Tag Archives: crítica internacional

CANÔNICOS

10 jan

Quais os melhores filmes do mundo? Com mil, quinhentos, cem ou dez títulos sugeridos, as listas pululam nas revistas, livros e sites de cinema de toda parte, de modo a deixar o espectador confuso. A implicação por trás dessas listas é que os filmes escolhidos contribuiriam para a concepção de uma espécie de cânone cinematográfico.

Com intenções canônicas ou não, a sugestão mais famosa, e, sobretudo, a mais respeitada, vem do grupo formado pelo British Film Institute e a revista Sight & Sound que, de dez em dez anos, apresenta a sua relação dos dez mais – e isto desde 1952, ou seja, já estamos na sétima lista, sendo a última de 2012.

O que concede respeitabilidade às listas do grupo do B.F.I. + Sight & Sound é o rol dos seus votantes, críticos, historiadores, cineastas e outros profissionais da área, originários de toda parte do planeta, todos nomes consagrados. De forma que, mesmo que o espectador não simpatize com o procedimento de ´fazer listinhas´, seria insensato não considerar o trabalho do grupo referido.

Evidentemente, toda iniciativa de listar filmes está presa a certas circunstâncias temporais, e a do grupo B.F.I. + Sight & Sound, que já recobre mais de meio século, não foge à regra. Digamos primeiramente o óbvio: que só se pode votar em filmes realizados até à data da votação: na primeira edição, em 1952, ninguém poderia ter votado, por exemplo, em Oito e meio, simplesmente porque o filme não existia, como não existia mais da metade do cinema mundial realizado no século XX. O curioso é que na lista de 2012 (veja adiante), a maior parte dos filmes elencados pertence à primeira metade do século.

Ladrões de bicicleta encabeçou a primeira do IBF.

Além do mais, o tempo não é a única circunstância. Às vezes interferem fatores de ordem histórica ou similares. Caso da obra prima de Orson Welles, Cidadão Kane que, desde sua inclusão na lista de 1962, manteve o primeiro lugar, até 2002. Ora, sendo de 1941, ele poderia ter estado na primeira lista, a de 1952, mas não esteve: por quê? Pelo fato de, em virtude da Segunda Guerra Mundial, não ter sido lançado na Europa, sendo até então um ilustre desconhecido do pessoal do B.F.I. + Sight & Sound. Caso idêntico se deu com Um corpo que cai, hoje no topo da lista, mas que só começou a ter seu nome citado quase duas décadas após seu lançamento em 1958, devido ao fato de, por questões jurídicas, ter ficado fora de circulação até a morte de seu autor, Alfred Hitchcock, em 1981.

Como já dito, de 1952 a 2012 o grupo do B.F.I. + Sight & Sound compôs sete listas dos dez melhores filmes do mundo. A primeira ideia é que o total seriam setenta filmes, mas, que nada. As recorrências dos títulos são muitas, tantas que reduzem esse suposto total para apenas… trinta e quatro títulos. Às vezes até cineastas são repetidos numa mesma lista, casos de Charles Chaplin em 1952, de Orson Welles em 1972, e de Francis Ford Coppola em 2002.

O que vou fazer aqui é apenas comentar brevemente o desempenho de cada um desses filmes dentro das listas, mencionando sua posição (de primeiro a décimo lugar) e sua – se houver – repetição nas listas seguintes, considerando – se houver – as variações de suas posições. Para tanto, seguirei, rigorosamente a cronologia, começando assim meu comentário com o primeiro filme da primeira lista (a de 1952, não esqueçamos) e terminando com o último filme da última lista (a de 2012).

O filme em primeira posição na lista de 1952 é Ladrões de bicicleta, de 1948. Considerado um marco do neo-realismo italiano, este comovente drama de Vittorio DeSica apareceria ainda, rebaixado para o sétimo lugar, na lista de 1962, e nunca mais seria indicado nas listas posteriores. O segundo e terceiro lugares são para dois filmes de Chaplin, respectivamente, Luzes da cidade e Em busca do ouro, os quais não iriam aparecer mais, em lista alguma. Já o quarto lugar foi para um filme cuja indicação seria repetida nada menos que seis vezes: quarto lugar em 1952, sexto em 1962, terceiro em 1973, sexto de novo em 1982, nono em 1992 e finalmente, segundo lugar em 2002. Refiro-me a O encouraçado Potemkin, do russo Sergei Eisenstein. O quinto lugar é do longa-metragem, superprodução de D.W. Griffith, Intolerância (1919), sem repetição em outras listas. No sexto lugar, A história de Louisiana (Robert Flaherty, 1948) também não conseguiu repetição de votos. Já Ouro e maldição (Erich von Stroheim, 1924), em sétimo lugar, teve voto repetido em 1962, no quarto. Trágico amanhecer (Marcel Carné, 1939) é o oitavo posicionado nesta lista e não foi mais mencionado em lista alguma. A nona posição é de um dos favoritos dos votantes, O martírio de Joana Darc (1928), do dinamarquês Carl Dreyer, reaparecendo em sétimo lugar em 1972, de novo em sétimo em 1992 e em nono em 2012.

