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E haja crítico literário!

2 maio

– Seus textos estão ótimos. – Você gostou? – Muito. Você devia publicar. – Acha mesmo? – Não tenho nenhuma dúvida. Vai ser um grande sucesso.

Não sei se vocês já notaram como este diálogo, ou algo equivalente a ele, se repete em filmes americanos de todos os tempos, toda vez que, na estória narrada, existe o personagem de um escritor em início de carreira.

Mas, o que torna esse diálogo digno de nota? O fato de que os personagens que emitem a opinião sejam, não especialistas, mas pessoas comuns, quase sempre um amigo do escritor, um colega de trabalho, um parente, por aí, em suma, pessoas que, dentro da própria estória do filme, nada têm a ver com literatura, pessoas que nunca leram um livro, salvo o que por acaso têm nas mãos no momento.

Esse tipo de diálogo nessa curiosa situação ficcional sempre me intrigou. Saindo da boca de quem sai (repito: de leigos), este diálogo/julgamento tem várias implicações. Uma delas é a de que todo mundo seria, por natureza, um crítico literário competente e eficaz, uma espécie de Harold Bloom disfarçado. Sim, pois não esqueçamos que, nesses filmes americanos, o desenvolvimento da estória vai sempre confirmar a qualidade literária dos tais textos – quer eles venham a ser publicados ou não.

Nem todo mundo é Harold Bloom…

E considerem: os opinantes poderiam muito bem anteceder os seus julgamentos literários de alguma ressalva modesta, do tipo ´não sou crítico e não mexo com literatura, mas…´ Coisa nenhuma! Se vocês lembram bem esses filmes, a opinião é geralmente tranquila, convicta, segura, taxativa… e, claro, aceita como válida e útil, não apenas pelo feliz receptor diegético, mas pelo próprio filme.

Tudo bem, numa democracia todo mundo tem o direito de opinar sobre tudo – o problema aqui é só a falta de base de quem opina e, atenção, nesses filmes, a falta de base não é uma invenção minha: é um dado diegético, ou seja, algo que está dentro do filme.

Tenho a impressão de que o que permite, não apenas a existência, mas a normalidade desse tipo de diálogo em filmes americanos é algo maior do que imaginamos e tem caráter, digamos, antropológico. Acho mesmo que posso dizer que a ideia de que qualquer pessoa teria perfeita condição intelectual de emitir um julgamento correto sobre qualquer texto literário só seria viável nos Estados Unidos. Neste sentido, os filmes que contêm esse tipo de diálogo (prestem atenção a eles, de agora em diante!) não estariam cometendo nenhum absurdo implausível. Eles refletiriam uma suposta crença nacional que nenhum outro país partilha – a de que a qualidade estética de uma obra literária seria perfeitamente visível a olho nu para todos os cidadãos, indistintamente.

Real ou mítica, esta crença pragmática e otimista tem a ver – outra impressão minha – com a tradição de crítica literária que se pratica nos Estados Unidos, para o bem ou para o mal, no geral uma crítica impressionista que relega o conhecimento teórico o quanto pode. Espero não ser mal entendido neste particular. A teoria é um instrumento auxiliar, útil, mas que – reconheço – pode eventualmente ser dispensado… no caso de o talento individual do crítico ser suficiente para dar conta do texto literário apreciado. Se, no geral, os críticos americanos detêm esse talento extraordinário que dispensa teoria, ficamos, porém, com o seguinte impasse: o de que, evidentemente, talento extraordinário – nos Estados Unidos ou fora deles – é coisa para poucos.  Daí tornar-se ainda mais estranha a presença dos sempre certeiros “julgamentos” populares nos filmes referidos – repito: como se todo leigo fosse um Harold Bloom disfarçado.

William Carlos Williams, poeta nada fácil…

De minha parte, e para fazer um pouco de caricatura, fico imaginando o poeta William Carlos Williams ainda jovem, rabiscando os seus primeiros poemas e estes, por acidente, caindo nas mãos do carteiro – ou do gerente do seu banco, tanto faz – o qual vai dar o seu pitaco decisivo: “gostei muito; você devia publicar; vai ser um sucesso”. Invento este exemplo de propósito porque, eu que labuto na área há tanto tempo, ainda hoje tenho dificuldade em entender a poesia de W. C. Williams. Claro que não é impossível que um certo carteiro – ou um certo gerente de banco – tenha nascido com o dom de julgar literatura. O talento brota onde quer, graças a Deus. O estranho nos filmes americanos de que falo é somente a impressionante generalização desse fenômeno.

Uma coisa é certa: ao redigirem o tipo de diálogo com que abro esta matéria, os roteiristas dos filmes americanos estão pensando um pouco mais neles próprios e um pouco menos nos personagens que criaram. E – quem não é lá muito leigo na área sabe – a ingerência autobiográfica na construção dos personagens de uma obra de ficção é um defeito que pode ter más consequências estéticas, mas deixemos esta outra questão para outro momento.

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Sochi, Rússia.

