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Lágrimas no escuro

9 maio

Muitas vezes me perguntam se, no ato de assistir a um filme, já mantenho, sentado à poltrona do cinema, uma postura crítica que observa, analisa e julga do modo mais frio e impessoal.

Sempre dou a mesma resposta, que geralmente surpreende os meus interlocutores: ao ir ao cinema – ou, em casa, ao ligar o aparelho de DVD, tanto faz – me dispo completamente de minha “farda de crítico” e me entrego ao filme, de corpo, alma e coração, para o que der e vier. E o que der e vier pode ser quaisquer reações humanas, inclusive as demasiado humanas.

Só mais tarde, como diria o poeta inglês, “recollected in tranquility”, revejo mentalmente o filme e, se porventura valeu a pena, me concentro na sua análise, interpretação e avaliação.

Acima não listei as reações que posso ter a um filme, mas me sinto na obrigação moral de dizer que são todas que acometem o mais ingênuo e despreparado espectador.

Uma delas, por exemplo, é o choro. Sim, alguns filmes me fazem chorar, tanto que as lágrimas atrapalham, não apenas a minha visão, mas também a minha suposta habilidade de discernimento.

Sorriso triste: "Noites de Cabíria" (Fellini, 1957).

Sorriso triste: “Noites de Cabíria” (Fellini, 1957).

Querem ver? Nunca consegui assistir à cena final de “Noites de Cabíria” (Fellini, 1957) sem derramamento de lágrimas, e mesmo agora, relembrando a cena para aqui reconstituí-la, sinto vontade de chorar.

Acho que Fellini foi um bocado malvado ao conceber aquele desenlace para Cabíria; malvado com ela e com o espectador. A pobrezinha vinha sofrendo um golpe atrás do outro, e este final é, literalmente, insuportável. Era para ter sido o momento sublime em que, apesar dos golpes sofridos, ela voltaria a acreditar no amor, e no entanto, o seu “príncipe encantado” se revela, no bosque escuro, à beira do abismo,… um ladrão que foge com seus bens. Na manhã seguinte, ao se ver rodeada de jovens alegres que cantam, tocam e dançam ao seu redor, Cabíria ainda esboça um sorriso, mas…

Em “A felicidade não se compra” (Frank Capra, 1946) George Bailey é um pai de família endividado que, em noite de natal, não vê saída a sua frente, a não ser o suicídio. Ao tentar o gesto fatídico, alguém se intromete no cenário e a estória toma um rumo inesperado e estranho. Enfeitiçado pela mágica do anjo Clarence, George procura os seus na cidade e não encontra: nesse mundo tenebroso que ele desconhece, a esposa, Mary, virara uma solteirona neurótica, a mãe, uma dona de bordel, e o irmão era um nome num túmulo… Em determinado momento de completo desespero, sem saber o que fazer ou para onde ir, ele se dirige à tela (sim, a nós) como se a pedir socorro. Esse momento me entala e….

Um mundo tenebroso para George Baily: "A felicidade não se compra".

Um mundo tenebroso para George Baily: “A felicidade não se compra”.

Em “Desencanto” (David Lean, 1945) Laura é uma simples dona de casa, com dois filhos menores, um marido obtuso e uma vida sem imaginação pela frente; toda quinta-feira ela pega um trem para a cidade vizinha, onde termina por conhecer esse médico também casado que…. A cena em que essa mulher, apaixonada fora do casamento, é levada pelas circunstâncias da vida a retornar ao marido que não ama e, sentada à poltrona da sala, depois de recordar toda uma estória de amor, escuta este lhe dizer que está grato por ela ter saído do seu “pesadelo” e voltado para os seus braços: tudo isso ao som de Rachmaninoff…

Nunca escrevi ensaios críticos sobre estes filmes, e se alguma vez o fiz, não fiquei satisfeito com o texto. É que minha reação emocional inevitavelmente interfere no exercício da análise e, afinal de contas, prefiro deixá-los intactos. Aliás, sequer os revejo com frequência, pois, na minha religião de cinéfilo, são ícones sagrados, para os quais a visitação constante poderia soar como profanação.

De volta à vidinha doméstica: "Desencanto", de David Lean.

De volta à vidinha doméstica: “Desencanto”, de David Lean.

Na verdade, não são muitos os filmes que me fazem chorar e os que fazem são todos antigos, da primeira metade do século passado. O cinema moderno nunca me arrancou uma lágrima, não sei se o problema é meu ou dele. Nem sei se é problema.

O efeito do choro está ligado a um gênero, o melodrama, um gênero que perdeu prestígio com o advento da modernidade.

Não sei até que ponto os três filmes mencionados podem ser chamados de melodramas, mas, de uma coisa sei: são filmes grandes demais para caberem em gêneros.

