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CREPÚSCULO DOS DEUSES – setenta anos

22 mar

Há filmes que são maiores que o cinema. Filmes que são grandes, não apenas na história da sétima arte, mas na historia da Arte como um todo. Acho que é o caso de “Crepúsculo dos deuses” (Billy Wilder, 1950), que por sinal está, neste ano de 2020, completando setenta anos.

E de sobra é também um filme sobre a história do próprio cinema, ou ao menos uma parte dela. Conta o drama de uma grande estrela da era muda, há muito aposentada, Norma Desmond (Gloria Swanson), que, nos seus cinquenta anos de idade, ou seja, no auge do cinema falado, amarga a solidão, o oblívio e a decadência. Decadência que ela atribui, não a si mesma, mas ao cinema falado: “Eu sou grande – diz ela – os filmes é que ficaram pequenos”.

Ora, o acaso lhe põe dentro de casa (digo, dentro de sua luxuosa mansão do sofisticado bulevar Sunset) um jovem roteirista de Hollywood, e, de repente, ela vê nele a esperança de um retorno retumbante às telas. Eufórica com a alternativa desse retorno, ela literalmente compra esse jovem roteirista em dificuldade financeira, que deve transformar uma mirabolante estória, escrita por ela mesma, num brilhante roteiro de filme que deverá ser um sucesso de crítica e público.

Gloria Swanson é Norma Desmond

Mesmo a contragosto, ele, Joe Gillis (William Holden) passa a residir na mansão de Norma Desmond, que o mima com luxos que ele nunca conhecera. O rapaz, por sua vez, entra em crise no dia em que percebe que não é mais, para a velha estrela, apenas um empregado, e sim, um suposto amante. Numa noite de vinho e tango, os dois quase a sós na velha mansão, ele recusa esse amor, e o corolário inevitável é, da parte dela, uma tentativa de suicídio.

A partir daí, a situação se torna insustentável e o pior está por vir. Mas, ora, esse pior já nos havia sido mostrado na abertura do filme: o corpo de um jovem roteirista, boiando na piscina com três tiros nas costas. A cena é plasticamente impressionante, pois vemos tudo de baixo pra cima como se estivéssemos, nós espectadores, no fundo da piscina. E tem mais, como em Machado de Assis, quem nos conta a estória toda, em seus mínimos detalhes é esse cadáver.

Brilhante.

Billy Wilder e Charles Brackett escreveram o roteiro juntos, roteiro que vagamente se baseou num boato criminal antigo, do tempo do cinema mudo, em que a atriz Norma Talmage estaria, ou não, envolvida no assassinato do cineasta William Desmond Taylor. A estória do filme ficou diferente, porém, de todo jeito, o nome da protagonista – Norma Desmond – veio da mistura dos dois envolvidos nesse caso obscuro.

Holden e Swanson em cena do filme

A primeira ideia da dupla era começar o filme com uma cena numa mortuária, com dois cadáveres conversando, um contando sua morte ao outro. Por sorte, desistiram e bolaram a cena da piscina, que aliás, deu um trabalho danado ao diretor de arte, John Mehen, já que a câmera não poderia se molhar, e ele teve que usar de criatividade para inventar uma tomada dentro de um tanque, com a câmera envolta em vidro.

Tempos depois da consagração universal do filme, Wilder disse à imprensa que era para ter sido uma comédia, com Mae West e Marlon Brando no elenco, mas, pessoalmente, não acredito: Wilder, como se sabe, era mestre em gozações.

Na verdade, o elenco primeiramente pensado era outro. O primeiro nome para fazer Joe Gillis não tinha perfil de cômico, Montgomery Clift, que, por motivos pessoais, desistiu antes de as filmagens começarem. O papel de Norma Desmond era para ter sido de Greta Garbo, ou Mary Pickford, ambas estrelas do passado que recusaram, mas hoje ninguém tem dúvidas que a escolha de Gloria Swanson – ela também uma diva do passado mudo – deu muito certo. Seu desempenho apropriadamente afetado foi perfeito, e muitas de suas cenas se tornaram antológicas, a exemplo, da sempre citada tomada do final, em que a velha atriz enlouquece de vez e, na chegada da polícia (foi ela quem atirou nas costas de Joe Gillis, na borda da piscina) pensa estar sendo filmada pela Paramount e, arrebatada pelas luzes, solta sua frase definitiva: “Estou pronta, Mr DeMille, para o meu close up”. (Referia-se ao cineasta da Paramount Cecil B. DeMille).

Depois desse papel, Gloria Swanson realmente decaiu e praticamente não filmou mais. Os personagens que lhe ofereciam, depois disso, eram derivações canhestras de Norma Desmond, que ela, felizmente, teve a sensatez de recusar.

