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Pipocando

17 set

Não sei se vocês conhecem esse programa sobre cinema, na televisão paga, chamado “Pipocando” – aliás, também disponível no Youtube onde, na verdade, originou-se.

A rigor, são dois jovens comentando cinema – normalmente filmes atuais, relançamentos, bastidores das produções, ou coisas temáticas do tipo cenas de ação, de amor, etc. Ou curiosidades cinematográficas, como filmes que fizeram predições sobre o futuro, filmes que conduziram a escândalos, filmes sem finais, filmes com finais alternativos, filmes estragados pelos finais, filmes com sexo de verdade, os piores filmes do ano, coisas assim.

Ficam os dois frenéticos rapazes sentados no mesmo sofá, de frente para o espectador e falam, falam, falam… enquanto mastigam uma montanha de pipoca.. Isto numa velocidade incrível, com gestos igualmente céleres, um interrompendo o outro o tempo todo. Até caretas valem, ou mímicas ridículas, imitando certas interpretações de atores. O alvoroço é tão grande que nas primeiras vezes que assisti, tive dificuldade de entender do que falavam, e só com certo esforço auditivo pude acompanhar.

Claro, é um programa dirigido a adolescentes e a linguagem – a plástica e a verbal – é de adolescentes. Tanto é assim que, nas falas, dá pra contar quantas vezes é usado, por exemplo, o vocativo “galera” – sempre metido no meio das frases, como se a querer saber se o espectador “está ligado”. Erros de português são comuns (“ele viu ela”) e mesmo palavrões (“vá se ferrar”), eventualmente dirigidos aos espectadores.

Se porventura você abstrair o assunto, vai ter a impressão de que se trata de dois jovens contando um pro outro, as peripécias ocorridas na balada da noite anterior – quem comeu quem -, ou, se for o caso, as últimas fofocas picantes do colégio onde estudam.

A pergunta é: há crítica cinematográfica em “Pipocando”? Há sim, e em alguns casos, até bem fundamentada. Uma instância legal é quando a dupla discorda entre si na avaliação do filme comentado… e assume a discordância.

Com certeza, o programa tem uma boa audiência e deve ser um meio interessante para despertar, no adolescente, o interesse pelo cinema. Afinal, queiramos ou não, cinema também é cultura de massa e qualquer abordagem é válida, se consegue atrair um público jovem que, mais tarde, pode amadurecer e tornar-se mais criterioso. Criado pela dupla de apresentadores Rolandinho e Bruno Bock, originalmente para o Youtube, o programa já gerou até um livro: “Pipocando – os bastidores do maior canal de cinema da América Latina”.

Pessoalmente, o meu receio com esse “internético/televisivo estilo jovem” de discutir cinema está em como ele vai tratar o cinema clássico. Até agora não vi nenhum grande clássico do passado sendo ´discutido´ pelos dois frenéticos apresentadores. Nem sei se quero ver.

De repente, me vejo imaginando – digamos – “Casablanca” (1942) sendo recriado nesse descontraído estilo teen de hoje em dia, algo assim como:

“Dono de cassino beberrão se topa com velho xodó, só que agora ela tem um maridão a tiracolo, e, pior, comete a maluquice de pedir ao negão do piano que toque a musiquinha que embalou o chamego dos dois, no passado”.

Ou “Cidadão Kane” (1941) assim:

“Figurão da imprensa fica puto ao perder eleição e, só de teima, casa com a rapariga que fora o assunto do escândalo. Vive e morre à procura de uma palavra que, segundo uns, seria o nome de um brinquedo infantil, e, segundo outros, mais maliciosos, seria uma referência subliminar à xoxota que o fez perder a eleição.”

Ou “Crepúsculo dos deuses” (1950) assim:

“Roteirista fodido se refugia no casarão de coroa que tinha sido atriz do cinema mudo. Desmiolada, ela quer voltar às telas, e quando ele discorda, leva um balaço nas costas e vai morrer no fundo da piscina de onde (milagres do cinema) nos conta a encrenca toda.”

Pensando bem, volto atrás: até que seria interessante ouvir o que os dois jovens pipoqueiros do programa teriam a dizer sobre estas obras primas… e outras. Enfim.

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Escritores que cometeram crítica de cinema

25 jul

Poetas ou ficcionistas, há escritores cujas obras lembram cinema. A poesia de João Cabral, por exemplo, ele mesmo insistia em dizer, tem muito de cinematográfica. Em alguns casos, até escritores do passado, quando a sétima arte sequer existia, já pareciam fílmicos. Dickens é um caso óbvio, citado pelo cineasta pioneiro D. W. Griffith, mas acho que Sthendal, Tolstoi e Balzac também.

