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“I HAVE A POEM”

13 nov

Filmezinho interessante este “A professora do jardim de infância” (Sara Colangelo, 2018) que acabo de assistir em DVD. Nada especial, mas acho que merece um comentário.

Na Nova Iorque de hoje, uma professora primária se entusiasma com o comportamento de um aluno de sete anos que “fala” poesia. Digo “fala” porque o garoto não escreve as belas frases que, inexplicavelmente, lhe saem da boca – ele simplesmente diz os “poemas”, sem mais nem menos, nos momentos menos previsíveis. Fascinada com essa misteriosa manifestação lírica numa criatura tão tenra e frágil, ela, a professora é que toma notas e, mais que isso, estimula o quanto pode o potencial poético do pequeno aluno.

Até aí tudo bem. O problema é que a coisa não fica por aí. Na verdade, a professora vai se tornando obsessiva com o surpreende talento do aluno – um talento que, para o espectador às vezes parece de natureza sobrenatural – e passa a ter um comportamento um tanto e quanto fora do comum.

Sendo casada e com dois filhos adolescentes, ela começa a exibir em casa uma certa atitude hostil. Dá-se bem com o marido, porém, a filha começa a lhe parecer vulgar e o filho, alienado. E essas impressões terminam aparecendo nas relações familiares e motivando conflitos.

Mesmo antes do aluno poeta, a nossa professora já frequentava um Curso de Poesia para adultos, onde os poemas que escrevia e apresentava nunca tinham boa acolhida. O que faz ela? Passa a levar para a classe os poemas do aluno, como se seus fossem, e, previsivelmente, é aplaudida por colegas e, sobretudo, pelo professor.

Com dificuldade, ela faz contato com o pai do garoto, um empresário que não vê com bons olhos esse lance de poeta na família. Mas, enfim, quanto mais objeções à poesia, mais ela se empenha em estimular o garoto e a ficar perto dele, até mesmo quando o pai o muda de escola.

No dia em que ocorre, na cidade, um evento literário com recital de poesia, ela praticamente rapta o garoto e o leva para o evento onde ele, para surpresa e encanto dos presentes, recita os seus poemas e é calorosamente aplaudido. É aí que o professor da professora descobre que sua participação no Curso de Poesia era fake – que os poemas que ela recitava não eram de sua autoria.

Estranhamente, ela não se incomoda muito com isso, e o sem sentido de seu comportamento vai crescendo, até beirar algo parecido com insanidade. Mas, vamos parar por aqui no relato do enredo.

Maggie Gyllenhaal and Parker Sevak in The Kindergarten Teacher by Sara Colangelo,

Uma coisa boa no filme é a colocação do contraste entre, de um lado, o mundo prosaico, material, vulgar da vida cotidiana, e do outro, o mundo criativo, inovador, misterioso, dos voos poéticos. Em dado momento, a professora explica ao aluno que as pessoas em geral vão tentar conduzi-lo para a materialidade e coibir seu pendor poético, e completa: “como fizeram comigo”. O que faz o espectador imaginar que nossa professora seria uma personalidade frustrada, uma poeta de nascimento, tolhida pelas circunstâncias da vida.

Se é ou não, o desempenho dado pela atriz Maggie Gyllenhaal é extremamente eficiente em nos passar o drama dessa mulher atormentada que se entrega a uma causa perdida com o heroísmo dos suicidas e, por que não, dos poetas.

E por falar em poesia, o comportamento do garoto poeta, em si mesmo, nos faz pensar nas teorias românticas e místicas que estão em Wordsworth, especialmente no seu “Intimations of immortality” em que se defende o encanto da infância como uma lembrança do paraíso onde a criança estava antes de vir ao mundo. Essa lembrança (e foi talvez o que quis explicar a professora a seu aluno) é, com o passar dos anos e com o contato com os adultos, logo cedo anulada e, na maior parte das pessoas, desaparece para sempre.

Tanto é assim que a cena que mais dói no filme é o seu último fotograma, quando o garoto, resgatado pela polícia e jogado no banco do carro, sozinho, diz o que já dissera várias vezes ao ser atacado pela inspiração: “I have a poem”. E o espectador, entristecido, deduz que este novo poema não será mais ouvido nem anotado por ninguém…

Uma crítica que li de “A professora do jardim de infância” foi que, a rigor, o comportamento da protagonista não tem lógica. Concordo, mas será que essa falta de lógica não seria um recurso expressivo, no caso, uma alegoria diegética para a própria poesia? Não sei, mas que o filme é interessante, isto lá é. E legal para se pensar o ensino de literatura no nível elementar… e, se for o caso, em quaisquer níveis.

