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Casablanca ou Cidadão Kane?

1 abr

A Semana Santa está aí e o casal arruma as malas para um feriadão na casa de praia da família, a essa época do ano desocupada e inteiramente disponível. Na maior parte do tempo, vão estar a sós, os dois pombinhos, curtindo o sol ou chuva – o que der e vier, pouco importa! – livres de compromissos e problemas.

Na quinta-feira santa, porém, já está combinado, receberão um grupo de amigos, que, segundo a promessa feita, vai levar – tudo já pronto pra servir à mesa – os ingredientes de uma ceia larga – vinho, pão, queijo, peixe e tudo mais.

Depois da ceia, um filme! – assim foi sugerido e ficou decidido.

Quando o casal perguntou, no telefone, que filme, a resposta dos amigos – todos, como o casal, cinéfilos de carteirinha – foi: “um clássico, claro”. E com uma alegação mais que justa: é que neste ano de 2015 a sétima arte está completando redondos 120 anos!

“Mas que clássico?”

“Vocês dois decidem: a surpresa vai ser o aperitivo” – responderam.

Depois de um papozinho privado, o casal concordou em que o filme a levar tinha que ser, no mínimo, marcante.

casablanca

Casablanca foi a opção dela.

Teria tudo sido fácil se a opção dele não fosse outra, bem diferente: Cidadão Kane.

E durante dias ficou o impasse.

Agora estavam de partida, arrumando as malas, e o impasse continuava.

Ela alegou que Casablanca agradaria à maioria. Ele alegou que não via por que Cidadão Kane não agradaria a essa maioria de que ela falava, afinal seriam apenas umas onze ou doze pessoas, todas apaixonadas por cinema.

Entre uma peça de roupa jogada na mala e outra, entre um par de sapato empacotado e uma escova de dente catada no banheiro, a discussão continuava.

Ela: Amor, apesar do lance da data comemorativa, a gente vai ver um filme pra se divertir, pra curtir, e não para racionar. Casablanca dá mais certo.

Ele: Pois Casablanca me faz refletir tanto quanto Cidadão Kane. Não vejo diferença. Aliás, se o critério é diversão, Casablanca me deixa mais pra baixo. O final sempre me dá vontade de chorar, com Ilsa indo embora e Rick sozinho no aeroporto com aquele delegado cretino”.

Ela: E Cidadão Kane, que já começa com morte? Não me diga que é alegre a estória de um homem que subiu na vida só pra despencar lá de cima, perdendo esposa, negócios, eleições, sei lá o que mais, pra viver com uma mulher que ele nem ama, só por teimosia, num castelo assombrado, sem amigos nem parentes.

kane

Ele: Acho que você só ´tá vendo os aspectos negativos da vida de Kane…

Ela: E você por acaso não ´tá fazendo o mesmo com Ilsa e Rick? Entre eles pelo menos houve uma grande estória de amor, mesmo que…

Ele: Essa conversa tá meio tola: nenhum dos dois filmes é melhor ou pior por causa das infelicidades dos personagens.

Ela: Pois é, e a gente volta ao mesmo ponto de partida.

Ele: O pior é que ´tá na hora de fechar as malas e não quero viajar de noite.

Ela: O que é que você sugere?

Ele: Um par ou impar?

Ela: Ah, não, isso não!

Depois de uma pausa para fechar portas e janelas do apartamento, novas arguições:

Ela: Francamente, eu acho que Cidadão Kane é uma escolha meio óbvia, sabe como é, (e falseando a voz para soar prepotente) “o filme mais perfeito já feito, segundo a crítica internacional”… essas coisas.

Ele: E Casablanca, que é o queridinho do público em todos os tempos e lugares, acho que o filme mais reassistido em toda a história do cinema… Isso não é obviedade? O filme mais selado em VHS, DVD e Blue Ray.

Ela: Tão selado quanto Cidadão Kane!

Ele: E daí?

Ela: É, assim a gente não chega a lugar nenhum.

Ele: Também acho. E a hora ´tá passando.

casablanca poster

Ela: Uma saída seria pensar noutro filme…

Ele: Outro filme? (e demorando a digerir a sugestão) tudo bem, e o que seria? Filme não falta…

Ela: Mas nada que se compare a Casablanca.

Ele: Nem a Cidadão Kane.

Ela: O que ´tou querendo dizer é que, para uma ocasião dessas, encontro de amigos, em data especial, os 120 anos do cinema…

Ele: Sim, isso mesmo. Cidadão Kane resume a história do cinema.

Ela: Casablanca resume a história do amor ao cinema.

Ele: Só se a gente fizer o seguinte: bota os dois filmes na mala. Na hora de assistir, a gente pede a opinião da turma toda.

Ela: Ih, isso vai dar zebra. A discussão vai se estender e a sessão vai começar de meia noite. Não dá certo, não. Além do mais, eu concordei em que ia haver o elemento surpresa.

Ele: E aí, o que é que se faz?

Ela, colocando na mala superlotada um par de calcinhas: Continuo achando que devia ser Casablanca.

Ele, enfiando no meio das roupas, um tubo de creme de barbear: Continuo achando que devia ser Cidadão Kane.

citizen kane poster

 

Em tempo: a Chico Vianna dedico esta crônica, que imita o seu estilo.

