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O desejo da minha alma

23 out

Programação de cinema interessante mantém o Canal Futura, sempre diversificada e com qualidade. Esta semana o filme exibido foi o japonês “O desejo da minha alma” (2014), drama comovente sobre o desemparo infantil.

Ao menos na aparência, a história é simples. Um terremoto de alta escala devasta uma cidade japonesa e, entre as muitas vítimas, deixa duas crianças órfãs: Haruna de doze anos e Shota de apenas cinco. Sem lar e sem pais, os dois são recolhidos por uma tia, numa cidade vizinha.

O gesto caridoso é louvável, mas, como se sabe, o dia a dia em qualquer família é complicado. Sem adoção já o é, imagine com. A tia é casada e tem um filho de dez anos, que não simpatiza nada com a intromissão desses dois estranhos na sua casa, dele tomando parte de seus privilégios de filho único. Os afetivos e os físicos.

Haruna não esquece os pais um só segundo e, na sua dor, não se adapta ao novo lar e à nova escola. Introvertida, fala pouco e esconde o seu desespero o quanto pode. Mas o que pode uma criança de doze anos? O pequeno Shota, por sua vez, sem saber que os pais estão mortos, pergunta sempre à irmã quando eles voltam, e, no aguardo, se diverte como pode no novo lar.

Com o passar dos dias, vários incidentes sugerem a insustentabilidade da situação. Um repentino e inexplicável surto da sempre quieta Haruna, que assusta a tia bondosa, é um deles.

Mas, um dos mais sintomáticos ocorre no dia em que o primo vê a mãe vestindo o intruso Shota com o seu pijama. Protesta, hostil; a mãe revida no mesmo tom de voz, e o pai, com igual violência, critica a esposa, a qual revida agora contra o marido: a crise dentro de casa está dada, e não dá mais para esconder de ninguém, muito menos dos adotados, que a adoção é problemática.

Finalmente Haruna e Shota fogem da casa dos seus benfeitores.

Sem rumo, vagueiam pelas ruas e estradas por muito tempo, até que, cansados, vão dar na praia, onde um mar belo e indiferente os contempla.

Fitando uma foto dos pais, tirada da bolsa, Haruna lhes pede perdão por não ter sido capaz de salvá-los, mas nisso, um vento forte lhe arranca a foto das mãos e a lança nas águas convulsas do mar. Nesse momento, um demorado plano com a câmera submersa ilude o espectador com ideia de suicídio (a menina teria se jogado ao mar?), ideia só desfeita no próximo plano em que se vêem as duas crianças na mesma pose de contemplação estática do mar.

Duas crianças perdidas e o mar.

Nesse ponto de impasse é que Haruna literalmente desaba e, em pranto incontrolável que a faz dobrar o corpo até o chão, pede perdão, desta vez ao irmão pequeno, por não lhe haver dito deste o início a verdade: que os pais deles estavam mortos.

O filme termina algum tempo depois dessa cena dramática, as duas crianças sentadas na areia da praia, sempre fitando o mar infinito, agora silentes e imóveis.

Imóveis, não fosse o gesto do garoto de oferecer à irmã uma florzinha branca que ele, havia pouco, tinha colhido na rala vegetação do areal ao redor. Fim.

Mazakazu Sugita, o diretor, é um novato no ramo, mas por esse começo, já se pode dizer que promete. Sua capacidade de síntese narrativa, com tomadas longas e breves se intercalando, escondendo uma emoção sempre ´à flor da tela´, funciona muito bem, e seu jeito de arrancar interpretação de dois atores infantis merece aplausos.

Findo o filme, fiquei pensando em quais poderiam ter sido suas influências, se é que as houve: para citar os grandes nomes do cinema japonês do passado: nada das fantasias de um Kenji Mizoguchi, nem da eloquência de um Akira Kurosawa. Mas, com certeza, muito da lentidão filosófica de um Yasujiro Ozu.

Sim, claro, o desenlace aberto e irresoluto diante do mar, é uma homenagem óbvia a um certo cineasta francês: o François Truffaut de “Os incompreendidos” (1959), não tenha dúvidas.

No dia 12 de outubro passado, apresentei aos amigos do Facebook uma lista de 12 grandes filmes que, na história do cinema, tiveram crianças como protagonistas. Este “O desejo da minha alma” é um forte candidato a qualquer lista com esta temática.

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O assalto ao trem pagador

29 maio

Como esperado, o Canal Brasil está fazendo uma homenagem ao cineasta recém falecido Roberto Farias (1932-2018) e esta semana pude rever o seu filme de que mais gosto: “O assalto ao trem pagador” (1962).

Aliás, este não é só o filme dele de que mais gosto. É também um dos filmes do Cinema Novo de que mais gosto. Sem o peso ideologizante dos demais, “O assalto” conta uma estória empolgante e o faz de modo a atrair e prender o espectador. Sem abrir mão da qualidade, o cineasta pensa no público pagante e não se envergonha de querer atrair bilheteria. E sabe-se que atraiu.

Baseado nos fatos reais, o filme tem a estrutura de um “filme de roubo”, mas só até certo ponto. Ao contrário de clássicos do gênero, como os americanos “O segredo das jóias”, “O grande golpe” ou “Homens em fúria”, começa in media res e sua primeira cena já é o assalto acontecendo, sem que o espectador tenha tido acesso ao surgimento da ideia e seu planejamento.

