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Trumbo

4 fev

 Fui ver “Trumbo – Lista negra” (2015) e me envolvi tanto na estória que – pecado de crítico – nem me importei de decidir se o filme era bom ou não era.

Ocorre que sou apaixonado pela década de cinquenta, adoro estórias dos bastidores da era clássica, e me interessa muito o tema do Macarthismo… Pronto: minha rendição ao filme foi total.

Falando sério, o filme de Jay Roach conta a vida de Dalton Trumbo, um dos maiores roteiristas que a Meca do Cinema conheceu. Não a vida toda – somente aquela fase, de 1947 em diante, quando ele passou a ser vítima da “caça às bruxas” e entrou no rol da “Lista negra de Hollywood”.

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Como muita gente boa do show business americano da época, Trumbo havia feito parte, lá pelos anos trinta, do partido comunista, e agora, finda a Segunda Guerra, e com o advento da guerra fria, todo esse pessoal “de passado suspeito” passou a constituir uma ameaça ao sistema americano. Pelo menos era o que achava o reacionário senador Joseph McCarthy e todos os seus seguidores, que não foram poucos, no país inteiro. De repente, Hollywood virou um antro de “vermelhos” que, pela magia do cinema, “queria disseminar o pensamento comunista e corromper a população”. A paranoia foi tal que a própria Hollywood começou a se auto-censurar, como se fosse culpada antes de qualquer acusação.

Formado o “Comitê de atividades anti-americanas”, figuras importantes do mundo do cinema foram intimadas a comparecer a Washington, para depor sobre o seu eventual passado esquerdista, e pior, para limpar-se através da denúncia de colegas.

Intimado, Trumbo compareceu, ironizou o Comitê, e não deu outra: foi preso e, mesmo depois de solto, ficou proibido de trabalhar. É claro que não parou de trabalhar, só que a partir daí, seus roteiros passaram a ser assinados por ´testas de ferro´, pessoas que ganhavam os créditos sem ter escrito nada. Tudo isso às escondidas de todos, exceto de sua família, que, sem alternativas, ajudava bravamente na forçada “farsa”. Nessa atividade de roteirista fantasma, Trumbo chegou a arrebanhar dois Oscar, por “A princesa e o plebeu” e por “Arenas sangrentas”, com os nomes respectivos de Ian MacLellan Hunter e Robert Rich.

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Contratado em sigilo por um produtor menor, Frank King, Trumbo escreveu dezenas e dezenas de roteiros que foram às telas em filmes de baixa categoria. Com isso, manteve o padrão de vida a que estava habituado, embora amargurado com o anonimato e a irrelevância do que fazia.

Sua volta por cima só vai acontecer no final da década, quando é contratado diretamente por Kirk Douglas para bolar o roteiro de “Spartacus” (1960) e, para espanto de todos, tem o seu nome posto nos créditos do filme. Praticamente ao mesmo tempo, o cineasta Otto Preminger faz o mesmo: põe seu nome nos créditos de “Exodus” (1960).

Ótima é aquela cena de noite de Natal, na casa de Trumbo, em que ele recebe a visita de Preminger e os dois, numa sala reservada, vão acertar a roteirização de “Exodus”. De repente, alguém toca a campainha e é Kirk Douglas, para acertar a roteirização de “Spartacus”. Preminger não sabe de Douglas e vice-versa e, assim, Trumbo os mantém em salas separadas, e os dois ficam se entreolhando de longe, desconfiados. Claro que Trumbo, que não é besta, aproveita a competição para sugerir o seu nome nos créditos dos dois filmes.

Evidentemente os inimigos de Trumbo não eram apenas o pessoal de McCarthy. No seio da Meca houve toda uma gama de ´americanistas´ que levantaram a bandeira da repressão. Dois dos mais radicais foram a colunista social Hedda Hopper e o ator John Wayne. Impagável é a cena do embate público entre o herói valentão dos faroestes e Trumbo, este jogando umas verdades na carranca do outro e, em seguida, tirando os óculos, para receber o devido bofetão.

Helen Mirren e Bryan Cranston: Hedda Hopper e Dalton Trumbo.

Helen Mirren e Bryan Cranston: Hedda Hopper e Dalton Trumbo.

