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Divinas divas e o Fest Aruanda

17 dez

De 8 a 14 deste mês tivemos, em João Pessoa, a décima primeira versão do Fest Aruanda, festival de cinema e vídeo que divulga e celebra a atividade cinematográfica, local e nacional.

Com longas, médias e curtas, documentais e/ou ficcionais, concorrendo em mostras competitivas, ou não, a programação do festival foi, como sempre, extensa, e aqui não cabe repassá-la.

Registro apenas as homenagens, duas delas póstumas: a Péricles Leal e ao recém falecido cineasta Manfredo Caldas. Sobre aquele primeiro, foi reprisado o documentário de João de Lima “Péricles Leal – o criador esquecido”, e mais que isso: o personagem de gibi Falcão Negro, criação de Péricles, foi adotado como a logomarca desta edição do festival. Daquele segundo foi reapresentado o longa “Romance do vaqueiro voador”.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest Aruanda.

Lúcio Vilar, o coordenador do Fest Aruanda.

Já o mais que vivo Wills Leal recebeu o Troféu Aruanda e a Comenda da Academia Paraibana de Cinema, pela compleição de seus bem curtidos oitenta anos de idade. Além disso, foi exibido o filme “Wills Leal, mais que oitenta – La dolce vita” homenagem especial e afetiva do cineasta Mirabeau Dias.

Debates, workshops e lançamentos de livros completaram o programa desse festival que já se impôs como o grande evento cinematográfico do Estado.

A versão deste ano teve dois aditivos oportunos: o completo ineditismo dos filmes a serem exibidos nas Mostras competitivas, e mesmo daqueles exibidos fora da Mostra, no caso o da abertura “Axé – canto do povo de um lugar” e o do fechamento do festival “Pitanga”. O segundo aditivo foi a introdução de uma interessante rubrica, de nome ´Sob o céu nordestino´, exclusiva para a exibição alternativa de produções realizadas nesta ou sobre esta região do país. Um dos filmes mostrado dentro desta rubrica foi “Cícero Dias – o compadre de Picasso”, documentário do cineasta paraibano Vladimir Carvalho.

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Meu modesto contributo foi estar entre os co-autores do livro “100 melhores filmes brasileiros (Letramento, 2016), livro organizado pela ABRACCINE (Associação brasileira de críticos de cinema) que foi lançado no festival, na tarde de sábado, dia 10 deste mês.

Não tive a oportunidade de assistir a todos os filmes exibidos no Fest Aruanda, mas, na Mostra Competitiva de Longas, um que me chamou a atenção foi esse “Divinas Divas” (2016) da estreante diretora Leandra Leal.

Com leveza, simplicidade, descontração e bom humor, o filme (re)agrupa oito artistas que fizeram estrondosos sucessos nos palcos do Rio de Janeiro dos anos sessenta e setenta, cada um a seu modo, mas todos quebrando tabus e driblando a rigorosa censura da ditadura militar. Hoje idosos, os travestis Rogéria, Jane di Castro, Valéria, Fujica de Holliday, Camille K, Eloína, Brigitte de Búzios e Marquesa nos contam suas histórias pessoais, relatando, sem papas na língua, seus casos privados, seus episódios mais pitorescos, mas, sobretudo, a difícil luta para a afirmação profissional.

Ao roteiro foi dada uma estrutura bem definida, com prólogo e epílogo formalmente estabelecidos: a narração propriamente dita decorre no entremeio destes dois momentos, e nela acompanhamos os ensaios para um show que o grupo todo fará no desenlace. Ao longo desse processo preparatório, intercalam-se os depoimentos dos artistas, sempre somados a uma performance individual de cada um dos depoentes.

As protagonistas de "Divinas Divas".

As protagonistas de “Divinas Divas”.

Só no fechamento – ou seja, no epílogo – o grupo atuará junto, no palco, em grande estilo, cantando e dançando a marchinha carnavalesta de Braguinha e Alberto Ribeiro “Yes nós temos banana”, com plumas e paetês, comme il faut. O contraponto desse grand finale já estava na abertura do filme – o prólogo -, quando, ao som da voz potente de Nelson Gonçalves, ouvimos a canção “Escultura” de Adelino Moreira, ao mesmo tempo em que vemos – por sobreimpressão de imagem – cada rosto masculino de cada artista transformar-se aos poucos no seu respectivo personagem feminino.

Originária de família desde sempre ligada ao mundo do show business (o seu avô, Américo Leal foi o criador e dono do teatro Rival), a atriz e diretora Leandra Leal teve lá suas razões sentimentais para conceber e realizar um filme desses, porém, isto, para o espectador não importa. Importa o resultado, que está aí e que é bom.

