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A viagem de Yoani

7 maio

 

A blogueira cubana Yoani Sanchez seria uma agente da CIA a serviço do imperialismo americano… ou uma heróica batalhadora pelo direito de expressão em seu país?

Em cartaz na cidade, o documentário “A viagem de Yoani” (2014) faz a pergunta e, claro, tem o cuidado de não insinuar respostas.

Respostas, não, mas interesse pelo caso Yoani existe, sim, e muito.

Não há nenhuma dúvida de que os diretores Raphael Bottino e Peppe Sifredi se entregaram com gosto à missão de acompanhar a blogueira cubana em sua visita ao Brasil, em 2013, o mais de perto possível, desde o desembarque no aeroporto de Salvador, passando por sua hospedagem em Feira de Santana, até o desastroso confronto com imprensa e público, na sede do Jornal do Estado, em São Paulo.

4 yoanni

Eis aí um exemplo de documentário de roteiro aberto, mais que isso, escancarado, para o que der e vier. Com certeza, os seus autores não previam o tamanho do tumulto que a presença de Yoani causaria em solo brasileiro. Previam o tumulto, mas não o tamanho.

Como se sabe, há muito a jovem cubana vem escrevendo, em seu já afamado blogue “Geração Y”, crônicas e artigos desfavoráveis à situação política em Cuba, o que a tornou uma persona non grata em seu país, mas, como se vê no documentário em questão, não só em seu país…

Divulgados virtualmente, traduzidos para dezenas de idiomas, os seus textos ganharam leitores no mundo todo, em muitos casos, tomando o formato de livros. E vieram os prêmios e, consequentemente, a fama internacional.

Como os escritos de Yoani enfatizam o lado negativo do regime castrista, quase sempre passando ao largo dos positivos, os simpatizantes desse regime se vêem na urgência de denunciar a escritora como traidora. E de traidora de Cuba para agente da CIA foi um pulo…

A blogueira Yoani no Brasil

A blogueira Yoani no Brasil

O fato é que chega a ser assustador o nível de violência verbal com que Yoani é agredida na recepção paulista, ela, e os promotores de sua visita, como o deputado Eduardo Suplicy. No caminho para a entrevista coletiva ela prevê que o que vai acontecer será (sic) “intenso”. O que não prevê é que a intensidade será tal ao ponto de inviabilizar a entrevista…

Com enquadramentos precários, fotografia casual e som pouco audível, o filme mostra o confronto todo, mas não faz só isso. Junta trechos dos escritos virtuais da autora, com textos alheiros sobre ela, mais imagens virtuais e/ou televisivas em que seu caso foi tratado – os estrangeiros e os cubanos – mistura tudo, dando ao conjunto um tratamento cibernético, cheio de recursos eletrônicos sofisticados, figuras e sons virtuais em jogo, que dão ao espectador a impressão de estar, não diante da tela cinematográfica, mas de um computador.

Esse recurso de “cibernetizar” ao extremo, eu sei, combina com o meio pelo qual a protagonista se comunica com o mundo, a internet, além de compensar a ostensiva precariedade das filmagens documentais, porém, há momentos em que a velocidade dos jogos cibernéticos cansa a vista e dá vontade de… desligar o computador.

Tumulto no debate...

Tumulto no debate…

Voltando a Yoani, com ela concordando ou dela discordando, um fato que impressiona, no documentário que a seguiu fisicamente tão de perto, é a sua tranquilidade, sempre mantida, mesmo nos momentos mais “intensos”. Como naquela ocasião limite em que, indagada sobre o assunto, revela o modo como os seus textos são traduzidos por uma jornalista americana, e, irada, a platéia, aos gritos, a impede de continuar falando… e, como já dito, a coletiva, sem condição de comunicabilidade, é encerrada.

Naturalmente, o que as pessoas pensam de Yoani está relacionado ao que as pessoas pensam de Cuba, e isso que pode, eventualmente, determinar a apreciação e o julgamento do filme, em detrimento de seu valor, se tem algum, estritamente cinematográfico.

O filme se fecha com a informação de que, no recente – e tão desejado – desbloqueio americano a Cuba, Yoani teria elogiado os irmãos Castro.

De minha parte, saí do cinema pensando no que sempre pensei, mesmo antes de ter visto o filme: qual será o futuro de Cuba, esse “país-ilha” em mais de uma acepção da expressão? E o que dirá de Yoani a posteridade? Ajudou? Desajudou? Não influiu?

Por enquanto estamos sem pistas, mas, com certeza, o filme de Bettino e Sifredi poderá vir a ser, no futuro, um pequeno documento histórico a considerar.

No momento de sua estreia, é só um filme “quente” sobre uma questão “quente”.

Yoani e seu computador.

Yoani e seu computador.

