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SANTIAGO, ITÁLIA

25 set

Lembram de “Desaparecido – um grande mistério” (“Missing”, Costa-Gavras, 1982)? Pois é, trinta e seis anos depois, a sua temática retorna às telas, agora em formato de documentário.

A temática é o golpe militar de 11 de setembro de 1973, que, sob os auspícios dos Estados Unidos, tirou o socialista Salvador Allende do poder no Chile e pôs no lugar a sangrenta ditadura de Pinochet.

O documentário é “Santiago, Itália” (2018) do italiano Nanni Moretti, em exibição no nosso tão especial e querido Cine Banguê.

Mas, claro, os enfoques nos dois filmes são diferentes.

Na ficção (baseada em fatos reais) de Costa-Gavras um respeitável cidadão americano vai ao Chile visitar o filho, jornalista, e descobre que o rapaz se encontra desaparecido. Junto com a nora, apelam para a Embaixada americana, e, depois de muitas buscas inúteis, constatam o pior: que o rapaz fora uma das vítimas fatais do novo regime.

Já o documentário de Moretti é mais sistemático e mais direto, como, aliás, é próprio do gênero. Seu grande lance são os depoimentos de pessoas, hoje idosas, que foram vítimas do regime militar, ameaçadas, perseguidas, presas e/ou torturadas, e que, entre muitos percalços, sobreviveram.

De início, não entendemos por que essas pessoas falam italiano, e não espanhol. Um pouco adiante, na segunda parte do filme, vem o esclarecimento: elas estiveram no rol dos mais de duzentos “sortudos” que, na ocasião do golpe, receberam abrigo na Embaixada italiana, e, de lá, foram expatriados para a Itália, neste país se estabelecendo em nova forma de vida, hoje plenos cidadãos italianos. E aí o espectador retrocede e entende o título do filme: Santiago, Itália.

A narração começa, porém, bem antes disso, ainda na campanha de Allende pela eleição presidencial, com fotos e filmes de arquivo. Das falas de Allende e do apoio popular à sua proposta de governo, passa-se ao golpe, mas não sem antes apontar o quanto – no périplo de três anos – os militares, com os americanos por trás, engendraram situações econômicas e sociais que contribuíssem para o descrédito da gestão Allende. Do golpe mostram-se cenas no mínimo estarrecedoras, uma das mais plasticamente impressionantes sendo a do Palácio de La Moneda, destroçado e em chamas, bombardeado pela força aérea da ditadura.

O Palácio de La Moneda em chamas.

Para quem lembra o Moretti de “Caro diário” (1993), de “O quarto do filho” (2001), e de tantos outros filmes tristes e engraçados, desesperados e cômicos, reconhece, aqui, o seu jeito tão pessoal de fazer um cinema pessoal.

Mesmo se tratando de um documentário, um dos aspectos curiosos em “Santiago, Itália” é a sua parcialidade assumida. Entrevistando um dos militares que fizeram o golpe, em dado momento de acirramento, o próprio Moretti (que é, como sempre, um dos personagens do filme) manifesta sua posição de esquerda, afirmando taxativamente que não é imparcial. Em outras, palavras, que está fazendo um filme contra o conceito de ditadura.

Não é por acaso que sua câmera permanece ligada quando aquele senhor que se diz ateu, relatando a enorme e providencial ajuda humanitária às vítimas da ditadura, recebida de um certo cardeal da Igreja Católica, perde o controle emocional e… chora. Bem de propósito, Moretti concede tempo de tela a seu choro, e, conhecendo muito bem a resposta, lhe pergunta por que está chorando.

Enfim, um filme importante, entre outras coisas, para nos fazer lembrar os males de um regime militarista e os perigos de seu retorno. Pensando bem, sua exibição no Brasil do momento atual vem bem a calhar.

Vamos ao Banguê.

O cineasta e ator Nanni Moretti em cena do filme.

Chico

20 dez

Com chave de ouro fechou o Fest-Aruanda 2015 “Chico: artista brasileiro”, filme de Miguel Faria Jr sobre o cantor, compositor e escritor Chico Buarque de Hollanda.

Para quem conhece o trabalho de Faria Jr e o de Chico, o filme é o esperado, mas, o esperado que agrada. E muito.

O esquema é simples. O cineasta fez com o compositor uma longa entrevista em sua residência. Selecionou trechos dessa entrevista e correu atrás das fontes – iconográficas ou de outra ordem – que tivessem a ver com a fala. Em certos casos pode ter sido o contrário: fez perguntas a partir de material iconográfico disponível – o que dá no mesmo. Outra providência foi encenar gravações de performances de cantores interpretando Chico, e intercalá-las à narração. Algumas delas atuais, feitas exclusivamente para o filme, outras antigas, buscadas em arquivos. Os depoimentos de amigos e parentes são poucos, provavelmente para não alongar a projeção, já repleta de preciosidades imperdíveis.

