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AZOUGUE NAZARÉ

20 nov

Em escala nacional, estreia o filme pernambucano “Azougue Nazaré” (Tiago Melo, 2018), aqui exibido e premiado no Fest-Aruanda do ano passado, e agora em exibição no Cine Banguê.

Até que ponto podem conviver juntas duas crenças religiosas antagônicas? Entre outras coisas, o filme faz esta pergunta e, sabiamente, deixa a resposta mais ou menos em aberto.

Na cidade de Nazaré da Mata de hoje, Pernambuco, a população vive dividida entre a exuberante tradição do Maracatu (dança e crença folclóricas de rara beleza) e o surto de evangelismo que tolhe essa expressão popular.

Entre disputas de repentistas e mistérios no canavial circundante, o filme, em estilo criativo e instigante, que vai do quase documental ao quase sobrenatural, retrata os problemas diários na vida de alguns de seus humildes viventes municipais.

O ator Valmir do Côco faz o papel de Catita.

São vários esses viventes e variados esses problemas, mas o maior tempo de tela é dado mesmo a esse Catita, um negro gordo e pobre, que esconde da esposa branca e magra a sua participação no Maracatu e dela aguenta as restrições evangélicas. Mas não por muito tempo, pois não é de seu feito despachado aguentar restrições. Afinal, não esquecer que seu nome vem de um dos personagens do Maracatu.

O problema conjugal toma um caráter crítico no dia em que o irreverente Catita é informado pelo pastor evangélico e a esposa que, de acordo com os preceitos da Bíblia, combinados com um certo sonho recorrente da esposa, ela deve acasalar-se com o pastor, para que, dessa união carnal recomendada pelo Senhor, surja o rebento que nunca surgira.

A cena do acasalamento (com o pastor orando para que o Senhor o ajude nessa dura missão) é um dos pontos altos do humor que o filme exala, já prometido na cena de abertura, em que os deliciosos repentistas do lugar trocam farpas, envolvendo traições conjugais.

Catita reluta em ser – digamos – corno abençoado, porém, é convencido por um trecho do livro sagrado que, supostamente, autoriza o pastor a “adulterar”. Engole a lição evangélica e o chifre até o dia em que uma amiga, mais esperta que ele, relê o trecho bíblico e lhe prova que tudo não passou de uma interpretação errônea – ou seria maldosa? – da linguagem bíblica, a rigor, um erro de português que lia “adúltera” (substantivo proparoxítono) como “adultera” (forma verbal paroxítona).

Uma cena do filme

Aí então, Catita se revolta, se rebela e, devidamente paramentado com sua exuberante fantasia, volta ao Maracatu querido com força renovada e muito mais irreverência. Se fosse para interpretar sociologicamente, dir-se-ia que é a cultura popular vencendo o cânone. E, se for o caso, o espectador sai do cinema de alma lavada, com aquele gostinho de revanche que tem acometido certas produções nacionais dos últimos tempos… Nem preciso dizer quais.

“Azougue Nazaré” é o primeiro longa do jovem Tiago Melo, mas já revela seu talento e sua vocação cinematográfica.

Lidando com questões delicadas – os limites entre religiosidade e sensualidade, por exemplo – o filme sabe ficar num equilíbrio gostoso, onde quem ganha o páreo é a estética. A forma livre, solta, elíptica como a narração é construída é um dos seus encantos. Para exemplificar essa quebra de regra de edição, vejam o modo como a construção do protagonista Catita (excelente interpretação de Valmir do Côco, aliás, premiada no Festival Internacional do Rio de Janeiro, o ano passado) é moldada com cenas soltas sem aparente relação, umas eufóricas, outras disfóricas, outras neutras: no barbeiro, no estádio de futebol, na farra, na praia, no trabalho, à mesa, na dança, etc…). Com certeza, seus lábios grossos arredondados, pintados de batom vermelho, beijando a câmera vão ser lembrados no cinema nacional do futuro.

Isto para não falar em um gesto que antecede desempenhos e que está ainda na atividade da produção: refiro-me ao casting, que escolheu para o papel do personagem principal, como já disse, um ator negro e gordo (e, faltou dizer: carismático, divertido, impagável) – tudo que a elite brasileira não quer ver na tela.

Os lábios vermelhos de Catita

Boi Neon

27 jan

 

Super premiado em festivais de cinema, no exterior e no Brasil, finalmente entra em cartaz nos circuitos comerciais “Boi neon” (2015), filme do pernambucano Gabriel Mascaro, parcialmente filmado no município de Picuí, Paraíba.

Aclamado pela crítica, o filme aguarda uma resposta de público e – imagino – aguarda com certa ansiedade, já que o seu ponto forte é a quebra de estereótipos.

O primeiro deles é geográfico e histórico, fazendo a representação de um Nordeste brasileiro diverso do conhecido nas telas, no caso, um Nordeste próspero, de grandes negócios, que são as vaquejadas e toda a gama de atividades que elas incorporam.

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Tudo bem, os personagens são meros empregados dessas grandes empresas, mas, eles próprios não se encaixam no modelo esperado, por exemplo, o de homens machões e mulheres frágeis.

