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Como escrever sobre cinema (III)

21 fev

Na discussão sobre a escritura crítica, um tópico interessante são as divergências. Claro, nada mais democrático do que divergir, porém, a coisa complica um pouco quando as opiniões, de divergentes, passam a ser praticamente excludentes.

Tenho amigos que acham “Morte em Veneza” uma chatice, enquanto outros o têm como um filme superior, perfeito. Descompasso semelhante de opiniões entre meus amigos, eventualmente constato em filmes como “O anjo azul”, “O ano passado em Marienbad”, “Oito e meio”, e tantos outros.

Há amigos meus que julgam filmes como “Cidadão Kane” e mesmo “Um corpo que cai” um lixo só, e, neste caso, conversando com eles, eu fico sem saber o que argumentar em favor dessas obras primas… E dou um jeito de mudar de assunto, pois são pessoas instruídas cujas bagagens culturais eu tenho o bom senso de respeitar.

Como dar a "Um corpo que cai" o estatuto de "lixo"?

Como dar a “Um corpo que cai” o estatuto de “lixo”?

Sobre esse tópico das divergências, uma coisa que me diverte é consultar o setor de comentários dos usuários do IMDB. Não necessariamente para ler os textos, mas, tão somente para cotejar os títulos que são dados aos comentários,  geralmente títulos que já dizem tudo das reações dos espectadores aos filmes vistos. Não é raro que, de um mesmo filme recém lançado, estejam, lado a lado, títulos assim: “Uma obra prima” e “Um fracasso completo”. Como disse, nem sempre me dou ao trabalho de ler os textos, mas, imagino que cada um dos comentaristas argumente com a lógica que lhe é possível, seja qual for essa lógica.

Os usuários do IMDB, em princípio, não são críticos de cinema, porém, o intrigante é que entre os profissionais, as divergências também venham a ter o tom de recíproca excludência.

Quando escrevo sobre filmes antigos, – e faço isso com relativa frequência – gosto de consultar suas respectivas fortunas críticas, em vários locais, mas, especialmente nos video-guides da vida, livrinhos bastante úteis pelo seu caráter conciso. Dois há a que sempre recorro, a saber, o do inglês Leslie Halliwell, e o do americano Leonard Maltin. E, não vou negar, também me divirto muito com as excludentes divergências.

Um exemplo que me ocorre, no momento, é o de “O homem que matou o facínora” (“The man who shot Liberty Valence”). Seria essa realização de John Ford, de 1962, um filme ruim, ou um excelente filme? Em seu conceituado video guide, o afamado crítico Halliwell, do total de quatro estrelas, lhe concede uma única, o que o põe na categoria de “ruim”. Ao passo que o igualmente afamado Maltin lhe doa o total de suas estrelas, quatro, colocando-o, portanto, no patamar de “excelente”.

Para o espectador comum que toma esses ´guides´ como orientações, divergências desse tipo devem ser difíceis de compreender. Como resolver o impasse? Como é que dois profissionais teoricamente aparelhados para emitir julgamentos da mesma natureza estética, podem divergir a esse ponto sobre uma mesma obra?

"O homem que matou o facínora" - ruim ou excelente?

“O homem que matou o facínora” – ruim ou excelente?

Pois é. É aqui que entra aquele conceito incômodo chamado “gosto”.

Naturalmente, a primeira verdade a ser admitida é que crítico de cinema é gente de carne e osso, coração e mente, e que, portanto, está sujeito às trapaças da sorte, como qualquer mortal. Cada um tem sua própria formação cultural, experiência de vida, e, se for o caso, posicionamento ideológico. As preferências decorrem disso tudo, e, eventualmente, de coisas mais íntimas, por vezes inconfessáveis, ou indevassáveis. O domínio da teoria da linguagem cinematográfica deveria salvaguardar uma certa objetividade no julgamento, mas… como já disse um personagem fílmico do mestre Billy Wilder, ninguém é perfeito.

De minha parte, fico pensando onde é que residiriam as minhas limitações, os meus defeitos de crítico. Ao certo não sei, mas posso adiantar o seguinte.

Quem acompanha os meus escritos sabe que sou admirador do cinema produzido ao tempo da Hollywood clássica, aquele período de ouro, que recobre as décadas de trinta, quarenta e cinquenta. Quem me acompanha também sabe que, salvo as honrosas exceções, não alimento entusiasmo especial pelo cinema de hoje em dia, principalmente (sintam a ironia) pelo da Hollywood moderna, cheio de pirotecnias e efeitos especiais de toda ordem eletrônica.

