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Como escrever sobre cinema (II)

14 fev

Conversando sobre cinema é comum que as pessoas me perguntem se, na sala de projeção, sentado na poltrona, eu já assisto ao filme com a postura crítica de um profissional que escreve sobre a sétima arte.

Normalmente essas pessoas se surpreendem ao me ouvirem dizer que, quando vou a cinema, deixo em casa minha “farda de crítico” e vejo o filme como um espectador comum, completamente despojado, entregue ao que der e vier, solto para mergulhar na estória e sofrer, ou gozar, com os personagens, como se tudo fosse realidade.

O exercício da análise, quando vem, vem depois, já em casa, geralmente no dia seguinte, quando estou para decidir se vale a pena, ou não, escrever sobre o filme visto.

Aí então tem início o trabalho de rememoração. Nos depoimentos de colegas, não vejo referências à memória, mas ela é fundamental para o crítico. Nem sempre posso assistir ao filme mais de uma vez, e a reprodução dele na minha cabeça é essencial para gerar uma crítica correta e pertinente.

Mas, claro, o mais difícil é o que vem em seguida: a análise, etapa em que seria esperável demonstrar o que mais interessa em um filme de qualidade: a necessária relação entre conteúdo e forma. Que aspectos plásticos, por exemplo, refletem a temática, ou, o que dá no mesmo, que ideias na estrutura narrativa, por exemplo, estão manifestas no plano visual?

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Como o espaço para a crítica, em jornais, é curto, uma atitude para a qual tenho que estar pronto é a da seleção, ou seja, a de escolher que trechos do filme vou citar para exemplificar a relação conteúdo/forma que fui capaz de captar.

Para que minhas exemplificações fiquem mais claras, muitas vezes preciso reconstituir, para o leitor, o enredo do filme. Está é uma parte mecânica do trabalho, sem muita graça, mas que precisa ser feita. De modo tal que, quando eu analisar a cena, ou a tomada, ou a sequência que ilustra o meu enfoque, esse leitor compreenda a minha linha de argumentação.

Estou falando de bons filmes, mas, criticar um filme ruim também pode ser muito instrutivo. Em termos teóricos, o que acontece num filme ruim seria, mutatis mutandis, a ausência de relação entre conteúdo e forma. Se, criticando-o, digo apenas que os atores estão mal, a montagem está mal feita, a fotografia é péssima, etc… minha crítica pode ficar tão ruim quanto o filme. Preciso ser mais convincente e ser capaz de demonstrar, se for o caso, o deslocamento entre forma e conteúdo com mais consequência.

Não é comum, mas às vezes acontece de um filme conter uma proposta própria, toda sua (os filmes ditos de vanguarda, geralmente fazem isso), e neste caso, ela precisa ser respeitada. Eu, pessoalmente, posso até não gostar dela, mas devo aceitá-la como proposta autoral. Neste caso, o filme deve cumprir sua proposta, do começo ao fim, em todos os níveis; se ele não faz isso, já será criticável, e é então que eu poderia entrar com a minha argumentação desfavorável, apontando a incoerência.

Uma certa cena em "Pacto sinistro"

Uma certa cena em “Pacto sinistro”

Mas, voltando à postura do crítico na sala do cinema, confesso que, mesmo assistindo a um filme, como assisto, com o despojamento conceitual a que me referi, às vezes – talvez mais vezes do que sugiro – ocorre que, durante a projeção, questões de linguagem já me chamam a atenção, de alguma forma interferindo na minha curtição de espectador comum. Digamos que, vendo um dado filme, estou envolvido na estória narrada, identificado com algum personagem, torcendo para que ele consiga o que pretende, etc, quando, de repente, a direção me mostra um enquadramento inusitado, suponhamos, uma contra-plongée radical, aquela angulação de baixo para cima, tão fora dos pontos de vista da vida real, e por isso, tão estranha. Bem entendido, foi uma contra-plongée bem feita e funcional, até brilhante, e talvez por isso mesmo, me prendeu a atenção e, no momento, em plena sala de projeção, me fez lembrar de minha função de analista. E aí, eu, já pensando em escrever sobre o filme, digo a mim mesmo, bem baixinho, ´preciso lembrar de citar isto´.

Para não deixar de dar exemplos, isto aconteceu quando vi a cena do crime em “Pacto sinistro”, 1951, de Alfred Hitchcock. Vocês lembram: os dois personagens, assassino e vítima, estão em pé e nós, espectadores, feito formiguinhas, estamos em baixo, no chão, olhando para cima, vendo o corpo da vítima desabar sobre nós, como se fosse nos esmagar.

Tudo bem, vou ser mais confessional ainda: há filmes – raros, é verdade, mas há – tão engenhosos na capacidade de, ao mesmo tempo, nos envolver e nos convencer de que são arte, que, ao vê-los, eu já saio do cinema ansioso para escrever, doido para chegar ao meu computador e meter os dedos nas teclas, no caminho de casa preocupado em estar talvez esquecendo o que quero arguir para confeccionar uma crítica à altura do filme.