Já Billy Wilder e Charles Brackett brigaram furiosamente sobre o modo de efetuar a montagem, este tentando amenizar o sentido mórbido do filme (lembram o velório do macaco?) e aquele enfatizando justamente isso.  E nunca mais trabalharam juntos.

Mas, a glória de “Crepúsculo dos deuses” está aí, pra quem quiser comprovar. Depois de setenta anos, parece cada vez mais forte, mas definitivo e mais tragicamente belo.

Ave, César

17 out

Fã dos irmãos Ethan e Joel Coen como sou, me ocorreu perder “Ave, César” (2016) quando foi exibido localmente e só agora o vejo no Netflix.

Concordo com a crítica em que “Ave, César” não é um grande Coen, mas, sabe como é, um Coen menor já é alguma coisa. De minha parte, o fato de a estória se passar no seio da Hollywood clássica já foi um estímulo.

Estamos no começo dos anos cinquenta e Eddie Mannix (Josh Brolin) é o diretor executivo dessa grande companhia cinematográfica, a Capitol Pictures, que rivaliza com a Metro e todas as outras. Como se imagina, o seu dia a dia é um inferno, quando tem que lidar com todo tipo de problema, do mais comum ao mais inusitado, do mais simples ao mais sério, problemas seus e alheios que se tornam seus.

Como convencer um conceituado cineasta que está rodando um drama sério para o estúdio, a aceitar um ator canastrão que só sabia pular do cavalo e laçar os adversários com nós complicados? Como arrancar apoio dos representantes das comunidades religiosas – judeus, católicos e evangélicos – para a divulgação de uma superprodução sobre a vida de Jesus? Como se livrar das fofocas da colunista social mais poderosa de Hollywood, sempre disposta a publicar os escândalos mais escabrosos?

Estas são questões do métier que podem ser resolvidas com alguma artimanha ou simplesmente no grito, mas há as mais pessoais que às vezes requerem um confessionário. Por exemplo: Como seguir o conselho da esposa e parar de fumar? Como resistir a oferta de compra da Capitol por uma poderosa empresa que acha cinema um lixo – e ir viver uma aposentaria tranquila e bem paga?

O dia de Mannix se complica um pouco mais quando o astro Baird Whitlock (Georges Clooney) desaparece e deixa interrompidas as filmagens do grande épico “Hail Caesar” (“Ave, César”), um enorme investimento artístico da Capitol. Para a imprensa a alegação de um tornozelo quebrado não convence, mas é o que melhor lhe ocorre. Mannix não sabe, mas Baird foi sequestrado por um grupo de comunistas que tentam convencê-lo da verdade contida no “Capital” de Karl Marx. Pregações à parte, para o resgate do astro, o grupo exige uma quantia alta, dinheiro que irá enriquecer mais ainda o “ouro de Moscou”. A cena do submarino soviético vindo à tona para arrecadar a grana e a maleta do dinheiro caindo na água por causa de um cachorrinho não é apenas hilária como remete a um certo final de um filme noir de Kubrick.

Claro, o filme inteiro é uma sátira a Hollywood da época, como também o é à própria época. Da comédia ao épico, do musical ao drama, do policial à estória de amor, todos os gêneros são parodiados, assim como os seus personagens e/ou atores e atrizes. No meio destes, é possível reconhecer as caricaturas, por exemplo: da dançarina Esther Williams, do western man John Wayne e da brasileira Carmem Miranda. Esta última, aliás, encarnada na figura latina de uma tal de Carlotta Valdez – para quem lembra, o mesmo nome de uma certa personagem fantasmática de Hitchcock, que, por sinal, nada tem a ver com musicais ou comédias.

Uma sátira particularmente debochada vai para os musicais do tipo “Um dia em Nova Iorque” (Stanley Donen e Gene Kelly). Numa das filmagens nos estúdios da Capitol, mostram-se marinheiros dançando e cantando uma canção que fala sobre a lamentável ausência das mulheres, quando eles estiverem no mar. Aos poucos, porém, na letra e nos gestos, essa ausência feminina vai sendo compensada pela presença dos companheiros que, farão então o papel delas. E aí os passos da dança indicam claramente a homossexualidade assumida, num tempo em que ela não ousava dizer seu nome.

Um recurso ardiloso é o de misturar ficção e realidade, digo, as cenas das filmagens ocorrendo no set da Capitol com o que ocorre fora dele. Por exemplo: Baird é drogado com uma solução química posta na sua taça por um extra em pleno set, durante as filmagens de “Hail Caesar”, e será, mais tarde, resgatado do sequestro pelas astúcias do ator canastrão dos faroestes.

A própria Hollywood clássica costumava, de vez em quando, se mirar no espelho da tela e autocriticar-se. Isso está em grandes filmes como “Crepúsculo dos deuses” (1950), “Assim estava escrito” (1952) e “Nasce uma estrela” (1954).

Em “Ave, César” o espelho é retroativo e, como convém ao gênero satírico, deformador das imagens, feito um espelho de parque de diversão.

