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YESTERDAY

10 set

E se os Beatles nunca tivessem existido?

O filme “Yesterday” (2019), do cineasta inglês Danny Boyle, em cartaz na cidade, cria essa hipótese e viaja em cima dela.

Depois de sofrer um acidente de automóvel, o jovem compositor e cantor frustrado Jack Malic (Himesh Patel) vem a descobrir que, ao seu redor e no mundo todo, ninguém tem a mínima ideia de quem são os Beatles. Descobre esse fato estranho numa roda de amigos e amigas quando canta, no violão, o belo “Yesterday” e o pessoal pergunta que música era aquela.

Intrigado com o fato, Jack corre para o Google e lá, para seu espanto, comprova a inexistência do genial quarteto de Liverpool. Ao digitar a palavra “Beatles” o aplicativo a transforma em “beetle” (´besouro´), lhe fornecendo os dados e as imagens do tal inseto.

A primeira providência de Jack é tentar recordar, uma por uma, as letras das canções, já que ele é, agora, a única criatura no planeta que as conhece – uma espécie de museu musical ambulante. Tem trabalho com “Eleanor Rigby” e canções de letras mais longas, porém, no geral recorda quase todas, e não só isso, passa a cantá-las publicamente e, inevitavelmente, se transforma de repente no maior compositor e cantor do mundo – reconhecido até pelo astro pop Ed Sheeran, que, no filme é interpretado por si mesmo.

A fama, e uma série de pequenos mal-entendidos, fazem com que Jack perca a amizade e o amor de uma amiga íntima – Ellie Appleton, sua primeira agente – mas, esse desdobramento do enredo, que, da metade em diante, transforma o filme numa ´historinha romântica´, pode ficar pra lá.

O bom mesmo é a criação desses dois universos paralelos (um sem os Beatles versus o outro, com os Beatles), tão bom quanto as performances musicais do ator Patel, executando, no seu estilo, as canções que amamos, mais tarde acompanhado por conjuntos, em super-shows para plateias gigantescas.

Jack seria o engate entre os dois universos paralelos, porém, lá adiante, vamos descobrir que não é o único: um senhor e uma senhora, bem mais coroas que ele, um belo dia lhe aparecem do nada para lhe dizer – sem levantar nenhuma questão jurídica sobre falsidade ideológica – que ele está fazendo um belo trabalho e que estão gostando. E não fazem só isto: lhe dão um endereço secreto e, aí, Jack vai ter com ninguém menos que John Lennon. Pode? Em filmes de universos paralelos tudo pode.

O ator Himesh Patel e o músico Ed Sheeran em cena no filme

No desenlace, o cantor Jack assume a verdade, desiste da falsa carreira e volta ao grande amor reprimido do passado, o que, no meu entender, comprometeu um pouco a qualidade do filme, lhe tirando o ritmo e deixando no ar um certo cheiro de “não sabemos o que fazer com o final da estória e vamos encerrá-la assim,  desculpem”.

De todo jeito, gostei daquela cena bem no finalzinho, quando, Jack, conversando com a companheira Ellie, se refere por acaso a “Harry Potter” e ela pergunta: o que é isso? E aí se abre o espaço pós-tela para um novo mundo onde o best-seller de J. K. Rowling jamais teria existido, muito menos os filmes deles derivados…

Ufa! Ainda bem que era só Harry Potter, e não, por exemplo, William Shakespeare…

Até certo ponto, o filme tem as ousadias e as peripécias de Danny Boyle, que a gente lembra de “Cova rasa” (1994), “Trainspotting” (1996), “A praia” (2001) e “Quem quer ser um milionário” (2008), mas, aqui, com mais descontração e mais ludicidade.

À parte a questão da qualidade, “Yesterday” é um filme agradável, para se assistir com a mesma descontração nele proposta, se possível acompanhado de amigo(a)s com a mesma faixa etária sua e amantes dos Beatles. Foi o que ocorreu comigo.

Aliás, para dar a esta matéria um toque charmoso de Estética da Recepção, relato que, depois da sessão, comendo um delicioso spaghetti com as duas amigas com quem assisti ao filme, fiquei pensando em outros “universos paralelos”, no caso, no contexto brasileiro. Na verdade, confesso encabulado, que fiquei imaginando escrever uma estória em que Chico Buarque não existiria, e eu seria a única privilegiada criatura no universo a ter na memória as suas canções.

Não daria um conto legal, no estilo André Ricardo Aguiar? Só que iriam logo dizer que imitei o Danny Boyle – o que, obviamente, seria verdade.

Hemish Patel fazendo esforços para interpretar os Beatles…

Esquilos e nozes

2 nov

“Um amor em cada esquina” está em cartaz na cidade (ou ao menos, estava), mas, por que sair de casa para ir ver uma comédia romântica sobre garota de programa que vira atriz da Broadway?