Cidadão Kane : cinco vezes em primeiro lugar

Com relação ao décimo lugar ocorreu um empate tríplice entre Desencanto (David Lean, 1945), O milhão (René Clair, 1931) e A regra do jogo (Jean Renoir, 1939). Os filmes de Lean e Clair não teriam lugar em listas posteriores, enquanto que o de Renoir é o único filme que conseguiu menções em todas as listas do B.F.I. + Sight & Sound, superando em recorrência até o campeão de preferência Cidadão Kane. Acompanhem: décimo em 1952, terceiro em 1963, segundo em 1972, segundo em 1982, segundo em 1992, segundo em 2002 e, finalmente, quarto em 2012. Portanto, sete menções em sete listas. Um recorde.

Com isso, podemos passar à segunda lista do B.F.I. + Sight & Sound, a de 1962. Lembrando que, a partir deste ano, deixaremos de referir os filmes já mencionados nas listas dos anos anteriores.

Como já dito, é nesta lista que Cidadão Kane (1941) aparece pela primeira vez e inicia sua brilhante carreira na condição quase imbatível de “o filme mais perfeito já feito”. No privilegiado primeiro lugar deste ano, ele também será votado assim em 1972, 1982, 1992 e 2002. Só em 2012 perde essa posição (para Um corpo que cai) e desce para o segundo lugar.

O segundo lugar deste ano vai para o italiano A aventura, de Michelangelo Antonioni (1960), que passará a quinto posicionado em 1972, e sétimo em 1982, para, depois disso, desaparecer. Contos da lua vaga, do japonês Kenji Mizoguchi (1952) ocupa o quinto lugar neste ano, e o décimo na lista de 1972. Ivan o terrível, de Sergei Eisenstein (1944), toma o oitavo lugar, sendo esta a sua única aparição. Também com uma única aparição está, em nono lugar, o La terra trema, de Luchino Visconti (1948). Já o clássico L´Atalante, de Jean Vigo (1934) fica este ano em décima posição, passando à sexta, três décadas depois, em 1992.

Da lista da década seguinte, 1972, os três primeiros lugares já foram comentados, e passamos, portanto ao quaro lugar, que é do italiano Oito e meio, de Federico Fellini, repetido em 1982 (quinto lugar), em 2002 (nono lugar) e 2012 (décimo lugar). Em seguida vem A general, em oitavo lugar, e nono na lista de 1982. O nono da década vai ser Soberba, seguido de Morangos silvestres, este em décima posição.

Na lista de 1982 as novidades são: Os sete samurais em terceiro lugar, sem repetição em listas seguintes; Cantando na chuva em quarto, repetido em 2002 em décimo lugar. Como dito acima, é neste ano que Um corpo que cai é votado pela primeira vez, no caso em nono lugar, passando a quarto em 1992, a segundo em 2002, e finalmente a primeiro lugar em 2012, destronando o quase imbatível Cidadão Kane. Esta também é a primeira votação para Rastros de ódio (décimo lugar), que será votado de novo em 1992 (quinto) e 2012 (sétimo). Aqui cabe registrar que este é o único western a ser escolhido pela equipe da B.F.I. + Sight & Sound.

A regra do jogo, 1939, um recorde: sete vezes nas sete listas.

Em 1992 os novos votados foram três: o japonês Era uma vez em Tóquio, de Yasujiro Ozu (terceiro lugar), que terá repetição nas décadas seguintes, no caso, sexto em 2002, e terceiro em 2012; o indiano A canção da estrada, de Satyajit Ray, em oitavo lugar, sem repetição nas décadas seguintes. A décima colocação desta lista vai para 2001-uma odisseia no espaço, o qual permanecerá nas décadas seguintes: em sétimo lugar em 2002 e em sexto em 2012.