O vaqueiro Iremar, que prepara o gado para o show das vaquejadas, alimenta o sonho de tornar-se um dia um grande costureiro. Quase sempre sujo de bosta de boi (expressão usada no diálogo) adora perfumes caros, e fica fascinado no dia em que adentra uma fábrica de máquinas de costura. O caminhão que transporta a equipe toda no trajeto para as vaquejadas, e que serve a todos de moradia, é dirigido por uma mulher, Galega, separada do marido que cria uma filha adolescente. Essa mesma motorista mãe é quem faz a performance da dançarina com cabeça de cavalo para uma plateia de marmanjos. O vaqueiro novato que se integra ao grupo, Mário, usa aparelho dentário e cabelos longos, muito bem tratados, aliás, que o fazem passar horas diante do espelho. A moça grávida que vende cosméticos tem a profissão, supostamente masculina, de vigilante.

E assim segue a lista de “quebras” do convencional, que, aliás, o diretor do filme alega terem sido baseadas em casos reais.

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Reais ou não, o fato é que o filme desenrola-se em tom enfaticamente documental, um tom que subestima a narratividade e superestima os personagens em si e a paisagem. Neste sentido é que os planos são longos, quase planos sequência, a fotografia hiper caprichada, e os esperados turning points praticamente não existem.

Se não, vejamos. A substituição do vaqueiro Zé, pelo novato Mário sugere um encaminhamento novo para o enredo, um encaminhamento que, contudo, nunca vem: a vida no grupo continua a mesma, e a mesma será até o final. A chegada da moça grávida que vende cosmético tampouco muda muito na estória: Iremar a visita na fábrica onde ela é vigilante, fazem amor (mais um plano quase sequência), mas, aparentemente, nada muda na rotina do vaqueiro, tanto é assim que o fotograma final do filme é bem sintomático, mostrando-o no mesmo cenário de sempre, um homem entre bois.

Os episódios intermediários entre abertura e final são só episódios, com o mesmo sentido descritivo de qualquer paisagem ou de qualquer trecho da labuta diária dos vaqueiros, entre o gado ou em casa. Por exemplo: o caso da tentativa de Iremar e Zé de, nos bastidores do leilão de cavalos, conseguir, às escondidas, o esperma de um puro sangue, para posterior revenda, fica na estória como um detalhe que, se não atrapalha a narração, tampouco a adianta.

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A longa duração dos planos tem um corolário: as grandes elipses diegéticas, que tornam a narração ainda mais frouxa. Ou estas é que motivam a duração dos planos – dá no mesmo. Embora o cenário geográfico seja sempre o interior do Nordeste, para o espectador não ficam claros os locais, ou os percursos com seus pontos de partida e chegada. Em suma, dilui-se um pouco a noção de espaço diegético, e, junto com ela, a de tempo. Sintam como, na primeira metade do filme o espectador ainda não domina a fabulação – se é que há uma – e, mais tarde, só o fará de forma vaga. Isto, bem entendido, não é um defeito, e sim uma proposta.

Não é a primeira vez que o Nordeste recebe uma representação inovadora. Filmes como “Bye bye Brasil”, e “Baile perfumado” já apontavam para esse caminho, porém, “Boi neon” vai adiante na tensão entre o que seria arcaico e o que seria moderno de forma quase radical. Tensão que, se você quiser, já está prometida nas duas palavras do seu título.

Preparar a cauda do boi para a vaquejada ou desenhar modelitos? Dirigir caminhão ou dançar no palco? Vender perfume ou ser policial vigilante? Esses paradoxos actanciais misturam e desconstroem a dicotomia masculino/feminino, com a consequência inevitável de suscitar a revisão dos conceitos, não tanto de gênero, mas de violência e sensibilidade, de crueldade e delicadeza, de agrura e sonho.

Enfim, aguardemos para ver a reação das platéias, dela dependendo, o paradeiro comercial de “Boi neon”. Sim, porque, em cinema, comércio é importante.

Iremar, o vaqueiro que gosta de Moda...

Iremar, o vaqueiro que gosta de Moda…

 

Pride

21 abr

Nos anos oitenta, sob o regime da dama de ferro Margareth Thatcher, a Inglaterra conheceu um fato digno de estudos sociológicos: uma greve de mineiros do Interior recebe o apoio voluntário de um grupo de homossexuais de Londres.

A greve é frustrada, mas, um ano depois, quando os gays e lésbicas organizam um grande evento em defesa da diversidade sexual, os mineiros ex-grevistas – para surpresa de todos – comparecem e, publicamente, manifestam o seu apoio, igualmente voluntário.

Histórico, o fato foi, na época, entendido como um sintoma de que é possível a solidariedade entre homossexuais e heterossexuais, cada um na sua, e cada um respeitando as inclinações e os direitos do outro.

Pois agora o fato histórico virou filme. Em “Pride” (2014), o diretor Stephen Beresford reconstitui, ficcionalmente, a estória toda da greve de 1985, e pode se dizer que o faz muito bem.