Ao escrever sobre um filme qualquer, antigo ou moderno, confesso que faço sinceros esforços para me distanciar desse meu ´gosto clássico´ e ser objetivo no meu julgamento, e, mesmo assim, não seria tomado de espanto se um dia um paciente estudioso de minha produção crítica demonstrasse, a mim e a todos, que, no geral, possuo a tendência a ser um pouco complacente com os filmes antigos, e um pouco intransigente com os filmes modernos.

Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.

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Como escrever sobre cinema

7 fev

Há décadas escrevo sobre cinema e, no entanto, toda vez que, em entrevistas ou em conversas informais, me pedem receitas de como fazê-lo, embaraço-me e nunca tenho uma resposta na ponta da língua. O que me apazigua um pouco comigo mesmo é que acho que ninguém tem.

De qualquer modo, para nos servir de ponto de partida para uma conversa sobre o assunto, não resisto em contar duas reações de dois leitores a meus escritos, ambas acontecidas nos anos noventa, uma quase simultânea à outra.

Vamos à primeira. Foi um aluno do Curso de Comunicação, amigo meu, quem me contou. Junto com Linduarte Noronha, eu tinha estado na sua banca de TCC: a defesa fora ótima e dera tudo certo, como esperado. Posteriormente, ele, rindo divertido, contou-me o seguinte. Alguns dias antes da defesa, conversando com um colega de turma, ao referir-se aos componentes escalados para a banca, ouviu do tal colega um comentário que o surpreendeu. As palavras do seu colega foram mais ou menos estas:

“Linduarte, tudo bem, mas, tu estás louco de convidar para a banca João Batista de Brito? Esse cara é um chato, basta ver os artigos dele no jornal; o cara escreve complicado que ninguém entende; é tanto termo difícil que acho que nem ele sabe o que é. Tu vais ver, vai dar rolo na certa.” E estendeu-se sobre a ilegibilidade dos meus artigos de cinema, deixando bem claro o risco que o colega corria em me ter feito o convite. Não sei qual foi a reação dele (lamentavelmente, não o conheci) ao saber que o candidato foi aprovado com distinção, mas, guardei como um dado importante a reação de um jovem desconhecido aos meus escritos de cinema.

Já a segunda reação que cito – e que julguei igualmente importante – veio de um conhecido meu, uma pessoa de minha faixa etária, e, suponho, com formação semelhante à minha. Estávamos numa longa mesa de restaurante, em clima de confraternização, e ele, por acaso sentado ao meu lado, puxou conversa de cinema. Foi dizendo, mais ou menos assim:

“Gosto dos seus textos, mas, acho que você precisa  aprofundar-se mais. Alguns são rasos e dão a impressão de superficialidade. Acho que você precisa ir mais fundo na discussão da linguagem cinematográfica. Eu mesmo sinto falta de termos, que você nunca usa, ou usa pouco, como contra-plongée, profundidade de campo, mise-en-scène, plano-contra-plano, angulação, decupagem clássica, efeito Koulechov, sobreimpressão…” e foi citando toda uma longa lista de termos técnicos da teoria do cinema que, segundo ele, tornariam meus textos mais sérios e mais relevantes.

Fotograma de entrevista dada a TV Câmara sobre minha atividade crítica, hoje disponível no Youtube.

Fotograma de entrevista dada a TV Câmara sobre minha atividade crítica, hoje disponível no Youtube.

Adorei ter tido, quase simultaneamente, conhecimento destas duas antagônicas e equidistantes reações aos meus escritos. Afinal, como eram (são) meus artigos de cinema? Insuportavelmente ilegíveis, como queria o aluno do curso de comunicação, ou vergonhosamente legíveis como queria o meu companheiro de mesa de restaurante?

Não vou fazer nenhuma auto-defesa aqui, mas uma coisa penso que posso dizer: cada um desses meus dois leitores estava falando, um pouco menos dos meus escritos, e um pouco mais deles mesmos. Pareceu-me que cada um fazia a cobrança que lhe convinha.