Mas não é disso quero tratar aqui.

Aqui quero tratar de profissionais que, tendo se notabilizado como escritores, conheceram, sim, o cinema e, bem antes do ofício literário, e/ou científico, cometeram a crítica cinematográfica – geralmente uma crítica praticada no ardor da juventude, e de que hoje pouco se tem notícia.

Gabriel Garcia Marquez, crítico de cinema, antes de ser escritor.

São em número bem maior do que pensamos, ou sabemos, mas aqui me concentro em quatro ou cinco casos, suficientemente ilustrativos.

Comecemos como o autor de “Cem anos de solidão”.

Sim, você sabia que o colombiano Gabriel Garcia Marquez fez crítica de cinema na juventude? Pois é. Eu vim a saber disso muito tardiamente, décadas depois de ter lido seus romances e novelas, e de ter visto suas adaptações para a tela. Como soube? Foi o meu saudoso amigo e colega de labuta crítica Antônio Barreto Neto quem me passou a informação. Informação nada, ele me deu de presente o livro em que está editada toda a crítica cinematográfica de Garcia Marquez, este ainda um jovem jornalista, comentando as ´películas´ – quase todas americanas – exibidas nos cinemas locais de Bogotá. Quem quiser provas, o livro que Barreto me deu está aqui, na minha estante, me fitando de longe.

A essa altura dos acontecimentos, imagino que já foi feita alguma tese de doutorado, catando, nesses escritos sobre cinema, elementos que possam ter alimentado a ficção de Garcia Marquez. Se não foi, que se faça!

O pernambucano Josué de Castro.

O segundo caso que cito é brasileiro, o do nosso cientista e pensador social Josué de Castro. Bem antes de ficar conhecido como o teórico da fome, Josué de Castro foi um apaixonado pela sétima arte, cuja autonomia estética defendeu com unhas e dentes. Seus escritos de crítica datam do início dos anos trinta, quando o cinema acabara de ganhar o acréscimo do som, aliás, um acréscimo que ele abominava. Assim, gastou tempo e energia redigindo ensaios em que defendia a pureza da imagem. No seu entender, para alcançar a condição de arte pura, o cinema precisava livrar-se da herança do teatro e da literatura, e, por isso mesmo, o advento do som lhe era malsão. Seu posicionamento coincidiu com o de Chaplin, mas, ele nem precisou de endosso alheio para alardeá-lo.

Que relação essa posição terá com sua obra posterior eu não sei, mas é, sim, instigante rever o autor de “A geografia da fome” como um esteta radical a defender a imagem pura. Cá comigo, fico pensando se alguém não já teve a ideia de juntar os dois Josués e rodar um documentário sem som nem fala… sobre a fome.

Um terceiro caso que me vem à memória é o do romancista inglês Graham Greene. Tudo bem, seus romances quase todos viraram filmes e ele mesmo seria, mais tarde, convidado por Hollywood para ser roteirista. Nada disso, porém, impede que o inclua neste rol que aqui apresento, por uma razão simples – bem antes de ser romancista, ainda na juventude, ele fez crítica de cinema, e de modo sistemático. A coisa literária viria depois, como veio depois o métier de roteirista.

O inglês Graham Greene.

Dele possuo um livro que coleta sua produção de crítico cinematográfico, um belo volume chamado “Mornings in the dark” (“Manhãs no escuro”), com artigos publicados em jornais londrinos a um tempo em que ninguém, no âmbito literário, sabia quem era esse tal de Graham Greene.

Um quarto caso a citar é o do nosso Vinicius de Moraes, famoso pela poesia publicada e pelas músicas compostas e cantadas, porém, “um desconhecido crítico de cinema”.

Só os mais idosos vão lembrar as tantas “crônicas de cinema” que o nosso mais tarde embaixador e poeta veiculou com assiduidade profissional, nos jornais cariocas, nos anos quarenta. Como Josué de Castro, Vinicius também foi um defensor da tela muda, mas, o melhor de seus escritos está na simplicidade com que falava de seu amor ao cinema e daquilo que seria o perfil do espectador autêntico.

Por sorte, seu trabalho de crítico cinematográfico foi resgatado das velhas páginas de jornal e está no delicioso “O cinema dos meus olhos”, livro organizado e editado pelo jornalista Carlos Augusto Calil. É conferir.

Vinicius de Moraes, o crítico de cinema.

Como escrever sobre cinema (III)

21 fev

Na discussão sobre a escritura crítica, um tópico interessante são as divergências. Claro, nada mais democrático do que divergir, porém, a coisa complica um pouco quando as opiniões, de divergentes, passam a ser praticamente excludentes.