Contudo, ninguém pode ter sido mais ferino que Edward G. Robinson, que era amigo de Trumbo, o ajudara em circunstâncias anteriores, e, de repente, vai ao famigerado Comitê e declina o seu nome.

Eu disse que não pensei na qualidade do filme. Uma coisa é certa: trata-se de um filme feito para cinéfilos. Talvez exclusivamente para cinéfilos. Você não vai gostar, se não souber quem são os personagens da estória e a importância que eles tiveram no cinema clássico. Um exemplo: se a cara larga de Edward G. Robinson não lhe é familiar das dezenas de filmes noir que ele protagonizou, a cena do conflito ético entre ele e Trumbo perde metade da força. Ou a força toda, se porventura você nunca ouviu falar de Dalton Trumbo.

Diretas ou indiretas, as referências aos filmes da época pululam e deixam o cinéfilo tonto. São cartazes em paredes, menções nos diálogos, ou mesmo cenas projetadas, em suma, tudo o que a gente viu na tela, e amou, muito tempo atrás.

Mas, atenção, também está lá o que a gente nunca viu. Por exemplo: aquela cena preto-e-branco inicial em que, aparentemente, se mostra um certo filme noir sendo rodado, com Edward G. Robinson no elenco, Trumbo como roteirista, e Sam Wood na direção, com personagens chamados de Rocco e Manny. Esse “filme” nunca existiu e a falsa cena de arquivo foi inventada de propósito para confundir os cinéfilos da vida. Eu mesmo gastei energia e memória para identificá-la, até perceber o engodo.

Aliás, o filme inteiro brinca com esse recurso de ´encenar´ o passado em preto-e-branco, como se fosse documental. Como algumas cenas são, de fato, de arquivo, o espectador aceita as falsas como verdadeiras. Fique atento a isso. E às vezes, a coisa é em cores mesmo. Lembram do trecho da arena em “Spartacus”? Pois é, parte dele é o filme de Kubrick mesmo, parte é encenação com o ator Dean O´Gorman no lugar de Kirk Douglas, sendo golpeado pelo seu rival de arena. Em cinema, a técnica do campo contra campo permite essas mágicas.

E por falar em atores, fico pensando no trabalhão que deve ter tido a produção para encontrar um elenco parecido com os personagens. Quem poderia ter o tipo físico do Duke? Ou a cara de Kirk Douglas? Helen Mirren até que encarna a contento a venenosa Hedda Hopper e Bryan Cranston – concorrendo ao Oscar – faz bem o personagem-título.

Se gostei? Vou ver de novo.

John Goodman como o produtor Frank King.

John Goodman como o produtor Frank King.

 

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Roteiristas

7 nov

“O problema do roteirista é que já conhece todas as estórias”. A fala é, naturalmente, de um roteirista, no caso, o personagem principal de “Crepúsculo dos deuses” (“Sunset Boulevard”, Billy Wilder, 1950) e expressa a crise de um profissional cuja matéria prima é a criatividade.

No meio cinematográfico, e creio que fora dele também, todo mundo sabe o quanto a qualidade de um filme depende do roteiro que o gerou, e não há cineasta que desconsidere esta verdade, mesmo os vanguardistas que um dia pretenderam desconstruir a gramática cinematográfica.

Somente o cinema primitivo pôde prescindir de roteiro, quando, documentais, as breves películas dos inventores se limitavam a registrar a chegada de um trem à estação, ou a saída dos operários da fábrica, e mesmo as fantasias gráficas do prestidigitador George Méliès não exigiam textos pré-escritos.

Foi com a opção pela ficção que surgiu a necessidade de um texto previamente escrito, que guiasse as filmagens, cada vez mais complexas e trabalhosas. Afinal, contar uma estória com começo, meio e fim implicava uma extensão de tempo e uma proliferação de detalhes, com o agravante de que, de repente, o cineasta não trabalhava mais sozinho, mas rodeado de uma equipe, em alguns casos, algo como uma multidão.

Na medida direta em que rodar um filme foi ficando mais dispendioso, a profissão do roteirista foi se consolidando, pois, para evitar riscos, antes de qualquer tomada, alguém precisava ter posto no papel o esquema inteiro do filme, e isso exigia uma habilidade especial, que nem todos tinham.