A rigor, o filme é sobre as consequências do assalto e a forma como elas acentuam as diferenças sociais entre os envolvidos – de um lado, os favelados, do outro, os residentes da Zona Sul. Encabeçando esta dicotomia estão Tião Medonho (Eliezer Gomes), o chefe da gangue no morro, e Grilo Peru (Reginaldo Faria), o mentor do projeto, rapaz branco, bonitão e de olhos azuis, que não é rico mas mora na Zona Sul.

Feita a partilha do dinheiro do assalto, fica decidido que cada um só poderá gastar dez por cento de sua parte, e um ameaçador Tião deixa claro que os infratores dessa lei interna serão punidos com execução sumária. Mas que nada! Grilo, que não tem perfil de favelado, e, portanto, pensa não estar sujeito a tal lei interna, logo começa a esbanjar grana, comprando roupa, sapatos e carro novo. Não dá outra, Tião vem a saber e o inevitável acontece. A cena do confronto é uma das mais fortes do filme e uma das inesquecíveis do cinema brasileiro. “Eu posso gastar porque sou branco de olhos azuis; e você Tião, você é feio, você é um macaco” grita Grilo, já todo amarrado para a devida execução. “Joga o corpo dele no rio, pros peixes comer os olhos azuis dele”, ordena Tião, depois de disparar várias vezes.

As consequências do assalto também acentuam diferenças pessoais, psicológicas, não apenas as sociais. Tião é forte, seguro e age conforme o planejado, porém, nem todo mundo é Tião. Mesmo no espaço da favela, uns vão gastar além do permitido, e outros não saberão guardar o segredo obrigatório. Sem se falar nas companheiras, umas aprovando o assalto, outras, reprovando e sugerindo dar fim à grana maldita, que vai trazer a polícia e a prisão. Os casos são diferentes, mas, em cada um deles os corolários serão drásticos e Tião será o punidor implacável que prometera. Isso, até a polícia desconfiar de tudo, e, claro, para a desconfiança virar certeza, vai aparecer a figura de um Judas, o delator.

Perseguido, ferido, e finalmente capturado, Tião é conduzido a um hospital onde, agonizante, roga à esposa que não revele o esconderijo onde colocara a sua parte do dinheiro roubado, uma herança para os três filhos pequenos. Zulmira promete, porém, no dia em que os policiais revistam a sua casa, derrubando e quebrando tudo em sua volta, num barulho infernal, ela não resiste… e neste momento, vamos ter mais uma cena forte e inesquecível. Tomando de um machado, ela, em pranto incontido, destrói a porta do pobre guarda-roupa, deixando à vista os pacotes de dinheiro que dariam, no futuro, a educação de seus filhos.

Eu tinha visto “O assalto ao trem pagador” na sua estreia local, e agora, que o revejo depois de tanto tempo, fico feliz em constatar que a boa impressão guardada perdura. Tudo bem, ele tem lá os seus defeitos, aliás, bem típicos da época, sobretudo os relativos à direção de atores. Um deles é a representação caricaturesca das crianças do morro, sempre ajuntadas e sempre frenéticas e barulhentas (mesmo em casa), azucrinando os adultos como aves de rapina em bando – um estereótipo manjado e desagradável. O outro está na dicção dos atores, artificial quando pronunciam qualquer palavra terminada em /r/, como “senhor” ou “pagador”, e o fazem com aquele fonema rolado, do tipo ´português para turista ouvir´. Acho que uma herança das canções da primeira metade do século XX, que, graças a Deus a Bossa Nova corrigiu.

No livro “Cem melhores filmes brasileiros” (Letramento, 2016) a ABRACCINE (Associação brasileira de críticos cinematográficos) coloca “O assalto ao trem pagador” entre os vinte melhores filmes nacionais de todos os tempos. O que endosso com esta matéria.

O rebelde no campo de centeio

13 mar

Acabo de assistir ao filme “O rebelde no campo de centeio” (“Rebel in the rye”, 2017) e fico pensando o que J. D. Salinger, se vivo fosse, dele diria. Ele que abominava Hollywood e que se negou, até o fim da vida, a autorizar a filmagem de seu genial e consagrado romance “O apanhador no campo de centeio” (1951). E as propostas vieram de cineastas sérios, como Elia Kazan e Billy Wilder…

Baseado no livro “J. D. Salinger – a life raised high”, do escritor Kenneth Slawenski, o filme em questão reconta a vida de Salinger, começando pela juventude quando, expulso das escolas, vivia rabiscando seus primeiros contos e recebendo um ´não´ atrás do outro, das editoras. Ou dizendo ´não´ ele mesmo, quando um conto seu era aceito na condição de que operasse modificações no texto.

Um papel (vários sentidos) importante nessa querela com editores teve, para ele, o professor de Escrita Criativa e amigo de vida inteira, Whit Burnett, que logo cedo percebeu o seu talento literário e lhe deu a sugestão mais fundamental de todas: a de transformar Holden Caulfield, de personagem de conto, em protagonista de um romance. Sugestão que Salinger tardou a acatar, mas, por sorte, o fez. Com seu espírito rebelde e intransigente e sua língua ferina, Salinger passou a vida brigando com Burnett e não só com ele. O pai, por exemplo, que o queria como “rei do toucinho” (leia-se: comerciante de carne de porco) foi um dos seus rivais eternos.