Em 2002 são introduzidos O poderoso chefão (em quarto lugar) e O poderoso chefão II (em quinto lugar), ambos sem repetição em listas seguintes. A outra novidade desta década será o Aurora de Murnau, (em nono lugar), repetido em 2012 em quinto lugar.

A por enquanto última lista do B.F.I. + Sight & Sound, a de 2012, trouxe uma única novidade e uma novidade bem antiga: o documentário do russo Dziga Vertov, de 1929, Um homem com uma câmera, colocado em oitavo lugar. Aliás, como já comentado, esta é uma lista de dez filmes antigos, sendo o mais moderno de 1968. Tanto é assim que, na ocasião de sua divulgação, publiquei, neste Correio das Artes, matéria de título “Quanto mais velho melhor”. Para efeito de ilustração, faço a reprodução desta lista, indicando os anos de lançamento:

Um corpo que cai, 1958

Cidadão Kane. 1941

Era uma vez em Tóquio, 1953

A regra do jogo, 1939

Aurora, 1927

2001 – uma odisseia no espaço, 1968

Rastros de ódio, 1956

Um homem com uma câmera, 1929

A paixão de Joana D´arc, 1928

Oito e meio, 1963

 

Quem considera o conjunto das sete listas do B.F.I. + Sight & Sound (recordando: trinta e quatro filmes votados no período de seis décadas) pode não ficar satisfeito com as escolhas – o que é mais do que esperável e mais do que compreensível. Acho que ao cinéfilo ocorrem ausências incômodas. Por exemplo: nunca houve voto para O anjo azul, Crepúsculo dos deuses, Casablanca, A felicidade não se compra, Vidas amargas, Hiroshima meu amor, Jules et Jim, etc… E mesmo um “xodó” da crítica como O ano passado em Marienbad nunca foi mencionado. Um filme que traz a fama de haver ensinado o cinema a se expressar semioticamente, O nascimento de uma nação (D. W. Griffith, 1915) tampouco teve voto.

5

Um corpo que cai (Vertigo, 1958), no topo da lista em 2012

No geral, o que caracteriza os filmes da B.F.I. + Sight & Sound? Difícil dizer, a não ser que se alegue a qualidade. No que toca aos gêneros, há de quase tudo – do documental à comédia, do épico à ficção científica – mas, o gênero mais frequente parece ser mesmo o drama, ou se for o caso, o filme sem gênero definido. Mesmo nas listas mais atuais, as décadas privilegiadas são, primordialmente, as mais antigas, conforme fica claro na lista de 2012, acima reproduzida. Feito o cômputo geral, a primeira metade do Século XX ganha, e muito bem, da segunda metade. E, claro, o novo milênio (mesmo na lista de 2012) é elegantemente ignorado.

Com relação às nacionalidades, estas variam, mas nem tanto. Não há, por exemplo, nestas trinta e quatro obras cinematográficas de que estamos tratando, filmes latino-americanos, nem africanos, e os asiáticos são em número reduzido: alguns soviéticos, alguns japoneses e um indiano. Se pensarmos naquela famosa dicotomia da crítica historiográfica, que separa o Cinema Clássico Americano do Cinema de Arte Europeu, vamos ter um interessante empate: exatamente treze filmes para cada lado da dicotomia. Para fechar esta matéria, cito, na ordem das aparições nas listas, estes vinte e seis filmes:

CINEMA DE ARTE EUROPEU

Ladrões de bicicleta; Trágico amanhecer; A paixão de Joana D´Arc; Desencanto; A regra do jogo; O milhão; A aventura; A terra treme; L´Atalante; Persona; Morangos silvestres; Oito e meio; Aurora.

CINEMA CLÁSSICO AMERICANO

Luzes da cidade; Em busca do ouro; Intolerância; Ouro e maldição; Cidadão Kane; A general, Soberba; Cantando na chuva; Um corpo que cai; Rastros de ódio; 2001 – uma odisseia no espaço; O poderoso chefão; O poderoso chefão II.

4

Rastros de ódio (The searchers, 1956), o único western nas sete listas do BFI e Sight&Sound

Os 100 melhores filmes americanos

29 jul

Para alvoroçar a cinefilia do planeta, está circulando na imprensa mundial mais uma lista de filmes. É que a BBC resolveu fazer a relação dos cem melhores filmes americanos (isso mesmo) de todos os tempos, e para tanto, congregou 62 votantes, especialistas da crítica cinematográfica. O resultado é o esperado, e não é. Senão, vejamos.