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O tempo de tela fica dividido entre, de um lado, os gays e lésbicas que em Londres coletam, nas ruas, o dinheiro em apoio à greve mineira, e, do outro, os poucos cidadãos do lugarejo de Onllyin, no vale galês de Dulais, que ousam recebê-los – a eles e à sua grana coletada – claro, de bom grado e com gratidão. E a narração, com bom senso, procura o equilíbrio entre o coletivo e o individual. Assim, ora o grupo é visto como um todo, ora vão se ter as estórias privadas de alguns dos participantes do movimento, quer do lado homo, quer do lado hetero. Um deles é esse rapaz que, ao longo do movimento grevista, adquire a coragem de assumir sua condição homo e enfrentar a família conservadora. Do outro lado (digo, o hetero), temos a estória dessa modesta dona de casa que, no mesmo processo grevista, se descobre uma líder com destino político.

Claro, num filme desses, cenas sobre o preconceito são obrigatórias, um pouco mais ainda em um tempo em que a Aids ainda era um mistério assombroso e sem controle. Por exemplo, quando os gays que apoiam os mineiros grevistas são chamados pela imprensa de ´pervertidos´, a gente lembra que na Inglaterra de vinte anos atrás, ou seja, anos sessenta, a homossexualidade ainda era, por lei, considerada crime.

Lésbicas e gays apoiam mineiros em greve

Lésbicas e gays apoiam mineiros em greve

Mas, um cuidado todo especial do filme é não parecer tendencioso. Homos ou heteros, todos são descritos como seres humanos, capazes de gestos nobres e vis. Como, segundo consta, a roteirização foi elaborada a partir de pesquisa de campo, supomos que o filme faça justiça aos personagens reais.

Uma coisa boa é a reconstituição de época, e, nela, a música tem um papel decisivo. Sucessos dos anos oitenta se repetem em série, sempre acompanhando as cenas coletivas, aquelas em que a ação conjunta, e não os diálogos, mais interessam. Inevitavelmente, a dança, mesmo sendo um elemento pontual, ganha um papel sintomático. Caso daquela cena no baile, em que as mocinhas do lugar ficam fascinadas com um gay que “arrasa” dançando, e esquecem os machos locais que mal conseguem mexer os ombros. Agora, atenção: dando certo com a tentativa de distanciamento do diretor sobre a questão sexual, observemos que não é um grupo de gays que dança: o dançarino que dá seu show é um único gay, enquanto os outros o observam de longe, tão admirados e intrigados quanto os machões presentes.

É verdade que a cena final parece apoteótica, com os ônibus chegando ao local da manifestação Gay Pride, deles desembarcando os mineiros, que vêm do Interior só para apoiar um evento homossexual, mas, nisso o autor do filme tem um atenuante em seu favor: como já dito, o fato aconteceu!

Os bastidores do movimento

Os bastidores do movimento

Nos créditos finais, são acrescidas informações sobre o destino dos personagens principais. Por exemplo: o jovem homossexual que encabeçou o movimento pro-mineiros grevistas morreu de Aids dois anos depois, e a aquela humilde dona de casa, acima referida, que entrou de corpo e alma na greve, fez brilhante carreira política e ainda hoje ocupa importante cargo no Parlamento Britânico.

Para quem já conhecia a história verídica da greve inglesa, “Pride” deve talvez parecer previsível. Por sua vez, previsível vai ser a sua recepção, a depender das tribos. Com certeza, a tribo dos homófobos vai subestimá-lo e, mutatis mutandis, a dos homossexuais vai superestimá-lo.

Para aqueles – como eu – sem tribo, trata-se de uma boa realização fílmica, feita com talento e humor, com o adicional de trazer à tona questões importantes para a construção disso que se chama cidadania, essa palavra que, hoje em dia, circula de boca em boca, sem que aparentemente os seus usuários compreendam bem a extensão de seu significado.

Mineiros em greve contra o terror Thatcher

Mineiros em greve contra o terror Thatcher

 

Cinema armorial

21 dez

Criação de Ariano Suassuna, o movimento armorial já encontrou expressão em modalidades diversas de arte, porém, em cinema, nunca tão bem como nesse “Brincante” (2014), filme que está em cartaz na cidade e no país.

Foi preciso que Antônio Nóbrega – personagem e assunto do filme – e Walter Carvalho, o diretor, entrassem em harmonia perfeita e encontrassem, os dois juntos, o “espírito da coisa”. E quem assiste a “Brincante” não tem dúvidas de que encontraram.

Nele, coreografia, trabalho de câmera, música, fotografia, montagem… tudo está tão caprichosamente combinado que o efeito é deslumbrante para os olhos, para os ouvidos e, sobretudo, para a sensibilidade.

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Ao invés de entrevistar o artista enfocado – como seria a praxe num documentário convencional – Carvalho, mui sabiamente, preferiu pô-lo em ação, performatizando alguns dos quadros de suas peças já encenadas, acrescentando outros que pudessem sugerir um caminho fabulatório, por tênue que fosse esse caminho.

