida normal esperada: casa própria, dois filhos pequenos e um marido próspero. Para a revista feminina local, ela é a dona de casa modelo, que merece foto e matéria especial.

Mas, que o paraíso está longe logo saberemos. A perfeição começa a ser desacreditada no dia em que Cathy decide levar o almoço do marido Frank (Dennis Quaid) no escritório e o flagra fazendo amor com outro homem. Como, então, homossexualidade era entendida como doença, o casal enfrenta o problema junto e um psicólogo é procurado. Enquanto isso, Cathy conhece Raymond, esse jardineiro negro (Dennis Haysbert), cujo pai trabalhara na família dos Whitaker no passado. Tenha sido pela tensão ou não, o fato é que uma atração brota entre os dois e Cathy é vista pela mulher mais fofoqueira da cidade entrando num bar ao lado de um homem de cor.

Marido gay e suposto amante negro – carga demais para uma dona de casa dos anos cinquenta. Com sua aparente leveza, ela tenta administrar os problemas como pode. A promessa de não mais rever o jardineiro e umas férias em Miami com o marido parecem pôr tudo nos eixos. Poria, se… Bem, não conto o resto da estória.

Um suposto amante negro

Um suposto amante negro

O que interessa dizer é que “Longe do paraíso” é o remake de um clássico dos anos 50, o belo “Tudo que o céu permite” (“All that heaven allows”) do grande Douglas Sirk – ou mais que isso, uma homenagem. Vejam que um procedimento básico e efetivo é mudar o conteúdo e preservar a forma do filme homenageado. Exemplos: em “Tudo que o céu permite” a protagonista é viúva e seu amante socialmente desaprovado é jardineiro, porém, branco. Parece que o diretor de “Longe do paraíso”, Todd Haynes, quis agravar os conflitos com temas da época ainda mais fortes – a homossexualidade e o racismo. Daí a diferença nos finais, quase feliz no original e infeliz na refilmagem.

Formalmente, os dois filmes são incrivelmente parecidos – ou devo dizer, crivelmente parecidos? Se nos concentrarmos, por exemplo, em três elementos – emprego de câmera, cenário e música – a sensação é de estarmos vendo o mesmo filme, sobretudo naqueles momentos simbólicos em que a paisagem, com suas flores e sua remissão à profissão do amante, é usada como comentário irônico do drama. As aberturas, por exemplo, são sugestivamente semelhantes.

Na verdade, o que se nota é o tanto que Haynes resguarda dos ensinamentos fílmicos de Sirk, na prática ou em palavras, como estão resumidos em sua famosa entrevista de 1977 para Jane e Michael Stern (Cf Bright Light Films). “A boa câmera é curiosa” – afirma Sirk na entrevista: “Não há nada nos meus filmes sem uma razão ótica”, ou ainda “o movimento de câmera deve ser justificado pelo movimento dos atores e o movimento dos atores pelo da câmera”.

Mas, as relações entre os dois filmes não fica no plano da expressão – convenhamos – e se estende a fatores contextuais. Consideremos o caso dos elencos. Notem como a grande amiga confidente da protagonista, a única a quem ela relata sua paixão pelo jardineiro, é feita por atrizes com o mesmo perfil físico: em Sirk, Agnes Moorehead, em Haynes, Patrícia Clarkson, as duas com quase os mesmos penteado, indumentária e gesticulação. E não resisto à interpretação de que o homossexualismo do marido foi introduzido no roteiro do remake para lembrar o verídico, de Rock Hudson, que em Sirk fez o papel do jardineiro.

Um marido homossexual

Um marido homossexual

Naturalmente, uma insistência do diretor é demarcar a época, o que não faria sentido no filme de Sirk. Uma forma óbvia é o apelo ao cenário urbano (automóveis, vestuário, arquitetura, etc), porém, mais que isso, o filme nos passa a impressão de estarmos vendo não apenas um filme “de época”, mas um filme “da época”. Por isso ele termina com a inscrição gráfica THE END, como se sabe, há tanto tempo fora de moda.

Outro bom recurso é fazer com que os personagens trafeguem por perto de cinemas onde estão em cartaz os filmes da época. No caminho do seu primeiro encontro homossexual, Frank passa na frente de um cinema que está exibindo “As três máscaras de Eva”, aquele drama em que a Joanne Woodward fazia uma pessoa com personalidade múltipla. Ora, personalidade múltipla é o que Frank será obrigado a assumir a partir de então.

Já próximo ao desenlace, quando Cathy e seu companheiro negro caminham furtivamente pelas calçadas de Hartford, os títulos mostrados nos cartazes do cinema são dois: “O preço da audácia” (“The bold and the brave”, de Lewis Foster, 1956) e “Idílio proibido” (“Hilda Crane”, de Philip Dunne, 1956). Como se nota, no original ou na tradução, ambos títulos sintomáticos para a situação amorosa que vivenciam. No primeiro filme eles são ´os ousados e os corajosos´ e, no segundo, ‘Hilda Crane´ era o nome da protagonista, uma mulher independente que teve a coragem de quebrar os padrões machistas então vigentes, por sinal interpretada pela mesma Jane Wyman, a viúva apaixonada pelo jardineiro no filme homenageado –  mais uma relação contextual entre “Longe do paraíso” e “Tudo que o céu permite”.

Enfim, se assistir a “Tudo que o céu permite” é delicioso, ver “Longe do paraíso” depois dele é multiplicar a delícia por dois.

Rock Hudson e Jane Wyman em cena do clássico "Tudo que o céu permite".

Rock Hudson e Jane Wyman em cena do clássico “Tudo que o céu permite”.