Tenho amigos que acham “Morte em Veneza” uma chatice, enquanto outros o têm como um filme superior, perfeito. Descompasso semelhante de opiniões entre meus amigos, eventualmente constato em filmes como “O anjo azul”, “O ano passado em Marienbad”, “Oito e meio”, e tantos outros.

Há amigos meus que julgam filmes como “Cidadão Kane” e mesmo “Um corpo que cai” um lixo só, e, neste caso, conversando com eles, eu fico sem saber o que argumentar em favor dessas obras primas… E dou um jeito de mudar de assunto, pois são pessoas instruídas cujas bagagens culturais eu tenho o bom senso de respeitar.

Como dar a "Um corpo que cai" o estatuto de "lixo"?

Como dar a “Um corpo que cai” o estatuto de “lixo”?

Sobre esse tópico das divergências, uma coisa que me diverte é consultar o setor de comentários dos usuários do IMDB. Não necessariamente para ler os textos, mas, tão somente para cotejar os títulos que são dados aos comentários,  geralmente títulos que já dizem tudo das reações dos espectadores aos filmes vistos. Não é raro que, de um mesmo filme recém lançado, estejam, lado a lado, títulos assim: “Uma obra prima” e “Um fracasso completo”. Como disse, nem sempre me dou ao trabalho de ler os textos, mas, imagino que cada um dos comentaristas argumente com a lógica que lhe é possível, seja qual for essa lógica.

Os usuários do IMDB, em princípio, não são críticos de cinema, porém, o intrigante é que entre os profissionais, as divergências também venham a ter o tom de recíproca excludência.

Quando escrevo sobre filmes antigos, – e faço isso com relativa frequência – gosto de consultar suas respectivas fortunas críticas, em vários locais, mas, especialmente nos video-guides da vida, livrinhos bastante úteis pelo seu caráter conciso. Dois há a que sempre recorro, a saber, o do inglês Leslie Halliwell, e o do americano Leonard Maltin. E, não vou negar, também me divirto muito com as excludentes divergências.

Um exemplo que me ocorre, no momento, é o de “O homem que matou o facínora” (“The man who shot Liberty Valence”). Seria essa realização de John Ford, de 1962, um filme ruim, ou um excelente filme? Em seu conceituado video guide, o afamado crítico Halliwell, do total de quatro estrelas, lhe concede uma única, o que o põe na categoria de “ruim”. Ao passo que o igualmente afamado Maltin lhe doa o total de suas estrelas, quatro, colocando-o, portanto, no patamar de “excelente”.

Para o espectador comum que toma esses ´guides´ como orientações, divergências desse tipo devem ser difíceis de compreender. Como resolver o impasse? Como é que dois profissionais teoricamente aparelhados para emitir julgamentos da mesma natureza estética, podem divergir a esse ponto sobre uma mesma obra?

"O homem que matou o facínora" - ruim ou excelente?

“O homem que matou o facínora” – ruim ou excelente?

Pois é. É aqui que entra aquele conceito incômodo chamado “gosto”.

Naturalmente, a primeira verdade a ser admitida é que crítico de cinema é gente de carne e osso, coração e mente, e que, portanto, está sujeito às trapaças da sorte, como qualquer mortal. Cada um tem sua própria formação cultural, experiência de vida, e, se for o caso, posicionamento ideológico. As preferências decorrem disso tudo, e, eventualmente, de coisas mais íntimas, por vezes inconfessáveis, ou indevassáveis. O domínio da teoria da linguagem cinematográfica deveria salvaguardar uma certa objetividade no julgamento, mas… como já disse um personagem fílmico do mestre Billy Wilder, ninguém é perfeito.

De minha parte, fico pensando onde é que residiriam as minhas limitações, os meus defeitos de crítico. Ao certo não sei, mas posso adiantar o seguinte.

Quem acompanha os meus escritos sabe que sou admirador do cinema produzido ao tempo da Hollywood clássica, aquele período de ouro, que recobre as décadas de trinta, quarenta e cinquenta. Quem me acompanha também sabe que, salvo as honrosas exceções, não alimento entusiasmo especial pelo cinema de hoje em dia, principalmente (sintam a ironia) pelo da Hollywood moderna, cheio de pirotecnias e efeitos especiais de toda ordem eletrônica.

Ao escrever sobre um filme qualquer, antigo ou moderno, confesso que faço sinceros esforços para me distanciar desse meu ´gosto clássico´ e ser objetivo no meu julgamento, e, mesmo assim, não seria tomado de espanto se um dia um paciente estudioso de minha produção crítica demonstrasse, a mim e a todos, que, no geral, possuo a tendência a ser um pouco complacente com os filmes antigos, e um pouco intransigente com os filmes modernos.

Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.