Mas isto, sem se preocupar em ser linear, ou melhor, com o intuito explícito de não sê-lo. De modo que, no filme por inteiro, não é tanto a diegese que vale, mas, ao contrário, sua atmosfera, ou seja, o imaginário, o maravilhoso, o fantástico…

Um de seus méritos é, com certeza, haver tão bem desgarrado o folclore de sua imobilidade mítica e lhe concedido uma vitalidade criativa, aquela que, se já estava no trabalho teatral do protagonista, poderia, se não bem manuseada pela direção, não estar na tela. E está.

Um exemplo entre tantos: prestem atenção ao ritmo do filme, que não vem só do corpo elástico de Nóbrega mas também dos enquadramentos, movimentos de câmera e montagem criativa de Carvalho, uma lição de cinema que evoca as melhores ousadias plásticas dos velhos Busby Berkeley da vida.

Antônio Nóbrega e suas muitas personas.

Antônio Nóbrega e suas muitas personas.

Se porventura os quadros cênicos parecem independentes entre si, não o são no espírito e o espectador percebe e, se for o caso, aceita esse jogo desde o início, até porque o elo encantatório é a figura mesma de Antônio Nóbrega esse palhaço, fantoche, mágico, saltimbanco, e tantas coisas mais, que, o que quer que faça, habita sempre o mesmo universo fantasioso que encanta e estimula a imaginação do espectador. Um universo que é nordestino… e não é.

Com efeito, seja como o camelô miraculoso vendendo o elixir que tudo cura ou como o Romeu caipira que vence a morte no diálogo (“de que quero morrer? Eu quero morrer de rir”), a mesma morte que vitimara sua amada shakespeariana; seja o dançarino que – verdadeiro Gene Kelly nordestino – transforma em frevo o folclórico “Ó mana deixa eu, ó mana eu não vou só…”, ou o mestre da ciranda que rodeia o MASP em São Paulo; seja o biográfico professor de dança em atividade didática, ou o espantalho mascarado que corta os episódios do filme como um bruxo assombroso… Seja o que for, faça o que faça, esse Tonheta é, junto com sua companheira Rosalina (a atriz Rosane Almeida, esposa de Nóbrega na vida real) o fator mágico que, em consonância com a mis-en-scène, tudo liga e concede unidade ao espetáculo fílmico.

Rosane Almeida, um alterego de Nóbrega

Rosane Almeida, um alterego de Nóbrega

Sim, porque aqui espetáculo e filme se confundem – um caso peculiar de um gênero em que nós, brasileiros, nunca fomos muitos bons, o musical.

A propósito da música e da dança no filme (sobretudo, a cena final da ciranda, que une todos os dançarinos num mesmo espaço cênico), o espectador sofisticado pode pensar na troupe medieval de “O sétimo selo” (Bergman), ou nos muitos finais com música e dança em Fellini, porém, a apreciação não necessita desses intertextos, que podem ou não ter ocorrido à produção.

Enfim, um filme delicioso e estimulante, para se ver e rever muitas vezes, e, – um aviso para quem ainda não assistiu! -, não se levantem de suas poltronas antes dos créditos finais, pois estes são um verdadeiro show à parte, digno de uma antologia do gênero.

No momento, não imagino obra mais oportuna para, em qualquer circunstância que seja, oficial ou oficiosa, representar o Brasil lá fora. Sim, – por que não? – deixemos os gringos saberem que, por trás da seca, da fome e da miséria, existe um Nordeste feérico.

Não sei se Ariano Suassuna, falecido neste ano, teve tempo de ver “Brincante”, mas, de minha parte, saí do cinema imaginando, na minha cabeça de cinéfilo rendido, uma cena muito especial: imaginei Ariano, lá no seu céu armorial, assistindo ao filme e aplaudindo… de pé.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Aléssio Toni.

O diretor Walter Carvalho em ação.

O diretor Walter Carvalho em ação.

 

Lauren Bacall, teu nome é mulher

21 ago

De ascendência judia, a pequena Betty Joan Perske nasceu em Nova Iorque, em 16 de setembro de 1924 – o pai um comerciante próspero e a mãe, secretária. Seu sonho de menina era ser bailarina, mas a vida lhe reservara outro métier. Aquele que nós conhecemos.

Ao terminar a escola secundária a jovem Betty Joan matriculou-se na Academia Americana de Artes Dramáticas e descobriu-se atriz. Mas os caminhos para a fama são tortuosos, mesmo para quem tinha garra, talento e beleza.

Enquanto não apareciam as grandes oportunidades para a ribalta, seguiu a carreira de modelo, e, já com o nome artístico de Lauren Bacall, fez tanto sucesso que uma foto sua foi parar na capa de uma das mais badaladas revistas de moda da época, a “Harper´s Bazaar”.

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A foto chamou a atenção de uma senhora, tão bela e elegante quanto a própria Bacall. Esta senhora, esposa do afamado diretor Howard Hawks, mostrou a foto ao marido, fez a sugestão, e não deu outra: ela foi logo contratada pela Warner Brothers para atuar, ao lado do já famoso Humphrey Bogart, na adaptação do conto de Hemingway “To have and have not”, filme que no Brasil chamou-se “Uma aventura na Martinica” (1944).