Vamos começar nosso comentário com o topo da lista, digo, os dez mais. Entre esses dez estão pelo menos três dos filmes que sempre visitam a lista decenal da Sight & Sound, aquela que circula desde 1952, e que, para o cinema internacional, tem estatuto de cânone. Se considerarmos apenas a última edição, a de 2012, os três filmes comuns às duas listas são: Cidadão Kane, Um corpo que cai e Aurora.

Cidadão Kane, o número um.

Cidadão Kane, o número um.

Nesta apertada posição dos dez mais, os diretores variam em estilo e época. Orson Welles, como nas listas da Sight & Sound, está em primeiro lugar, mas em compensação, um diretor moderno, ainda vivo, Francis Ford Coppola, tem dois filmes na lista (O poderoso chefão e O poderoso chefão II), um deles num privilegiado segundo lugar. Alfred Hitchcock é outro diretor com dois filmes entre os dez melhores: Um corpo que cai em terceiro lugar, e Psicose em oitavo. Os outros diretores que comparecem são: Kubrick (com 2001 uma odisséia no espaço, no quarto lugar), John Ford (com o western Rastros de ódio em quinto); a dupla Stanley Done e Gene Kelly (com Cantando na chuva) e Michael Curtiz (com o indefectível Casablanca). A surpresa da lista deve ser o expressionista F.W. Murnau, com o seu belo Aurora. Digo, surpresa porque o cineasta é alemão, e o filme de Hollywood só tem mesmo a produção.

Aurora, a obra prima de Murnau, 1927.

Aurora, a obra prima de Murnau, 1927.

Veja os dez primeiros da lista:

 

1. Cidadão Kane Orson Welles 1941
2. O Poderoso Chefão Francis Ford Coppola 1972
3. Um Corpo Que Cai Alfred Hitchcock 1958
4. 2001 – Uma Odisséia no Espaço Stanley Kubrick 1968
5. Rastros de Ódio John Ford 1956
6. Aurora FW Murnau 1927
7. Cantando na Chuva Stanley Donen e Gene Kelly 1952
8. Psicose Alfred Hitchcock 1960
9. Casablanca Michael Curtiz 1942
10. O Poderoso Chefão – Parte II Francis Ford Coppola 1974

 

Terceiro lugar para Um Corpo que Cai.

Terceiro lugar para Um Corpo que Cai.

Até aqui estive me referindo aos dez mais, porém, a lista inteira é de 100, lista que traz algumas surpresas. Lá estão os óbvios, os que imaginamos que estariam, mas também alguns filmes obscuros. Caso, por exemplo, de: O matador de ovelhas (Charles Burnett, 1978); As três noites de Eva (Preston Sturges, 1941); Tramas do entardecer (Maya Deren, 1943) e Gray Gardens (Albert Maisles et alii, 1975). Se o documentário Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio, 1982, é surpresa ou não, deixo para o leitor decidir.

No meu entender, estão de fora filmes que não deveriam estar, por exemplo, o emblemático A rosa púrpura do Cairo. Pensando bem, a relação dos ilustres ausentes é enorme. (Veja adiante meu comentário sobre os diretores ausentes) Alguns filmes foram mal posicionados, caso de E o vento levou, que aparece no nonagésimo oitavo lugar. Acho que outros foram mal escolhidos, como, no meu entender, é o caso de Marnie, um dos cinco hitchcockianos presentes, quando o mestre do suspense tinha mais de vinte realizações mais acabadas que ele.

Cantando na chuva é um dos dez mais.

Cantando na chuva é um dos dez mais.

Mas quem são os cineastas favoritos, os mais recorrentes na lista inteira? Como houve empates, cito-os pela ordem de antiguidade: Alfred Hitchcock, Billy Wilder, Stanley Kubrick, Steven Spieberg (com cinco filmes mencionados), Howard Hawks, FF Coppola, Martin Scorsese (com quatro), Charles Chaplin, John Ford e Orson Welles (com três).

Inevitavelmente ou não, alguns dos grandes diretores do passado só compareceram uma única vez, casos de William Wyler (com Os melhores anos de nossas vidas), Frank Capra (com A felicidade não se compra) e George Stevens (com Um lugar ao sol). Em alguns casos, o único filme escolhido de um grande diretor não era o esperado: vejam o caso de Ernst Lubitsch que está presente, não por causa do badalado Ninotchka, e sim, pelo menos conhecido A loja da esquina.

201 uma odisseia no espaço, de Kubrick.

201 uma odisseia no espaço, de Kubrick.