O desejo da minha alma

23 out

Programação de cinema interessante mantém o Canal Futura, sempre diversificada e com qualidade. Esta semana o filme exibido foi o japonês “O desejo da minha alma” (2014), drama comovente sobre o desemparo infantil.

Ao menos na aparência, a história é simples. Um terremoto de alta escala devasta uma cidade japonesa e, entre as muitas vítimas, deixa duas crianças órfãs: Haruna de doze anos e Shota de apenas cinco. Sem lar e sem pais, os dois são recolhidos por uma tia, numa cidade vizinha.

O gesto caridoso é louvável, mas, como se sabe, o dia a dia em qualquer família é complicado. Sem adoção já o é, imagine com. A tia é casada e tem um filho de dez anos, que não simpatiza nada com a intromissão desses dois estranhos na sua casa, dele tomando parte de seus privilégios de filho único. Os afetivos e os físicos.

Haruna não esquece os pais um só segundo e, na sua dor, não se adapta ao novo lar e à nova escola. Introvertida, fala pouco e esconde o seu desespero o quanto pode. Mas o que pode uma criança de doze anos? O pequeno Shota, por sua vez, sem saber que os pais estão mortos, pergunta sempre à irmã quando eles voltam, e, no aguardo, se diverte como pode no novo lar.

Com o passar dos dias, vários incidentes sugerem a insustentabilidade da situação. Um repentino e inexplicável surto da sempre quieta Haruna, que assusta a tia bondosa, é um deles.

Mas, um dos mais sintomáticos ocorre no dia em que o primo vê a mãe vestindo o intruso Shota com o seu pijama. Protesta, hostil; a mãe revida no mesmo tom de voz, e o pai, com igual violência, critica a esposa, a qual revida agora contra o marido: a crise dentro de casa está dada, e não dá mais para esconder de ninguém, muito menos dos adotados, que a adoção é problemática.

Finalmente Haruna e Shota fogem da casa dos seus benfeitores.

Sem rumo, vagueiam pelas ruas e estradas por muito tempo, até que, cansados, vão dar na praia, onde um mar belo e indiferente os contempla.

Fitando uma foto dos pais, tirada da bolsa, Haruna lhes pede perdão por não ter sido capaz de salvá-los, mas nisso, um vento forte lhe arranca a foto das mãos e a lança nas águas convulsas do mar. Nesse momento, um demorado plano com a câmera submersa ilude o espectador com ideia de suicídio (a menina teria se jogado ao mar?), ideia só desfeita no próximo plano em que se vêem as duas crianças na mesma pose de contemplação estática do mar.

Duas crianças perdidas e o mar.

Nesse ponto de impasse é que Haruna literalmente desaba e, em pranto incontrolável que a faz dobrar o corpo até o chão, pede perdão, desta vez ao irmão pequeno, por não lhe haver dito deste o início a verdade: que os pais deles estavam mortos.

O filme termina algum tempo depois dessa cena dramática, as duas crianças sentadas na areia da praia, sempre fitando o mar infinito, agora silentes e imóveis.

Imóveis, não fosse o gesto do garoto de oferecer à irmã uma florzinha branca que ele, havia pouco, tinha colhido na rala vegetação do areal ao redor. Fim.

Mazakazu Sugita, o diretor, é um novato no ramo, mas por esse começo, já se pode dizer que promete. Sua capacidade de síntese narrativa, com tomadas longas e breves se intercalando, escondendo uma emoção sempre ´à flor da tela´, funciona muito bem, e seu jeito de arrancar interpretação de dois atores infantis merece aplausos.

Findo o filme, fiquei pensando em quais poderiam ter sido suas influências, se é que as houve: para citar os grandes nomes do cinema japonês do passado: nada das fantasias de um Kenji Mizoguchi, nem da eloquência de um Akira Kurosawa. Mas, com certeza, muito da lentidão filosófica de um Yasujiro Ozu.

Sim, claro, o desenlace aberto e irresoluto diante do mar, é uma homenagem óbvia a um certo cineasta francês: o François Truffaut de “Os incompreendidos” (1959), não tenha dúvidas.

No dia 12 de outubro passado, apresentei aos amigos do Facebook uma lista de 12 grandes filmes que, na história do cinema, tiveram crianças como protagonistas. Este “O desejo da minha alma” é um forte candidato a qualquer lista com esta temática.

O assalto ao trem pagador

29 maio

Como esperado, o Canal Brasil está fazendo uma homenagem ao cineasta recém falecido Roberto Farias (1932-2018) e esta semana pude rever o seu filme de que mais gosto: “O assalto ao trem pagador” (1962).