A Sra Hawks e Lauren ficaram amigas, tanto que a atriz usou o nome de sua protetora no seu primeiro filme, Slim (é por esse apelido que Bogart a chama, lembram?), e não só isso: dizem que a sua figura pública foi toda moldada em cima do charme e elegância da Sra Hawks. Bem, de todo jeito, o que a Sra Hawks certamente não tinha era a sensualidade daqueles olhos felinos esverdiados e daquela voz rouca e aveludada.

Com Gregory Peck, em "Teu nome é mulher".

Com Gregory Peck, em “Teu nome é mulher”.

Enfim, Hollywood havia descoberto Lauren Bacall, que não parou mais de filmar, pode se dizer até o final do século. Com Bogart, com quem casou em 45 compôs, em pelo menos quatro filmes, uma das duplas mais queridas do cinema… até a morte do ator em 57.

Não tenho espaço para citar todos os filmes da carreira de Lauren Bacall e anexo a esta matéria apenas uma seleção de dez títulos de sua fase clássica. (Veja adiante).

De todo jeito, para não deixar de citar filmes da segunda metade do século XX, relembremos de passagem os seus papéis em: “Assassinato no Expresso Oriente”, “O último pistoleiro”, “O fã – obsessão cega”, “Louca obsessão”, “Pret-à-porter”, “Meus queridos presidentes” e “Dogville”.

Com Humphrey Bogart, em "Prisioneiro do passado"

Com Humphrey Bogart, em “Prisioneiro do passado”

Com filmografia tão vasta, Bacall nunca ganhou um Oscar por seu desempenho em determinado filme. Em 1996 foi indicada como coadjuvante no filme de Barbra Streisand, “O espelho tem duas faces”, mas perdeu. Em 2010, é que foi homenageada pela Academia com um Oscar honorário pelo conjunto de sua carreira.

Atriz talentosa, é difícil escolher o seu melhor desempenho. Fiquemos apenas com o personagem que mais ressaltou seu charme e elegância, possivelmente aquela comédia romântica de Vincente Minnelli onde ela, contracenando com Gregory Peck, faz uma bela estilista, eventualmente mais charmosa que suas freguesas. O filme se chama “Teu nome é mulher” (1957), que, por razões óbvias, julguei um bom título para esta matéria.

Num outro clássico dos anos cinquenta, “Angústia de tua ausência” (1958), infelizmente um filme sem grandes méritos estéticos, o seu personagem é uma dona de casa que vem a falecer e retorna na forma de um anjo da guarda, que passa a proteger o marido e a filha pequena. Agora, na ocasião de sua morte, não duvido nada que algum fã inconformado esteja aspirando a sua benfazeja proteção…

Com Marilyn Monroe e Betty Grable em "Como agarrar um milionário"

Com Marilyn Monroe e Betty Grable em “Como agarrar um milionário”

 

Dez clássicos para lembrar Lauren Bacall (1924-2014):

 

Uma aventura na Martinica (1944)

À beira do abismo (1946)

Prisioneiro do passado (1947)

Paixões em fúria (1948)

Êxito fugaz (1950)

Como agarrar um milionário (1953)

Paixões sem freios (1955)

Palavras ao vento (1956)

Teu nome é mulher (1957)

Angústia de tua ausência (1958)

 

Em "Angústia de tua ausência";  anjo da guarda do lar

Em “Angústia de tua ausência”; anjo da guarda do lar

 

 

 

 

O grande Gatsby

12 jun

Calculo que “O grande Gatsby” seja um dos romances mais conhecidos da juventude americana, talvez o mais. Junto com “As aventuras de Huckleberry Finn” e “Moby Dick”, é, com freqüência, um dos livros constantes no programa do High School lá deles.

Por ter feito curso de Letras, para mim também o livro de Scott Fitzgerald é extremamente familiar: estudei-o na graduação, e, mais tarde, na condição de professor, ensinei-o várias vezes na mesma graduação. E não só isso, “O grande Gatsby” é um dos meus romances favoritos, um dos que colocaria entre os meus dez mais.

Uma das capas mais conhecidas do romance de Fitzgerald

Uma das capas mais conhecidas do romance de Fitzgerald

Adoro a estória desse nouveau riche desatinado, que constrói um mundo de maravilhas materiais, só para repetir o passado, ou seja, só para voltar a ter a mulher que um dia, cinco anos atrás, fora sua. E isto contado por um narrador de primeira pessoa que o conheceu em sua aventura final.

A própria condição histórica do romance de Fitzgerald me interessa. Foi publicado quatro anos depois do ´romance que destruiu o romance´, o “Ulisses” de James Joyce (1922), e, graças a Deus, demonstrou, com sua posterior recepção de crítica e de público, que, apesar de Joyce, o romance tradicional, com começo, meio e fim, não morrera. Outra coisa: o grande protagonista do romance do século XIX tinha sido feminino : Karenina, Bovary, Luisa (de “O primo Basílio”), Hester Pryne (de “A letra escarlate”), Capitu (de “Dom Casmurro”), etc). Com “O grande Gatsby” se introduzia o homem tragicamente apaixonado que se perde pela paixão.