Com o tempo, o roteirista deixou de ser um mero “organizador das coisas” e passou a ser o autor da estória que se ia filmar. A partir daí, começou a “vender” suas estórias, que podiam ser originais ou adaptações de livros conhecidos. Quando o som chegou ao cinema, em 1927, a profissão de roteirista, já delineada no mundo todo, tornou-se ainda mais importante, pois o fato de que os personagens podiam falar demandava uma habilidade linguística ainda maior do autor da estória.

Em termos simples, poderia se dizer que o roteiro é o filme escrito. Contém tudo o que o filme contém, menos as imagens. Como o filme, ele conta uma estória, dividida em – do maior para o menor – seqüências, cenas e tomadas, com todas as indicações técnicas de uso de câmera, fotografia, som, cortes, interpretações, etc.

Dito assim, tudo parece muito técnico, mas, não esqueçamos que, por trás dessa técnica toda, está a criatividade do roteirista que, antes de qualquer um dos profissionais envolvidos na filmagem, foi, sim, o primeiro a visualizar o filme em sua mente.

Salvo a idéia genérica de que conta uma estória, não existe um modelo universal de roteiro cinematográfico. De qualquer forma, os estudiosos do assunto apontam uma diferença entre o roteiro europeu, mais aberto e solto, e o americano, mais fechado e definido.

De fato, Hollywood consagrou um modelo clássico de estrutura bem definida. Tripartite, divide-se em (1) Exposição, (2) Conflituação e (3) Resolução, respectivamente: (1) a primeira meia hora em que se descrevem os personagens, o cenário, e os primeiros sintomas do conflito; (2) a uma hora seguinte onde se desenvolve o conflito ou os conflitos; e (3) a meia hora final, onde os conflitos são resolvidos. Cada uma dessas partes se separa das outras pelo que se chama de “turning points”, as viradas, mais ou menos bruscas, que dão nova direção à estória narrada.

Embora pareça esquemático, ou talvez por isso mesmo, este modelo chegou perto do que poderia ser dado como um paradigma universal de roteiro, e mesmo as vanguardas mais radicais, voluntária ou inconscientemente, dialogam com ele.

O roteirista profissional com cuja fala abro esta matéria é fictício, ele próprio criação dos roteiristas de “Crepúsculo dos deuses” (o trio Charles Brackett, D.M. Marshman e o próprio Billy Wilder), porém, mais interessante do que isso é que, antes de o filme começar, ele já está morto, e – verdadeiro Brás Cubas – conta a estória da sua vida com a onisciência do além, onisciência, diga-se de passagem, nada rara entre os narradores cinematográficos.

Sem espaço para mais, aqui gostaria de concluir homenageando pelo menos uma dúzia de roteiristas cujos nomes são desconhecidos do grande público, e que, no entanto, trabalhando dentro do rigor do modelo clássico hollywoodiano, com cineastas diferentes ou com os mesmos, contribuíram para a realização de grandes filmes, dos quais, para cada um, cito três.

John Michael Hayes (Janela indiscreta, A caldeira do diabo, Disque Butterfield 8)

Daniel Taradash (Férias de amor, A um passo da eternidade, Sortilégio de amor)

Carl Foreman (O invencível, Matar ou morrer, Êxito fugaz)

I.A.L. Diamond (Amor na tarde, Quanto mais quente melhor, Se meu apartamento falasse)

Frank Nugent (Depois do vendaval, Rastros de ódio, O último hurra)

Charles Brackett (Ninotchka, Bola de fogo, Farrapo humano)

Dudley Nichols (O delator, Levada da breca, No tempo das diligências)

Nunnally Johnson (As vinhas da ira, As chaves do reino, As três faces de Eva)

Ben Hecht (O morro dos ventos uivantes, Interlúdio, Adeus às armas)

John Lee Mahin (Quo Vadis, Mogambo, O céu é testemunha)

Jo Swerling (A felicidade não se compra, Amar foi minha ruína, Um barco e nove destinos)

Dalton Trumbo (A princesa e o plebeu, Spartacus, Exodus)