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Ave, César

17 out

Fã dos irmãos Ethan e Joel Coen como sou, me ocorreu perder “Ave, César” (2016) quando foi exibido localmente e só agora o vejo no Netflix.

Concordo com a crítica em que “Ave, César” não é um grande Coen, mas, sabe como é, um Coen menor já é alguma coisa. De minha parte, o fato de a estória se passar no seio da Hollywood clássica já foi um estímulo.

Estamos no começo dos anos cinquenta e Eddie Mannix (Josh Brolin) é o diretor executivo dessa grande companhia cinematográfica, a Capitol Pictures, que rivaliza com a Metro e todas as outras. Como se imagina, o seu dia a dia é um inferno, quando tem que lidar com todo tipo de problema, do mais comum ao mais inusitado, do mais simples ao mais sério, problemas seus e alheios que se tornam seus.

Como convencer um conceituado cineasta que está rodando um drama sério para o estúdio, a aceitar um ator canastrão que só sabia pular do cavalo e laçar os adversários com nós complicados? Como arrancar apoio dos representantes das comunidades religiosas – judeus, católicos e evangélicos – para a divulgação de uma superprodução sobre a vida de Jesus? Como se livrar das fofocas da colunista social mais poderosa de Hollywood, sempre disposta a publicar os escândalos mais escabrosos?

Estas são questões do métier que podem ser resolvidas com alguma artimanha ou simplesmente no grito, mas há as mais pessoais que às vezes requerem um confessionário. Por exemplo: Como seguir o conselho da esposa e parar de fumar? Como resistir a oferta de compra da Capitol por uma poderosa empresa que acha cinema um lixo – e ir viver uma aposentaria tranquila e bem paga?

O dia de Mannix se complica um pouco mais quando o astro Baird Whitlock (Georges Clooney) desaparece e deixa interrompidas as filmagens do grande épico “Hail Caesar” (“Ave, César”), um enorme investimento artístico da Capitol. Para a imprensa a alegação de um tornozelo quebrado não convence, mas é o que melhor lhe ocorre. Mannix não sabe, mas Baird foi sequestrado por um grupo de comunistas que tentam convencê-lo da verdade contida no “Capital” de Karl Marx. Pregações à parte, para o resgate do astro, o grupo exige uma quantia alta, dinheiro que irá enriquecer mais ainda o “ouro de Moscou”. A cena do submarino soviético vindo à tona para arrecadar a grana e a maleta do dinheiro caindo na água por causa de um cachorrinho não é apenas hilária como remete a um certo final de um filme noir de Kubrick.

Claro, o filme inteiro é uma sátira a Hollywood da época, como também o é à própria época. Da comédia ao épico, do musical ao drama, do policial à estória de amor, todos os gêneros são parodiados, assim como os seus personagens e/ou atores e atrizes. No meio destes, é possível reconhecer as caricaturas, por exemplo: da dançarina Esther Williams, do western man John Wayne e da brasileira Carmem Miranda. Esta última, aliás, encarnada na figura latina de uma tal de Carlotta Valdez – para quem lembra, o mesmo nome de uma certa personagem fantasmática de Hitchcock, que, por sinal, nada tem a ver com musicais ou comédias.

Uma sátira particularmente debochada vai para os musicais do tipo “Um dia em Nova Iorque” (Stanley Donen e Gene Kelly). Numa das filmagens nos estúdios da Capitol, mostram-se marinheiros dançando e cantando uma canção que fala sobre a lamentável ausência das mulheres, quando eles estiverem no mar. Aos poucos, porém, na letra e nos gestos, essa ausência feminina vai sendo compensada pela presença dos companheiros que, farão então o papel delas. E aí os passos da dança indicam claramente a homossexualidade assumida, num tempo em que ela não ousava dizer seu nome.