Uma lista dessas (ou qualquer uma) vai sempre provocar sustos, estranhamentos e mesmo indignações. No item das indignações é o caso quando se pensa em grandes cineastas que fizeram a história do cinema americano, contribuindo com algumas obras primas, e que não foram contemplados com um único título. Estou pensando em nomes com o gabarito de Fred Zinnemann (de, por exemplo, Matar ou morrer), de John Huston (O tesouro de Serra Madre), de Otto Preminer (Laura), de Elia Kazan (Vidas amargas). Ao se constatar que, na lista em questão, está A noite dos mortos vivos, fica difícil entender por que os filmes dos cineastas mencionados foram descartados.

Uma constatação interessante diz respeito às décadas, principalmente se considerarmos que a lista, em princípio, recobre os 120 anos da história do cinema. Tanto é que nela está o primevo Nascimento de uma nação (1915) e o recente Doze anos de escravidão (2013).

Um dos poucos westerns da lista completa está entre os dez mais: Rastros de Ódio.

Um dos poucos westerns da lista completa está entre os dez mais: Rastros de Ódio.

A década mais recorrente é a dos anos setenta (20 filmes) seguida dos anos cinquenta (14 filmes), anos quarenta e oitenta (13 ambas), anos sessenta e noventa (8 ambas), anos trinta (7) e anos vinte (5). É significativo saber que aquele período da história chamado de Hollywood Clássica – dos anos trinta aos cinquenta – ficou com um pouco mais de um terço do total: 34 filmes, enquanto que o cinema do novo milênio, de 2001 em diante, só compareceu com 6 filmes.

Enfim, eis a lista completa. Veja se aí estão os seus filmes preferidos.

 