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Cinema com cursor

5 jun

Eu estava numa das salas do Cinespaço, assistindo a um dos filmes do último Festival Varilux de Cinema Francês quando a projeção foi interrompida. Avisaram que houvera um problema de ordem técnica e que aguardássemos dez minutos.

Antes dos dez minutos, as luzes apagaram e a projeção retornou sem problemas.

Sem problemas, uma ova. Retornou a projeção, mas, com um detalhe – em algum ponto da tela, sobreposta às imagens do filme, estava uma setinha branca, fixa, imóvel, incômoda. O filme ia passando e ela não saia do lugar. Até que – notei – alguém da platéia levantou-se, foi até a sala de projeção, avisou, e a setinha inconveniente foi deslocada para fora da tela.

Vi logo que se tratava de um cursor, o mesmo que estamos acostumados a ver em visor de computadores, caseiros ou profissionais. Ora, nesta nossa época eletrônica, estamos habituados a ver cursores por toda parte, porém, confesso, nunca esperei ver um na tela do cinema, e isso mexeu com meus neurônios e com minha imaginação.

Sentado na poltrona do Cinespaço, no Mag Shopping, de repente dei-me conta de que o filme que eu via era uma projeção digital, no geral igual à que vejo em casa no aparelho de TV, usando ou não DVD. La atrás, na cabine, não havia os tradicionais rolos contendo a película que torna o filme exibível.

o projetor de películas - dias contados?

o projetor de películas – dias contados?

Eu tinha conhecimento da exibição (e também da filmagem) digital, porém, sabe como é, se não houver sinais dela, a gente se esquece e pensa sempre que, lá na cabine do cinema, a velha fita está correndo a 24 quadros por segundo, como nos tempos remotos do cinema clássico.

E aí, lembrei-me dos amigos visionários – como Wills Leal – que nos garantem que a película, base material do filme, está com os seus dias contados; que brevemente os cinemas do mundo inteiro vão começar a exibir, em simultâneo, filmes que uma fonte eletrônica, nos Estados Unidos, na França ou seja lá onde for, enviará para as salas de projeção, via satélite. E filmes que tampouco foram rodados em película.

A materialidade da fotoquímica pelicular vai dar lugar à virtualidade das mídias digitais – fazer o quê?

Mais que um detalhe técnico, o cursor na tela do Cinespaço, exposto por causa de “um problema de ordem técnica” é – ou devo dizer que foi para mim, no momento – um símbolo de uma era revolucionária que está começando e cujas conseqüências práticas ainda não temos condição de divisar.

sala de cinema: em película ou digital...

sala de cinema: em película ou digital…

No tempo da minha infância, quando a projeção se interrompia era porque a fita, coisa concreta em que se podia tocar, tinha quebrado, e o projecionista precisava de um tempo para parar tudo e colar um fotograma no outro. Se, por alguma razão, muitos fotogramas ficassem de fora da colagem, ao voltar a projeção a platéia, sentindo a lacuna, protestava com gritos nada educados de: “ladrão, quero meu dinheiro de volta”…

Hoje em dia, nem faz mais sentido falar em fotograma, e o próprio termo ´cinema´ se confunde com a expressão maior, abstrata e genérica, ´audio-visual´.

E, contudo, por incrível que pareça, nem tudo mudou. E, para provar, conto um incidente de alguma forma antagônico ao do cursor na tela.

Eu estava na frente da televisão quando passou um comercial de automóvel, evidentemente filmado em digital, e em digital exibido. Ora, quando o carro desenvolveu uma certa velocidade, se você olhasse para os pneus ia notar que as calotas, desenhadas com raios de metal, rodavam para trás. E quanto mais velocidade, mais para trás elas giravam.

Diligências ou carroções do Velho Oeste, quando em velocidade, andavam para trás

Diligências ou carroções do Velho Oeste, quando em velocidade, andavam para trás

Ué, era isso que, ainda pequeno, eu via nos filmes faroeste, evidentemente filmados em película, com 24 quadros por segundo – os duros carroções do Velho Oeste, quando desenvolviam certa velocidade, as suas rodas, também cheias de raios, no caso de ferro, giravam em sentido contrário ao real, como se em marcha ré.

Até pouco tempo, eu pensava que esse fenômeno – que sempre via nos filmes antigos e achava curioso – fosse um problema de ilusão de ótica restrito à filmagem em película, supostamente motivado pelo fato de que 24 fotogramas por segundo, deslizando na frente do foco luminoso, seriam pouco para a velocidade desenvolvida num mesmo espaço em que os itens visuais (os raios das rodas) revezam posições. Porém, conforme comprova o comercial de automóvel referido, não é o caso.

Como é que dois suportes tão distintos – película e captação eletrônica – provocam exatamente o mesmo efeito? Sem resposta, deixo a explicação aos visionários que torcem pela vitória completa do digital.

O cinema clássico: o império da película

O cinema clássico: o império da película