A acareação destas duas reações de leitores é bastante instrutiva para mim. De fato, se você escreve para jornais, veículo com uma gama bastante variada de consumidores, a grande questão parece ser: como ser fluente e rigoroso ao mesmo tempo? Como aprofundar-se na análise sem obscurecer a linguagem? Como garantir a leveza do texto, sem comprometer o rigor da análise do filme? Enfim, onde reside o equilíbrio entre fluência e profundidade? Creio que este foi sempre meu grande embate privado. Esse equilíbrio ideal nem sempre o consegui, e ainda hoje nem sempre o consigo, porém, todos os meus esforços de escritor têm ido, e vão, nessa direção.

Mas, já que estou falando de recepção, uma outra opinião sobre meus escritos, que muito me serviu para pensar sobre o tema, veio de um terceiro leitor, desta feita um amigo cheio de boa vontade e sabedoria.

Para me aconselhar, ele fez uso de uma metáfora médica. Explicou-me ele que quando um médico trata de um caso clínico de um paciente que vai ser cirurgiado, emprega dois tipos distintos de linguagem, em duas ocasiões distintas: ao falar com a família do paciente usa uma linguagem simples, sem termos técnicos; ao lidar com o colega que procederá à operação, usa uma linguagem técnica, com todos os termos específicos cabíveis.

Gostei da metáfora, só que fui obrigado a refutar a sua aplicabilidade para o meu caso: é que, escrevendo para jornais, como sempre o fiz, eu não tenho um tipo único de leitor: nos mesmos termos da metáfora do meu amigo, em jornais, eu tenho como leitores, tanto a família do paciente, quanto tenho o cirurgião. Os dois juntos. Como, aliás, tive juntos o aluno do curso de comunicação e o conhecido no restaurante. E aí? Claro que meu amigo, inteligente como é, foi forçado a aceitar as limitações conceituais de sua metáfora médica. E a compreender o meu drama.

Uma coisa é certa: se você escreve – e não importa o seu meio de comunicação, se jornais, revistas, sites ou bloques -, leitores são a coisa mais importante que existe. Por isso, estou sempre atento a suas reações, e quando posso, tomo notas delas, para uso próprio. Como fiz nestes casos narrados.

Bem, uma vez que não vou teorizar sobre o assunto, posso ao menos relatar algumas outras ocorrências, de natureza mais genérica, sobretudo as que me surpreendem, por escaparem a meus planos.

Vejam bem. Há textos que componho com o maior capricho, atento a todos os detalhes, textos a que dedico todo o meu esforço criativo, com a ambição de estar gerando uma peça verbal o mais perto da perfeição possível. Depois de publicado, fico aguardando as reações, e, muitas vezes o que ocorre? Ninguém nem deu bolas; não houve um só comentário, nem para dizer que agradou; nada.

Mutatis mutandis, outras vezes escrevo só por escrever, um textinho qualquer a que não estou dando importância nenhuma, em muitos casos, uma matéria que redijo na brincadeira, me divertindo mais do que trabalhando, geralmente uma materiazinha inconsequente, inventada só para preencher a coluna da semana. Desse textinho sem valor não fico aguardando reação alguma, e muitas vezes o que acontece? Depois da publicação, de repente, várias pessoas vêm me dizer que adoraram, que estava ótimo, que nunca escrevi tão bem, que está digno de uma antologia. Nestes casos, um tanto e quanto atônito, eu mesmo volto a ler o tal texto, e faço esforços para divisar a qualidade que lá não pus.

Mistérios, mistérios, mistérios. E acho que é bom que os haja.

Fotograma de entrevista concedida à TV Itararé, disponível neste blogue, no item SOBRE O AUTOR.

Fotograma de entrevista concedida à TV Itararé, disponível neste blogue, no item SOBRE O AUTOR.

Limite

11 jul

Qual o melhor filme brasileiro de todos os tempos, o mais perfeito já feito, a nossa obra prima cinematográfica insuperável?

Os americanos têm lá o seu “Cidadão Kane”, e nós?

Se, para eleger tal filme, uma enquete fosse feita com os espectadores, não tenho a menor ideia do resultado a que chegaríamos, porém, se os votantes forem críticos, historiados e cineastas, o palpite é fácil: o nosso “Kane” iria ser “Limite”, o longa mudo que Mário Peixoto (1908-1992) lançou em 1931.