1. Cidadão Kane Orson Welles 1941
2. O Poderoso Chefão Francis Ford Coppola 1972
3. Um Corpo Que Cai Alfred Hitchcock 1958
4. 2001 – Uma Odisséia no Espaço Stanley Kubrick 1968
5. Rastros de Ódio John Ford 1956
6. Aurora FW Murnau 1927
7. Cantando na Chuva Stanley Donen e Gene Kelly 1952
8. Psicose Alfred Hitchcock 1960
9. Casablanca Michael Curtiz 1942
10. O Poderoso Chefão – Parte II Francis Ford Coppola 1974
11. Soberba Orson Welles 1942
12. Chinatown Roman Polanski 1974
13. Intriga Internacional Alfred Hitchcock 1959
14. Nashville Robert Altman 1975
15. Os Melhores Anos das Nossas Vidas William Wyler 1946
16. Quando os Homens são Homens Robert Altman 1971
17. Em busca do Ouro Charlie Chaplin 1925
18. Luzes da Cidade Charlie Chaplin 1931
19. Taxi Driver Martin Scorsese 1976
20. Os Bons Companheiros Martin Scorsese 1990
21. Cidade dos Sonhos David Lynch 2001
22. Ouro e Maldição Erich von Stroheim 1924
23. Noivo Neurótico, Noiva Nervosa Woody Allen 1977
24. Se Meu Apartamento Falasse Billy Wilder 1960
25. Faça a Coisa Certa Spike Lee 1989
26. O Matador de Ovelhas Charles Burnett 1978
27. Barry Lyndon Stanley Kubrick 1975
28. Pulp Fiction: Tempo de Violência Quentin Tarantino 1994
29. Touro Indomável Martin Scorsese 1980
30. Quanto Mais Quente Melhor Billy Wilder 1959
31. Uma Mulher Sob Influência John Cassavetes 1974
32. As Três Noites de Eva Preston Sturges 1941
33. A Conversação Francis Ford Coppola 1974
34. O Mágico de Oz Victor Fleming 1939
35. Pacto de Sangue Billy Wilder 1944
36. Star Wars George Lucas 1977
37. Imitação da Vida Douglas Sirk 1959
38. Tubarão Steven Spielberg 1975
39. O Nascimento de uma Nação DW Griffith 1915
40. Tramas do Entardecer Maya Deren e Alexander Hammid 1943
41. Rio Bravo (Onde Começa o Inferno) Howard Hawks 1959
42. Dr. Fantástico Stanley Kubrick 1964
43. Carta de Uma Desconhecida Max Ophüls 1948
44. Sherlock Jr. (Buster Keaton 1924
45. O Homem que Matou o Facínora John Ford 1962
46. A Felecidade Não se Compra Frank Capra 1946
47. Marnie – Confissões de uma Ladra Alfred Hitchcock 1964
48. Um Lugar ao Sol George Stevens 1951
49. Cinzas no Paraíso Terrence Malick 1978
50. Jejum do Amor Howard Hawks 1940
51. A Marca da Maldade Orson Welles 1958
52. Meu Ódio Será Sua Herança 5Sam Peckinpah 1969
53. Grey Gardens Albert e David Maysles, Ellen Hovde e Muffie Meyer 1975
54. Crepúsculo dos Deuses Billy Wilder 1950
55. A Primeira Noite de um Homem Mike Nichols 1967
56. De Volta para o Futuro Robert Zemeckis 1985
57. Crimes e Pecados Woody Allen, 1989
58. A Loja da Esquina Ernst Lubitsch 1940
59. Um Estranho no Ninho Milo? Forman 1975
60. Veludo Azul David Lynch 1986
61. De Olhos Bem Fechados Stanley Kubrick 1999
62. O Iluminado Stanley Kubrick 1980
63. Amantes John Cassavetes 1984
64. Johnny Guitar Nicholas Ray 1954
65. Os Eleitos Philip Kaufman 1983
66. Rio Vermelho Howard Hawks 1948
67. Tempos Modernos Charlie Chaplin 1936
68. Interlúdio Alfred Hitchcock 1946
69. Koyaanisqatsi Godfrey Reggio 1982
70. A Roda da Fortuna Vincente Minnelli 1953
71. Feitiço do Tempo Harold Ramis 1993
72. Tensões em Shangai Josef von Sternberg 1941
73. Rede de Intrigas Sidney Lumet 1976
74. Forrest Gump – O Contador de Histórias Robert Zemeckis 1994
75. Contatos Imediatos do Terceiro Grau Steven Spielberg 1977
76. O Império Contra-Ataca Irvin Kershne 1980
77. No Tempo das Diligências John Ford 1939
78. A Lista de Schindler Steven Spielberg 1993
79. A Árvore da Vida Terrence Malick 2011
80. Agora Seremos Felizes Vincente Minnelli 1944
81. Thelma & Louise Ridley Scott 1991
82. Os Caçadores da Arca Perdida Steven Spielberg 1981
83. Levada da Breca Howard Hawks 1938
84. Amargo Pesadelo John Boorman 1972
85. A Noite dos Mortos-Vivos George A Romero 1968
86. O Rei Leão Roger Allers e Rob Minkoff 1994
87. Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças Michel Gondry 2004
88. Amor, Sublime Amor Robert Wise e Jerome Robbins 1961
89. No Silêncio da Noite Nicholas Ray 1950
90. Apocalypse Now Francis Ford Coppola 1979
91. ET: O Extraterrestre Steven Spielberg 1982
92. O Mensageiro do Diabo Charles Laughton 1955
93. Caminhos Perigosos Martin Scorsese 1973
94. A Última Noite Spike Lee 2002
95. Diabo a Quatro Leo McCarey 1933
96. Batman – O Cavaleiro das Trevas Christopher Nolan 2008
97. E o Vento Levou Victor Fleming 1939
98. O Portal do Paraíso Michael Cimino 1980
99. 12 Anos de Escravidão Steve McQueen 2013
100. A Montanha dos Sete Abutres Billy Wilder 1951

 

O único filme de Michael Curtiz na lista: Casablanca.

O único filme de Michael Curtiz na lista: Casablanca.

 

Orson Welles centenário

15 maio

Data importante para o cinema: neste ano de 2015 comemora-se o centenário de nascimento de Orson Welles (1915-1985), um dos maiores gênios da sétima arte, talvez o maior.

O Wonder Boy teve uma carreira atípica. Começou do topo e de lá foi caindo, sem nunca praticamente soerguer-se. Começou com a obra prima “Cidadão Kane” (“Citizen Kane”, 1941) e nunca mais fez nada tão grandioso, sequer parecido.

kane 0

A história de Orson Welles é bem conhecida e não vou detalhar. Em 1940, cheio da grana da RKO, o jovem dramaturgo e radialista (25 anos) chegou a Hollywood para fazer o filme que quisesse, com os recursos que quisesse, do jeito que quisesse… e fez. Teve opções (uma delas a filmagem de “No coração das trevas” de Conrad), mas, preferiu esse roteiro que, com um bocado de malícia, ficcionalizava a vida do magnata da imprensa americana William Randolph Hearst. O “rosebud” – a última palavra pronunciada pelo protagonista Charles Foster Kane – era só um pretexto para contar, toda em longos flashbacks, a estória de uma queda. E que queda.