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O resultado é, naturalmente, um passeio delicioso pela carreira e pela vida do compositor e cantor mais querido e mais admirado da MPB.

A ordem dos fatos é mais ou menos cronológica, com ligeiros ´retornos´, pedidos pela eventual recorrência de certos assuntos. A abertura é dada à última composição de Chico, “Sinhá”, cantada por ele mesmo, mas, depois disso, vai-se à infância e segue-se a linha do tempo até o momento presente, com a abordagem do Chico escritor. Seu último romance, “O irmão alemão”, passa, então, a ter destaque, quando o autor relata a relação da estória verídica com o que no livro está ficcionalizado, e o cineasta acompanha o autor em sua visita à Alemanha, à cata dos rastros desse irmão bastardo, já falecido, que, aliás, também era cantor.

Um dos poucos depoentes no filme, Edu Lobo, chama a atenção para o bom humor de Chico, lembrando como, em conversa com amigos, ele está sempre rindo. E é justamente o que se vê na tela: um Chico hilário contando coisas engraçadas e, em vários momentos, rindo aos borbotões, da forma mais descontraída.

Chico, sempre rindo...

Chico, sempre rindo…

Essa simplicidade não impede, contudo, que em dadas ocasiões, o cantor faça o charme que adoram fazer as pessoas famosas, que é o de surpreender os seus ouvintes com colocações desconcertantes. Eis duas dele. (1) Dizer que o seu métier é a literatura, e não a música. E (2) dizer que a música de hoje em dia é melhor que a do passado, exemplificando com a bossa nova, que seria coisa de elite, ao passo que a música de hoje seria realmente popular, e, portanto, melhor. E naturalmente, o espectador do filme, neste momento, se indaga: que música?

Em compensação, há revelações preciosas sobre o seu trabalho de compositor, como naquele momento em que, fazendo visível esforço conceitual, explica como as letras das canções podem, de modo inconsciente, remontar a dados biográficos que não eram aparentes no instante da criação.

Outra revelação a guardar diz respeito ao lado político de seu trabalho de compositor: quando, quase lamentando, explica como músicas compostas para denunciar situações políticas ou injustiças sociais, terminam por sofrer perda de significação quando o tempo passa e as coisas mudam.

O diretor Miguel Faria Jr em ação.

O diretor Miguel Faria Jr em ação.

Entre as cenas de arquivo, inclui-se uma entrevista dada a um canal de televisão em que o locutor pergunta a Chico se, criador de tantas personagens femininas, ele não seria homossexual. E ele retruca o que se esperava: que, no ato de criar as letras ele era tudo, homossexual, mulher, e marginal em todos os sentidos da palavra. A cena é circunstancial, porém, evidencia algo essencial no compositor de “Folhetim”: evidencia que o conceito de heterônimos não é exclusivo de Fernando Pessoa.

Como se sabe, a vida e a carreira de Chico se confundem com a história do Brasil no século XX, e o espectador tem a chance de fazer esse retrospecto, sobretudo – meu caso – se a sua faixa etária não diferir muito da do compositor. Os festivais de música da Rede Tupi, os movimentos estudantis contra a Ditadura, o peso da censura, o Roda Viva, a passeata dos cem mil, o exílio, a luta pelas diretas já… Tudo isso vem à tona, junto com as canções e com os sentimentos nelas envolvidos.

Falar em canções, saí do cinema ouvindo e vendo, e agora mesmo ainda ouço e vejo, a portuguesa Carminho performatizando “Sabiá”. Só não tão nítido porque, no meu lembrar, se superpõe a Laila Garin interpretando “Uma canção desnaturada”. Ou a Maria Bethânia recriando “Olhos nos olhos”. Ou a Ney Matogrosso reinventando “As Vitrines”. Ou… Bem vou parar por aqui.

Sugeri acima que o filme de Faria Jr é inevitavelmente previsível. Como se também não o fosse esta matéria…

Ney Matogrosso reinventando "As vitrines"

Ney Matogrosso reinventando “As vitrines”

Como nasceu o Cinema Novo

31 out

Para regozijo dos cinéfilos de plantão, está nas lojas do ramo o livro “Vida de Cinema – antes, durante e depois do Cinema Novo”, do cineasta Carlos Diegues (Rio de Janeiro: Objetiva, 2014).

Autobiografia intelectual de um dos mais importantes diretores de cinema do país, o livro traz, em suas quase 700 páginas, informação imprescindível à memória do cinema brasileiro, recobrindo um périplo de mais de meio século, desde o nascimento do autor, em 1940, ao ano de 1995 – tudo isso cronologicamente dividido em sete grandes seções, cada uma subdividida em inúmeros pequenos capítulos.

