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Assassinato no Expresso Oriente

12 dez

Não gosto de remakes de clássicos, mas a curiosidade foi maior que meu desgosto e fui ver esse “Assassinato no Expresso Oriente” (Kenneth Branagh, 2017), em cartaz na cidade.

A versão original de Sidney Lumet (1974) eu a tinha revisto havia pouco. É que faço parte de um Cineclube de amigos que assistem a mostras de filmes por temática, e o tema em vigor, no momento, é, por coincidência, justamente “trem”. Sim, trem. Vimos, primeiro, “O trem” (John Frankenheimer, 1964) e em seguida o filme de Lumet que adapta Agatha Christie. Falta ver um terceiro, que será exibido e discutido num próximo encontro.

Fui, portanto, ao filme de Branagh com o de Lumet na cabeça.

Kenneth Branagh dirige e atua em Assassinato no Expresso Oriente.

Apesar do reconhecido talento de Branagh – como diretor e ator – e do excelente elenco do filme, não esperei grande coisa… e não tive. Parece-me que a diferença entre as duas versões não é propriamente qualitativa: dois filmes bem feitos, e só, cada um tratando o livro adaptado a seu modo, mas sem grandes consequências.

Branagh faz alguns acréscimos, que não sei se melhoram ou pioram Lumet. O primeiro está no início do filme, quando se exibe, ainda no Oriente Médio e antes de qualquer referência a viagens de trem, os dotes detetivescos do protagonista Poirot, para que o espectador saiba com quem vai estar lidando – dica dispensada por Lumet, que certamente apostou na popularidade de Agatha Christie.

O filme de Branagh tem mais ação (pancadas, quedas, correrias, armas apontadas e tiros), porém, a maior diferença mesmo vai aparecer numa figura inexistente em Lumet. Refiro-me à amada de Poirot. Num diálogo inicial, em que o comandante do trem cobra de Poirot algum sentimento, ele lhe responde com uma frase enigmática, que parece valer mais para crimes do que para um caso amoroso: “Romance nunca fica sem punição”.

Judi Dench e um grande elenco…

Pois essa frase – seja lá o que for que ela esconda – vai justificar a recorrente aparição da figura da amada de Poirot, a quem ele sempre apela, não apenas com saudade, mas com o desespero de um fiel que precisa do auxílio de uma santa protetora. Um exemplo bem sintomático está naquele momento decisivo em que o famoso detetive, diante de tantas pistas confusas para a solução de um crime praticado a poucos metros de seu leito, vê-se impotente para dar um resultado satisfatório… E então, é à imagem dessa mulher misteriosa que ele interiormente recorre – imagem que sempre nos é mostrada em saudoso e carinhoso preto e branco.

O desenlace também contém uma pequena diferença a ser marcada. O filme de Branagh termina com uma breve referência oral a um crime no Nilo, comunicada a Poirot depois de tudo findo no Expresso Oriente. E é claro que o espectador, ouvindo isso, vai lembrar a próxima aventura de Poirot, também trazida ao cinema, no caso pelo diretor John Guillermin, “Morte no Nilo” (1978).

Referência que se torna irônica quando se consideram as opiniões do próprio Poirot, anteriormente formuladas por ele mesmo, em termos bem enfáticos. “Há o certo e o errado – explicara ele, com inabalável convicção, a um de seus interlocutores no início da viagem – e nada no meio. Fora disso, seria o desequilíbrio”. Agora, depois do múltiplo assassinato desvendado (assassinatos cometidos aparentemente por uma causa “justa”), ele, desapontado e meio perplexo, opta pelo “desequilíbrio”, como se dando a entender que iria desistir da profissão. Por isso, a referência ao Nilo (sua próxima empreitada) é irônica. O velho detetive não resiste a uma boa trama criminosa…

Willem Dafoe é um dos muitos suspeitos…

Mas, uma diferença entre os dois filmes que eu aponto como sendo grave, do ponto de vista estético, está na imagem mesma do trem. Não tenho aqui espaço para comprovação em detalhes, mas suponho que quem compara os dois filmes com atenção constatará que no filme de Lumet o trem possui muito mais protagonismo. Em Branagh o trem é só o cenário onde as coisas ocorrem; em Lumet, ele é, decididamente, um personagem; sua força plástica impressiona e encanta – e vejam que nos anos setenta, os recursos técnicos para se conseguir um efeito desses (doar personalidade a um meio de transporte) eram bem mais precários que os de hoje em dia.

A esse propósito, se não for exigir demais dos meus leitores, remeto-os a um ensaio meu em que tento demonstrar a impressionante qualidade cinematográfica (ou ´cinegênica´) desse meio de transporte chamado trem, ensaio a que dei o título intertextual e brincalhão de “Um trem para as estrelas” e que está disponível neste meu blogue.

Pois é essa qualidade cinegênica que está inteligentemente aproveitada no filme de Sidney Lumet e nem tanto neste de Kenneth Branagh.