Dois núcleos dramáticos são decisivos na sua vida atormentada: (1) o caso com a jovem Oona O´Neill (filha do dramaturgo Eugene) que lhe jura eterno amor e, enquanto ele se arrasta nos campos de batalha da II guerra, foge para Hollywood e casa-se escandalosamente com o mito do cinema Charles Chaplin. (2) a sua participação como soldado na guerra quando, segundo ele mesmo confessa, concebe, na Normandia, entre uma explosão e outra, o grosso de “O apanhador”.

No retorno da guerra, vêm duas coisas mais ou menos simultâneas: a neurose, que quase o leva à loucura, e a redação definitiva de “O apanhador” – este um imediato sucesso de crítica e público que o torna, do dia para a noite, uma celebridade e – por causa disso mesmo – um anacoreta que vai se isolar em uma sítio ermo de New Hampshire até o fim da vida.

Dirigido pelo jovem e novato Danny Strong, com Nicholas Hoult no papel título e Kevin Spacey como Whit Burnett, o filme não fica muito acima da média, e talvez nem a alcance. Mas, de todo jeito, ao menos para o leitor e admirador de Salinger, como eu, é atrativo.

Sem surpresa, muito da curtição do filme, e mesmo da sua compreensão, depende do romance de Salinger. Com efeito, algumas cenas ou imagens ficam fora da diegese, se o espectador não leu “O apanhador no campo de centeio”, ou se não o lembra. Dando exemplos ao acaso, o diálogo que precede o assalto de que Salinger é vítima, no Central Park, é um tópico chave no romance que, aqui, fica fora do eixo temático. Refiro-me ao questionamento sobre o paradeiro dos patos que vivem no lago, quando, no inverno, o lago congela. Outro caso bem típico é a recorrente imagem do carrossel, um elemento de rica digressão no romance, no filme sem razão narrativa aparente.

De qualquer forma, a temática central, digo, a da vida e da obra de Salinger, faz-se presente: o seu encanto com a inocência e, corolário inevitável, a sua preocupação pelo seu resguardo, expresso no título mesmo do romance, e explicado no livro e no filme. Resguardo que desaparece quando chega a vida adulta e Holden Caulfield, então, não pode fazer mais nada pelas crianças que, distraídas, brincam no campo de centeio, bem próximas ao precipício que, sem um “apanhador” vai engoli-las. Bela imagem, uma das mais belas da arte do Século XX.

Com exceção de um pequeno livrinho sem grande peso, “Franny & Zooey”, publicado em 1961, J. D. Salinger nunca mais escreveu, nem publicou nada. Isolado no meio da floresta de Cornish, New Hampshire, faleceu, em 2010, aos 91 anos de idade. Até então “O apanhador”, traduzido para trinta línguas, já havia vendido 65 milhões de cópias, e ainda hoje, a cada ano, vende mais 250 mil.

Se porventura o leitor/espectador é fã de Salinger como sou, tomo a liberdade de recomendar duas outras matérias que escrevi sobre ele e sua obra, publicadas alhures, mas desde então disponíveis neste blogue, que são: “Atravessando o campo de centeio” e “Adaptação indevida”.

Os óculos de Mr. Godard

31 out

O autor de “Acossado”, como se sabe, detesta a ideia de cinema como entretenimento. Pois fui ver este “O formidável” (Michel Hazanavicius, 2017) e me entretive um bocado.

Qual a relação? É que o filme é sobre ele, sim, sobre Jean-Luc Godard. Ou ao menos sobre uma fase da sua vida, aquela que ficou entre as filmagens finais de “A chinesa” e o seu próximo projeto de cinema; no meio disso, toda a sua acalorada participação no Maio de 68, ao lado da então jovem esposa e atriz, a bela Anne Wiazemsky.

Na saída do cinema, algumas pessoas me perguntaram se gostei, e tive vontade de responder com uma boutade godardiana: “o que interessa não é se gostei, mas se Godard gostou”. Pois leio agora que Godard teria dito do filme ser “uma ideia estúpida”. E, claro, é fácil entender por quê. O filme é baseado no livro “Um ano depois” de Anne Wiazemsky, e nele desponta, com franqueza desconcertante, a figura irreverente, polêmica, controversa, que foi – ou é – o cineasta de “O desprezo”, sua quixotesca busca do novo, sua nunca resolvida mistura de arte e política, seu gênio, mas também suas contradições e sua crise pessoal.

Godard, em pleno Maio de 68

Acho que o ponto alto do filme é o humor, e calculo que deve ter sido isto mesmo que mais desagradou ao cineasta, retratado numa época em que, visivelmente, perdera o dom de rir. Sobretudo de si mesmo.