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Como escrever sobre cinema (II)

14 fev

Conversando sobre cinema é comum que as pessoas me perguntem se, na sala de projeção, sentado na poltrona, eu já assisto ao filme com a postura crítica de um profissional que escreve sobre a sétima arte.

Normalmente essas pessoas se surpreendem ao me ouvirem dizer que, quando vou a cinema, deixo em casa minha “farda de crítico” e vejo o filme como um espectador comum, completamente despojado, entregue ao que der e vier, solto para mergulhar na estória e sofrer, ou gozar, com os personagens, como se tudo fosse realidade.

O exercício da análise, quando vem, vem depois, já em casa, geralmente no dia seguinte, quando estou para decidir se vale a pena, ou não, escrever sobre o filme visto.

Aí então tem início o trabalho de rememoração. Nos depoimentos de colegas, não vejo referências à memória, mas ela é fundamental para o crítico. Nem sempre posso assistir ao filme mais de uma vez, e a reprodução dele na minha cabeça é essencial para gerar uma crítica correta e pertinente.

Mas, claro, o mais difícil é o que vem em seguida: a análise, etapa em que seria esperável demonstrar o que mais interessa em um filme de qualidade: a necessária relação entre conteúdo e forma. Que aspectos plásticos, por exemplo, refletem a temática, ou, o que dá no mesmo, que ideias na estrutura narrativa, por exemplo, estão manifestas no plano visual?

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Como o espaço para a crítica, em jornais, é curto, uma atitude para a qual tenho que estar pronto é a da seleção, ou seja, a de escolher que trechos do filme vou citar para exemplificar a relação conteúdo/forma que fui capaz de captar.

Para que minhas exemplificações fiquem mais claras, muitas vezes preciso reconstituir, para o leitor, o enredo do filme. Está é uma parte mecânica do trabalho, sem muita graça, mas que precisa ser feita. De modo tal que, quando eu analisar a cena, ou a tomada, ou a sequência que ilustra o meu enfoque, esse leitor compreenda a minha linha de argumentação.

Estou falando de bons filmes, mas, criticar um filme ruim também pode ser muito instrutivo. Em termos teóricos, o que acontece num filme ruim seria, mutatis mutandis, a ausência de relação entre conteúdo e forma. Se, criticando-o, digo apenas que os atores estão mal, a montagem está mal feita, a fotografia é péssima, etc… minha crítica pode ficar tão ruim quanto o filme. Preciso ser mais convincente e ser capaz de demonstrar, se for o caso, o deslocamento entre forma e conteúdo com mais consequência.

Não é comum, mas às vezes acontece de um filme conter uma proposta própria, toda sua (os filmes ditos de vanguarda, geralmente fazem isso), e neste caso, ela precisa ser respeitada. Eu, pessoalmente, posso até não gostar dela, mas devo aceitá-la como proposta autoral. Neste caso, o filme deve cumprir sua proposta, do começo ao fim, em todos os níveis; se ele não faz isso, já será criticável, e é então que eu poderia entrar com a minha argumentação desfavorável, apontando a incoerência.

Uma certa cena em "Pacto sinistro"

Uma certa cena em “Pacto sinistro”

Mas, voltando à postura do crítico na sala do cinema, confesso que, mesmo assistindo a um filme, como assisto, com o despojamento conceitual a que me referi, às vezes – talvez mais vezes do que sugiro – ocorre que, durante a projeção, questões de linguagem já me chamam a atenção, de alguma forma interferindo na minha curtição de espectador comum. Digamos que, vendo um dado filme, estou envolvido na estória narrada, identificado com algum personagem, torcendo para que ele consiga o que pretende, etc, quando, de repente, a direção me mostra um enquadramento inusitado, suponhamos, uma contra-plongée radical, aquela angulação de baixo para cima, tão fora dos pontos de vista da vida real, e por isso, tão estranha. Bem entendido, foi uma contra-plongée bem feita e funcional, até brilhante, e talvez por isso mesmo, me prendeu a atenção e, no momento, em plena sala de projeção, me fez lembrar de minha função de analista. E aí, eu, já pensando em escrever sobre o filme, digo a mim mesmo, bem baixinho, ´preciso lembrar de citar isto´.

Para não deixar de dar exemplos, isto aconteceu quando vi a cena do crime em “Pacto sinistro”, 1951, de Alfred Hitchcock. Vocês lembram: os dois personagens, assassino e vítima, estão em pé e nós, espectadores, feito formiguinhas, estamos em baixo, no chão, olhando para cima, vendo o corpo da vítima desabar sobre nós, como se fosse nos esmagar.