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Criticando a crítica

9 dez

Cinema sobre cinema – isto que os teóricos chamam de metalinguagem fílmica – sempre existiu. Desde tempos remotos que o cinema fala de si mesmo e não é aqui que vou arrolar os títulos dos filmes metalinguísticos.

O que nunca foi comum é a representação, na tela, da figura do crítico cinematográfico. Neste momento em que escrevo, sem parar para pensar muito, só me ocorrem dois casos, ambos em filmes do italiano Ettore Scola. Em “Nós que nos amávamos tanto” (1974) um dos três protagonistas cujas vidas se entrelaçam, vai ter essa profissão, no caso, sempre maldosamente mostrada com certa ironia desdenhosa; e em “Splendor” (1989) – não sei se vocês lembram – o dono do cinema do título, tem um amigo pessoal que exerce a crítica cinematográfica, um tipo meio apalermado, despregado do real, vivendo de sonhos que nada têm a ver com o espectador comum, ou com a produção cinematográfica de sua época.

Ora, quem dedica um filme inteiro ao crítico cinematográfico é o pernambucano Kleber Mendonça Filho, ele mesmo, como se sabe, crítico (Jornal do Commércio, Recife), além de também cineasta, autor de vários curtas.

Correndo a programação do Canal Brasil desde maio e recentemente exibido no evento “Sessão Vitrine” da Funesc, entre 2 e 4 deste mês, o filme se chama justamente “Crítico”.

Lançado em 2008, trata-se de um longa-metragem documental em que cerca de setenta profissionais do cinema emitem opiniões sobre o fenômeno da crítica. Muitos são críticos falando de seu métier, mas, não todos: há cineastas, atores e outros, e as cenas não os relacionam por categorias, e sim, pelo fluir das conversas.

Michel Ciment, Walter Salles, Carlos Saura, Gus Van Sant, Luiz Zanin, Fernanda Torres, Samuel Jackson, João Moreira Salles, Sergio Bianchi, Eduardo Valente, Eduardo Coutinho, Tom Tykwer, Curtis Hanson, Carlos Reichenbach, Nelson Pereira dos Santos, Costa Gavras, Fernando Meirelles, Claudio Assis, Richard Linklater… A lista é grande e variada.

Consta que, entre Europa, Estados Unidos e Brasil, Kleber Mendonça passou cerca de oito anos aproveitando oportunidades e pacientemente registrando em câmera digital os depoimentos desses profissionais, que editou de modo pessoal, intercalando-os com curiosas imagens de arquivo que comentam os temas debatidos de modo engraçado e irônico.

Não posso falar pelo espectador em geral, mas, para quem está na seara do cinema, o resultado é divertido, instigante, perturbador, envolvente, e mesmo apaixonante.

A crítica seria uma atividade necessária ao sistema cinematográfico, um fator de estímulo, inspirador, criativo, esclarecedor, instrutivo e construtivo? Ou, ao contrário, seria um ofício pernicioso, equivocado, capcioso, prejudicial e deletério?

Evidentemente, as opiniões variam de boca a boca e o espectador do filme de Mendonça tem um quadro controverso de colocações que se completam ou se chocam.

Como talvez esperado, Mendonça, ele mesmo, se distancia da questão, mas, pensando bem, nem tanto. “Crítico” é, na verdade, aquele tipo de filme documental em que a voz do autor só aparece na edição. É aí que Mendonça se enuncia e se denuncia. Vejam bem: Mendonça poderia ter intercalado, ao longo de todo o filme, as opiniões favoráveis à crítica cinematográfica e as desfavoráveis, uma seguida à outra, de tal modo que, no final, dialeticamente, perdurasse o efeito de antítese, para o espectador elaborar a sua síntese.

Mas, o que fez Mendonça? De propósito, colocou as opiniões favoráveis à crítica cinematográfica, todas juntas, na parte inicial do filme, deixando para o meio e fim, os pitacos desfavoráveis. Como se sabe, em linguagem narrativa, a ordem dos fatores altera, sim, o produto, e aquilo que aparece no final apaga o que veio antes e adquire foro de verdade – o que popularmente se chama de “última palavra”. Ao terminar a projeção, o filme parece ter sido contra a crítica. Tivesse ele feito o contrário (desfavoráveis primeiro e favoráveis depois), o efeito seria o oposto.

Com esta ordem escolhida, Mendonça quis desvalorizar a crítica? Não. Apenas, como crítico que é, optou pelo peso da (auto)crítica. E, pensando bem, fez bem.

Uma quase epígrafe do filme é a frase de Oscar Wilde: “Toda crítica é uma autobiografia” (citada, com certo entusiasmo ingênuo pela atriz brasileira Fernanda Torres). Mas, quem foi que disse que essa condição se restringe à crítica? A arte, como estamos cansados de saber, também é, no fundo, autobiográfica, e “Crítico”, o filme, idem.