Para começo de conversa, o título do filme (em francês “Le redoutable”) é referência a um suposto submarino da época que navegaria em autogestão, aparentemente, como Godard queria seus filmes. Depois de ouvirmos no rádio o noticiário sobre o tal submarino, ele e Anne vão estar repetindo o refrão “e assim segue a vida no “Formidável”. Claro que o título passa a valer para o próprio Godard, no caso da intitulação brasileira, com a vantagem de acionar os dois sentidos opostos da palavra: (1) temível (2) admirável.

Ainda na linha do humor, prestem atenção às muitas vezes em que os óculos do protagonista se quebram, caindo no chão em correrias e sendo pisado por pés alheios. Claro, os óculos são uma metonímia da visão de seu portador, essa ´visão´ (vários sentidos) que parece estar confusa para todos em torno dele e, pior, para ele mesmo.

Os atores Louis Garrel e Stacy Martin

O irônico uso da música “Quando calienta el sol” na cena em que o mal humorado cineasta é obrigado a hospedar-se na casa de praia de um inimigo figadal, enquanto a esposa, e os outros hóspedes se divertem com as belezas litorâneas… é um caso a citar.

A sequência da viagem de 800 kms entre Cannes e Paris, é quase exemplar: imprensados num carro alheio, oito pessoas são obrigadas a ouvir as ferinas opiniões de um amargo e antissocial Godard, não apenas sobre cinema, mas sobre elas mesmas. Em momentos assim, Godard esquece seus princípios ´democráticos´, aprendidos no livro vermelho de Mao Tse Tung e chama o humilde dono do carro que, está, aliás, fornecendo a carona, de “iletrado e burro”.

Mas esta é apenas uma das muitas farpas do cineasta. Nas ruas de Paris, em dias normais ou durante as revoltas de Maio, as suas agressões aos fãs são hilárias, para não dizer destrutivas. Lembrem a cruel resposta que recebe aquele rapaz, entusiasta estudioso de cinema, que está escrevendo tese de doutorado sobre a obra de Godard… e que é descartado como um idiota e um inútil.

Garrel encarna Godard, e o faz muito bem.

O cúmulo de seus posicionamentos controversos pode ter sido aquele em que, numa assembleia estudantil, afirma peremptoriamente que “os judeus são os nazistas de hoje”…

Não resta dúvida de que temos um Godard em crise, ideológica e existencial, irresoluto na comunhão entre arte e política. Obviamente essa crise se estende ao plano amoroso e desestabiliza a relação entre ele e Anne. E o filme se fecha com a separação… ou a promessa dela.

Godard é aquele tipo de cineasta que se ama ou se odeia. Assim, não sei qual vai ser a reação dos cinéfilos a “O formidável”, mas, uma coisa suponho que seja consensual: o filme de Hazanavicius é bem feito, primoroso na reconstituição da época, e sofisticado no desenvolvimento do roteiro e construção dos personagens. Sua narração saudavelmente “imita” o estilo Godard, e muitos outros recursos expressivos o homenageiam. Eu por exemplo, adorei aquela longa cena em que o casal conversa sobre problemas pessoais, enquanto, numa sala de cinema, assistem ao belo “O martírio de Joana D´Arc” de Dreyer (1928), a gente sabe, um dos clássicos amados pelo cinéfilo que um dia foi Jean-Luc Godard.

Em momentos assim, esquecido da iconoclastia godardiana, o filme parece nos dizer: questões pessoais são pequenas, o que fica é a arte.

A bela Stacy Martin, como Anne Wiazemsky.

Falando de “Se meu apartamento falasse”

26 mar

 

Não sei dizer ao certo quantas vezes vi “Se meu apartamento falasse” (“The apartment”, Billy Wilder, 1960), mas sei que toda vez que o revejo, ou falo dele, o faço com uma pitada de melancolia. É um dos filmes mais importantes do Século XX, e, pessoalmente, está entre os meus dez mais amados.

Ainda hoje recordo sua estreia em João Pessoa, começo dos anos sessenta, no extinto Cine Rex. Aliás, antes disso, lembro-me do trailer, fazendo ênfase nos cinco Oscars que ganhara, e, mostrando aquela cena em que Jack Lemmon, sozinho no seu apartamento de solteiro, vê televisão, aborrecido, mudando de canal o tempo todo porque a tv só mostrava faroeste, hoje a gente sabe, gênero detestado por Billy Wilder que, irônico, dizia ter medo de cavalos.

Mas, a impressão de melancolia não é apenas pessoal. Ela também é histórica.

Shirley MacLaine e Jack Lemmon no filme de Billy Wilder.

Sim, “Se meu apartamento falasse” representa o fim de uma época dourada, aquela do chamado cinema clássico americano, que os historiadores colocam nas três décadas, de trinta, quarenta e cinquenta. Estreou em 60, mas na década em que estreou, Hollywood já não seria mais a mesma. Os estúdios se esfacelavam e a produção caía vertiginosamente, em quantidade e qualidade. Mais tarde, começo dos anos setenta, Hollywood ressurgiria das cinzas, mas não mais a mesma. Bem mais explícita, bem mais mórbida, bem mais escatológica, a Hollywood renascida vinha para chocar o espectador clássico.

Vejam que o filme de Wilder é a estória de um sujeito que cede seu apartamento para fins escusos, como se um motel fosse, ou mesmo um bordel, e, contudo, não há, em todo o filme, uma só cena explícita, nenhuma coxa à mostra, nenhum seio, sequer um beijo, nada.