Tudo bem, vou ser mais confessional ainda: há filmes – raros, é verdade, mas há – tão engenhosos na capacidade de, ao mesmo tempo, nos envolver e nos convencer de que são arte, que, ao vê-los, eu já saio do cinema ansioso para escrever, doido para chegar ao meu computador e meter os dedos nas teclas, no caminho de casa preocupado em estar talvez esquecendo o que quero arguir para confeccionar uma crítica à altura do filme.

Como nunca tive o hábito de levar cadernetinhas e canetas para o cinema, treinei minha mente, ao longo dos anos, para conceber, organizar e armazenar ideias durante um certo “tempo morto” – digo, enquanto me alimento na saída do cinema, converso com amigos, dirijo, ou durmo. No outro dia, se for o caso, minha “caderneta mental” está – graças a Deus – disponível para o uso…

E o texto sai.

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Como escrever sobre cinema

7 fev

Há décadas escrevo sobre cinema e, no entanto, toda vez que, em entrevistas ou em conversas informais, me pedem receitas de como fazê-lo, embaraço-me e nunca tenho uma resposta na ponta da língua. O que me apazigua um pouco comigo mesmo é que acho que ninguém tem.

De qualquer modo, para nos servir de ponto de partida para uma conversa sobre o assunto, não resisto em contar duas reações de dois leitores a meus escritos, ambas acontecidas nos anos noventa, uma quase simultânea à outra.

Vamos à primeira. Foi um aluno do Curso de Comunicação, amigo meu, quem me contou. Junto com Linduarte Noronha, eu tinha estado na sua banca de TCC: a defesa fora ótima e dera tudo certo, como esperado. Posteriormente, ele, rindo divertido, contou-me o seguinte. Alguns dias antes da defesa, conversando com um colega de turma, ao referir-se aos componentes escalados para a banca, ouviu do tal colega um comentário que o surpreendeu. As palavras do seu colega foram mais ou menos estas:

“Linduarte, tudo bem, mas, tu estás louco de convidar para a banca João Batista de Brito? Esse cara é um chato, basta ver os artigos dele no jornal; o cara escreve complicado que ninguém entende; é tanto termo difícil que acho que nem ele sabe o que é. Tu vais ver, vai dar rolo na certa.” E estendeu-se sobre a ilegibilidade dos meus artigos de cinema, deixando bem claro o risco que o colega corria em me ter feito o convite. Não sei qual foi a reação dele (lamentavelmente, não o conheci) ao saber que o candidato foi aprovado com distinção, mas, guardei como um dado importante a reação de um jovem desconhecido aos meus escritos de cinema.

Já a segunda reação que cito – e que julguei igualmente importante – veio de um conhecido meu, uma pessoa de minha faixa etária, e, suponho, com formação semelhante à minha. Estávamos numa longa mesa de restaurante, em clima de confraternização, e ele, por acaso sentado ao meu lado, puxou conversa de cinema. Foi dizendo, mais ou menos assim:

“Gosto dos seus textos, mas, acho que você precisa  aprofundar-se mais. Alguns são rasos e dão a impressão de superficialidade. Acho que você precisa ir mais fundo na discussão da linguagem cinematográfica. Eu mesmo sinto falta de termos, que você nunca usa, ou usa pouco, como contra-plongée, profundidade de campo, mise-en-scène, plano-contra-plano, angulação, decupagem clássica, efeito Koulechov, sobreimpressão…” e foi citando toda uma longa lista de termos técnicos da teoria do cinema que, segundo ele, tornariam meus textos mais sérios e mais relevantes.

Fotograma de entrevista dada a TV Câmara sobre minha atividade crítica, hoje disponível no Youtube.

Fotograma de entrevista dada a TV Câmara sobre minha atividade crítica, hoje disponível no Youtube.

Adorei ter tido, quase simultaneamente, conhecimento destas duas antagônicas e equidistantes reações aos meus escritos. Afinal, como eram (são) meus artigos de cinema? Insuportavelmente ilegíveis, como queria o aluno do curso de comunicação, ou vergonhosamente legíveis como queria o meu companheiro de mesa de restaurante?

Não vou fazer nenhuma auto-defesa aqui, mas uma coisa penso que posso dizer: cada um desses meus dois leitores estava falando, um pouco menos dos meus escritos, e um pouco mais deles mesmos. Pareceu-me que cada um fazia a cobrança que lhe convinha.

A acareação destas duas reações de leitores é bastante instrutiva para mim. De fato, se você escreve para jornais, veículo com uma gama bastante variada de consumidores, a grande questão parece ser: como ser fluente e rigoroso ao mesmo tempo? Como aprofundar-se na análise sem obscurecer a linguagem? Como garantir a leveza do texto, sem comprometer o rigor da análise do filme? Enfim, onde reside o equilíbrio entre fluência e profundidade? Creio que este foi sempre meu grande embate privado. Esse equilíbrio ideal nem sempre o consegui, e ainda hoje nem sempre o consigo, porém, todos os meus esforços de escritor têm ido, e vão, nessa direção.