Descontraído como os seus personagens, mas ao mesmo tempo, intenso, o filme de Leandra Leal arrebatou o público presente na Sala 6 do Cinépolis, e recebeu aplausos calorosos que, visivelmente, não eram aqueles apenas formais, que são praxe em todo festival de cinema.

E para fechar, parabéns mais uma vez ao coordenador do Fest Aruanda, o incansável batalhador Lúcio Vilar, por mais esta.

A atriz e diretora Leandra Leal.

A atriz e diretora Leandra Leal.

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Interlocutor acidental

7 out

Meu interlocutor é jovem. Tem cerca de vinte anos, o segundo grau completo, mas não está em universidade: ajuda o pai em atividade comercial.

Nosso contato é acidental. Estamos numa festa de aniversário familiar; ele, parente dos anfitriões, eu, amigo da casa. Por acaso, sentamos lado a lado, e a conversa decorreu dessa proximidade física. Havendo escutado de alguém que sou crítico de cinema, me pergunta pelos filmes em cartaz. Recomendo “Aquarius”, e ele faz cara de que não sabe que filme é esse, e lhe passo as informações básicas. Penso em recomendar “Café Society”, mas, indeciso sobre o seu gosto, desisto.

Ele continua no tópico do cinema, não porque, creio eu, esteja particularmente interessado, mas, porque quer ser sociável, sustentar um papo. Acho que há também a curiosidade de saber o que pensa um crítico de cinema, figura estranha que ele jamais pensou em vir a conhecer.

Cena de "Dilema de uma consciência", cujo resumo menciono adiante...

Cena de “Dilema de uma consciência”, cujo resumo menciono adiante…

Meu jovem interlocutor é sociável, mas – ainda bem – não é falso. Não tem receio em dizer que não gosta de filme velho. Preto-e-branco, nem pensar, diz ele rindo. Rio junto com ele, pois os dois sabemos – ou calculamos – que os nossos gostos diferem, não tanto pela formação cultural, mas pelo abismo etário. Mais ou menos implícita fica a ideia de que jovem gosta de filme novo, e velho gosta de filme velho.

Estrategicamente estabelecido esse limite geracional, passamos aos gêneros, e isto por iniciativa dele, que me pergunta de que tipo de filme gosto; se há um gênero que prefiro, etc. Respondo que gosto de filme bom, e ele responde que todo mundo gosta de filme bom, e, mais uma vez, rimos, tomando consciência de que voltamos ao impasse de antes: o que é bom para a minha geração, não é bom para a geração dele.

Aí ele arrisca seus gostos. Terror, muito terror, e filme de ação. Não suporta romances, estorinhas de amor, embora ainda admita uma comédia romântica, se for bem feita. Indago o que quer dizer com ´bem feita´, e ele: Se é uma comédia, tem que fazer rir, não é?

"Acorrentados", com Tony Curtis e Sidney Poiter, outro filme mencionado...

“Acorrentados”, com Tony Curtis e Sidney Poiter, outro filme mencionado…

Como privilegiou a ação, aproveito o embalo e lhe jogo na cara um começo de enredo de ´um filme velho´, com muita ação, para ver se o pego. E vou contando:

Num acidente de caminhão com prisioneiros, dois presos escapam e fogem juntos, com dois agravantes: estão acorrentados um ao pulso do outro, e, pior, um é branco e o outro, negro, isto nos Estados Unidos racistas dos anos cinquenta.

Muito atento, ele concorda comigo em que, com um começo de filme desses, você fica preso à tela e não dá para largar e ir fazer outra coisa. Concorda também que só pode ser um filme muito bom. E lhe digo que é de 1958, e ele se admira. Preto-e-branco? pergunta. Sim, respondo: e rimos mais uma vez.

Por causa do tema, o assunto desliza para filmes atuais sobre o racismo e ele menciona “12 anos de escravidão”. Comentamos o filme, e aproveito para fazer outro resumo de começo de filme preto-e-branco, com o tema do racismo. Conto:

A essa cidadezinha do Sul americano, chega essa moça de Nova Iorque, que vem de ônibus, para visitar uma irmã que não via havia cinco anos. É tarde da noite e, no caminho da casa, ela presencia, às escondidas, um crime do Ku-klux-klan, e vê o rosto do assassino. Ao chegar à casa da irmã, conta o caso, apavorada. Logo depois, chega o marido da irmã, que ela, horrorizada, constata ser o autor do crime. E aí, pergunto eu, me pondo no lugar da personagem: o que fazer, prejudicar a irmã querida ou deixar um assassino à solta?