O Código Hays de Censura vigorou até 64, mas, não é por causa dele que o filme é inexplícito. Em 1960, o Código já estava caduco, quando a gente lembra, por exemplo, o escandaloso beijo com pouca roupa, nas areias da praia, entre Burt Lancaster e Deborah Kerr, no filme de Fred Zinnemann “A um passo da eternidade”, e isto em 1953. O próprio Wilder já fora suficientemente malicioso dois anos atrás, em “Quanto mais quente melhor”, vestindo marmanjos com roupa de mulher e findando o filme com uma frase mais que picante, que, tanto tempo atrás, já sugeriria a alternativa do casamento gay: “Ninguém é perfeito”.

Embora nessa empresa em que o protagonista trabalha, todo mundo transe com todo mundo, “Se meu apartamento falasse” não tem cenas explícitas, e não tem porque Billy Wilder não quis, e pronto.

Para ficarmos mais à vontade na análise do filme, façamos uma breve e parcial reconstituição de seu enredo.

C. C. Baxter subindo de posição na Empresa de Seguros.

O filme conta a estória de C. C. Baxter (Jack Lemmon), esse funcionário de uma grande Companhia de Seguros nova-iorquina, que vem tendo ascensão funcional de modo pouco convencional. Com fins escusos, seu apartamento vem sendo usado, à noite, por altos funcionários da Companhia, que “pagam” o uso com generosas promoções ao funcionário. Pois Baxter termina sendo chamado à direção geral, não para ser admoestado ou coisa parecida, mas porque o Chefão de todos, o Sr Sheldrake (Fred MacMurray) quer entrar no jogo. E qual não é a surpresa de Baxter, já devidamente promovido a Executivo Assistente, no dia em que descobre que a amante do Chefão é a simplória ascensorista do prédio, a Srta Fran Kubelik (Shirley Maclaine) por quem ele tem uma queda que dá na vista. Mas, ora, Sheldrake é casado e Fran está apaixonada… O complicado caso entre os dois vai dar em tentativa de suicídio, que, para o azar de Baxter, acontecerá, onde? Sim, no seu apartamento… Esticando uma farra de Ano Novo com uma companheira casual, de repente Baxter vai deparar-se com um corpo inerte em sua cama, e mais grave, o corpo da mulher que ama.

A temática em “Se meu apartamento falasse” é recorrente na filmografia de Wilder, a crítica ao ´american way of life´: de um lado, a busca da ascensão social, e do outro, a ética, o confronto gerando a crise. Como outros tantos personagens em outros filmes de Wilder, esse empregado da Companhia de Seguros busca – ou “aceita” – promoções até o momento em que o sucesso profissional fere os seus princípios morais. Nesse momento ele muda, e, para usar termos da teoria narrativa, passa a ser um “personagem redondo”, aquele que se transforma no decorrer da fabulação. Nisso ele faz contraste com todos os outros personagens (exceção para Fran Kubelic), que continuam iguais a si mesmos até o último fotograma.

É um filme sobre aprendizado, na acepção ontológica da palavra – em outros termos, sobre a aquisição do auto-conhecimento. Esse auto-conhecimento ocorre a Baxter de modo epifânico naquele momento em que entra em crise, ao dar-se conta de que o preço a pagar pelo sucesso profissional não compensa do ponto de vista emocional. Transformado, já havendo recusado entregar ao Chefe a chave do seu apartamento, ele lembra e usa uma palavra que o seu vizinho, o Dr Dreyfuss – que cuidara da suicida Fran Kubelic – lhe jogara na cara: “Mensch”, e esse termo, que em alemão significa ´humano´, é o que ele pretende ser de agora em diante: desempregado, solitário, sem planos futuros, mas humano. De alguma forma a palavra “Mensch” contém, se vocês quiserem, a mensagem do filme.

Para uma análise mais atenta, gostaria de me debruçar sobre a estrutura narrativa do filme, no caso, destacando três turning points particularmente importantes. E destaco-os não apenas por serem momentos de mudança no enredo, mas porque consistem em instâncias em que o icônico fala mais que o verbal, como deve ser no cinema. A eles dou os nomes de: (1) uma cédula de cem dólares; (2) espelho quebrado; e (3) a chave errada.

Aquele primeiro ocorre no momento – Noite de Natal – em que a jovem ascensorista Fran Kubelic fora deixada sozinha pelo amante nesse apartamento, dela desconhecido. Sem ter tido tempo – ou disposição – de comprar presentes, o amante, antes de ir embora, para o seio da família, lhe dera uma nota de cem dólares. Ela, naturalmente, se sentira ofendida. Neste instante a que me refiro, a vemos no banheiro do apartamento, desiludida e depressiva, quando divisa, no armário, um frasco de soníferos. Segura o frasco, pensativa, e o devolve à prateleira. Em seguida, abre a bolsa para tirar o batom e o que vê? A nota de cem dólares. Aí, sim, pega de volta o frasco de soníferos… e espectador já advinha o que vai acontecer. E acontece. Notar que não há, em toda a cena, uma só palavra enunciada, e, no entanto, tudo é extremamente eloquente.