Bem, cada um tem suas razões. Para ir ou para não ir. Eu fui por conta do diretor Peter Bogdanovich, de quem não via nada havia décadas. O seu último filme antes deste já tem catorze anos, o hilário “O miado do gato” (2001) onde ele conta aquele episódio verídico do crime no iate do magnata William Randolf Hearst, envolvendo sua amante Marion Davies e o amante dela, Charles Chaplin, lembram?

Não que Bogdanovich seja um realizador estupendo, mas, é, com certeza, o cineasta vivo mais cinéfilo que conheço. E eu adoro cinefilia, quanto mais desbragada melhor.

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Não morri de amores por “Um amor a cada esquina” (“She´s funny that way”, 2014), e, no entanto, curti um bocado a sua desbragada intertextualidade fílmica. Até imaginei como foi que Bogdanovich teve a ideia do roteiro.

Acho que foi assim: um dia qualquer, ele estava fazendo sua costumeira e saudosa revisita a um de seus cineastas mais amados, Ernst Lubitsch, e grudou em uma de suas comédias, no caso, “O pecado de Cluny Brown” (1946), aquela em que Jennifer Jones é empregada numa casa de campo inglesa e conhece o imigrante checo Charles Boyer. Os dois têm um flerte, porém, aparece um outro pretendente para a moça.

Bogdanovich grudou particularmente numa frase do personagem de Boyer, que, inspirado pelo amor, declara a uma Jennifer espantada: “No Hyde Park, as pessoas dão nozes aos esquilos, mas, se a torna feliz dar esquilos às nozes, quem sou eu pra dizer nozes aos esquilos?” O nonsense da frase o pegou, até porque era esse tipo de nonsense que alimentava as famosas “screwball comedies” (´comédias malucas´) dos anos trinta e quarenta.

E aí, ele, Bogdanovich começou a construir, primeiro na mente, depois no papel, um personagem que emitisse a frase e, melhor ainda, que a encarnasse. E imaginou esse Arnold Albertson (Owen Wilson), grande dramaturgo da Broadway que, espécie de Don Juan de bom coração, vive de ajudar garotas de programa a mudar de métier e crescer na vida. Pronto, assim foi. O resto – dá pra sentir – veio por tabela.

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Claro que ele teve que trocar o Hyde Park londrino pelo Central Park novaiorquino, mas isso foi fácil. E, para ajudar o espectador na identificação de sua fonte inspiradora, ainda incluiu, nos créditos finais, a tal cena de “O pecado de Cluny Brown”…

Na verdade, “Um amor a cada esquina” tem ecos, não apenas de Lubitsch, mas praticamente de todas as ´comédias malucas´ do passado clássico, de Howard Hawks a Preston Sturges, passando por Frank Capra e outros mais. Uma gag atrás da outra, cada cena relembra o que a gente já viu em filmes como “Levada da breca” (1938), “O inventor da mocidade” (1952) “Contrastes humanos” (1941), “Esse mundo é um hospício” (1944), etc…

Até Blake Edwards entra na estória, quando a call girl Izzy Finkelstein (Imogen Poots) declara, em entrevista, ser fã da Audrey Hepburn de “Bonequinha de luxo”, este, como se sabe, também um filme sobre garota de programa. E mesmo o mais moderno Woody Allen é evocado, particularmente na escolha do ator principal, esse Owen Wilson com quase o mesmo gaguejado nervoso que faz o seu charme em “Meia noite em Paris”.

Com um monte de personagens se cruzando, entre conquistas, encontros inverossimilmente casuais, trompaços, traições e ´barracos armados´ por mulheres ciumentas, o filme de Bogdanovich tem um enredo farsesco, que seria cansativo reconstituir. Nem vale a pena tentar.

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Digo só o seguinte: há pouco comentei o último filme de Roman Polanski, localmente exibido. Pois, de alguma maneira, este “Um amor em cada esquina” é um “A pele de Vênus” em tom cômico. Sabe como é: marido dramaturgo dirigindo esposa no palco, etc e tal…

Fazendo um resumo da ópera: um filme para cinéfilo ver, que, aliás, não atrai muito, se não for pelo viés da remissão ao passado clássico. Fora dessa remissão, é quase que só uma chanchada hollywoodiana, uma a mais, perfeitamente esquecível.

Nada do frescor artístico que um dia constatamos, encantados, no Bogdanovich iniciante de, por exemplo, “A última sessão de cinema” (1071) e “Lua de papel” (1973).

Em tempo: o nome que dei a esta matéria é cópia aproximada do título provisório com que o filme de Bogdanovich foi rodado: “Squirrels to nuts” (/esquilos para nozes/ ou, com o trocadilho só possível em inglês /esquilos para malucos/).

Peter Bogdanovich e o ator Owen Wilson

Peter Bogdanovich e o ator Owen Wilson

Harry e Sally

8 nov

Quem é que não gosta de uma boa comédia romântica? Uma das minhas preferidas é “Harry e Sally – feitos um para o outro”, que revi há pouco, com um grupo de amigos cinéfilos. Foi bolada no final dos anos oitenta, a quatro mãos, masculinas e femininas (Rob Reiner dirige e Nora Ephron roteiriza), e tem a vantagem de resumir o gênero. E o faz muito, muito bem!

