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A cruz dos anos

3 out

Neste primeiro de outubro, Dia Internacional do Idoso, veiculei nas redes sociais, uma lista de dez clássicos da história do cinema mundial que trataram da “terceira idade” quando a expressão sequer existia. Na minha postagem, limitei-me a indicar os títulos dos dez filmes, sem comentá-los. Pois aqui os comento.

Na ordem cronológica dos lançamentos, o meu primeiro filme citado, “A última gargalhada”, é de 1924, tempo do cinema mudo. Dirigido pelo genial F. W. Murnau, traz todos os traços do então no auge Expressionismo Alemão. É a deprimente história desse senhor idoso, porteiro de um hotel de luxo em Berlim, que perde o emprego justamente por ser velho. Um dos primeiros filmes a fazer a pergunta: como tratar os nossos idosos? Claro que a pergunta do filme não se refere aos idosos ricos, que estes não precisam de perguntas de cunho social.

Para dizer a verdade, quase todos os filmes por mim listados misturam velhice e pobreza. É o caso do segundo, “Dama por um dia” (Frank Capra, 1933), história dessa mendiga idosa que subsiste vendendo maçãs nas calçadas de Nova Iorque, e que se desespera no dia que tem a notícia de que vai receber a visita de uma filha que não vê há décadas, hoje casada com um nobre espanhol e residente em Madri. O que uma mendiga pode fazer para esconder da filha rica sua gritante pobreza? Veja o filme para saber.

O meu terceiro filme citado, “A cruz dos anos” (Leo McCarey, 1937) enfrenta a questão pais e filhos de modo diferente. Fragilizado e dependente, esse casal de idosos procura apoio nos filhos e suas famílias, e a resposta, afetiva e financeira, não é propriamente a esperada. Como se vê, um tema atual, num filme tão contundente e sintomático que não resisti em dar a esta matéria o seu título.

Ao tema da pobreza na velhice, “Humberto D” (Vittorio De Sica, 1952) – meu quarto filme citado – acrescenta o da solidão. Pensionista do governo, sem parentes nem aderentes, o idoso Humberto vive só com seu cachorro Flick. Vive até o dia em é despejado e, doente, vai parar no hospital. Ao ter alta, será mais um mendicante nas ruas de Roma, sem teto e à procura de um cão desaparecido. Haja tristeza.

O tema da indiferença filial vai reaparecer de modo igualmente cru no japonês “Era uma vez em Tóquio” (Yasujiro Ozu, 1953), o meu quinto citado. Do mesmo modo, quando o casal de idosos residentes no campo, viaja a Tóquio à procura de conforto moral junto aos filhos, hoje todos casados, dá-se conta da gap generation que os separa, e o resultado é desilusão e sofrimento.

Em “Morangos silvestres” (Bergman, 1957), o meu sexto citado, já não temos mais a questão da pobreza. O protagonista é um conceituado médico aposentado que viaja para receber um prêmio de honra ao mérito. A viagem, porém, é um pouco menos espacial e um pouco mais existencial, e o remete ao âmago de seu eu, onde reside o menino lírico – tão diverso do idoso frio e calculista de hoje.

Se no filme de Bergman já fica claro que nem todo idoso é bonzinho, em “O que aconteceu a Baby Jane” (Aldrich, 1962), meu sétimo citado, a coisa se acentua. Movidas pelo rancor, duas irmãs idosas se digladiam até a loucura… e a morte. O gênero é mais terror que outra coisa.

O saldo positivo para a terceira idade retorna com o meu oitavo citado, “Ensina-me a viver” (Hal Ashby, 1971), história tão cômica quanto poética de um casal impossível – essa senhora avançada em anos, mas alegre e pra frente, e esse adolescente deprimido. Um desses filmes inesquecíveis que a gente chama de “lição de vida”.

Juventude num corpo senil: pode? De modo apropriado, o gênero da ficção científica é introduzido com “Cocoon” (Ron Howard, 1985), meu nono citado. Ao lado de um asilo de velhinhos, uma piscina abandonada recebe uma energia revigorante que vem do espaço sideral, e, para o bem ou para o mal, transforma a vida dos idosos que nela haviam se banhado.

Disse acima que a pobreza, mais que a riqueza, recorre nos dez filmes citados. Pois o meu décimo, “Conduzindo Miss Daisy” (Bruce Beresford, 1989) faz, em nível de personagem, o contraste entre as duas coisas O pobre (e negro) motorista dessa tradicional família judia deve conduzir a petulante Sra Daisy, em seus passeios e negócios. Naturalmente, desse convívio forçado nascerá um afeto improvável… e profundo.

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Aos amigos, com afeto

17 jul

Não sei se vocês lembram, ou sabem, mas este domingo, dia 20 de julho, é o Dia do Amigo. Para celebrar a data, repasso aqui filmes que tiveram a amizade como tema.

Vamos começar com crianças? O primeiro dentro desta faixa etária que me ocorre é um filme francês, o comovente “Brinquedo proibido” (Jeux enterdits, 1952), onde duas crianças – um menino e uma menina – matam o tempo envolvidos num jogo muito triste. O outro, também muito tocante, é o americano “Conta comigo” (“Stand by me”, 1986) em que um grupo de garotos adentra a floresta em busca de aventura e amadurece amargamente na jornada.