Mas, já que estou falando de recepção, uma outra opinião sobre meus escritos, que muito me serviu para pensar sobre o tema, veio de um terceiro leitor, desta feita um amigo cheio de boa vontade e sabedoria.

Para me aconselhar, ele fez uso de uma metáfora médica. Explicou-me ele que quando um médico trata de um caso clínico de um paciente que vai ser cirurgiado, emprega dois tipos distintos de linguagem, em duas ocasiões distintas: ao falar com a família do paciente usa uma linguagem simples, sem termos técnicos; ao lidar com o colega que procederá à operação, usa uma linguagem técnica, com todos os termos específicos cabíveis.

Gostei da metáfora, só que fui obrigado a refutar a sua aplicabilidade para o meu caso: é que, escrevendo para jornais, como sempre o fiz, eu não tenho um tipo único de leitor: nos mesmos termos da metáfora do meu amigo, em jornais, eu tenho como leitores, tanto a família do paciente, quanto tenho o cirurgião. Os dois juntos. Como, aliás, tive juntos o aluno do curso de comunicação e o conhecido no restaurante. E aí? Claro que meu amigo, inteligente como é, foi forçado a aceitar as limitações conceituais de sua metáfora médica. E a compreender o meu drama.

Uma coisa é certa: se você escreve – e não importa o seu meio de comunicação, se jornais, revistas, sites ou bloques -, leitores são a coisa mais importante que existe. Por isso, estou sempre atento a suas reações, e quando posso, tomo notas delas, para uso próprio. Como fiz nestes casos narrados.

Bem, uma vez que não vou teorizar sobre o assunto, posso ao menos relatar algumas outras ocorrências, de natureza mais genérica, sobretudo as que me surpreendem, por escaparem a meus planos.

Vejam bem. Há textos que componho com o maior capricho, atento a todos os detalhes, textos a que dedico todo o meu esforço criativo, com a ambição de estar gerando uma peça verbal o mais perto da perfeição possível. Depois de publicado, fico aguardando as reações, e, muitas vezes o que ocorre? Ninguém nem deu bolas; não houve um só comentário, nem para dizer que agradou; nada.

Mutatis mutandis, outras vezes escrevo só por escrever, um textinho qualquer a que não estou dando importância nenhuma, em muitos casos, uma matéria que redijo na brincadeira, me divertindo mais do que trabalhando, geralmente uma materiazinha inconsequente, inventada só para preencher a coluna da semana. Desse textinho sem valor não fico aguardando reação alguma, e muitas vezes o que acontece? Depois da publicação, de repente, várias pessoas vêm me dizer que adoraram, que estava ótimo, que nunca escrevi tão bem, que está digno de uma antologia. Nestes casos, um tanto e quanto atônito, eu mesmo volto a ler o tal texto, e faço esforços para divisar a qualidade que lá não pus.

Mistérios, mistérios, mistérios. E acho que é bom que os haja.

Fotograma de entrevista concedida à TV Itararé, disponível neste blogue, no item SOBRE O AUTOR.

Fotograma de entrevista concedida à TV Itararé, disponível neste blogue, no item SOBRE O AUTOR.

Sete dias com Truffaut

21 out

De 20 a 26 deste mês de outubro, a cinefilia de João Pessoa está em festa, com a exibição, nos cinemas do Shopping Manaíra, do Festival François Truffaut.

São sete filmes, um por dia, recobrindo a carreira desse genial cineasta francês, um dos pais da Nouvelle Vague, aquele movimento cinematográfico que abalou o mundo cultural e artístico nos anos sessenta.

Seguindo a cronologia dos lançamentos, a exibição começa com o inaugural “Os incompreendidos” (1959), findando com o “O último metrô” (1980). No meio ficam: “Jules et Jim” (1961); “Beijos roubados” (1968); “A noiva estava de preto” (1968); “Domicílio conjugal” (1970), e “Amor em fuga” (1979).

François Truffaut, um dos fundadores da Nouvelle Vague.

François Truffaut, mentor da Nouvelle Vague.

De minha parte, lamentei a não inclusão de um dos melhores filmes de Truffaut, “A noite americana”, e a inclusão de um dos piores: “A noiva estava de preto”. Mas, como diz o clichê, nada é perfeito. Ao menos a mostra começa com duas obras primas: os dois primeiros filmes.