7 nov

Em fevereiro de 2014, eu estava convalescente de um problema de saúde, e, com locomoção reduzida, não havia muito a fazer. O que fiz muito foi ver televisão. Por coincidência, estavam começando os jogos Olímpicos na Rússia, em Sochi, e eu, que nem ligado a esportes sou, me entreguei a acompanhar o espetáculo todo, belo espetáculo que celebrava a paz e a convivência entre os povos. Quanta saúde, quanta beleza, quanta democracia!

Democracia? Bem, agora, três anos depois, me chega este documentário “To Russia with love” (Noam Gonik, 2014), contando os bastidores de um evento esportivo que já foi problemático e tenso… bem antes de se acender a tocha inaugural.

Acontece que, em um tempo estratégico entre a escolha da Rússia pela COI e o início dos jogos, as autoridades russas decidiram, sem mais nem menos e meio às escondidas, passar uma lei que proibia aos participantes do Evento, estrangeiros ou nativos, a “propaganda de relações sexuais não-tradicionais”.

Ora, estrangeiros ou não, os atletas diretamente atingidos (os gays ou LGBT) se viram em um impasse perigoso: denunciar a lei discriminatória ou calar? Alguns dos atletas suíços, canadenses, australianos eram gays já assumidos em seus países de origem, e a situação começou a ficar estranha para eles; estranhamento menor para os russos, acostumados a silêncios obrigatórios.

Nos dias que precederam os Jogos, chegou a haver indagações se a escolha da Russia para sediar as Olimpíadas teria sido sensata, mas o fato é que, a essa altura dos acontecimentos, a escolha estava consumada, e não havia nada mais a fazer, salvo participar… ou não. Todos participaram e – para o bem ou para o mal – não houve manifestação pública de protesto. Houve, porém, muitas, individuais e sentidas, que o filme, rodado in loco, captou e editou, dando ao conjunto uma forma orgânica e pulsante.

O governo Obama ainda teve o cuidado de enviar, como representante, a Secretaria de Esportes, Billie Jean King, um mito do tênis, hoje idosa, mas sempre uma defensora das liberdades homoafetivas, ela mesma, desde sempre lésbica assumida. Medalhas de outro como Mark Tewksbury (nado), Jason Collins (Tenis) e Greg Loganis (mergulho), todos gays assumidos de longa data, participaram das filmagens de “To Russia with love”, porém, em nível mais privado que público.

Billie Jean King, ícone do tênis, enviada a Sochi como secretária de esportes.

Bem, e aí o filme vai se centrando em casos pessoais, que são muitos. Uma atleta canadense iria estar junto de sua companheira suíça, também atleta premiada… O dançarino do gelo, o russo Johnny Weir iria aparecer com suas roupas extravagantes… Iria haver problemas? Tudo indicava que não, contanto que não se fizesse referência à homossexualidade.

Uma das declarações das autoridades russas à imprensa foi que – ao cidadão de maior no país é permitido fazer suas escolhas sexuais à vontade, e concluía com uma grande conjunção adversativa: “mas, por favor, deixem nossas crianças em paz”. Visivelmente, homossexualidade, para eles, se confunde com pedofilia – e usam o argumento com ênfase.

De tal forma que um caso difícil é o do jovem russo que por ventura se descobre homossexual antes dos 18 anos de idade. Caso desse Vladislav Slavsky, 17 anos e aluno do Escola Secundária,  que, não sendo propriamente atleta, entra no filme pelo seu ímpeto ativista. Massacrado na escola pelos colegas, e mesmo pelos professores, Vlad aproveita a ocorrência das Olimpíadas na sua cidade, Sochi, para protestar. A americana Billie Jean King toma conhecimento do seu caso, e Vlad, termina ganhando passaporte para os Estados Unidos, onde irá estudar na Universidade da Califórnia.

O dançarino do gelo, Johnny Weir.

Já o Presidente russo da Liga LGBT de Esportes come o pão que o movimento Nazi amassou, mas, nem por isso, desmorona… nem pensa em deixar o seu país, por nada na vida. Talvez com mais amargura, o skater Weir passa uma visão menos encantada da Rússia. Diz ele: é como se fosse sua avó; você a ama, mas sabe muito bem que ela é alienada e vive do passado.

Um dos casos mais tocantes no filme é, com certeza, o daquele pai americano que viaja a Sochi só para dar apoio aos atletas LGBT: perdera o filho gay, vítima de violência homofóbica.

O filme termina melancolicamente, com os atletas estrangeiros, em seus respectivos países de origem, falando das Olimpíadas em Sochi como algo já passado. Mas a gente sabe, não tão passado. A atleta canadense de esqui rápido, por exemplo, se indaga se, ao abraçar sua companheira suíça, diante das câmeras de televisão russa, não devia tê-la beijado na boca. O fato é que não o fez.

Enfim, belo filme: suave e delicada lição de cidadania e também de cinema.