Conta comigo (Stand by me, 1986)

Conta comigo (Stand by me, 1986)

A amizade da criança também pode ser por um adulto, caso para o qual cito três filmes. Se você prestar bem atenção, “Os brutos também amam” (“Shane, 1953) é um exemplo apropriado, tanto assim que, na Alemanha, ele foi chamado de “Meu grande amigo Shane” (“Mein grosser Freund Shane”). Um segundo exemplo é o poético “Sempre aos domingos” (“Les dimanches de Ville D´Avray”, 1962), filme em que uma amizade brota entre essa pequena órfã e esse piloto desiludido, dois solitários em busca de afeto. E o meu terceiro exemplo nesse modelo, claro, tinha que ser “Cinema Paradiso” (1989), a estória da amizade de vida inteira entre o pirralho Totó e o projecionista do cinema Alfredo.

Sempre aos domingos: a amizade entre um adulto e uma criança

Sempre aos domingos: a amizade entre um adulto e uma criança

Aumentando um pouco a idade dos protagonistas, abro espaço para os filmes que trataram da amizade juvenil. Um dos mais famosos é, com certeza, “Juventude transviada” (“Rebel without a cause”, 1955): quem esquece a cena de James Dean chorando sobre o corpo inerte de Sal Mineo?

Com o que passo aos adultos.

No terreno feminino, me ocorrem dois filmes marcantes, cada um para a sua década: “Júlia” (1977), estória verídica de duas mulheres destemidas que, cada uma a seu modo, combateram a opressão política; e “Tomates verdes fritos” (1991) onde se enfocam, na verdade, duas relações de amizade em dois tempos, uma no presente, entre uma senhora idosa e uma mulher de meia idade, e outra, no passado, entre duas jovens.

Tomates verdes fritos: duas estórias de amizade, em dois tempos.

Tomates verdes fritos: duas estórias de amizade, em dois tempos.

A amizade entre homens é, pelos meus cálculos, a mais recorrente no cinema. Ela já estava nos policiais e comédias da era muda, e esteve, quase sempre, nos grandes westerns. Eis os filmes que me ocorrem no momento em que redijo este texto.

No policial “Anjos de cara suja” (1938) dois ex-amigos de infância, um gangster e um padre, devem lidar com a disparidade profissional que o acaso lhes deu, e, como for possível, administrar as diferenças. Por falar em diferenças e suas superações, há também as raciais e as culturais. Vejam os casos de “Acorrentados” (1958), onde um homem branco e um homem negro se tornam amigos apesar dos grilhões e das cores; e o de “Dersu Uzala” (1975), estória que liga um cavalheiro civilizado a um homem rudimentar, com essencial troca de aprendizados.

O xerife Wyatt Earp e dentista Doc Holiday em "Paixão dos fortes" (1946)

O xerife Wyatt Earp e o dentista Doc Holiday em “Paixão dos fortes” (1946)

No caso do faroeste, ninguém pode deixar de fora a amizade entre o xerife Wyatt Earp e o forasteiro e tuberculoso Doc Holiday, contada e recontada em tantos filmes, dos quais destaco dois: “Paixão dos fortes” (“My Darling Clementine”, 1946) e “Sem lei e sem alma” (“Gunfight at the OK Corral”, 1957). Já o faroeste que mais celebra a amizade masculina deve ser “Butch Cassidy” (1969) que, no título original tem os nomes dos dois amigos “Butch Cassidy and the Sundance Kid”, feitos, vocês lembram, por Paul Newman e Robert Redford.

A celebração da amizade masculina no Oeste: "Butch Cassidy and the Sundance Kid".

A celebração da amizade masculina no Oeste: “Butch Cassidy and the Sundance Kid”.

Saindo do western, outro grande filme sobre a amizade entre homens que tem os nomes dos amigos no título é o belo drama francês, de François Truffaut, “Jules et Jim” (1962). Lembremos ainda filmes que, ao meio de suas tramas, abordam a relação entre grandes amigos: “A um passo da eternidade” (1953), “Benhur” (1959), “Zorba, o grego” (1964) e “Um sonho de liberdade” (1994). Mas esta matéria ficaria lacunosa se eu não citasse o magnífico “Perdidos na noite” (“Midnight cowboy”, 1969), do qual, à guisa de ênfase, recordo a cena final, uma das mais tocantes que o cinema já concebeu: aquela dentro do ônibus que chega a Miami, com os dois amigos sentados lado a lado, embora só um veja a paisagem…

"Midnight Cowboy" ("Perdidos na noite", 1968, de John Schlessinger)

“Midnight Cowboy” (“Perdidos na noite”, 1968, de John Schlessinger)

Misturando os gêneros, e para não esquecer os idosos, que tal “Conduzindo Miss Daisy”, a comovente amizade entre o motorista negro e sua patroa judia? Lembram da cena final, o toque de mãos?

Meu último exemplo, já que o post já está longo, refere aquela situação mista em que um grupo de homens e mulheres se encontra em local e tempo especiais, casos de: “O reencontro” (1983), “O declínio do império americano” (1986) e o recente filme brasileiro “Entre nós” (2013).

Devo estar esquecendo grandes filmes sobre o tema da amizade. O que é bom, para que o leitor, por conta própria, participe da listagem.

Em tempo: este post é dedicado a todos os meus amigos…  com gratidão ao amigo e conterrâneo Ednaldo da Silva, que me lembrou a data, e com carinho especial,  a Silvino Espínola, no momento hospitalizado.

Cena de "Conduzindo Miss Daisy" - a amizade na terceira idade.

Cena de “Conduzindo Miss Daisy” – a amizade na terceira idade.