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TELONAS E TELINHAS

21 jan

“Escorreguei do útero para a sala de projeção”: é a resposta que dou toda vez que me perguntam como foi que começou meu interesse pelo cinema. Mas, o tema de hoje não é propriamente cinema, e sim, televisão.

Foi no final dos anos cinquenta que tive notícia local dessa nova mídia. Naquela noite eu tinha ido a Biblioteca Pedro Gondim, ali na Aderbal Piragibe, bairro de Jaguaribe, João Pessoa, Paraíba, e na volta, cruzando a esquina da Cap. José Pessoa, avistei umas pessoas se dirigindo apressadas a Trincheiras. Curioso, fui atrás e lá estava, na calçada de uma daquelas mansões, um amontoado de gente de toda idade, se espremendo para ver, pela janela, um clarão que vinha lá de dentro. Acho que ouvi alguém falar na maravilha que era a televisão, mas não me interessei.

Um tempinho adiante, eu já estudante do Colégio Lins de Vasconcelos, ouvia meus colegas ricos falarem de televisão com entusiasmo, embora, curiosamente, não tanto sobre o que assistiam, e muito mais sobre a altura que as antenas precisavam ter para captar os sinais. Nesse tempo, no setor pobre de Jaguaribe não se avistava ainda nenhuma antena, nem baixa, nem alta, e o divertimento continuava sendo os três cinemas do bairro: o Sto Antônio, o São José e o Cine Jaguaribe.

Acho que a primeira vez que me deparei com um aparelho de televisão foi lá por 1962, e na casa dos outros. Falando inglês com certa fluência, fui convidado pela professora Adelaide, a ter aulas gratuitas mais avançadas, em sua casa. Lembro que no primeiro dia cheguei mais cedo e ela, ainda jantando com os familiares, me pôs na sala de visitas, onde um aparelho de televisão estava ligado.

Não recordo bem o que passava, mas não esqueço de uma imagem que se repetia. Eram umas gotinhas pulando ao som de uma música boba, todas cantando juntas assim: “Só Esso dá a seu carro o máximo, só Esso dá a seu carro o máximo, só Esso dá a seu carro o máximo – veja o que Esso faz”. Cá comigo, fiquei pensando: então televisão é isso? E dei graças a deus que a gente não tinha uma em casa.

Mas, claro, não demorou muito para a televisão engolir o meu bairro e a cidade inteira. E, com inevitável pesar, comecei a notar os efeitos disso sobre o divertimento que mais me entusiasmava – cinema.

De repente, a frequência dos três cinemas do meu bairro começou a minguar. Nunca esqueço a melancolia com que assistia, nessa época, às sessões do Cine Sto Antônio, sobretudo as dos dias de semana, onde muitas vezes o número de espectadores não passava de cinco.

Ainda hoje me vejo assistindo a “O último hurra”, sozinho, não fosse pela presença de um simpático casal que se mantinha tão assíduo quanto eu, um rapaz moreno e uma moça loura que moravam na Vila dos Motoristas e comprovam pão na nossa padaria. No salão enorme do Sto Antônio, eles sempre sentavam lá na frente, ao pé da tela, e eu, um pouco mais atrás. Dessas sessões eu saía com uma sensação esquisita de que estávamos, nós tradicionais e autênticos espectadores de cinema, sendo traídos. Sim, aqueles que ficavam em casa pra ver a propaganda da Esso, ao invés de um drama de John Ford, eram, para mim, traidores. E essa sensação de traição alimentei por um bom tempo.

O engraçado é que a antipatia pela telinha não era só minha. Para quem prestasse bem atenção, ela já aparecia nas telonas do próprio cinema americano, bem antes de a nova mídia aportar em solo brasileiro.

Filmes como “Calúnia”, “Bancando a ama seca”, “Tudo que o céu permite” e “Se meu apartamento falasse” – que lembro ao acaso, todos dos anos cinquenta – incluíam cenas que ridicularizam a televisão, meio de comunicação (só vim a saber disso, muito depois) que se instalara nos States desde 1949. No filme de Tay Garnet a televisão era coisa para enfermos; no de Jerry Lewis era um desastre só; no de Douglas Sirk era um triste e ridículo consolo para mulheres solitárias; no de Billy Wilder, era um troço repetitivo e extremamente maçante que desligar consistia num alívio para o espírito.

Obviamente, com o passar dos anos e das décadas, fui mudando minha reação à televisão, até porque a própria televisão foi mudando. Não vou entrar em detalhes, mas, como se sabe, os mesmos avanços eletrônicos que fecharam as salas dos cinemas de rua, por uma espécie de ironia do destino, transformaram o aparelho de televisão em si num precioso instrumento para o cultivo da cinefilia.

Não sei se algum jovem de hoje chegaria a dizer – no estilo hiperbólico com que abri esta crônica saudosista – que escorregou do útero para a sala doméstica onde está a televisão, mas, um fato é certo: seja qual for o seu suporte, o cinema não morreu.