Com a má “influência” de Hearst, o filme foi um fracasso de público, mas, em compensação, um sucesso de crítica. A Academia de Hollywood lhe deu apenas um Oscar de roteiro, mas isso não quis dizer nada, porque, “Cidadão Kane” logo se transformaria num cult. Infelizmente, também se transformaria numa maldição. Depois dele, Orson Welles nunca mais teve os privilégios que a RKO lhe dera de mão beijada, e nunca mais repetiu o milagre. Um pouco como a de Charles Foster Kane, sua queda foi definitiva.

O "rosebud" procurado...

O “rosebud” procurado…

Os primeiros sintomas vieram de imediato. O seu filme seguinte, “Soberba”, foi drasticamente cortado pelas tesouras de Hollywood, enquanto ele, meio perdido num país tropical, o Brasil, não sabia ao certo o que fazer com essa estória de jangadeiros cearenses que navegam até o Rio de Janeiro para falar com o presidente Getúlio Vargas (“It´s all true”, 1942). Farras no cassino da Urca e o afogamento do jangadeiro protagonista nas águas de Copacabana, afogaram o projeto que nunca foi completado…

Depois disso, triste ironia: enquanto um Welles sem prestígio peregrinava mundo afora tentando financiamentos para novos projetos, e, para se sustentar, trabalhando como ator em películas alheias, muitas das quais irrisórias, “Cidadão Kane” era considerado pelo consenso da crítica internacional “o filme mais perfeito já feito”.

Orson Welles é Kane

Orson Welles é Kane

A primeira votação da crítica foi em 1952. Com divulgação da revista Sight & Sound, gente de cinema de todo o mundo escolhia os melhores filmes de todos os tempos, e a lista, sempre de dez, tinha pertinência na ordem, ou seja, o primeiro citado era o melhor: sempre “Cidadão Kane”. Essa colocação se repetiria por meio século, de dez em dez anos, até 2012, quando o hitchcockiano “Um corpo que cai” (1958) tomou o seu lugar.

Claro que essa eventual descida para o segundo lugar, na lista da crítica internacional, não mudou nada no conceito mundial do filme.

Segundo o cineasta e cinéfilo François Truffaut, “Cidadão Kane” é o filme mais influente na história da sétima arte, em outras palavras, aquele que mais estimulou neófitos a partirem para fazer cinema.

Orson Welles e Joseph Cotten em momento dramático.

Orson Welles e Joseph Cotten em momento dramático.

E, afinal de contas, o dado mais importante, confirmado pelas estatísticas: trata-se da obra fílmica com a maior fortuna crítica do planeta, o que, em miúdos, significa dizer que é o filme mais estudado por scholars, historiadores, críticos e pensadores do cinema em geral – enfim, aquele sobre o qual mais se escreveu.

Querem mais? Mais que isso não há.

Mas, para não dizer que só falei de “Cidadão Kane”, acrescento uma seleção de dez títulos da breve filmografia de Orson Welles. Se porventura você não os conhece, eis um bom exemplo de como um gênio trabalha em condições adversas.

 

Soberba (The magnificent Ambersons, 1942)

Jornada do pavor (Journey into fear, 1943)

O estranho (The stranger, 1946)

A dama de Shangai (The lady from Shangai, 1947)

Macbeth, reinado de sangue (Macbeth, 1948)

Otelo (Othello, 1952)

Grilhões do passado (Mr Arkadin, 1955)

A marca da maldade (Touch of evil, 1959)

O processo (Le procès, 1962)

Verdades e mentiras (F for fake, 1973)

 

Fotograma famoso de "Cidadão Kane".

Fotograma famoso de “Cidadão Kane”.

Casablanca ou Cidadão Kane?

1 abr

A Semana Santa está aí e o casal arruma as malas para um feriadão na casa de praia da família, a essa época do ano desocupada e inteiramente disponível. Na maior parte do tempo, vão estar a sós, os dois pombinhos, curtindo o sol ou chuva – o que der e vier, pouco importa! – livres de compromissos e problemas.

Na quinta-feira santa, porém, já está combinado, receberão um grupo de amigos, que, segundo a promessa feita, vai levar – tudo já pronto pra servir à mesa – os ingredientes de uma ceia larga – vinho, pão, queijo, peixe e tudo mais.

Depois da ceia, um filme! – assim foi sugerido e ficou decidido.