Um recurso ardiloso é o de misturar ficção e realidade, digo, as cenas das filmagens ocorrendo no set da Capitol com o que ocorre fora dele. Por exemplo: Baird é drogado com uma solução química posta na sua taça por um extra em pleno set, durante as filmagens de “Hail Caesar”, e será, mais tarde, resgatado do sequestro pelas astúcias do ator canastrão dos faroestes.

A própria Hollywood clássica costumava, de vez em quando, se mirar no espelho da tela e autocriticar-se. Isso está em grandes filmes como “Crepúsculo dos deuses” (1950), “Assim estava escrito” (1952) e “Nasce uma estrela” (1954).

Em “Ave, César” o espelho é retroativo e, como convém ao gênero satírico, deformador das imagens, feito um espelho de parque de diversão.

De todo jeito, gostei de ver.

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Louis Malle em Maio

16 maio

Cinquenta anos depois, o que ainda temos a dizer sobre o Maio de 68? Por enquanto, e à guisa de exercício conceitual, vejamos os filmes que trataram do assunto.

Um dos mais curiosos é, com certeza, este “Loucuras de uma primavera” (“Milou en mai”, 1990) do mestre francês Louis Malle, que, aliás, não se passa em Paris, mas no campo. Da distante mansão burguesa dos Vieuzac, não muito longe de Bordeaux, é que se recebem os efeitos colaterais dessa revolução que virou o país de cabeça para baixo.

Coincidindo com o estouro de Maio, o filme começa com a morte da idosa matriarca Vieuzac, que deixa o filho, Milou (Michel Piccoli), ele também adiantado em anos, vivendo só com a empregada Adèle. Bem, por enquanto nem tão só, já que logo chegam os outros membros da família para o velório, e o resto do roteiro vai nos contar, com muita graça e ironia, os seus conflitos e afagos, isto ao meio de duas crises: a privada (por exemplo: como dividir a herança?) e a pública (a revolução).

Como mantém a intitulação original do filme, Milou é o protagonista, mas sua autonomia tem limites. Isso fica claro com a chegada dos parentes: o irmão, George, correspondente do Le Monde em Londres, que vem com sua sensual esposa inglesa Lilly; Camille, filha de Milou, com três crianças, dois garotos pequenos e uma garota maiorzinha Françoise; Claire, a sobrinha de Milou, moça homo que comparece com sua namorada. Mais tarde ainda vão aparecer o sobrinho Pierre-Alain, rapaz esquerdista e entusiasta de Maio, e um motorista de caminhão, Grimaldi, que lhe dera carona no caminho, e aceita acomodação na casa, pois seu caminhão, carregado de tomates, não pudera, ao meio do caos reinante, chegar ao seu destino.

Uma complicação a mais é que o enterro não pode ser efetuado, já que as mortuárias também estão em greve, e, lá adiante a família precisará decidir que medida tomar. Nisso Milou vencerá, ao sugerir que a mãe seja enterrada nas terras da propriedade, como se fazia nos velhos tempos.

O fato é que os efeitos da Revolução vão se fazendo cada vez mais presentes e mais fortes na mansão dos Vieuzac, ao ponto de serem todos obrigados a fugir.

Mas antes da fuga o encontro da família é mais ou menos eufórico e vira piquenique bucólico, com direito a insinuações eróticas, inspiradas pelos boatos que se ouviam sobre os acontecimentos parisienses – um deles, o de que, na ocupada Sorbonne, a libertinagem era tão grande que “as pessoas deslizavam no esperma espalhado no piso”. É curioso como a família vai puxar o sentido libertário da Revolução para o exclusivo lado erótico e faz o excitante piquenique findar com o grito, ensaiado por Milou, de “Vive la révolution!” – isto acompanhado (e não só neste momento) pela trilha sonora do filme, que faz variações melódicas em torno da “Internacional”, o hino comunista.