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Sr. Sherlock Holmes

21 abr

Quem iria querer imaginar o seu ídolo idoso e doente? Por exemplo, Tarzan velhinho sem poder trepar em seus cipós? Ou Roy Roger alquebrado sem conseguir montar o seu cavalo?

O escritor inglês Mitch Cullin fez isso com Sherlock Holmes. No seu livro “A slight trick of the mind” (´Um ligeiro truque da mente´), imaginou-o aos noventa e dois anos, já no final dos anos 1940, atacado de demência, vivendo quase isolado no condado de Sussex, tentando desesperadamente lembrar-se de seu último caso… e sem conseguir. E isto, sem a ajuda de seu amigo Watson, já falecido havia anos.

O diretor americano Bill Condon gostou tanto da estória desse Holmes gagá que resolveu filmar.

mr holmes 1

O filme “Sr Sherlock Holmes” (2015), no original “Mr Holmes”, acaba de ser lançado em DVD e pode ser uma boa pedida para um confronto com as outras tantas versões cinematográficas sobre a vida do personagem de Conan Doyle.

Seguindo o livro, o filme mostra um protagonista com perda constante de memória e seu mundo mental é, portanto, um tanto e quanto nebuloso, com retrocessos e avanços temporais que nem sempre se encaixam.

Quem é aquela mulher de comportamento estranho e hostil? Por que faz túmulos para filhos inexistentes? Por que o marido contrata os serviços de um detetive? Por que uma vidente é procurada? O que faz ela sozinha, sentada num banco de praça? O que significa a imagem de uma abelha sobre sua luva branca?

De alguma maneira, essa nebulosidade é transferida para o filme, e, ao espectador, dá trabalho juntar as peças e entender o que de fato aconteceu no misterioso último caso do Sr Sherlock Holmes. Sabemos apenas – e isto é um agravante sério, do ponto de vista dramático – que este caso foi decisivo para o nosso personagem isolar-se do mundo, cheio de remorso e culpa, sentimentos que ele, amargurado, curte sem conhecer a causa.

mr holmes 2

“Doença e morte são banais: raro mesmo é a lógica” – ensina o velho Holmes ao seu companheiro infantil e fã, o filho da empregada na casa de campo de Sussex. Só que a lógica teima em não funcionar e, quando funciona, no desenlace, é só para provar que, mais que ela, valem os sentimentos.

Sim, é que, ao contrário dos muitos casos investigados pelo famoso detetive, este último o envolveu, emocionalmente, com a mulher casada que ele investigava a pedido do marido. Não vou contar a estória para não estragar o prazer de quem quer ver o filme de Condon.

Permitam-me apenas citar o próprio Holmes, naquele momento em que, achando-se satisfeito com a solução que encontrou para o seu enigma, filosofa: “One shouldn´t leave this life without a sense of completion” / “Ninguém devia deixar esta vida sem um sentido de compleição”.

Com ou sem compleição, o filme é, plasticamente falando, uma delícia para os olhos, cenário limpo e elegante como uma fleumática casa inglesa. Se, obedecendo à temática, a montagem é confusa, a fotografia, ao contrário, é límpida, nítida, clara, como um cartão postal.

As interpretações são ótimas e o velho e enrugado Ian McKellen oferece um desempenho magnífico. Não fica atrás Laura Linney, como Mrs Munro, a empregada sempre desconfiada de seu patrão; como também o garoto Milo Parker, no papel de Roger, o filho da empregada, apaixonado pelas teorias de Holmes e cuidador de seu apiário.

mr holmes pro face 1

A trilha sonora de Carter Burwell (músico de “Fargo”, “Quero ser John Malkovich” e “Crepúsculo”) desempenha um papel fundamental, lembrando às vezes – e com motivo justificável – o tema musical de Bernard Herrman em “Um corpo que cai”. Aliás, outras referências hitchcockianas são visíveis, por exemplo, quando a misteriosa investigada Ann Kelmot se detém na frente de uma loja de couros que se chama Ambrose Chapel, o mesmo nome – vocês lembram – que está em “O homem que sabia demais”.

Do jovem cineasta novaioquino Bill Condon, eu conhecia apenas dois filmes que, aliás, tive o prazer de comentar nesta coluna. “Deuses e monstros” (“Gods and monsters”), de 1998, ficcionalizava a vida do diretor americano James Whale, autor de alguns bons horror movies dos anos trinta; e “Kinsey – vamos falar de sexo”, de 2004, sobre o sexólogo americano que, nos anos cinquenta, lançou um livro que mudaria o comportamento de gerações.

Mas, voltando ao filme em questão, se porventura você é um leitor entusiasta de Conan Doyle e não está a fim de ver o seu ídolo decadente, veja outra coisa. “Sr Sherlock Holmes” não é obrigatório.

O veterano Ian McKellen no papel de Holmes idoso.

O veterano Ian McKellen no papel de Holmes idoso.