Lançou é exagero. Houve uma estreia no Cine Capitólio, na Cinelândia, Rio de Janeiro, e pronto: ninguém mais viu o filme, que continuaria desconhecido para sempre, não fossem as facilidades eletrônicas de hoje em dia.

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Restaurado por uma equipe de pesquisadores nos anos setenta, “Limite” foi, mais tarde, lançado em VHS e cheguei a comprar uma cópia, que, lamentavelmente, o fungo, inimigo da cinefilia, destruiu. Por sorte, ao montar o vídeo “Imagens amadas”, com 100 cenas de filmes, para celebrar o centenário da Sétima Arte em 1995, incluí uma cena de “Limite”. Como, mais tarde, o vídeo foi transposto para DVD, a cena está salva.

Mas, de que trata a nossa suposta obra prima?

Resumir seu enredo é tarefa a que não me arrisco, até porque não parece existir, em “Limite”, uma estória com começo, meio e fim. Há, no melhor das hipóteses, uma extensiva situação dramática: num barco à deriva, em extremo desolamento, um homem e duas mulheres, sem aparente relação entre si, relembram momentos passados de suas vidas. Quase tudo se resume a um conjunto de imagens que mostram essas pessoas desoladas, sem rumo num mar misterioso, por fim parando de remar e aceitando um fim comum. E isso, durante quase duas horas de silêncio. A fotografia preto e branco de Edgar Brasil é bela, mas, para o espectador acostumado com o cinema narrativo, a suprema e difícil abstração plástica e filosófica de “Limite” – convenhamos – pode se tornar pouco digerível.

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Contam que, ao escrever o criativo e inovador roteiro, Peixoto teria procurado gente do mundo cinematográfico para dirigir o filme, e todos (entre eles, Humberto Mauro e Adhemar Gonzaga) lhe disseram que um roteiro com aquele nível de invenção, só poderia ser rodado pelo próprio autor. E foi o que ele fez: com apoio financeiro da família, juntou uma pequena equipe, e se mandou para os lados de Mangaratiba, praia fluminense que lhe serviu de cenário.

Recém chegado da Europa, onde passara praticamente toda a sua juventude, o inquieto Mário havia bebido nas fontes vanguardistas que eclodiam naquele tempo no velho mundo, e o roteiro de “Limite” brotou de sua imaginação com a força de uma brain storm. É ele mesmo quem explica a temática do filme, alegando que o realizou para provar que o tempo não existe. Aliás, é o que afirma literalmente a epígrafe: “Em nenhum lugar existe tempo algum”.

Mário Peixoto fez “Limite” em 1931, e nunca mais fez mais nada em cinema. Não que não tenha tentado.

Quem conta toda a frustrada trajetória do cineasta carioca, é Sérgio Machado no seu filme de 2001, “Onde a terra acaba”.

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Esse título, “Onde a terra acaba”, foi, na verdade o nome do filme que Peixoto tentou rodar depois de “Limite”. A atriz principal e produtora era a então famosa Carmem Santos, cujo estrelismo serviu primeiramente de estímulo à produção, e em seguida, de empecilho. É que, no meio das filmagens, a atriz, afundada em problemas pessoais, afastou-se e sua ausência terminou por instaurar o desânimo, de forma que o filme nunca foi concluído, dele restando hoje breves tomadas.

O filme de Sérgio Machado relata as outras poucas e frágeis tentativas cinematográficas de Peixoto, seu isolamento no “Sítio do Morcego”, a partir de 1966, e suas igualmente frustrantes experiências com outras artes, entre as quais a literatura. O seu romance “O inútil de cada um”, por exemplo, só veio a ser publicado em 1984, e apenas o volume I.

Pelo menos três cineastas – Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues e Walter Salles – depõem sobre Mário Peixoto no filme de Machado, todos ressaltando sua importância para a história do cinema brasileiro, mas, quem sugere uma boa pista para o sentido de “Limite” é Diegues, ao formular a suposição de que “aquele era o rumo que o cinema teria tomado, não fosse o advento do som”.

Voltando à questão do melhor filme brasileiro de todos os tempos, faltou dizer que, na verdade, “Limite” já foi agraciado com este prêmio duas vezes: em 1988, concedido pela Cinemateca Brasileira, e em 1995 – ano do centenário do cinema – concedido a partir de um inquérito nacional do jornal Folha de São Paulo.

Em tempo: este post é oferecido a Glória Gama.

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