O velho argumento vem das muitas estórias de amor dos tempos clássicos, que é o seguinte: entre atropelos mil, rapaz e moça que se detestam terminam se apaixonando. A lista não caberia aqui, caso fosse citar todos os filmes com este argumento, e, por isso, me limito a mencionar apenas dois, emblemáticos: “Aconteceu naquela noite” (Frank Capra, 1934) e “Confidências à meia noite” (Michael Gordon, 1959).

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Para começo de conversa, o primeiro mérito de “Harry e Sally” é assumir a previsibilidade do argumento e segurar a barra até o fim. ´Quando Harry conhece Sally´ (título original do filme!), numa carona acidental, nós já sabemos o que vai acontecer: são antagonistas, e, portanto, vão brigar e, no final, ficar juntos. O ´ficar juntos´ está na própria rima vocálica de seus nomes, como também, claro, no elenco: afinal, quem está dando a carona forçada é Meg Ryan e quem a está recebendo de má vontade é Billy Chrystal.

Na conversa durante a longa e desagradável viagem de Chicago a Nova Iorque, a discordância sobre o final de “Casablanca” tem duas funções: reforçar o gênero assumido e indicar o antagonismo do casal. Ela acha que foi bom para Ilsa ir embora com Lazslo e – quem sabe? – vir a ser a primeira dama da Chekoslováquia; ao passo que ele acha que valeria a pena, sim, ter ficado em Casablanca como companheira de um beberrão dono de cassino, se o cara é Humphrey Bogart.

Um ótimo reforço, tanto ao gênero como ao argumento, está na trilha musical. Aquela canção sobre as duas formas de pronunciar “tomato” e “potato” (“Let´s call the whole thing off”) é um exemplo que vem ao caso, como também, mais tarde, o karaokê com “The surrey with the fringe on top”, a canção inicial do musical “Oklahoma” (Fred Zinnemann, 1955), filme que contava, justamente, os atropelos de antagonistas que se apaixonam. E só estou mencionando duas canções, quando a trilha toda é enorme.

Billy Chrytal e Meg Ryan como Harry e Sally

Billy Chrytal e Meg Ryan como Harry e Sally

É um filme sobre as diferenças entre ser homem (sexo?) e ser mulher (amor?), de modo que podemos afirmar que o problema de Harry é Sally, e o de Sally é Harry, mas, claro, também é viável dizer que o problema de Harry é Harry, e o de Sally é Sally. O nível de complicação da relação está ilustrado na noite em que os dois vão, meio acidentalmente, para cama: no dia seguinte, ela acha que ele vai achar que foi um erro, e decide dizer que foi, e ao dizer, ele, mais confuso que convicto, confirma.

Na construção dos personagens, há, sim, um pequeno detalhe, que pode ser atribuído talvez à presença da roteirista Ephron: olhando de perto, dá para perceber que Sally é uma personagem mais ou menos retilínea, igual a si mesma do começo ao fim; ao passo que Harry passa – nos quinze anos da estória narrada pelo filme – por uma transformação. No final, ele cresce e chega ao nível que a companheira parecia ter desde sempre. Ponto para as mulheres!

Um orgasmo simulado em pleno restaurante.

Um orgasmo simulado em pleno restaurante.

Imagino que um dos problemas dos autores de “Harry e Sally” foi Woody Allen. Como, em 1989, narrar uma estória de crise amorosa sem referência a um cineasta que teve tanto sucesso com o tema, e que, aparentemente, não bebeu tanto da fonte clássica, e muito mais do cinema europeu? Pois é, o intertexto alleniano está lá, sem problemas. Um deles é o tom documental que o filme propõe, com aqueles inúmeros parênteses na narração em que um casal, sempre idoso, conta para a câmera, como foi que se conheceram. Outro é a forma de aumentar a depressão dos protagonistas, fazendo com que tudo dê certo em torno deles, menos eles mesmos. Por exemplo, os dois amigos do casal (o escritor, amigo dele, e a moça, amiga dela) se juntam e casam; sem falar nos dois casuais e penosos reencontros com os respectivos ex-companheiros, estes muito bem resolvidos em seus novos relacionamentos.

Previsivelmente, como dito, o filme termina em happy end, mas, ao “eu te amo” das comédias de amor de antigamente, dito por Harry, segue-se uma longa e adversativa lista dos defeitos de Sally.

Intertextos clássicos e/ou contemporâneos à parte, um componente essencial a “Harry e Sally” é o humor. Tão essencial que às vezes não se importa de quebrar o código do realismo preponderante, caso – hoje clássico – daquela cena em que Sally, em implausível crise de despudor, simula um orgasmo no restaurante, para o constrangimento de Harry e espanto dos fregueses – depois do que uma respeitável senhora ao lado solicita ao garçom que lhe traga “o mesmo que aquela moça comeu”.

Enfim, uma das melhores comédias românticas do século XX – acho que posso dizer isto sem medo de errar.

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