A Srta Fran Kubilic e seu drama de amor…

O segundo turning point que destaco ocorre na nova sala de trabalho do laborioso Baxter, recém promovido a executivo assistente. Ele comprara um chapéu novo, cabível com o novo posto, e pergunta a Sra Kubelic se está bem. Ela lhe entrega o seu espelho, para que ele se veja, e é nesse momento que o ingênuo Baxter descobre que a amante do Chefão é ela, a moça com quem pensava que paquerava. Ocorre que ele já vira aquele espelho, uma vez esquecido no seu apartamento e devolvido pelo próprio Chefe. Reconhece-o porque esse espelho está quebrado. Observem que, se há palavras trocadas entre os dois personagens, nada na cena, tem a força da imagem do espelho quebrado, mostrado em close.

A terceira mudança no enredo que menciono é o momento mesmo em que Baxter toma a decisão mais fatal: demitir-se. Agora divorciado, o Chefão quer retomar o caso com a Srta Kubelic e, chamando Baxter a sua sala, lhe pede, de novo, a chave do seu apartamento. Este parece aceder, lhe entregando uma cópia de chave e se retirando para o compartimento vizinho. O Chefão vai atrás, lhe dizendo que ele lhe dera a chave errada, a do banheiro dos executivos, e não a do apartamento… e Baxter responde, decidido, que lhe dera a chave certa – a do banheiro mesmo. Considerem que, embora a chave seja um objeto pequeno, é em torno dela que a cena gira, e é ela, a chave, que determina os movimentos físicos dos personagens.

Por outro lado, as palavras também são decisivas em “Se meu apartamento falasse”. Já citei o caso de “Mensch”, mas há uma expressão, pronunciada duas vezes, que não pode deixar de ser mencionada. Trata-se de uma expressão idiomática que perde o seu sabor metafórico na tradução para o português, aquela que se lê nas legendas. Em certo momento da conversa entre a Srta Kubelic e Baxter (pós tentativa de suicídio), ela se indaga por que é que não se apaixonou por um cara legal como ele. E ele, sem saber o que responder, comenta apenas que: “That´s the way it crumbles: cookiewise”. Como o pronome “it” não existe em português, uma tradução possível seria, mais ou menos: “É assim que a coisa se esfacela: feito biscoito”. A ideia é que ´a vida é assim mesmo´ (como está na legenda brasileira), só que a força da construção linguística é muito maior no original, o que fará com que a expressão – junto com a sua circunstância – seja lembrada pelo espectador na ocasião (quase final do filme) em que ela for repetida, desta feita, pela própria Srta Kubelic.

“That´s the way it crumbles: cookiewise”

Sim, em plena comemoração de Ano Novo, quando vem a saber, da boca do Sr Sheldrake, que Baxter pedira demissão por causa dela, a Srta Kubelic repete a expressão e, indagada pelo amante sobre o sentido da frase, alega apenas que lhe diria se soubesse soletrar, mas não sabe. Vejam bem: se a chave errada fora o turning point pessoal de Baxter, este agora é o da Srta Kubelic que, vocês lembram, corre desabalada pelas ruas em direção ao apartamento de Baxter onde os dois, sentados ao meio da mobília desarrumada para a mudança, vão jogar baralho.

“Eu simplesmente a adoro, Srta Kubelic” lhe confessa ele, emocionado. E ela, bem serena: “Cale a boca, e jogue”.

Final perfeito.

Uma curiosidade sobre o filme de Billy Wilder que cabe referir tem a ver com sua trilha sonora. Quatro músicas compõem essa trilha, sendo uma delas, brasileira. A principal é a música romântica que acompanha a personagem da Srta Kubelic, tanto no seu caso confuso com o Sr Sheldrake, como, no desenlace, com Baxter. Uma segunda música pode ser chamada de ´marcha do trabalho´, tocada toda vez que se sugere o suposto ímpeto de ascensão funcional de Baxter. Uma outra, também pertinente a Baxter, tem tom melancólico, e o pega sempre solitário, em casa ou na rua. Finalmente, há essa trilha erótica, quase obscena, executada para indiciar as aventuras sexuais dos muitos furtivos visitantes do apartamento de Baxter. Pois, sem registro nos créditos do filme, essa quarta composição é, na verdade, a orquestração da canção de nome “Madalena”, dos compositores brasileiros Airton Amorim e Ari Macedo, sucesso do carnaval de 1951, cantada por Linda Batista, cuja primeira estrofe dizia assim: “Amar como eu amei / Ninguém deve amar / Chorar como eu chorei / Ninguém deve chorar / Chorava que dava pena / Por amor a Madalena…”

Só não me perguntem como foi que a canção brasileira foi desaguar no filme de Billy Wilder, que não sei…

Em tempo: esta matéria é dedicada a Hildeberto Barbosa Filho.

Página desta matéria, como publicada no Correio das Artes, em 26 de março de 2017.

 

Chocolate

17 jun

 

Mais uma vez o público pessoense tem a oportunidade de assistir ao Festival Varilux de Cinema Francês, com a exibição alternada, nos cinemas do Mag Shopping, de 16 produções de boa qualidade.

A abertura do Festival deu-se com a pré-estreia de “Chocolate” (2016), excelente realização do cineasta Roschdy Zem, sobre o primeiro palhaço negro na França.