"Rashomon", 1951, do japonês Akira Kurosawa.

“Rashomon”, 1951, do japonês Akira Kurosawa.

Sem nada dizer, só com expressões faciais, ele demonstra que está entendendo o que estou querendo argumentar: que, nos velhos tempos, se faziam filmes incríveis, que poderiam muito bem ser vistos hoje em dia por qualquer jovem da idade dele, ou mais jovem. Vou parar por aqui – digo, brincando – ou termino convencendo você de que os “filmes velhos” são melhores que os de hoje. E rimos da brincadeira. O problema é o preto-e-branco, diz ele… E mais risadas.

É quando lembra que viu uma vez um filme velho, preto-e-branco, mostrado por um de seus professores, na escola. Era um filme indiano, muito bom – me diz – sobre um estupro com morte, a estória sendo contada por quatro pessoas em versões diferentes. “Rashomon”? pergunto. Sim, isso mesmo. E eu corrijo: não é indiano; é japonês. Ele concorda, e acrescento: o filme é de 1951! E ele faz um meneio de cabeça, admirado.

No meio do papo, alguém vem avisar que estava na hora de cantar parabéns para o anfitrião e partir o bolo.

Saí da casa de meus amigos, pensando se não teria o meu acidental interlocutor um gosto diferente, mais aberto, se seu meio ambiente, familiar, social, tivesse sido outro. Inteligência não lhe falta. Saí pensando se porventura não haveria uma possibilidade de crescimento cultural, artístico, para o meu jovem interlocutor, e por tabela, para toda uma juventude atual que repudia o que nem sequer conhece.

Poitier e Curtis, dois presos unidos num filme preto-e-branco.

Poitier e Curtis, dois presos unidos num filme preto-e-branco.

Chocolate

17 jun

 

Mais uma vez o público pessoense tem a oportunidade de assistir ao Festival Varilux de Cinema Francês, com a exibição alternada, nos cinemas do Mag Shopping, de 16 produções de boa qualidade.

A abertura do Festival deu-se com a pré-estreia de “Chocolate” (2016), excelente realização do cineasta Roschdy Zem, sobre o primeiro palhaço negro na França.

Na verdade, estamos na França da Belle Époque, onde e quando tudo tinha aparência de festa. As feiras livres e os circos eram as grandes diversões populares; o cinema estava nascendo e o teatro era coisa de gente abastada e culta.

Chocolat_Omar Sy

É nesse contexto que surge Chocolate, que vinha de um circo do Interior onde fazia o papel de um canibal assustador, e foi resgatado pelo palhaço Footit, com quem passou a fazer dupla, de tanto sucesso que não demorou para serem, os dois, contratados pela maior Companhia circense de Paris.

Um negro fazendo sucesso na Paris do início do Século Vinte? É claro que isso vai ter um preço a ser pago, e é esse preço o que, com talento e aisance, nos mostra o filme de Zem.

A prisão de Chocolate em pleno sucesso, denunciado por desafetos como imigrante sem documentos, é um turning point importante na estória, porém, antes disso, o drama já se configurava.

Esse drama já estava nas próprias performances da dupla Chocolate/Footit, sempre com vantagens óbvias para este segundo, Chocolate sempre na condição inferior de ´escada´; em outros termos, na condição de negro que faz o público branco rir de sua suposta burrice e ignorância. Com o tempo, o palhaço negro começa a se sentir injustiçado, o que é reforçado pelos conselhos politizados de um seu ex-companheiro de cela, e claro, pelas suas lembranças de semi-escravo na sua África de origem, quando via o pai, empregado de mansão rica, ser humilhado pelos residentes brancos.

Chocotat e Footit, no picadeiro.

Chocotat e Footit, no picadeiro.

Para o protagonista e para nós, uma cena perturbadora é aquela da visita à Exposição Colonial, em que o famoso Chocolate, muito bem vestido e acompanhado de sua namorada branca, depara-se com a representação dos territórios franceses em solo africano e  é violentamente admoestado por um conterrâneo, em língua nativa, que não entendemos, mas, dos gestos e do olhar, deduzimos o seu grau de acusação agressiva.

Complexo de inferioridade, insegurança, revolta, dilema interior, crise existencial e ideológica, alcoolismo, jogo de azar, empréstimos a agiotas, etc, vão minando o equilíbrio de Chocolate, até a completa decadência, física e moral.

Seu sonho de superar-se e tornar-se um grande artista no palco desmorona quando, tendo sido aceito para fazer o “Otelo” de Shakespeare, decide abandonar o picadeiro, e é, apesar do bom desempenho, estrondosamente vaiado no palco pela intelligentsia parisiense.