Aliás, este não é só o filme dele de que mais gosto. É também um dos filmes do Cinema Novo de que mais gosto. Sem o peso ideologizante dos demais, “O assalto” conta uma estória empolgante e o faz de modo a atrair e prender o espectador. Sem abrir mão da qualidade, o cineasta pensa no público pagante e não se envergonha de querer atrair bilheteria. E sabe-se que atraiu.

Baseado nos fatos reais, o filme tem a estrutura de um “filme de roubo”, mas só até certo ponto. Ao contrário de clássicos do gênero, como os americanos “O segredo das jóias”, “O grande golpe” ou “Homens em fúria”, começa in media res e sua primeira cena já é o assalto acontecendo, sem que o espectador tenha tido acesso ao surgimento da ideia e seu planejamento.

A rigor, o filme é sobre as consequências do assalto e a forma como elas acentuam as diferenças sociais entre os envolvidos – de um lado, os favelados, do outro, os residentes da Zona Sul. Encabeçando esta dicotomia estão Tião Medonho (Eliezer Gomes), o chefe da gangue no morro, e Grilo Peru (Reginaldo Faria), o mentor do projeto, rapaz branco, bonitão e de olhos azuis, que não é rico mas mora na Zona Sul.

Feita a partilha do dinheiro do assalto, fica decidido que cada um só poderá gastar dez por cento de sua parte, e um ameaçador Tião deixa claro que os infratores dessa lei interna serão punidos com execução sumária. Mas que nada! Grilo, que não tem perfil de favelado, e, portanto, pensa não estar sujeito a tal lei interna, logo começa a esbanjar grana, comprando roupa, sapatos e carro novo. Não dá outra, Tião vem a saber e o inevitável acontece. A cena do confronto é uma das mais fortes do filme e uma das inesquecíveis do cinema brasileiro. “Eu posso gastar porque sou branco de olhos azuis; e você Tião, você é feio, você é um macaco” grita Grilo, já todo amarrado para a devida execução. “Joga o corpo dele no rio, pros peixes comer os olhos azuis dele”, ordena Tião, depois de disparar várias vezes.

As consequências do assalto também acentuam diferenças pessoais, psicológicas, não apenas as sociais. Tião é forte, seguro e age conforme o planejado, porém, nem todo mundo é Tião. Mesmo no espaço da favela, uns vão gastar além do permitido, e outros não saberão guardar o segredo obrigatório. Sem se falar nas companheiras, umas aprovando o assalto, outras, reprovando e sugerindo dar fim à grana maldita, que vai trazer a polícia e a prisão. Os casos são diferentes, mas, em cada um deles os corolários serão drásticos e Tião será o punidor implacável que prometera. Isso, até a polícia desconfiar de tudo, e, claro, para a desconfiança virar certeza, vai aparecer a figura de um Judas, o delator.

Perseguido, ferido, e finalmente capturado, Tião é conduzido a um hospital onde, agonizante, roga à esposa que não revele o esconderijo onde colocara a sua parte do dinheiro roubado, uma herança para os três filhos pequenos. Zulmira promete, porém, no dia em que os policiais revistam a sua casa, derrubando e quebrando tudo em sua volta, num barulho infernal, ela não resiste… e neste momento, vamos ter mais uma cena forte e inesquecível. Tomando de um machado, ela, em pranto incontido, destrói a porta do pobre guarda-roupa, deixando à vista os pacotes de dinheiro que dariam, no futuro, a educação de seus filhos.

Eu tinha visto “O assalto ao trem pagador” na sua estreia local, e agora, que o revejo depois de tanto tempo, fico feliz em constatar que a boa impressão guardada perdura. Tudo bem, ele tem lá os seus defeitos, aliás, bem típicos da época, sobretudo os relativos à direção de atores. Um deles é a representação caricaturesca das crianças do morro, sempre ajuntadas e sempre frenéticas e barulhentas (mesmo em casa), azucrinando os adultos como aves de rapina em bando – um estereótipo manjado e desagradável. O outro está na dicção dos atores, artificial quando pronunciam qualquer palavra terminada em /r/, como “senhor” ou “pagador”, e o fazem com aquele fonema rolado, do tipo ´português para turista ouvir´. Acho que uma herança das canções da primeira metade do século XX, que, graças a Deus a Bossa Nova corrigiu.

No livro “Cem melhores filmes brasileiros” (Letramento, 2016) a ABRACCINE (Associação brasileira de críticos cinematográficos) coloca “O assalto ao trem pagador” entre os vinte melhores filmes nacionais de todos os tempos. O que endosso com esta matéria.