Como nunca tive o hábito de levar cadernetinhas e canetas para o cinema, treinei minha mente, ao longo dos anos, para conceber, organizar e armazenar ideias durante um certo “tempo morto” – digo, enquanto me alimento na saída do cinema, converso com amigos, dirijo, ou durmo. No outro dia, se for o caso, minha “caderneta mental” está – graças a Deus – disponível para o uso…

E o texto sai.

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A viagem de Yoani

7 maio

 

A blogueira cubana Yoani Sanchez seria uma agente da CIA a serviço do imperialismo americano… ou uma heróica batalhadora pelo direito de expressão em seu país?

Em cartaz na cidade, o documentário “A viagem de Yoani” (2014) faz a pergunta e, claro, tem o cuidado de não insinuar respostas.

Respostas, não, mas interesse pelo caso Yoani existe, sim, e muito.

Não há nenhuma dúvida de que os diretores Raphael Bottino e Peppe Sifredi se entregaram com gosto à missão de acompanhar a blogueira cubana em sua visita ao Brasil, em 2013, o mais de perto possível, desde o desembarque no aeroporto de Salvador, passando por sua hospedagem em Feira de Santana, até o desastroso confronto com imprensa e público, na sede do Jornal do Estado, em São Paulo.

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Eis aí um exemplo de documentário de roteiro aberto, mais que isso, escancarado, para o que der e vier. Com certeza, os seus autores não previam o tamanho do tumulto que a presença de Yoani causaria em solo brasileiro. Previam o tumulto, mas não o tamanho.

Como se sabe, há muito a jovem cubana vem escrevendo, em seu já afamado blogue “Geração Y”, crônicas e artigos desfavoráveis à situação política em Cuba, o que a tornou uma persona non grata em seu país, mas, como se vê no documentário em questão, não só em seu país…

Divulgados virtualmente, traduzidos para dezenas de idiomas, os seus textos ganharam leitores no mundo todo, em muitos casos, tomando o formato de livros. E vieram os prêmios e, consequentemente, a fama internacional.

Como os escritos de Yoani enfatizam o lado negativo do regime castrista, quase sempre passando ao largo dos positivos, os simpatizantes desse regime se vêem na urgência de denunciar a escritora como traidora. E de traidora de Cuba para agente da CIA foi um pulo…

A blogueira Yoani no Brasil

A blogueira Yoani no Brasil

O fato é que chega a ser assustador o nível de violência verbal com que Yoani é agredida na recepção paulista, ela, e os promotores de sua visita, como o deputado Eduardo Suplicy. No caminho para a entrevista coletiva ela prevê que o que vai acontecer será (sic) “intenso”. O que não prevê é que a intensidade será tal ao ponto de inviabilizar a entrevista…

Com enquadramentos precários, fotografia casual e som pouco audível, o filme mostra o confronto todo, mas não faz só isso. Junta trechos dos escritos virtuais da autora, com textos alheiros sobre ela, mais imagens virtuais e/ou televisivas em que seu caso foi tratado – os estrangeiros e os cubanos – mistura tudo, dando ao conjunto um tratamento cibernético, cheio de recursos eletrônicos sofisticados, figuras e sons virtuais em jogo, que dão ao espectador a impressão de estar, não diante da tela cinematográfica, mas de um computador.

Esse recurso de “cibernetizar” ao extremo, eu sei, combina com o meio pelo qual a protagonista se comunica com o mundo, a internet, além de compensar a ostensiva precariedade das filmagens documentais, porém, há momentos em que a velocidade dos jogos cibernéticos cansa a vista e dá vontade de… desligar o computador.

Tumulto no debate...

Tumulto no debate…

Voltando a Yoani, com ela concordando ou dela discordando, um fato que impressiona, no documentário que a seguiu fisicamente tão de perto, é a sua tranquilidade, sempre mantida, mesmo nos momentos mais “intensos”. Como naquela ocasião limite em que, indagada sobre o assunto, revela o modo como os seus textos são traduzidos por uma jornalista americana, e, irada, a platéia, aos gritos, a impede de continuar falando… e, como já dito, a coletiva, sem condição de comunicabilidade, é encerrada.

Naturalmente, o que as pessoas pensam de Yoani está relacionado ao que as pessoas pensam de Cuba, e isso que pode, eventualmente, determinar a apreciação e o julgamento do filme, em detrimento de seu valor, se tem algum, estritamente cinematográfico.

O filme se fecha com a informação de que, no recente – e tão desejado – desbloqueio americano a Cuba, Yoani teria elogiado os irmãos Castro.

De minha parte, saí do cinema pensando no que sempre pensei, mesmo antes de ter visto o filme: qual será o futuro de Cuba, esse “país-ilha” em mais de uma acepção da expressão? E o que dirá de Yoani a posteridade? Ajudou? Desajudou? Não influiu?