O ator Omar Sy, de Chocolat a Otelo...

O ator Omar Sy, de Chocolat a Otelo…

O filme se prende aos fatos reais, e nisso a recriação da época é perfeita. Por exemplo, sua última imagem é a de um filmezinho rodado pelos irmãos Lumière, mostrando as peripécias da dupla Chocolate e Footit, os verdadeiros. Pois antes disso, essas filmagens foram reconstituídas, e o espectador pôde assistir ao momento em que os Lumière as produziram, com o seu precário e barulhento cinematógrafo. Para quem não lembra os irmãos Lumière são os inventores do cinema.

Acho que posso dizer que, até a primeira metade, o filme não parece prometer tanto, porém, cresce consideravelmente quando a situação do protagonista vai mudando, de vedete ascendente para uma figura malsinada, condenada pelas circunstâncias à tragédia, assim como o Otelo que, no final interpreta.

Num filme em que a pantomima tem tanta importância, e mais que isso, é decisiva, um ponto alto é, com certeza, o elenco. Chocolate é muito bem feito pelo ator negro Omar Sy, sim, aquele mesmo que sempre tem aberto o Festival Varilux em João Pessoa, primeiro – vocês lembram – como o enfermeiro improvisado de “Intocáveis” e depois como imigrante de “Samba”.

Os reais Chocolat e Footit, filmados pelos irmãos Lumière.

Os reais Chocolat e Footit, filmados pelos irmãos Lumière.

Já o seu parceiro Footit é interpretado pelo grande ator James Thierrée, aliás, neto de Charles Chaplin, e incrivelmente parecido com o avô, sobretudo o Chaplin mais maduro de “Mr Verdoux” e “Luzes da ribalta”.

Enfim, “Chocolate” é um bom exemplo de qualidade do cinema francês atual, infelizmente tão mal conhecido do público brasileiro. Nesse sentido, o Festival Varilux é, como já disse, uma chance rara, que só nos resta aproveitar. O Festival acontece, simultaneamente, em 52 cidade brasileiras, e João Pessoa tem a sorte de ser uma delas. Vamos lá, dar uma espiada, pois a programação se estende até o dia 22 deste mês.

E não esquecer: sábado, dia 18, às 18:45 horas, o clássico de Claude Lelouch “Um homem e uma mulher” (“Um homme et une femme”, 1966), para reviver os anos sessenta…

The gracious little daughter is back

10 set

Em cartaz “Que horas ela volta?” (2015), filme da diretora brasileira Anna Muylaert que já arrebanhou prêmios no Exterior, e agora vem tendo boa aceitação de público e crítica em território nacional. De minha parte, sou admirador de Muylaert desde o ótimo “Durval discos” (2002) e este seu filme atual só aumentou a minha admiração.

Em roteiro caprichado, trata da situação de Val, essa simplória empregada doméstica de origem nordestina que mora na residência dos patrões paulistanos, no chique Morumbi. Há 13 anos no emprego, Val é “uma pessoa da casa” que ajudou a criar o único filho da família, Fabinho, por quem nutre um carinho de mãe, e é plenamente correspondida.

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Conflitos de classe não os há, ou se há, nunca vieram à tona. Isto até o dia em que aparece Jéssica, a filha de Val, que crescera em Pernambuco, criada por parentes. Moça instruída e esclarecida, vem a São Paulo para prestar vestibular e – a contragosto – fica no local de trabalho da mãe. Inevitavelmente, a sua presença “diferente” (palavra da mãe) acorda todos os conflitos de classe, antes convenientemente adormecidos em berço de ouro.

Tudo já começa no dia de sua chegada, quando ao invés de acomodar-se no pequeno e desumano quartinho de empregada, ela se instala no quarto de hóspedes da casa. Depois vêm o acesso à mesa da família, o consumo do sorvete mais caro, o banho proibido na piscina, e um monte de outros pequenos detalhes que insuflam indignações: as da dona da casa, e as da própria Jéssica. Até a inevitável ruptura.

Um ponto crítico está bem sinalizado no dia em que, não conseguindo o apartamento onde pretendiam morar, mãe e filha retornam, desoladas, à chique residência dos patrões. “The gracious little daughter is back”: é com esta sarcástica frase em inglês (´a graciosa filhinha está de volta´) que, na presença de Val, Bárbara comunica ao marido o retorno da moça. Val não entende inglês, mas deve ter sentido que falar língua estrangeira na presença de quem não entende é uma atitude deliberadamente hostil.