Não conheço a primeira adaptação cinematográfica do livro, a muda de 1926, e se vi a dos anos quarenta (Elliot Nugent, 1949), não lembro. A de Jack Clayton (1974), que vi na época em que li o romance, nunca me convenceu.

Carey Mulligan e Leonardo DiCaprio no filme de Luhrmann

Carey Mulligan e Leonardo DiCaprio no filme de Luhrmann

De modo que aguardei com curiosidade esta versão nova, do Baz Luhrmann. A par do passado fílmico de Luhrmann (“Moulin Rouge”, “Romeu + Julieta”), calculei que iríamos ter um considerável privilégio de plástica, especialmente na combinação entre coreografia, som e movimento.

E temos. Até a primeira meia hora de “O grande Gatsby” (2013) é tanta parafernália, velocidade, dança e delírio sonoro que senti vontade de sair do cinema. Os ´frenéticos anos vinte´ (Cf ´the roaring twenties´) parecem aqui hipertrofiados.

Mas enfim, depois de ficar provado que a megalomania de Luhrmann é do tamanho da do protagonista Gatsby, a coisa toda acalmou-se um pouco mais, e – ufa! – passamos ao lado humano e dramático da estória.

Com relação ao texto original, algumas mudanças foram feitas, mas nada que comprometa o conjunto significativo – em Luhrmann, Nick Carraway é um alcoólico que escreve a estória como uma tarefa psiquiátrica. De todo jeito, esses escritos parecem conter o essencial diegético do livro.

O narrador Nick (Tobey MacGuire) nos conta como, meio por acaso, vai ser vizinho desse magnata (Leonardo DiCaprio) que, em seu palacete de Long Island, oferece festas suntuosas à elite novaiorquina. E como um dia ele, pobre e anônimo, é convidado pelo anfitrião. Logo descobre o que está por trás do convite – Nick é primo de Daisy Buchanan (Carey Mulligan), a amada do passado, hoje casada, que Gatsby pensa reconquistar. A estória toda – que não vou contar – é trágica, porém, a maior descoberta de Nick sobre o seu misterioso vizinho é mesmo de ordem espiritual: a dimensão de sua alma de apaixonado.

Tobey Maguire, aqui visto em Cannes, faz o papel do narrador Nick Carraway

Tobey Maguire, aqui visto em Cannes, faz o papel do narrador Nick Carraway

Sim, nos filmes ou no romance – como negar? – Gatsby é um herói à antiga, um incomensurável romântico cuja ideologia gira em torno do coração. É mesmo possível que, com o livro, Fitzgerald estivesse escrevendo o epitáfio do Romantismo, claro, pelos olhos da modernidade, aliás, olhos obsessivamente representados naquele enorme Outdoor onde um monstruoso par ocular espia os personagens e nos espia…  mas, deixo a questão para os críticos especializados.

Apesar da ênfase excessiva na parafernália plástica, no filme de Luhrmann os atores estão perfeitos em seus papéis e o doloroso confronto entre os Buchanan e Gatsby – um ponto alto na escala dramática da estória – é descrito e narrado com competência: o drama flui bem e – ninguém pode negar – os personagens nos parecem de carne e osso. Acho que para o público presente na lotada sessão dominical em que estive, um bom filme.

No mais, pergunto: um filme perdurável? Sei que, de hoje em diante, vai suscitar centenas de teses de mestrado e doutorado sobre o tema da adaptação cinematográfica, porém, o que não sei é se vai permanecer no imaginário do mundo.

Oitenta e sete anos depois de publicado, o livro permanece.

Scott Fitzgerald, autor de "O grande Gatsby" (1926), romance que retomava um certo tema do Século XIX

Scott Fitzgerald, autor de “O grande Gatsby” (1926), romance que retomava um certo tema do Século XIX

Meu coração é quem diz

16 abr

Eu tinha uns dez anos de idade quando li pela primeira vez a palavra OKLAHOMA. E não foi em nenhum livro de geografia, nem revista ou jornal. Li-a na fachada do Cine Teatro Sto Antônio, em Jaguaribe, João Pessoa, e a palavra era enorme, desenhada em cores numa faixa larga que tomava toda a parte superior da parede frontal do cinema.

Achei estranha a palavra, nem sabia como pronunciar, mas, deduzi, claro, que – o que quer que significasse – tratava-se de um filme em exibição, filme a que, infelizmente, não pude assistir naquela ocasião.

Algum tempo depois, fiquei sabendo que Oklahoma era o nome de um dos Estados americanos. Seria o filme um documentário? O tom festivo do cartaz não indicava isso.

Somente anos adiante, quando, já adolescente, comecei a ler sobre cinema, caí na filmografia do cineasta Fred Zinnemmann e matei a charada: o filme era um musical, baseado numa peça que fora sucesso na Broadway. Sem reprises (os filmes musicais saíram de moda, depois dos anos cinqüenta), só vim a conhecer o filme de Zinnemann nos anos oitenta, quando foi seladoem VHS. Lembroque, na ocasião, loquei a fita e assisti na telinha doméstica, fingindo que estava no Sto Antônio em 1956.