Pensando bem, insinuações eróticas são quase uma regra no ambiente familiar: vejam que, na mansão, praticamente todos têm um caso, ou uma queda, por um outro. Milou transa com a empregada Adèle, a sua filha Camille flerta com um amigo de infância; a cunhada inglesa flerta com Milou; as duas moças lésbicas deixam traços de sua prática sado-masoquista na cama onde dormem; o sobrinho Pierre-Alain flerta com a amiga de Claire,  e esta com o caminhoneiro, com quem por sinal ensaia, para alegria de todos, uma cena de nudez e sexo selvagem em plena sala, não muito distante do féretro da falecida, e na presença de uma criança de treze anos, a neta de Milou, Françoise, aliás, esta também objeto do desejo do avô, como se vê no momento em que ela sobe no féretro para beijar a bisavó morta e sua saia curta lhe expõe as coxas infantis, sob o olhar de um Milou perverso. É essa pequena Françoise quem faz – sempre ao avô – as perguntas mais hilárias do diálogo, toda vez que escuta uma palavra que não conhece ou vê algo que não entende: “o que é esperma”? “Por que tia Claire amarra sua amiga na cama?” “O que é sapatão?”… E não esquecer que desse clima libertino fará parte uma dança carnavalesca com letra obscena, com todos em fila, dentro da mansão, rodeando o féretro da matriarca.

A disforia vem com a notícia da proximidade dos revoltosos e, naturalmente, com a fuga, francamente patética, quando se confunde o trabalho de lenhadores locais com o ataque dos revolucionários, e aí a família, perdida no meio da floresta, vai penar com cansaço, sujeira e fome… Em certo momento de desespero e desorientação é Milou quem dará a direção: (sintam a ironia!) “Vamos dobrar à direita”.  Essa agonia coletiva vai terminar quando Adèle, a providencial empregada, dá as caras, com a notícia de que De Gaulle – antes desaparecido – reapareceu e que tudo voltou à ordem normal.

Não admira que a Revolução de Maio tenha sido dada, mais tarde, por pensadores maliciosos, como “a revolta que mudou tudo sem nada mudar”. Pelo menos é uma das impressões que pode ficar do filme de Malle, se o propósito for porventura interpretar o Maio francês. Por exemplo: a morte da matriarca dessa família burguesa poderia sugerir ao espectador um símbolo da suposta derrocada da burguesia pela Revolução. Alguns elementos corroboram esse simbolismo, a saber: (1) a observação de Camille ao chegar na mansão: “Talvez a Revolução a tenha matado; ela detestava desordem”, diz ela da avó; e (2) mais tarde, aquela tomada sintomática em que se avista uma passeata de revolucionários em marcha e o velho empregado da família cavando a cova da matriarca, as duas coisas num mesmo quadro…  Bem, com o detalhe mais que irônico de que, no final, ela, a matriarca, reaparece na tela, como se viva estivesse, tocando piano e dançando com o filho deslumbrado. Ah, burguesia teimosa!

Simbolismos à parte, na mansão dos Vieuzac tudo permanecerá (quase) como dantes – apenas com o detalhe de que um quarto da herança, de acordo com o testamento da defunta, ficará para a empregada Adèle, que agora nos acena com o seu noivo e seu final mais do que feliz. O único sinal (ainda que duvidoso), de uma possível melhora para as classes inferiores – isto, se se quiser insistir em simbolismos.

No seu comentário do filme, o crítico americano Roger Ebert se indaga sobre quais teriam sido as intenções de Malle e seu roteirista Jean-Claude Carrière. O que me fez lembrar uma boutade do próprio Malle sobre sua forma de trabalhar. Diz ele: “quanto mais vivo, menos confio em ideias, e mais confio em emoções”.

Sejam quais tenham sido as intenções autorais, “Loucuras de uma primavera” é um filme gostoso de ver, meio amargo e meio doce, despretensiosamente franco sobre uma classe social decadente e seu nem sempre discreto charme.

Visivelmente, seus antepassados são pelo menos dois: o remoto “A regra do jogo” de Jean Renoir (1939) e o menos remoto “Cerimônia de casamento”, de Robert Altman (1978), ambos tratando de uma numerosa família burguesa reunida numa mansão de campo, este último contando também com uma matriarca falecida.