A piscina proibida

A piscina proibida

Mas os conflitos de ordem social não são os únicos no filme de Muylaert. Também há os conflitos interiores, especialmente aquele relativo às relações maternas e filiais, expresso na pergunta que intitula o filme. Vejam que há dois momentos bem diferentes em que a tal pergunta é enunciada no diálogo entre os personagens e sempre sem resposta. Uma sequência inicial, retrospectiva, mostra Val cuidando de Fabinho, ainda pequeno, lhe dizendo que a mãe está fora, e ele, então, formula justamente a pergunta “Que horas ela volta?”. Depois disso, quase no final do filme, quando mãe e filha já estão acomodadas em seu novo e próprio lar, um modesto apartamento de periferia, uma Jéssica rancorosa relata à mãe que toda vez em que esta ia visitá-la em Recife, e imediatamente retornava a São Paulo, ela, pequena e chorosa, perguntava aos que dela cuidavam: “Que horas ela volta?”. São, portanto, duas mães que, por razões pessoais, deixaram os filhos a mercê de outrem: Bárbara, a rica patroa, e Val, a pobre empregada.

Tudo indica que a estória do abandono filial se repetiria pós-tela, com a própria Jéssica que – nós e Val ficamos sabendo no final do filme – deixara um filho pequeno em Pernambuco. Digo, se repetiria, porque o filme termina com a decisão heróica de Val de criar o neto – uma espécie de compensação pelo involuntário e doído “abandono” da filha.

A família paulistana à mesa.

A família paulistana à mesa.

De qualquer forma, não há dúvidas de que Val, a empregada doméstica, é o personagem central do filme, aliás, a única que cresce ao longo da estória. Bárbara, a patroa, permanece igual a si mesma do início ao fim, e Jéssica, idem. É Val quem aprende a lição que o filme contém: é ela quem, no final, pode se dizer revolucionariamente, mete os pés na piscina proibida, e é ela quem furta o conjunto de talheres com que um dia presenteara a patroa irreconhecida. Se porventura era a sua postura sempre indistinta entre cumprimento de dever e submissão o que fazia os melhores efeitos cômicos do filme (excelente interpretação de Regina Casé), é o seu definitivo crescimento moral que vai dar ao desenlace o tom mais dramático, expresso em sua auto-demissão.

Na verdade, o filme de Muylaert é rico e permite muitas leituras. Uma delas pode ser política, se você quiser. E há pistas muito claras para isto. Por exemplo: logo após a chegada de Jéssica à mansão do Morumbi, D. Bárbara, um pouco admirada com o nível de esclarecimento da filha da empregada nordestina (que mais tarde seria aprovada no vestibular, e seu filho paulistano, não) comenta, quase de si pra si: “é, parece que o país está mudando mesmo…”.

Deixo aos mais aptos que eu o desenvolvimento desta leitura.

Regina Casé em desempenho premiado. (Sundance Film Festival).

Regina Casé em desempenho premiado. (Sundance Film Festival).

Cantinflas

15 fev

O cinema mexicano é conhecido, no resto do mundo, pelos seus lacrimosos melodramas, mas isso é mais clichê que verdade, pois houve lá outras coisas: Cantinflas, por exemplo.

Para quem nunca ouviu falar do comediante mexicano, ou – mais ainda – para quem o curtiu nos anos cinquenta, está agora disponível o filme que conta a sua vida e o seu trabalho nas telas.

Quase tão divertido quanto o próprio biografado, o filme do também mexicano Sebastian Del Amo se chama “Cantinflas” (2014), papel-título desempenhado com extrema correção pelo ator espanhol Oscar Jaeneda, de aparência física impressionantemente semelhante a do protagonista.

Cartaz do filme, onde se vê o ator Oscar Jaeneda

Cartaz do filme, onde se vê o ator Oscar Jaeneda

A rigor, o filme narra duas estórias em dois tempos, sempre intercalados em rápidas sequências. Ora se vê a estória da atropelada carreira de Cantinflas, que vai de boxeador a artista de circo mambembe, passando por toureiro desastrado e outras trapalhadas; ora é a estória da produção do mega sucesso “A Volta ao Mundo em Oitenta dias” (“Around the world in eighty days”, 1956), quase tão atropelada quanto a vida de Cantinflas, filme em que ele faz a sua primeira – e quase única – atuação hollywoodiana.

Só no desenlace é que as duas estórias convergem, quando, já famoso no México, Cantinflas – depois de várias recusas peremptórias – aceita fazer o papel de Passepartout nessa adaptação de Júlio Verne.