Na verdade, estamos na França da Belle Époque, onde e quando tudo tinha aparência de festa. As feiras livres e os circos eram as grandes diversões populares; o cinema estava nascendo e o teatro era coisa de gente abastada e culta.

Chocolat_Omar Sy

É nesse contexto que surge Chocolate, que vinha de um circo do Interior onde fazia o papel de um canibal assustador, e foi resgatado pelo palhaço Footit, com quem passou a fazer dupla, de tanto sucesso que não demorou para serem, os dois, contratados pela maior Companhia circense de Paris.

Um negro fazendo sucesso na Paris do início do Século Vinte? É claro que isso vai ter um preço a ser pago, e é esse preço o que, com talento e aisance, nos mostra o filme de Zem.

A prisão de Chocolate em pleno sucesso, denunciado por desafetos como imigrante sem documentos, é um turning point importante na estória, porém, antes disso, o drama já se configurava.

Esse drama já estava nas próprias performances da dupla Chocolate/Footit, sempre com vantagens óbvias para este segundo, Chocolate sempre na condição inferior de ´escada´; em outros termos, na condição de negro que faz o público branco rir de sua suposta burrice e ignorância. Com o tempo, o palhaço negro começa a se sentir injustiçado, o que é reforçado pelos conselhos politizados de um seu ex-companheiro de cela, e claro, pelas suas lembranças de semi-escravo na sua África de origem, quando via o pai, empregado de mansão rica, ser humilhado pelos residentes brancos.

Chocotat e Footit, no picadeiro.

Chocotat e Footit, no picadeiro.

Para o protagonista e para nós, uma cena perturbadora é aquela da visita à Exposição Colonial, em que o famoso Chocolate, muito bem vestido e acompanhado de sua namorada branca, depara-se com a representação dos territórios franceses em solo africano e  é violentamente admoestado por um conterrâneo, em língua nativa, que não entendemos, mas, dos gestos e do olhar, deduzimos o seu grau de acusação agressiva.

Complexo de inferioridade, insegurança, revolta, dilema interior, crise existencial e ideológica, alcoolismo, jogo de azar, empréstimos a agiotas, etc, vão minando o equilíbrio de Chocolate, até a completa decadência, física e moral.

Seu sonho de superar-se e tornar-se um grande artista no palco desmorona quando, tendo sido aceito para fazer o “Otelo” de Shakespeare, decide abandonar o picadeiro, e é, apesar do bom desempenho, estrondosamente vaiado no palco pela intelligentsia parisiense.

O ator Omar Sy, de Chocolat a Otelo...

O ator Omar Sy, de Chocolat a Otelo…

O filme se prende aos fatos reais, e nisso a recriação da época é perfeita. Por exemplo, sua última imagem é a de um filmezinho rodado pelos irmãos Lumière, mostrando as peripécias da dupla Chocolate e Footit, os verdadeiros. Pois antes disso, essas filmagens foram reconstituídas, e o espectador pôde assistir ao momento em que os Lumière as produziram, com o seu precário e barulhento cinematógrafo. Para quem não lembra os irmãos Lumière são os inventores do cinema.

Acho que posso dizer que, até a primeira metade, o filme não parece prometer tanto, porém, cresce consideravelmente quando a situação do protagonista vai mudando, de vedete ascendente para uma figura malsinada, condenada pelas circunstâncias à tragédia, assim como o Otelo que, no final interpreta.

Num filme em que a pantomima tem tanta importância, e mais que isso, é decisiva, um ponto alto é, com certeza, o elenco. Chocolate é muito bem feito pelo ator negro Omar Sy, sim, aquele mesmo que sempre tem aberto o Festival Varilux em João Pessoa, primeiro – vocês lembram – como o enfermeiro improvisado de “Intocáveis” e depois como imigrante de “Samba”.

Os reais Chocolat e Footit, filmados pelos irmãos Lumière.

Os reais Chocolat e Footit, filmados pelos irmãos Lumière.

Já o seu parceiro Footit é interpretado pelo grande ator James Thierrée, aliás, neto de Charles Chaplin, e incrivelmente parecido com o avô, sobretudo o Chaplin mais maduro de “Mr Verdoux” e “Luzes da ribalta”.

Enfim, “Chocolate” é um bom exemplo de qualidade do cinema francês atual, infelizmente tão mal conhecido do público brasileiro. Nesse sentido, o Festival Varilux é, como já disse, uma chance rara, que só nos resta aproveitar. O Festival acontece, simultaneamente, em 52 cidade brasileiras, e João Pessoa tem a sorte de ser uma delas. Vamos lá, dar uma espiada, pois a programação se estende até o dia 22 deste mês.

E não esquecer: sábado, dia 18, às 18:45 horas, o clássico de Claude Lelouch “Um homem e uma mulher” (“Um homme et une femme”, 1966), para reviver os anos sessenta…

Carol

20 jan

Com seis indicações ao Oscar, está em cartaz na cidade e no mundo “Carol” (2015), filme de Todd Haynes, com Cate Blanchett no papel-título.