Como outras coisas em minha vida, a minha cópia VHS mofou, mas agora, me deparo, aliás tardiamente, com esta edição comemorativa que traz dois discos em DVD, um em cinemascope, o outro em TODD-AO, pois na época do lançamento do filme – me informam – estas duas versões estiveram em cartaz separadamente. Há também um extra, com um longo comentário de um crítico americano, remontando ao making of e tudo mais. Há ainda a alternativa de você cantar as canções com os atores, em estilo karaokê, seguindo as letras na tela, no inglês original.

“Oh, what a beautiful morning, oh what a beautiful day; I got a beautiful feeling, everything is going my way…!

Estas são as linhas de abertura da canção mais popular do filme e acho que nem precisa traduzir. Mesmo assim, jogo minha tradução, que é livre, para poder rimar e justificar o título desta matéria: “Oh que manhã mais bonita, oh que dia mais feliz, sei que tudo vai dar certo, meu coração é quem diz”.

O que torna “Oklahoma” (1955) um filme tão encantador? Não estou certo, e não creio que, se estivesse e o dissesse, conseguiria convencer o pessoal jovem de hoje em dia. Nem pretendo.

O enredo não poderia ser mais banal. Nos primeiros anos do século XX, quando Oklahoma, mero território, ainda não era Estado americano, um rapaz teimoso e orgulhoso, Curly McLain (Gordon MacRae), tenta conquistar uma moça, Laurie Williams (Shirley Jones), igualmente teimosa e orgulhosa. Eles se comportam como se se odiassem, e, em palavras, faladas ou cantadas, e nos gestos, naturais ou coreográficos, são irônicos e maldosos um com o outro, e por isso mesmo, nós deduzimos que, no final, ficarão juntos, pois toda essa hostilidade mútua – as nem sempre sutis entrelinhas da direção nos sugerem – é sinal de amor.

Nada mais previsível e nada mais agradável, com o adicional de que tudo isto acontece na fotogênica amplitude da área rural, entre milharais, currais, córregos, montanhas de feno, prados muito verdes e um céu muito azul.

Sim, há o vilão Jud (um Rod Steiger ainda jovem, cantando e dançando, juro!), o empregado forte e entroncado da casa de Laurie, que pensa ser o dono dela. E o final tinha que ter uma espécie de duelo entre o mocinho e o vilão, só para lembrar que estamos, sim, no Oeste.

Há ainda um sub-enredo de tom cômico, que é aquele entre um segundo trio amoroso meio desajeitado, formado pelo cowboy Will Parker (Gene Nelson), o mascate Ali Hakim (Eddie Albert) e essa mocinha cabeça de vento que não sabe dizer não, Ado Annie (Gloria Grahame, com voz empostada, em desempenho impagável).

Mas o acontecimento central é mesmo o grande baile, na cidade vizinha de Claremore, que à noite vai juntar toda a população das redondezas, num folguedo que inclui, leilão, comida, bebida, muita música e dança. É nessa ocasião que se performatiza a canção e coreografia “Oklahoma”, com todo mundo dançando e cantando.

Mas é nessa ocasião também que se deflagra o conflito mocinho/vilão: no leilão, Curly e Jud fazem seus lances, cada vez mais altos, para ter direito a Laurie e sua cesta de doces; sem dispor de muitos meios, Curly vende tudo o que possui para ficar com a amada e poder pedi-la em casamento – o que insufla os rancores de Jud que, despeitado, partirá, mais tarde, para um gesto incendiário, por causa do qual será, acidentalmente, morto.

Ao que se segue um júri popular, e quem faz o papel do juiz? Sim, o “imortal” Roy Barcroft – os espectadores mais coroas devem lembrar: aquele que desempenhou o coitado do malfeitor em centenas de faroestes B, servindo de saco de pancada para centenas de intrépidos heróis, a cada vez que perdia a luta, ou morria (o que sempre acontecia) sendo estrondosamente vaiado por milhares de espectadores infantis em todo o mundo, eu incluído.

Eu perguntava onde está o encanto de “Oklahoma”. O segredo talvez esteja no clima de euforia predominante, ajudado pela beleza das canções da dupla Richard Rodgers e Oscar Hammerstein, mais a coreografia de Agnes de Mille, turminha talentosa que, com tremendo sucesso, havia encenado a peça nos palcos da Broadway em 1943.

Tal euforia é coisa dos anos cinqüenta – concordo – e acho que é isso que dá ao filme um jeito ´datado´, difícil de engolir para as gerações de hoje em dia, o que é agravado pelo fato de que a estória narrada ocorre bem mais para trás, em 1906.

A esse propósito, um dado importante na diegese é o modo como o filme, meio ambiguamente, combina passado com futuro, vida rural atrasada e progresso, conservadorismo e modernidade.

Uma das canções mais aclamadas, “Surrey with the fringe on top” (´charrete com franjas no teto´) sugere um luxo do passado, no caso, o veículo que vai conduzir o casal à felicidade, bem antes da chegada do moderno automóvel.