Se Cantinflas protagoniza a primeira estória, a segunda é protagonizada pelo produtor americano Michael Todd (o ator Michael Imperioli) que, sem grandes suportes financeiros, ambiciona rodar o filme com um número extravagante de astros e estrelas de Hollywood, no nível de Elizabeth Taylor e Frank Sinatra, nomes que supostamente aceitariam atuar de graça nessa superprodução da United Artists.

Mario Moreno Cantinflas, o próprio.

Mario Moreno Cantinflas, o próprio.

Nem toda celebridade topa a empreitada e, Cantinflas, já famoso em seu país, muito menos. Não fica muito claro o que o faz mudar de idéia, mas de última hora, muda. E vai ser – vocês lembram? – o fiel escudeiro de Mr Philias Fogg (David Niven) na viagem que vai cobrir a superfície inteira do planeta, no prazo estabelecido pela aposta dos aristocratas britânicos, ou seja, dentro do número de dias que está no título.

É possível que o espectador sinta falta de mais informação sobre os bastidores de “A volta”, afinal, um filme que levou cinco Oscars. De suas filmagens, poucas cenas são mostradas e, da equipe, quase ninguém, salvo o produtor Todd, aparece. Por exemplo: fica de fora o músico Victor Young que compôs a bela trilha sonora, e até o diretor Michael Anderson ninguém avista.

A justificativa deve ser a de que o que interessaria no filme em questão – como mantém o seu título – é a figura de Cantinflas. Daí, as muitas reconstituições das filmagens de suas comédias mexicanas, algumas das quais são: “O grande fotógrafo” (1953), “Cavalheiro sob medida” (1954), “Abaixe o pano” (1955). “O engraxate” (1957), “Sobe e desce” (1959), “O analfabeto” (1961), etc. Sem falar na incursão em sua vida amorosa e seu casamento, de altos e baixos, com a dançarina russa Valentina.

Para coroas como eu, esse filme sobre a carreira e a vida de Cantinflas é um banho de saudosismo. De minha parte, me remete a sessões no Cinema Sto Antônio, em Jaguaribe, onde, na infância, não perdia as películas desse comediante, tão popular na época ao ponto de formar filas nas calçadas dos cinemas.

Cantinflas e David Niven em "A volta ao mundo em 80 dias".

Cantinflas e David Niven em “A volta ao mundo em 80 dias”.

Por outro lado, devo dizer que via os filmes de Cantinflas, mas não posso afirmar que os amasse. No meu espírito de criança, ficava, na maior parte das vezes, constrangido com as mancadas absurdas do protagonista, e este, em muitas ocasiões da estória, me parecia, não apenas ingênuo, mas meio débil mental. Com freqüência, seus “erros” crassos me deixavam incomodamente envergonhado, como se esses erros não estivessem previstos no roteiro do filme.

Assistindo a “Cantinflas” agora entendo por que tinha essa sensação. É que, em suas comédias mexicanas, o ator improvisava adoidado, ao ponto de, arrogantemente, chegar a expulsar diretores que não aceitavam suas improvisações.

De forma que o que mais me admirou no filme de Del Amo foi saber que Charles Chaplin era um admirador de Cantinflas e que lhe enviou uma importante mensagem declarando essa admiração. Digo que me admiro, não por questões de nível qualitativo, mas por se tratar de dois comediantes completamente antagônicos: como se sabe muito bem, o humor de Chaplin era estudado, calculado, quase cerebral, e por isso mesmo fazia efeito, ao passo que o de Cantinflas era solto, espontâneo e descuidado. Enfim…

Cantinflas, aqui visto com a sua compatriota Frida Kahlo

Cantinflas, aqui visto com a sua compatriota Frida Kahlo

 

 

Elsa e Fred

13 dez

Por alguma razão estranha, Hollywood nunca foi lá muito boa em homenagear o cinema, digo, em lhe declarar o seu amor. Nota-se isso claramente na acareação com outras cinematografias do mundo.

Por exemplo, a Meca do cinema nunca fez nada com a dimensão emotiva e poética de “Cinema Paradiso” (Itália, 1989), “Splendor” (Itália, 1989) ou “A noite americana” (França, 1973).

Os grandes filmes hollywoodianos sobre cinema, como “Crepúsculo dos deuses” (1950), “Cantando na chuva” (1952), e “Assim estava escrito” (1952) são obras primas, porém, não eram propriamente declarações de amor à sétima arte, a qual só neles aparecia como pano de fundo de dramas ou de comédia.