Por enquanto estamos sem pistas, mas, com certeza, o filme de Bettino e Sifredi poderá vir a ser, no futuro, um pequeno documento histórico a considerar.

No momento de sua estreia, é só um filme “quente” sobre uma questão “quente”.

Yoani e seu computador.

Yoani e seu computador.

Emoção à flor da tela – um livro ao seu dispor

28 dez

Não sou historiador, mas sempre quis escrever um livro que recobrisse a história do cinema.

Normalmente, meus textos são ensaios que abordam um único filme. Apaixonado pelo exercício da análise, nunca gostei de tratar de fases, escolas, épocas, ou períodos mais longos, e quando o fiz foi meio acidentalmente.

O meu grande prazer foi sempre deter-me em um dado filme e tentar, verticalmente, desvendar o que, no fundo de sua forma e na forma de seu fundo, ele tem a nos dizer, ou mais que isso, a nos fazer sentir.

Por outro lado, a história do cinema é feita de filmes, digo, de filmes individuais. Julguei, portanto, que se dispusesse de um número significativo de comentários críticos sobre filmes individuais e os distribuísse num mesmo espaço em ordem rigorosamente cronológica, ficaria implicitamente delineada uma “história”.

Foi o que andei fazendo nestes últimos quinze anos – fui catando e juntando ensaios já escritos, e escrevendo outros, organizando-os em ordem cronológica, até ter um número razoável para a confecção de um livro.

Ao chegar ao número 150, achei que o livro estava pronto. A escolha do título foi trabalhosa, mas creio que o escolhido, “Emoção à flor da tela – escritos sobre cinema”, se não sugere a perspectiva ´histórica´, ao menos tem a vantagem de ressaltar um dos aspectos mais fascinantes do consumo da sétima arte, que é o recepcional. Como já foi dito tantas vezes por tanta gente boa, sem espectador não há cinema.

capa de Emoção à flor da tela

O leitor desse livro poderá se indagar por que os filmes discutidos são estes, e não outros. Confesso que o acaso pode ter tido, até certo ponto, o seu papel. De fato, muitos são filmes sobre os quais escrevi porque estrearam nos cinemas locais, ou porque foram lançados em DVD, ou porque os vi, ou os revi, na TV paga, etc… Lembro ao leitor, porém, que na montagem do livro houve muitos ´cortes´, pois o número de textos a constar do livro superava em muito os 150 escolhidos. A rigor, portanto, nenhum filme está no livro gratuitamente.

Na seleção que fiz houve mesmo certo grau de intencionalidade. Achei que um livro desses não podia deixar de fora certos cineastas fundantes ou com propostas bem particulares, por exemplo, Orson Welles, Sergei Eisenstein, Jean Vigo, etc. Além disso, alguns ensaios foram escritos diretamente para o livro, como aqueles que tratam do cinema primitivo dos irmãos Lumière.

Tive, obviamente, o cuidado de não pular décadas, o que comprometeria o sentido “histórico” do livro. A questão era só decidir que filmes de tal década lhe seriam representativos. Espero ter sido, neste particular, sensato e pertinente no meu modo de enfocar.

Eis alguns exemplos, citados ao acaso: no século dezenove não poderia faltar: “O regador regado” dos irmãos Lumière; na década de dez, tinha que ter “O grande roubo de trem” de Porter; na de vinte, era necessário incluir “A última gargalhada” de Murnau; na de trinta, precisava ter o “King Kong” de Merien C Cooper (1933); na de quarenta, achei que era importante “O terceiro homem” de Carol Reed; na de cinqüenta, julguei essencial não descartar “Vidas amargas” de Elia Kazan; na de sessenta, impossível pular o “Easy Rider” de Denis Hooper; na de setenta, fiz questão de por o “Lacombe Lucien” de Louis Malle; na de oitenta, não quis passar ao largo de “A rosa púrpura do Cairo” de Woody Allen; na de noventa, achei conveniente resguardar “Tudo sobre minha mãe” de Pedro Almodovar; na 2000, fiz questão de incluir “Os sonhadores” de Bernardo Bertolucci.

Sei que ninguém lê um livro inteiro no computador, porém, não me preocupo com isso. Acho que, para o internauta cinéfilo, o grande lance é fuçar, de cima para baixo, de baixo para cima, e ler aos poucos, em momentos diferentes, de acordo com os seus próprios interesses. Aliás, apesar do sentido “histórico” que a cronologia concede ao livro – ele também foi concebido… para consulta.

Enfim, o livro está pronto, e, a partir desta data, a seu inteiro dispor. Para o acesso, tudo que você tem a fazer é clicar, acima, na categoria INÉDITOS, e, em seguida na imagem icônica da capa do livro. Divirta-se e, se for o caso, comente.