Quando o casal perguntou, no telefone, que filme, a resposta dos amigos – todos, como o casal, cinéfilos de carteirinha – foi: “um clássico, claro”. E com uma alegação mais que justa: é que neste ano de 2015 a sétima arte está completando redondos 120 anos!

“Mas que clássico?”

“Vocês dois decidem: a surpresa vai ser o aperitivo” – responderam.

Depois de um papozinho privado, o casal concordou em que o filme a levar tinha que ser, no mínimo, marcante.

casablanca

Casablanca foi a opção dela.

Teria tudo sido fácil se a opção dele não fosse outra, bem diferente: Cidadão Kane.

E durante dias ficou o impasse.

Agora estavam de partida, arrumando as malas, e o impasse continuava.

Ela alegou que Casablanca agradaria à maioria. Ele alegou que não via por que Cidadão Kane não agradaria a essa maioria de que ela falava, afinal seriam apenas umas onze ou doze pessoas, todas apaixonadas por cinema.

Entre uma peça de roupa jogada na mala e outra, entre um par de sapato empacotado e uma escova de dente catada no banheiro, a discussão continuava.

Ela: Amor, apesar do lance da data comemorativa, a gente vai ver um filme pra se divertir, pra curtir, e não para racionar. Casablanca dá mais certo.

Ele: Pois Casablanca me faz refletir tanto quanto Cidadão Kane. Não vejo diferença. Aliás, se o critério é diversão, Casablanca me deixa mais pra baixo. O final sempre me dá vontade de chorar, com Ilsa indo embora e Rick sozinho no aeroporto com aquele delegado cretino”.

Ela: E Cidadão Kane, que já começa com morte? Não me diga que é alegre a estória de um homem que subiu na vida só pra despencar lá de cima, perdendo esposa, negócios, eleições, sei lá o que mais, pra viver com uma mulher que ele nem ama, só por teimosia, num castelo assombrado, sem amigos nem parentes.

kane

Ele: Acho que você só ´tá vendo os aspectos negativos da vida de Kane…

Ela: E você por acaso não ´tá fazendo o mesmo com Ilsa e Rick? Entre eles pelo menos houve uma grande estória de amor, mesmo que…

Ele: Essa conversa tá meio tola: nenhum dos dois filmes é melhor ou pior por causa das infelicidades dos personagens.

Ela: Pois é, e a gente volta ao mesmo ponto de partida.

Ele: O pior é que ´tá na hora de fechar as malas e não quero viajar de noite.

Ela: O que é que você sugere?

Ele: Um par ou impar?

Ela: Ah, não, isso não!

Depois de uma pausa para fechar portas e janelas do apartamento, novas arguições:

Ela: Francamente, eu acho que Cidadão Kane é uma escolha meio óbvia, sabe como é, (e falseando a voz para soar prepotente) “o filme mais perfeito já feito, segundo a crítica internacional”… essas coisas.

Ele: E Casablanca, que é o queridinho do público em todos os tempos e lugares, acho que o filme mais reassistido em toda a história do cinema… Isso não é obviedade? O filme mais selado em VHS, DVD e Blue Ray.

Ela: Tão selado quanto Cidadão Kane!

Ele: E daí?

Ela: É, assim a gente não chega a lugar nenhum.

Ele: Também acho. E a hora ´tá passando.

casablanca poster

Ela: Uma saída seria pensar noutro filme…

Ele: Outro filme? (e demorando a digerir a sugestão) tudo bem, e o que seria? Filme não falta…

Ela: Mas nada que se compare a Casablanca.

Ele: Nem a Cidadão Kane.

Ela: O que ´tou querendo dizer é que, para uma ocasião dessas, encontro de amigos, em data especial, os 120 anos do cinema…

Ele: Sim, isso mesmo. Cidadão Kane resume a história do cinema.

Ela: Casablanca resume a história do amor ao cinema.

Ele: Só se a gente fizer o seguinte: bota os dois filmes na mala. Na hora de assistir, a gente pede a opinião da turma toda.

Ela: Ih, isso vai dar zebra. A discussão vai se estender e a sessão vai começar de meia noite. Não dá certo, não. Além do mais, eu concordei em que ia haver o elemento surpresa.

Ele: E aí, o que é que se faz?

Ela, colocando na mala superlotada um par de calcinhas: Continuo achando que devia ser Casablanca.

Ele, enfiando no meio das roupas, um tubo de creme de barbear: Continuo achando que devia ser Cidadão Kane.

citizen kane poster

 

Em tempo: a Chico Vianna dedico esta crônica, que imita o seu estilo.