A exceção a essa regra – já que toda regra tem exceções – veio da Costa Leste, e não de Hollywood: “A rosa púrpura do Cairo” (Woody Allen, 1985).

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As tentativas hollywoodianas de tratar do amor ao cinema que me ocorrem, se comparadas aos filmes estrangeiros acima citados, não chegam aos seus joelhos. Para confirmar, vejam os casos de “No mundo do cinema” (1976) de Peter Bogdanovich e “Cine Majestic” (2001) de Frank Darabond.

Este “Elsa e Fred” (Michael Radford, 2014), que está em cartaz, bem que poderia ter sido uma bela homenagem à sétima arte, mas não é. Nem quis ser, aliás. De novo, o cinema nele é só o pano de fundo para uma outra coisa, no caso, uma estória de amor entre dois idosos, e não é o cinema como um todo: é só um filme, no caso, o famoso “A doce vida” (1960) de Federico Fellini. Notem que inexistem referências a outras películas, de forma a que se pudesse pensar em cinefilia.

Além do mais, nem no plano emotivo o filme convence, sendo apenas uma estória previsível em dois sentidos: o enredo o é, e os recursos expressivos para veicular esse enredo o são. Começa o filme, e o espectador já sabe no que ele vai dar, o que fica, a cada cena e a cada sequência, reforçado pela quase nenhuma inspiração do diretor, com seu apelo ao convencional, já visto em centenas de filmes sobre estórias de amor, entre idosos ou entre jovens, tanto faz.

Shirley McLaine no papel de Elsa.

Shirley McLaine no papel de Elsa.

Quando Elsa bate no carro e dribla o neto dos vizinhos novatos no seu prédio é porque vai conhecer o avô do garoto; quando Fred diz a Elsa que detesta parques, já sabemos que iremos vê-lo, mais tarde, passeando no parque, com ela; quando a filha de Fred lhe pede dinheiro emprestado para os negócios do marido, deduzimos que esse dinheiro vai terminar nas águas da Fontana di Trevi, em Roma, etc, etc, etc…  São regras de um tipo de comédia romântica que remonta aos anos trinta e que podem ser resumidas no chavão: /a rivalidade conduz ao amor/.

E vejam que o enredo é interessante, aliás, muito interessante.

Na estória Elsa, essa senhora idosa, mas ativa e cheia de vitalidade e bom humor, é fã do filme de Fellini, e não só isso: sonha um dia viver um grande amor e repetir a famosa cena da Fontana di Trevi, ela no lugar de Anita Ekberg e o seu amado no de Marcelo Mastroiani, e isso sem faltar o banho nas águas da fonte, com direito ao gatinho e ao copo de leite.

A possibilidade de Elsa realizar o seu sonho romântico aparece no momento em que muda-se para o apartamento vizinho ao seu esse senhor idoso, viúvo, e portanto, disponível. O viúvo é mal humorado e não tem, nem de longe, a vitalidade de Elsa, mas, em tudo se dá um jeito.

Christopher Plummer é o idoso Fred.

Christopher Plummer é o idoso Fred.

Com a ajuda do filme, Elsa dá um jeito, sim, e a Fontana di Trevi acontecerá. Mesmo que, na hora h, o gatinho não tenha sido da mesma cor, e o leite tenha sido apenas um copo de iogurte, encontrado de última hora.

Inevitavelmente, o filme tem uma pitada de humor de “Ensina-me a viver” (“Harold and Maude”, 1971, de Hal Ashby), misturada com um pouquinho do sentimentalismo de “Love Story” (1970), mas isso é tudo.

Nos papéis título estão dois nomes de peso que devem arrastar espectadores ao cinema (eu fui por causa deles!), Shirley MacLaine e Christopher Plummer, mas isso é tudo.

Porém, o mais drástico sobre “Elsa e Fred” ainda não foi dito: o filme é um remake de uma produção homônima argentina com muito mais qualidade do que ele. Confira, se puder, “Elsa y Fred” (Marcos Carnevale, 2005), um filme empolgante, completamente disponível no Youtube.

Enfim, um remake aquém do filme original, e feito apenas nove anos depois dele: só mais uma prova de que a Hollywood de hoje em dia vive em desastrosa crise de inspiração. Ou estou enganado?

A cena Fontana di Trevi no filme de Fellini.

A cena Fontana di Trevi no filme de Fellini.

O Cassavetes de nossos dias

16 maio

Por que fui ver “Mulheres ao ataque” (“The other woman”, 2014), filme em cartaz na cidade? Acho que foi por teimosia.