Para compensar a extensão do calhamaço, Diegues escreve um “Prefaciozinho” (sic) de poucas linhas, cujas palavras finais, dirigidas ao leitor, são as seguintes: “Fique à vontade. Leia só o que lhe interessa.”

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Foi o que fiz. Fucei aqui e acolá e detive-me nas duas seções, segunda e terceira, que relatam justamente os preparativos, o surgimento e as repercussões do Cinema Novo, de 1957 a 1969, e, claro, de quebra vem todo aquele clima de efervescência artística e política do período enfocado que, como se sabe, não se restringiu ao cinema.

É fato que a bibliografia sobre o assunto, digo o Cinema Novo Brasileiro, já é, a essa altura dos acontecimentos, bastante vasta, porém aqui vamos ter um adicional precioso, que é o tempero do relato pessoal de quem viveu a coisa toda por dentro, e agora a reconstitui a seu modo, e com, ao mesmo tempo, distanciamento e paixão.

Todas as figuras chave do movimento cinematográfico estão lá, as estrelas e as anônimas, e todos os principais fatos, os mais jornalísticos e os nem tanto, e Diegues não se limita a tratar apenas de seus filmes, suas ideias e seus projetos. Ao contrário, de alguma maneira, figuras como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Leon Hiszman às vezes ganham mais destaque que o autor.

Cartaz de "Joana francesa": Jeanne Moreau no Brasil

Cartaz de “Joana francesa”: Jeanne Moreau no Brasil

Além da facilidade do autor em manusear a palavra, um fator que torna a leitura agradável, e mesmo divertida, reside na variedade de tom dos capítulos, uns conceituais, outros epocais, outros ainda anedóticos – alguns essenciais, outros, se você quiser, perfeitamente descartáveis.

Inevitavelmente, o livro tem o problema de todo relato histórico em que o relator foi protagonista, porém, leve no enfoque e descontraído no estilo, Diegues se sai muito bem em equilibrar relevância histórica e vida pessoal. Não sem freqüência, alguns de seus capítulos “teóricos” deixam transparecer um viés existencial, e, mutatis mutandis, muitos de seus capítulos episódicos ganham certa dimensão conceitual.

Com relação ao tema que privilegiei, o que mais se sobressai no livro de Diegues é o seu empenho em ser fiel aos fatos históricos. O Cinema Novo Brasileiro foi mesmo programático como se diz? Sentiu influência das outras vanguardas, como a Nouvelle Vague com seu conceito de ´autor´? Foi ideológico na proporção que hoje em dia se lhe atribui? Pensou em público ou ignorou o conceito em favor da criatividade autoral? Foi desfeito pelos golpes (64 e 68), ou subsistiu?

Estas e outras são questões que Diegues enfrenta sem paranóia e sem medo de errar.

Talvez não seja demais admitir que o autor escreve como quem faz cinema, permitindo ao leitor “visualizar” os fatos, as coisas ou as pessoas. Com certeza, alguns eventos relatados têm qualidade cinematográfica, como se fossem cenas de um filme, às vezes um drama social, às vezes uma tragédia, às vezes uma comédia bufa. Lembro alguns deles.

A esposa Nara Leão e os dois filhos

A esposa Nara Leão e os dois filhos

É, por exemplo, comovente “ver”, na pequena Campos, RJ, durante as precárias filmagens de “Ganga Zumba”, os jovens Antônio Pitanga e Carlos Diegues furtando alimentos no mercadinho local, literalmente para matar a fome que o baixo orçamento da produção os fazia sentir.

Impressionante é, no dia primeiro de abril, a descrição das reações dos intelectuais e artistas cariocas ao golpe militar, por longo tempo todos pensando que tudo não passava de boatos e que, logo logo, o presidente retomaria o poder e falaria tranqüilo à toda a nação. Esperança que só se desfez quando a notícia chegou de que Jango havia fugido, de Brasília para o Rio Grande do Sul.

Hilária é a cena da primeira vez de Diegues no Festival de Cannes, em 1964, junto com Nelson Pereira e Glauber, adentrando o enorme salão, circundados pela sofisticada audiência. O cineasta de “Ganga Zumba” se atrasara na passarela e Glauber, impaciente, o chama em voz alta, pelo apelido “Cacá”, o que provoca nas chiques platéias do Festival, uma gargalhada interminável, já que o termo ´cacá´ em francês significa ´merda´.

Enfim, apesar do tamanho, um livro gostoso de ler e, mais que isso, profundamente instrutivo para se entender não apenas o cinema, mas também o Brasil.

O cineasta Carlos Diegues

O cineasta Carlos Diegues