Mas, em compensação, toda uma gama de outros elementos, nas outras canções, vai apontar para o futuro: por exemplo, “Kansas City” é uma canção que celebra os valores urbanos e mundanos, inclusive através de um pequeno detalhe sintomático: a luneta pornográfica que alguém traz dessa cidade, adiantada para os padrões matutos locais. Até a coroa Tia Eller (Charlotte Greenwood) espia os slides imorais da luneta e, surpreendentemente, aprova. E quando Jud se vê derrotado no leitão, tenta comprar Curly com a luneta.

Uma representação bem óbvia da modernidade é, com certeza, a figura de Ado Annie, essa garota libidinosa que contradiz todos os valores românticos em cima dos quais a estória está montada: é que ela sempre está apaixonada pelo homem que, no momento, esteja ao seu lado, lhe fazendo carícias, e, sem o menor escrúpulo, estará apaixonada por outros, em momentos diferentes, cada um em sua hora e sua vez. Até porque ela não sabe dizer não, conforme está dito na canção que a descreve: “I can´t say no”.

O número, encenado por todos, “The farmer and the cowmen” (traduzindo livremente: ´o patrão e os peões´) é um comentário social sobre a luta de classes, aliás, encenado dentro daquele esquema “prós e contras”, nisso prefigurando o famoso balé “America” que, seis anos mais tarde, vai estar em “Amor sublime amor” (1961).

Um dos momentos chave do filme é o número onírico “Out of my dreams”,em que Laurie, no meio de situações sensuais e/ou violentas, é perseguida por Jud e salva por Curly – uma sequência imaginativa e avançada que deve ter impedido o filme de ser exibido em censura livre.

Uma coisa impressionante em “Oklahoma” é, não tanto a temática, como a integração entre enredo, música, letra e coreografia. Tudo parece tão natural e fluente que, mesmo sabendo, ninguém lembra que o original adaptado é uma peça teatral. O ritmo todo é de cinema, e não da ribalta. Com certeza, não foi sem razão que Fred Zinnemann, e não um cineasta ligado ao teatro (Vincente Minnelli ou Joshua Logan, por exemplo), foi contratado para dirigir, ele que era, até então, basicamente um autor de dramas. A câmera se move pouco e a montagem é discreta, e contudo, a idéia de teatralidade passa longe de qualquer espectador exigente.

Um saborzinho a mais está na impressão de realismo, até onde isto é possível num musical. As discussões e as querelas soam verídicas, mesmo quando cantadas, e um dos elementos favoráveis a isso é a linguagem, tudo em inglês “incorreto”, do jeito que supostamente se expressariam oralmente os habitantes de Oklahoma. Um pequeno exemplo: uma das canções é enunciada como “All er nuthin”, forma popular para o correto “All or nothing” (´tudo ou nada´).

Como a peça, – e provavelmente no seu encalço – o filme foi um sucesso de público e crítica e levou o Oscar de trilha musical. Curiosamente, não foi uma produção de Hollywood. Os próprios Rodgers e Hammerstein, via a companhia teatral Magma, o produziram, embora a MGM tenha concordado em colaborar, permitindo que as cenas de interior fossem rodadas em compartimentos de seus estúdios. Já a distribuição foi feita em conjunto por várias empresas, incluindo a RKO e a Fox.

Já industrializado naquela época, e portanto, pouco idílico em sua paisagem rural, o estado de Oklahoma não viu sequer o azul de uma câmera: foi tudo filmado bem distante, no Arizona. O que não impediu o governador do Estado de comemorar a estréia local do filme, providenciando, segundo consta, dezenas de charretes com franjas no teto.

Verdadeira ou não, essa estória deve ter feito sentido. Numa década sombria para a produção cinematográfica, de censura, maccarthysmo e competição televisiva, os filmes musicais (contra o baixo astral dos filmes noir, science-fiction, ou de guerra) seguravam o otimismo do povo americano. Esta foi, afinal, a década de “Sinfonia de Paris” (51), “O barco das ilusões” (51), “Meu coração canta” (52), “Cantando na chuva” (52), “A roda da fortuna” (53), “Carmem Jones” (54), “Sete noivas para sete irmãos” (54), “Natal branco” (54), “Um estranho no paraíso” (55), “Carousel” (56), “Alta sociedade” (56), “Meias de seda” (57), “South Pacific” (58), e tantos outros…

A próxima década já não receberia tão bem os musicais. De minha parte, lembro-me de ter assistido a “Amor sublime amor” (1961) no Cine Municipal, ao som de vaias da platéia, toda vez que a narrativa se interrompia para Natalie Wood e Richard Beymer cantarem.

Os comentaristas de “Oklahoma” reclamam que dois números da peça original ficaram de fora do filme. Eu mesmo nunca tive a oportunidade de assistir à peça, que foi reprisada várias vezes ao longo do século, na Broadway e alhures. Quando estiveem Nova York, em 1986, sua última encenação havia sido em 1979, e a próxima – leio hoje – só aconteceu em 1998.

Em entrevistas, costumam me perguntar que condição em mim pesa mais, se a de crítico ou a de fã. Geralmente respondo que as duas se misturam e têm o mesmo peso, porém, aqui confesso: com relação a “Oklahoma” (continuo encontrando prazer em pronunciar a palavra), prevalece – como talvez tenha ficado claro nestas linhas – a minha faceta de fã. Sorry.