O som e a fúria ao redor

6 mar

Entra, finalmente, no circuito comercial o super aguardado “O som ao redor” (2012), primeiro longa do pernambucano Kleber Mendonça Filho, que revela o talento e a competência expostas nos seus curtas.

Construído em cima de duas pulsões supostamente antagônicas, o filme chama a atenção, entre outras coisas, pela originalidade de seu roteiro, aqui o meu enfoque escolhido. De um lado, temos uma pulsão descritiva, documental, realista, epocal, cujo limite seria a crônica cinematográfica; de outro lado, uma pulsão narrativa, fabulatória, ficcional, cujo limite seria, digamos, o thriller.

Para o espectador a crônica vem primeiro, e o filme parece limitar-se a fazer o retrato de um bairro classe média de Recife, até que, menos óbvia, a segunda pulsão começa a manifestar-se, para completar-se na tomada final, quando estampidos de fogos de artifícios encobrem disparos de armas que ´resolvem´ um caso de vendetta familiar.

o som ao redor 1

Vejam, por exemplo, que a faceta descritiva já tem muito da metonímia que está no título: as cenas são do cotidiano, mas, a ênfase é na poluição sonora que caracteriza a vida urbana no Brasil – latidos de cães, trânsito, furadeiras, gritos infantis, televisões ligadas, carrinhos de cd pirata, aspiradores de pó, etc… são os sons ao redor que infernizam a existência e escondem uma violência subliminar. Aliás, poucos filmes na história do cinema tematizaram o ruído (duplo sentido: de perturbação sonora e distúrbio semiótico na comunicação) do modo como aqui está feito. Fico imaginando o quanto os silenciosos espectadores europeus terão dificuldade em compreender esse barulho generalizado.

Com o mesmo comportamento metonímico (ninguém vê o que ocorre), a violência – já não mais tão subliminar – vai ter um ápice na referida cena final, quando o filme nos descortina a sua faceta de thriller; um que foge aos padrões do gênero como o diabo da cruz, mas, de todo jeito, um thriller.

Sim, nem a descrição é fiel ao real, nem a narração é convencional, pois inúmeros detalhes problematizam o realismo da primeira pulsão, e vários incidentes perturbam o desenvolvimento da narratividade na segunda.

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Exemplos do primeiro caso: de uma dona de casa nordestina não se espera que se masturbe ao som da máquina de lavar, nem que seus filhos sejam obrigados a estudar chinês; por que a empregadinha que é levada pelo amante a um apartamento alheio, só quer fazer amor em determinado compartimento? Como explicar os banhos noturnos do idoso Sr Francisco, num setor da praia sujeito a ataques de tubarões? Os personagens possuem suas idiossincrasias e a lógica – se há uma –, que vai muito além do típico, parece ser a de que ´de perto, ninguém é normal´.

Do mesmo modo, e apesar da divisão do filme em três partes indicadas por letreiros, o decorrer narrativo está repleto de lacunas propositais e perturbadoras. Um exemplo típico está na relação entre os personagens Francisco (feito por Solha) e seu neto Dinho: este é o protégé daquele, e, no entanto, raramente, ou nunca, os vemos juntos na tela. A visita à fazenda é outro exemplo que vem ao caso, toda mostrada em elipses, ficando-se apenas com imagens sintomáticas, como a do banho de cachoeira de águas subitamente avermelhadas, espécie de prolepse do desenlace. Aliás, única linha amorosa da estória toda, o caso entre João e Sofia chega a um término desencantado, sem que saibamos como nem por quê, isto para não citar o final em aberto, de nós graficamente escondido…

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No mesmo sentido de driblar a convenção, vários incidentes retardam o tempo, sem relação aparente com o narrado. A reunião de condomínio para demitir o porteiro do prédio, bem como o caso do pivete trepado na árvore, podem ser entendidos como itens da pulsão descritiva, porém, o argentino perdido na vizinhança, o discutido olho cego de um dos vigilantes, aquela bola que um garoto sem querer chuta para o apartamento a alugar, e os pés descalços da empregada passando ferro são de mais difícil explicação…

As interpretações dos atores são, todas elas, excelentes, mas “O som ao redor” me parece um caprichoso “filme de roteiro” onde concepção de cenas, manuseio de som e edição de imagens são perfeitos. Com o seu tema de vingança, a trama poderia – se se quisesse – ser posta nos seguintes termos: rapazes do Interior se disfarçam de vigilantes para vingar a morte do pai, crime cometido por velho latifundiário, hoje aposentando e residente solitário da praia de Boa Viagem; junto com o cotidiano dos vizinhos e parentes do velho senhor, esta é a diegese do filme, porém, como este resumo dá uma idéia longínqua do que se vê na tela!

Se a coisa mais explícita no filme de Kleber Mendonça é o som, a menos explicitada (e por isso mesmo, mais gritante) é a violência, tanto a atual, urbana, como aquela outra, arcaica, que vem do passado do velho Francisco e seu Nordeste latifundiário. Para usar uma metáfora intertextual bem cabível (Cf “MacBeth”), são o som e a fúria numa mesma isotopia fílmica.

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