Eles vivem na noite

6 out

Semanas atrás, dei início, neste blog, à visitação do chamado cinema “noir”. Fiz uma matéria introdutória sobre este curioso gênero cinematográfico e analisei um exemplo.

Hoje o meu comentário vai para um filme que tem, em português ao menos, um título emblemático do gênero: “No silêncio da noite” (“In a lonely place”, 1950). Não vou citar aqui quantos filmes noir têm a palavra ´noite´ no título, mas são muitos – sugerindo que estamos num cenário urbano de metrópole, cheio de seus conhecidos, ou desconhecidos, perigos.

É dentro do cenário urbano de Los Angeles que esse roteirista de Hollywood, blasé, cínico e explosivo, se envolve com o perigo. Sem saco para ler o romance que o seu agente quer adaptado para a tela, ele convida uma mocinha ingênua, a chapeleira dos estúdios, para ir a sua casa e lá passar o resto da noite, lhe contando o enredo do tal romance.

Um dos cartazes do filme

Um dos cartazes do filme

A tarefa é cumprida, porém, no dia seguinte vem a notícia: no caminho de casa, a moça fora barbaramente assassinada, e, obviamente, o principal suspeito passa a ser o roteirista, que, intimado à delegacia, só não é preso porque uma desconhecida, sua bela vizinha do lado, testemunha em seu favor.

E o lucro do testemunho não é só este: o roteirista e a bela vizinha passam a viver um intenso caso de amor, tão intenso que tem o poder de aparar as arestas cínicas e violentas da personalidade do roteirista.

Quando o filme está para virar uma love story de final feliz, vêm os elementos noir. Insuflado por pequenos incidentes, o caráter explosivo do temperamento do roteirista volta à tona e começa a colocar dúvidas no espírito de sua companheira: será que o autor do crime da jovem chapeleira (afinal nunca desvendado) não teria sido ele mesmo? Os seus sucessivos rompantes não indicam algo assim?

Misturando esses ingredientes, digo, drama amoroso e mistério policial, o filme nos mantém presos à tela… até o final, que não vou contar.

Quem faz o roteirista explosivo Dixon Steele? Tinha que ser Humphrey Bogart, em uma de suas  melhores caracterizações; e a charmosa vizinha Laurel Gray é a loura Gloria Grahame, provavelmente em seu melhor desempenho.

Gloria Grahame e Humphrey Bogart em cena do filme

Gloria Grahame e Humphrey Bogart em cena do filme

Mesmo cabendo dentro do conceito de noir, “No silêncio da noite” – não há como negar – é um filme de personagem, na medida em que o seu conflito básico depende da natureza explosiva de Dixon. Quase todo seu, o ponto de vista narrativo, de fato, o exime do crime em questão, porém, o seu comportamento descontrolado em momentos de fúria o tornam, para os outros, o suspeito ideal.

Assim, de alguma maneira, o misterioso assassinato da jovem chapeleira soa, no final das contas, como uma espécie de ´macguffin´ – naquele sentido que a palavra tem de designar ´um mero pretexto para que o enredo se desenvolva´. Sem ele, o temperamento de Dixon seria apenas desastroso; com ele, passa a ser trágico.

Nesse aspecto, o desenlace é sintomático – depois de agredida pelo companheiro, num nível de violência em que o afeto é ferido para sempre, ao receber da polícia, o telefonema que o inocenta, Laurel comenta quase de si para si: “algumas horas atrás esta notícia teria feito toda a diferença – agora mais não”. E o próprio Dixon, que a escuta dizer isto, sabe que é verdade.

O diretor Nicholas Ray

O diretor Nicholas Ray

Do diretor, o grande Nicholas Ray, se dizia ser o cineasta que encenava “a poesia do homem ferido”. Aqui pode-se muito bem mudar a palavra ´homem´ por ´mulher´. Digo isto porque, com sua carga de violência e negatividade, o cinema noir traz a má fama de ser ´cinema para homem ver´. Não sei se isto é verdade. Pelo menos de “No silêncio da noite” posso dizer que é um filme que as mulheres podem amar. Não vou contar detalhes, mas, afinal de contas, seu desenlace é uma epifania feminina… e não masculina.

Para quem não lembra, Nicholas Ray fez alguns dos grandes clássicos da frutífera década de cinquenta, nem todos noir, mas talvez com o mesmo tom pessimista, casos, – para citar apenas os mais conhecidos – do faroeste sombrio “Johnny Guitar” (1954), do drama juvenil “Juventude transviada” (1955) e da ficção antropológica “Sangue sobre a neve” (1960).

Aliás, noir prototípico, o seu filme de estréia, em 1948, (no Brasil: “Amarga esperança”) tem, no original, o título que melhor define o gênero: “They live by night” – ´Eles vivem na noite´, que peço emprestado para denominar esta matéria.

Grahame, Bogart e Ray no set de filmagens de "No silêncio da noite"

Grahame, Bogart e Ray no set de filmagens de “No silêncio da noite”