Explico-me. O diretor é Nick Cassavetes, filho de um cineasta que muito admiro, John Cassavetes (1929-1989), o mentor do que um dia foi o “cinema independente americano”, aquele movimento novaiorquino que, nos anos sessenta, deu aos Estados Unidos o seu equivalente às vanguardas que então eclodiam em outros países, como a Nouvelle Vague francesa e o Free Cinema inglês.

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Eram filmes produzidos fora dos estúdios, no caso de John Cassavetes, feitos com um encantador tom autoral, quase invariavelmente estórias de casais em crise amorosa, sempre com a musa do diretor, sua esposa Gena Rowlands. Sem fôlego comercial, muitos desses filmes, como A canção da esperança (1961), Minha esperança é você (1963), ou Faces (1968), não frequentaram o circuitão e, no geral, são pouco conhecidos do grande público. Mas todos grandes filmes.

Só que eu já sabia – e nisso reside a minha teimosia – que nem sempre filho de peixe é peixinho, pois, dez anos atrás, eu havia visto o Nick em seu início de carreira, com o seu terceiro filme “Diário de uma paixão” (“The notebook”, 2004). Vira, não gostara e escrevera sobre, dizendo que não gostara e por quê. Era um filme com bons ingredientes (inclusive, com a ainda bela e talentosa Gena Rowlands, mãe de Nick), mas, uma estória melodramática pouco plausível, e não muito hábil no gesto de envolver o espectador.

Agora, com este “Mulheres ao ataque” a decepção de dez anos atrás é dez vezes maior. Não há dúvida de que “o Cassavetes de nossos dias” debandou para o besteirol, sem se incomodar de fazer uma comediazinha idiota, como as que comete em série a Hollywood eletrônica dos tempos atuais.

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Um parêntese literário: em poema conhecido, “Dis aliter visum”, o poeta inglês Robert Browning reclamava da burrice da sua época, a paradona e pouco fértil Era Vitoriana, diminuindo pejorativamente o poeta contemporâneo seu com o subtítulo maldoso: “o Byron de nossos dias”. Desculpem-me, mas é neste mesmo sentido que sublinho a expressão acima, “o Cassavetes de nossos dias”…

O enredo do filme até que é interessante: o tratamento dado é que não é.

Uma jovem esposa (Leslie Mann) descobre que o marido gostosão tem uma amante (Cameron Diaz) e, ao invés de procurar o cônjuge para os devidos acertos de conta, procura a amante, a qual, não sabendo que o cara era casado, sente-se tão traída quanto a esposa. Depois de muitos mal-entendidos, as duas se tornam amigas e quando estão planejando algo, descobrem, estupefatas, que na vida do cara há uma terceira mulher (Kate Upton), a qual, por sua vez, experimentando a mesma sensação de traição, termina por se juntar às outras duas e, como está no título brasileiro do filme, partem ao ataque.

Cheio de gags desnecessárias e ridículas, o filme apela para o riso fácil e, como dito, tome besteirol! Quedas de batentes, jarros quebrados, vômitos dentro de bolsas, farsas inviáveis com pernas e braços alheios, perseguições desastradas, brigas truculentas… a lista não termina mais, porém, o pior de tudo é um cachorro sabido que se faz onipresente, como um personagem incomodamente indispensável.

No cinema, ouvi pessoas rindo, divertidas com as gags e ainda quis me convencer de que estava sendo exigente demais com o filme, porém, confesso, não aguentei o desperdício de película e – coisa rara – deixei a sala de exibição antes de o filme terminar.

A atriz Cameron Diaz é uma das mulheres atacantes.

A atriz Cameron Diaz é uma das mulheres atacantes.

Saí e fui tomar uma taça de vinho lá fora, lembrando por contraste, não tanto os dramas pesados do pai de Nick, mas, por causa da temática de “Mulheres ao ataque”, as comédias de amor dos velhos tempos.

Entre um gole e outro, vieram-me à mente a elegância e o charme de filmes como “Levada da breca” (Howard Hawks, 1938), “A costela de Adão” (George Cukor, 1939), “Núpcias de escândalo” (Cukor, 1940)… – todos eles comédias repletas de situações realmente hilárias, algumas bastante surrealistas, e que, no entanto, não ofendiam a inteligência de ninguém, muito pelo contrário, a estimulavam.

Os diretores não eram filhos de gênios: eram gênios eles próprios, e – pelo menos nesses três casos que me ocorreram diante da taça de vinho – tínhamos, na cabeceira do elenco, ninguém menos que Katherine Hepburn…

Hoje quem temos? Cameron Diaz…

Saudades do nariz arrebitado de Katherine Hepburn

Saudades do nariz arrebitado de Katherine Hepburn