Olimpíadas em Sochi, 2014,

Os óculos de Mr. Godard

31 out

O autor de “Acossado”, como se sabe, detesta a ideia de cinema como entretenimento. Pois fui ver este “O formidável” (Michel Hazanavicius, 2017) e me entretive um bocado.

Qual a relação? É que o filme é sobre ele, sim, sobre Jean-Luc Godard. Ou ao menos sobre uma fase da sua vida, aquela que ficou entre as filmagens finais de “A chinesa” e o seu próximo projeto de cinema; no meio disso, toda a sua acalorada participação no Maio de 68, ao lado da então jovem esposa e atriz, a bela Anne Wiazemsky.

Na saída do cinema, algumas pessoas me perguntaram se gostei, e tive vontade de responder com uma boutade godardiana: “o que interessa não é se gostei, mas se Godard gostou”. Pois leio agora que Godard teria dito do filme ser “uma ideia estúpida”. E, claro, é fácil entender por quê. O filme é baseado no livro “Um ano depois” de Anne Wiazemsky, e nele desponta, com franqueza desconcertante, a figura irreverente, polêmica, controversa, que foi – ou é – o cineasta de “O desprezo”, sua quixotesca busca do novo, sua nunca resolvida mistura de arte e política, seu gênio, mas também suas contradições e sua crise pessoal.

Godard, em pleno Maio de 68

Acho que o ponto alto do filme é o humor, e calculo que deve ter sido isto mesmo que mais desagradou ao cineasta, retratado numa época em que, visivelmente, perdera o dom de rir. Sobretudo de si mesmo.

Para começo de conversa, o título do filme (em francês “Le redoutable”) é referência a um suposto submarino da época que navegaria em autogestão, aparentemente, como Godard queria seus filmes. Depois de ouvirmos no rádio o noticiário sobre o tal submarino, ele e Anne vão estar repetindo o refrão “e assim segue a vida no “Formidável”. Claro que o título passa a valer para o próprio Godard, no caso da intitulação brasileira, com a vantagem de acionar os dois sentidos opostos da palavra: (1) temível (2) admirável.

Ainda na linha do humor, prestem atenção às muitas vezes em que os óculos do protagonista se quebram, caindo no chão em correrias e sendo pisado por pés alheios. Claro, os óculos são uma metonímia da visão de seu portador, essa ´visão´ (vários sentidos) que parece estar confusa para todos em torno dele e, pior, para ele mesmo.

Os atores Louis Garrel e Stacy Martin

O irônico uso da música “Quando calienta el sol” na cena em que o mal humorado cineasta é obrigado a hospedar-se na casa de praia de um inimigo figadal, enquanto a esposa, e os outros hóspedes se divertem com as belezas litorâneas… é um caso a citar.

A sequência da viagem de 800 kms entre Cannes e Paris, é quase exemplar: imprensados num carro alheio, oito pessoas são obrigadas a ouvir as ferinas opiniões de um amargo e antissocial Godard, não apenas sobre cinema, mas sobre elas mesmas. Em momentos assim, Godard esquece seus princípios ´democráticos´, aprendidos no livro vermelho de Mao Tse Tung e chama o humilde dono do carro que, está, aliás, fornecendo a carona, de “iletrado e burro”.

Mas esta é apenas uma das muitas farpas do cineasta. Nas ruas de Paris, em dias normais ou durante as revoltas de Maio, as suas agressões aos fãs são hilárias, para não dizer destrutivas. Lembrem a cruel resposta que recebe aquele rapaz, entusiasta estudioso de cinema, que está escrevendo tese de doutorado sobre a obra de Godard… e que é descartado como um idiota e um inútil.

Garrel encarna Godard, e o faz muito bem.

O cúmulo de seus posicionamentos controversos pode ter sido aquele em que, numa assembleia estudantil, afirma peremptoriamente que “os judeus são os nazistas de hoje”…

Não resta dúvida de que temos um Godard em crise, ideológica e existencial, irresoluto na comunhão entre arte e política. Obviamente essa crise se estende ao plano amoroso e desestabiliza a relação entre ele e Anne. E o filme se fecha com a separação… ou a promessa dela.

Godard é aquele tipo de cineasta que se ama ou se odeia. Assim, não sei qual vai ser a reação dos cinéfilos a “O formidável”, mas, uma coisa suponho que seja consensual: o filme de Hazanavicius é bem feito, primoroso na reconstituição da época, e sofisticado no desenvolvimento do roteiro e construção dos personagens. Sua narração saudavelmente “imita” o estilo Godard, e muitos outros recursos expressivos o homenageiam. Eu por exemplo, adorei aquela longa cena em que o casal conversa sobre problemas pessoais, enquanto, numa sala de cinema, assistem ao belo “O martírio de Joana D´Arc” de Dreyer (1928), a gente sabe, um dos clássicos amados pelo cinéfilo que um dia foi Jean-Luc Godard.

Em momentos assim, esquecido da iconoclastia godardiana, o filme parece nos dizer: questões pessoais são pequenas, o que fica é a arte.

A bela Stacy Martin, como Anne Wiazemsky.