Aproveito a ocasião para relembrar a trajetória fílmica de Truffaut. A sua história é bem conhecida dos cinéfilos: salvo da marginalidade pelo crítico André Bazin, final dos anos quarenta, o jovem cinéfilo Truffaut é introduzido aos bastidores da Revista Cahiers du Cinéma, para a qual passa a escrever artigos cada vez mais agressivos contra o cinema dito “de qualidade” de seu país. René Clair, René Clément, Marc Allegrét, Marcel Carné, Claude Autant-Lara… quase ninguém escapa de suas garras afiadas, todos acusados de cometer um cinema artificial, fundado em regras de estúdio e numa dramaturgia congelada e falsa.

Nessas críticas violentas, partilhadas por outros jovens críticos como Jean-Luc Godard e Claude Chabrol, ia embutida uma proposta de cinema inovadora, que seria chamada, mais tarde, de “cinema de autor”. Segundo esses jovens críticos, o cineasta devia ignorar regras de estúdio e usar a câmera como o poeta usa sua caneta. Era o que estava dito num texto, também publicado nos Cahiers du cinéma, do teórico Alexandre Astruc. Isto seria possível? Possível ou não, é essa ideia de “caméra-stylo” (´câmera-caneta´) o que gera, em 1954, um ensaio fundamental de François Truffaut, “Uma certa tendência do cinema francês”, ensaio este que funcionou como o verdadeiro manifesto da Nouvelle Vague.

"Os incompreendidos" (1959), inaugura a Nouvelle Vague.

“Os incompreendidos” (1959), inaugura a Nouvelle Vague.

No final dos anos cinquenta, esse “cinema de autor” começa a desabrochar em forma de filme, primeiro curtas, depois longas. O primeiro dos longas é o belo e amado “Os incompreendidos”, onde Traffaut ficcionaliza a sua vida privada. O filme ganha o Festival de Cannes e, desde então, Trauffaut não para mais de filmar. O engraçado é que, se suas críticas contra o cinema francês eram agressivas, o cinema que ele passa a cometer não o é de forma alguma. Ao contrário, com Truffaut vai se ter um cinema doce, suave, humanista, dramático às vezes, mas sempre terno e poético.

Outra coisa interessante, comum a Truffaut e aos outros nouvellevaguistas, foi o amor ao cinema americano. Enquanto a maior parte dos cineastas franceses não valia nada para eles, Otto Preminger, Howard Hawks, William Wyler, Billy Wilder, George Stevens, Alfred Hitchcock lhes pareciam gênios que driblavam as regras de Hollywood para produzir grandes filmes, exaustivamente analisados nas páginas dos Cahiers du cinéma.

Cena em "Jules et Jim" (1961).

Cena em “Jules et Jim” (1961).

Não só aos grandes, Truffaut também era ligado aos pequenos e obscuros diretores hollywoodianos de filmes B, de quem recebeu admitida influência. Um caso que ilustra bem isso está no filme que será exibido hoje (sexta, 21), “Jules et Jim”, considerado pela crítica sua realização mais perfeita. Truffaut havido lido o livro homônimo de Henri-Pierre Roché em meados dos anos 50, e, mesmo deslumbrado com a escrita e a temática, julgou que essa estória de amor a três fosse “infilmável”. Até o dia em que entra num cinema de Paris, para ver a reprise de um faroeste de um de seus obscuros diretores B.

O diretor era Edgar G. Ulmer, e o filme, “Madrugada da traição” (“Naked dawn”, 1955), contava, com certa ambiguidade sexual, o caso de um estranho triângulo amoroso, nas brenhas do México, entre um bandido e um casal de agricultores. Rodado precariamente em 10 dias, com resultado visivelmente pífio, foi o único filme em cores de Ulmer e o único papel principal de Arthur Kennedy. Pois em entrevista à crítica Anne Gillain (Cf. o livro “O cinema segundo François Truffaut”, Nova Fronteira, 1990), Truffaut conta que saiu do cinema convencido pelo filme de Ulmer de que o livro de Roché poderia ser filmado. E, logo que pôde, filmou. Irônico que um filme tão fraco tenha motivado um tão forte.

Enfim, resta aos cinéfilos pessoenses aproveitar a chance rara de ver – acho que rever é mais o caso – o cinema sui generis de François Truffaut, que, se não foi o maior cineasta do mundo, foi, com certeza, o mais cinéfilo de todos.

Em tempo: esta matéria é, com afeto, dedicada a Carlos Aranha.

"Jules et Jim": em um fotograma emblemático...

“Jules et Jim”: em um fotograma emblemático…

Trinta anos sem Truffaut

22 out

Neste 21 de outubro fez trinta anos da morte de um dos mais conceituados cineastas do mundo, o francês François Truffaut (1932-1984), um dos criadores da Nouvelle Vague, movimento cinematográfico que, a partir dos anos sessenta, mudou a forma de se ver e fazer cinema, na França e no mundo.