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Um clássico a lembrar

26 abr

Neste 2014 comemora-se o aniversário de sessenta anos do filme que dá nome à minha coluna no Jornal Contraponto, “Janela indiscreta” (Rear window, 1954), e, portanto, não posso deixar de anotar o evento. Para tanto, reproduzo parcialmente matéria que está no meu livro virtual “Emoção à flor da tela” (Conferir neste blog, a categoria LIVROS acima).

Digamos, primeiramente, que “Janela indiscreta” pertence àquele tipo raro de filme que tanto funciona para platéias menos instruídas, quanto para cinéfilos empertigados. Não é sem razão que pode passar na televisão sem problemas, do mesmo modo que sua referência e análise constam em sofisticados compêndios de teoria da linguagem fílmica.

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Aliás, tão frequentemente tem sido “Janela indiscreta” objeto de estudo de especialistas e pensadores da sétima arte, que as suas interpretações concorrem, em fama, com o próprio filme. A mais conhecida é a tese da metalinguagem, segundo a qual o filme inteiro seria uma representação do próprio cinema, a condição de voyeur de seu protagonista equivalendo à posição natural do espectador.

A tese é fascinante, mas, mais fascinante é o filme. Num setor pobre de Greenwich Village, um repórter acidentado, de perna engessada, passa o seu tempo ocioso espreitando a vida dos seus vizinhos pela janela de fundos (cf título original), até descobrir um crime: um homem esquartejara a esposa, enterrando suas partes em partes diferentes da cidade.

Resumida assim, a estória parece mórbida e escatológica, e, no entanto, quem lembra o filme sabe o quanto tudo isso é contado com irresistível charme e humor.

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Sem espaço para maiores análises, aqui aproveito as dicas do par antonímico morbidez e humor para abordar um aspecto do filme pouco discutido pela crítica, a saber, o da roteirização, empreendida em cima do original adaptado, o conto homônimo de Cornell Woolrich.

Acontece que o conto de Woolrich se limita praticamente ao que resumimos acima, ao passo que o filme de Hitchcock lhe faz um acréscimo que não é apenas considerável, mas também significativo: todo o sub-enredo do caso amoroso entre Jeffrey, o repórter, e Lisa, sua namorada ricaça, e com ele, todas as discussões em torno da instituição do casamento. Na verdade, o roteiro de Hitchcock não fez só um acréscimo no sentido quantitativo da palavra: ele desenvolveu a diegese numa direção temática oferecida pelo núcleo em Woolrich. De alguma forma o cônjuge que mata o outro também mata o casamento, assunto que, em Janela indiscreta, passou a ser um segundo tema, tão importante quanto o primeiro.

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Vejam bem, fosse o crime de outra ordem e a roteirização seguramente não teria tomado esse caminho. Mas é o esposo que mata a esposa e, sem querer, suscita todas as questões sobre a instituição que os unira, como se perguntasse: vale a pena casar, se o casamento pode terminar com o casal se matando? Em várias instâncias, o filme brinca com a pergunta, inexistente no conto.

Assim, sonhadora e apaixonada, a ricaça Lisa (Grace Kelly) só pensa em casamento; pobre e prático, o repórter Jeffrey (James Stewart) é contra a ideia. O crime descoberto pelos dois, na vizinhança, parece apontar para uma visão desfavorável do casamento; só que, no desenrolar da estória, o seu desvendamento une Lisa e Jeffrey como nada no universo ficcional do filme fora capaz de fazer antes: aquela cena em que, no apartamento do assassino, ela põe no dedo a aliança da mulher vitimada é, conforme já demonstrado pela crítica, um simbolismo favorável. Bem entendido, favorável ao casamento Lisa\Jeffrey, mas não necessariamente à instituição em si, já que, afinal de contas, se trata da aliança de um cônjuge assassinado por outro.

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Não apenas Jeffrey e Lisa discutem o assunto da (in)viabilidade do matrimônio, mas também outros personagens, inexistentes no conto de Woolrich, como a enfermeira Stella e o policial amigo Tom, para não falar dos vizinhos que o fazem apenas graficamente, mas o fazem.

E conclui-se o filme sem respostas. Depois de tudo passado, a vida na vizinhança de Greenwich Vilage retoma seu rumo normal: por exemplo, a Srta “coração solitário” e o pianista frustrado se encontram, o que parece favorável à ideia de casamento, mas em compensação, os recém-casados do outro lado brigam porque ele não tem emprego, o que parece desfavorável. Nos fotogramas finais, Jeffrey, agora com as duas pernas quebradas, cochila ao lado de Lisa, o que parece favorável à noção de casamento, mas ela, por trás do sério periódico em que o namorado trabalha, lê revistas de moda, o que, no contexto da estória a dois, parece desfavorável.

Ao contrário do conto, que é monossêmico e monótono, “Janela indiscreta” trabalha o tempo todo com ambiguidades dessa e de outras ordens, sem, em nenhum momento, deixar que a bola caia para quaisquer dos lados, e sem permitir decidir se estamos vendo um sombrio e trágico “noir” ou uma comédia romântica de final feliz. Coisa de gênio!

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