De todo jeito, gostei de ver.

Roda gigante

9 jan

Está em cartaz “Roda gigante” (“Wonder wheel”, 2017), o filme mais recente de Woody Allen, que, aos 83 anos não para de trabalhar, e melhor, sustenta o nível de sempre.

Como esperado, o filme é a cara dele, e, ainda bem, nem na qualidade muda.

Praticamente todos os ingredientes de sua filmografia estão aqui, de forma tão sistemática, que até parece uma compilação: uma atendente de lanchonete sonhadora, um marido grosseiro, gangsteres, amor pelo cinema ou pelo teatro, infância problemática, romance, personagens neuróticos, discussões domésticas ou amorosas intermináveis, psicólogos, traição, crime, culpa, referências culturais (Tchekov, O´Neill) e fímicas (o cartaz de “Winchester 73” e a conversa sobre “Flying to Rio”), narração de primeira pessoa com olhar para a tela… etc. Tudo isso, claro, ao som de velhas canções que tocavam nos rádios de então.

O cenário desta vez é Coney Island nos anos cinquenta, que, como se sabe, não deixa de ser Nova Iorque.

A protagonista é essa mulher beirando os quarenta, Ginny (desempenho estupendo de Kate Winslet, que nunca trabalhara com Allen), em seu segundo casamento, com um filho de menor, Richie, advindo do primeiro. O marido grosseirão, Humptey (Jim Belushi), é o dono do carrossel no famoso Deno´s Amusement Park, que tanto tipifica o distrito periférico de Coney Island.

Ginny é obrigada a ajudar na lanchonete da família e a vida não lhe parece nada promissora, sobretudo para quem um dia sonhou em ser atriz de teatro. Melhora um pouco quando vem a conhecer esse salva-vidas bonitão, com pretensão de autor de peças, com quem inicia um caso amoroso. Piora quando vem morar com a família uma filha do marido, havia muito tempo desaparecida, e que agora retorna, pedindo socorro porque está sendo seguida pela máfia, à qual o marido marginal pertencia.

Kate Winslet e Justin Timberlane

Mas, a narração de primeira pessoa não é de Ginny, e sim, de Mickey (Justin Timberlane), o salva-vidas que, em seguida a Ginny, conquista a mais jovem e mais bonita enteada de Ginny, Carolina (Juno Temple)… Que confusão! Notando o clima de flerte entre Mickey e Carolina, Ginny vai aos poucos virando uma fera… até aquele ponto crítico emocional que apaga o tom de comédia romântica do filme e lhe concede aquelas cores de tragédia grega, sim, dos últimos filmes de Allen. Tragédia várias vezes referida no diálogo do filme, e em elementos da diegese: lembram o livro que Mickey empresta a Carolina, “Hamlet e Édipo” de Ernest Jones?

Neste aspecto, uma cena exemplar no filme é aquela, quase final, em que Ginny, sabendo que os gângsteres estão no encalço da enteada, num impulso francamente humanitário, corre a um aparelho de telefone público, no intento de ligar para a Pizzaria e salvar a vida da moça, e… no meio da ligação desiste. Desiste justamente no instante em que inicia a descrição da enteada que roubara seu amante. Ao pronunciar, para o dono da Pizzaria, a palavra “loura” (as próximas seriam provavelmente “jovem e bonita”) ela repõe o telefone no gancho e volta para casa… ninguém pode dizer que feliz.

O salva-vidas entre duas mulheres…

Somatório de culpas (houve uma anterior, por ter traído o primeiro marido…), a última vez que a vemos, vestida de “louca”  – como lhe joga na cara o marido atual, também traído – o que nos vem à mente (e deve ter sido intenção da direção) é uma vaga mas efetiva mistura de Blanche Dubois com Norma Desmond, nos finais respectivos de “Uma rua chamada pecado” e “Crepúsculo dos deuses”, sem coincidência, dois filmes dos anos cinquenta.

Mas, atenção, o derradeiro fotograma não é dela. É do filho Richie, o garoto cuja maior curtição, depois de cinema, é atear fogo em tudo que pode ser queimado. No fechamento do filme, ele ateia fogo a um monte de madeira, justamente no local onde ficava o posto do salva-vidas, ponto alto de onde esse narrador privilegiado via a praia inteira e de onde nos contava a estória, a do filme e a sua… Em dado momento do filme, a narração perguntara ´o que será que esse garoto vê no fogo ateado…?` Ninguém sabe, mas acho que o espectador tem direito – por que não? – de pensar em Bachelard e seus quatro elementos… Algum tipo de metáfora para a estória que nos é narrada?

Outro dado para o espectador devanear seria por que o filme se chama “Wonder wheel” (“Roda gigante”) e não “Merry go round” (“Carossel”), o brinquedo que era propriedade da família…

O idoso Woody Allen, em direção de atores.