O filme é baseado em livro de 1952 de Patricia Highsmith, mas vamos por etapas. No comecinho dos anos cinquenta a jovem escritora Patricia Highsmith ainda era uma ilustre desconhecida. O seu romance de estreia  “Strangers on a train” (´Estranhos em um trem´, 1950)) mal fora notado pela crítica e pelo público. Esse anonimato, porém, não durou muito. É que no ano seguinte, essa estória de crimes trocados foi filmada por ninguém menos que Alfred Hitchcock. Pronto: a fama estava feita. A partir daí, Highsmith tornou-se uma das escritoras mais lidas nos Estados Unidos, com direito a entrevistas à imprensa e palestras universitárias. Hitchcock apenas abriu o caminho, pois, os estúdios ficaram de olho nos escritos de Highsmith e, com o passar do tempo, muitos de seus livros foram à tela, alguns até mais de uma vez, como é o caso de “The talented Mr Ripley”, que deu o filme de René Clément “O sol por testemunha” (1960) e o de Anthony Minghella “O talentoso Mr Ripley (1999).

Tudo começou numa loja de departamento

Tudo começou numa loja de departamento

Houve, contudo, um livro seu que ninguém quis filmar. Pelo menos, por muito tempo. Publicado em 1952, chamava-se “The price of salt” (ao pé da letra: ´o preço do sal´) e, diferente dos outros, não tratava de crimes perfeitos. Ao contrário, era uma forte estória de amor, para a época, nada convencional. Semi-autobiográfico e assinado com o pseudônimo de Claire Morgan, o livro narrava o relacionamento amoroso entre uma jovem atendente de loja de departamento em Nova Iorque, e uma senhora de meia idade, classe média alta, que, com uma filha pequena e um marido possessivo, vivia um casamento infeliz. Provavelmente por causa da temática lésbica, o livro hibernou com a pecha de ´infilmável´, mesmo depois da abolição da censura. E certamente ainda estaria hibernando, se o cineasta Todd Haynes não lhe tivesse posto os olhos.

Na bem cuidada adaptação de Haynes, o caso de amor entre a jovem Therese (Rooney Mara) e a elegante senhora Carol (Cate Blanchett) é descrito com delicadeza e sem muito apelo sexual. Concebida com bom gosto, a única ´cena de cama´ com as duas mulheres é mais poética que erótica, e as duas atrizes, nela e no filme inteiro, dão desempenhos convincentes e tocantes. Nos anos cinquenta, o romance de Highsmith foi considerado muito ousado, não apenas pela temática, mas, principalmente pelo seu final feliz, que parecia aplaudir a relação lésbica, atitude então inconcebível. Com a tranquilidade (?) de hoje em dia, depois de todos os movimentos LGBT, o filme segue a felicidade do final literário, o que, na sessão em que assisti, arrancou aplausos da platéia.

Mulheres apaixonadas nos anos cinquenta

Mulheres apaixonadas nos anos cinquenta

A rigor, não há um grande enredo, ou enfoque original, que justifique algum destaque especial para o filme de Haynes, porém, há qualidades inegáveis que fazem parte do estilo do diretor. Uma delas é a reconstituição de época, em que Haynes é sempre bom, sobretudo, quando a época são os anos cinquenta. Lembram de “Longe do paraíso” (2002), onde ele refilma o “Tudo o que o céu permite” de Douglas Sirk? Em “Carol” a reconstituição é tão perfeita que acho que nem precisava aquela ´marcação visual de tempo´ pela imagem de “Crepúsculo dos deuses” (1950), entrevisto em certo momento só para dizer que estamos nos anos cinquenta.

De minha parte, o de que mais gostei foi a discreta mas comovente homenagem a David Lean e o seu insuperável “Desencanto” (“Brief encounter”, 1946).

Uma atendente de loja com dons fotográficos.

Uma atendente de loja com dons fotográficos.

Sim, para quem tem bons olhos, “Carol” assume a estrutura narrativa do filme de Lean – começando a estória do casal apaixonado pelo final e a esse final retornando, pouco antes do filme se concluir, reencenando uma mesma situação diegética: em despedida dolorosa, em local público (restaurante), o casal desfruta dos minutos fugazes em que deveriam estar a sós nesse derradeiro instante de privacidade, e, para desolação geral, é interrompido por um amigo inconveniente que aparece do nada e destroi completamente o clima. Até o toque da mão daquele que parte (aqui Carol, em Lean, Dr Harvey) sobre o ombro daquela que fica (Therese/Laura), digo, até isso foi encenado para que o espectador cinéfilo não tivesse dúvida sobre a homenagem prestada.

A homenagem também é interessante por sugerir igualdade entre o amor hetero e o homo, mas, por ironia, “Carol” sai, inevitavelmente, perdendo em emoção no cotejo com “Desencanto”. Não é culpa de Haynes: qualquer outra estória de amor moderna perderia para o filme de Lean.

Como disse, “Carol” não é nenhum grande filme que mereça algum tipo especial de destaque, porém, ao meio da parafernália desmedida e barulhenta que assola nossas telas, merece uma espiada. Sem violência, escatologia ou efeitos especiais, é um filme ´adulto´, no sentido simples em que esta palavra é antônima de ´infantil´.

Carol: um casamento em crise

Carol: um casamento em crise