A sua história é bem conhecida: salvo da marginalidade pelo crítico André Bazin, o jovem cinéfilo Truffaut é introduzido aos bastidores da Revista Cahiers du Cinéma, para a qual passa a escrever artigos cada vez mais agressivos contra o cinema dito “de qualidade” de seu país. René Clair, René Clément, Marc Allegrét, Marcel Carné, Claude Autant-Lara… quase ninguém escapa de suas garras destrutivas, todos acusados de cometer um cinema artificial, fundado em regras de estúdio e de uma dramaturgia congelada e falsa.

François Truffaut: da crítica ao cinema.

François Truffaut: da crítica ao cinema.

Nessas críticas violentas, partilhadas por outros jovens críticos como Jean-Luc Godard e Claude Chabrol, ia embutida uma proposta de cinema inovadora, que seria chamada, mais tarde, de “cinema de autor”. Segundo esses jovens críticos, o cineasta devia ignorar regras de estúdio e usar a câmera como o poeta usa sua caneta. Era o que estava num texto, também publicado nos Cahiers du cinéma, do teórico Alexandre Astruc. Isto seria possível? Possível ou não, é essa idéia de “caméra-stylo” (´câmera-caneta´) o que gera, em 1954, um ensaio fundamental de François Truffaut, “Uma certa tendência do cinema francês”, ensaio este que funcionou como o verdadeiro manifesto da Nouvelle Vague.

 No final dos anos cinquenta, esse “cinema de autor” começa a desabrochar em forma de filme, primeiro curtas, depois longas. O primeiro dos longas é o belo “Os incompreendidos” (1959), onde Traffaut ficcionaliza a sua vida privada.

“Os incompreendidos” ganha o Festival de Cannes e, desde então, Trauffaut não para mais de filmar. O engraçado é que, se suas críticas contra o cinema francês eram agressivas, o cinema que ele passa a fazer não o é de forma alguma. Ao contrário, com Truffaut vai se ter um cinema doce, suave, humanista, dramático às vezes, mas sempre terno e poético.

Infância e marginalidade no belo "Os Incompreendidos" (1959)

Infância e marginalidade no belo “Os Incompreendidos” (1959)

Outra coisa engraçada, comum a Truffaut e aos outros nouvellevaguistas, foi o amor ao cinema americano. Enquanto a maior parte dos cineastas franceses não valia nada para eles, Otto Preminger, Fritz Lang, Howard Hawks, William Wyler, Billy Wilder, George Stevens lhes pareciam gênios que driblavam as regras de Hollywood para produzir obras primas. Com certeza, o mais cultuado de todos foi Alfred Hitchcock, com quem Truffaut chegou a fazer uma longa entrevista, que se estendeu por mais de uma década e foi, mais tarde, lançada em livro, hoje uma das melhores lições de cinema que a bibliografia da área conhece.

Enquanto movimento, a Nouvelle Vague se descaracterizaria a partir da década de setenta, principalmente com a rixa surgida entre os dois cabeças do movimento, Truffaut e Godard, a partir do lançamento de “A noite americana” (1973), filme que provocou em Godard uma reação violenta, que foi entendida em nível pessoal e resultou numa famosa carta pública de Truffaut, igualmente violenta.

Mas claro, nem por isso Truffaut parou de filmar. Não pretendo citar sua filmografia completa, mas, acrescento no final desta matéria, uma lista de dez de seus filmes mais conceituados, uma seleção do site IMDB.

Cena emblemática do mais prestigiado filme de Truffaut: "Jules et Jim"

Cena emblemática do mais prestigiado filme de Truffaut: “Jules et Jim”

Em sua autobiografia recém publicada, o cineasta brasileiro Carlos Diegues – que conheceu Truffaut de perto – dá um depoimento que não resisto em reproduzir: “Nunca vi ninguém gostar tanto de cinema, e só de cinema; nem sei se ele tinha algum outro interesse verdadeiro na vida”.

Pois é, este era François Truffaut, que pode não ter sido o maior cineasta do mundo, mas foi, sem dúvida, o mais cinéfilo de todos.

 

Dez filmes para não esquecer François Truffaut:

 

Os incompreendidos (Les 400 coups, 1959)

Jules et Jim (1962)

A sereia do Mississipi (La sirène du Mississipi, 1969)

A noite americana (La nuit américaine, 1973)

O homem que amava as mulheres (L´homme qui amait les femmes, 1977)

Farenheit 451 (1966)

O último metrô (Le dernier metro, 1980)

A mulher do lado (La femme d´à coté, 1981)

O quarto verde (La chambre verte, 1978)

Beijos proibidos (Baisers volés, 1968)

 

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