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Marilyn

26 set

Melancólico esse documentário que a televisão paga tem mostrado, “Marilyn Monroe à venda”, sobre um leilão em Los Angeles onde se negociaram objetos que pertenceram à estrela hollywoodiana.

Joias, vestidos, sapatos são vendidos a quem der mais, com, antes, uma explicação retroativa sobre por que, onde e quando a atriz fez uso do objeto. O leilão parece uma festa, mas, para o fã de Marilyn traz aquele cheiro desagradável de invasão tardia de privacidade. Confesso que nem assisti até o fim.

De minha parte, prefiro ficar com a Marilyn da tela. Não conheço todos os seus 29 filmes, mas vi os principais. Para seguir a cronologia, lembro seu começo de carreira em papéis secundários, ou mesmo em pontas, às vezes sequer creditada. “Idade perigosa”, de 1947, é o primeiro desses filmes obscuros, geralmente comédias de segunda categoria.

Sua primeira participação numa produção de peso está em “O segredo das joias” (John Huston, 1950). Mas, seu papel aí é pequeno como pequeno será no superpremiado “A malvada”, do mesmo ano, com direção do grande Joseph Mankiewicz.

Mais um punhado de filmezinhos irrisórios, até fazer, em papel ainda secundário, a Peggy de “Só a mulher peca” (“Clash by night”) que Fritz Lang dirigiu para o casal Robert Ryan e Barbara Stanwyck. Na ótima comédia de Howard Hawks “O inventor da mocidade” (1952) Marilyn já tem um certo charme especial, porém, nada que a destaque.

A rigor, seu primeiro protagonismo aconteceu em um filme ainda hoje pouco conhecido, e, aliás, bastante atípico do estilo Marilyn. Refiro-me a “Almas desesperadas” (1952, Roy Baker) onde ela faz Nell Forbes, essa moça mentalmente desequilibrada que confunde sonho e realidade, e quando frustrada, não hesita em ser violenta. Não é um grande filme, mas é um bom exemplo de Marilyn dramática do começo ao fim. Papel mais visível para o grande público ela vai ter no ano seguinte, em “Torrente de paixão” (1953), ao lado do astro Joseph Cotten, com as cataratas de Niágara como cenário.

 

Com “Os homens preferem as louras e “Como agarrar um milionário” (1953) veio a consagração definitiva. Quando, em 1954, os cinemas do mundo exibiram o faroeste “O rio das almas perdidas”, todo mundo já sabia quem era aquela loura sensual que dividia uma jangada com Robert Mitchum. No mesmo ano ela está deslumbrante como a dançarina de “O mundo da fantasia”, porém, mais que isso, em “O pecado mora ao lado” (1955), ela já era o próprio pecado do título. E, partir de então, era a estrela admirada e cultuada que garantia bilheteria, mesmo quando os filmes não estivessem a sua altura, como “Nunca fui santa” (1956) e “O príncipe encantado” (1957).

Mas é justamente nesse tempo de glória, meados dos anos cinquenta, que começam as suas crises, e, ligado a isso, seu empenho em superar sua imagem de “loura sensual e ingênua” para afirmar-se como a atriz que acreditava ser. Ao rodar “Quanto mais quente melhor” (1959) já era, havia tempos, uma seguidora do “Método”, técnica interpretativa do Actors Studio, a maior escola de atores do mundo, com sede em Nova Iorque.

Foi também esse o tempo do seu casamento com o dramaturgo Arthur Miller, e dos flertes com os Kennedy, John e Robert. Em 1960, com Yves Montand, fez a comédia romântica “Adorável pecadora”, e em seguida (1961) aquele que seria seu último filme “Os desajustados”, direção de John Huston, com roteiro de Miller – um filme melancólico que não era só sobre cavalos selvagens em extinção, mas sobre outras extinções…

“Something´s got give” (sem título em português) poderia ter sido sua última fita, mas não foi. Em crise, a Fox a demite no meio da produção e o filme nunca foi concluído. O resto da história vocês conhecem. Em 05 de agosto daquele ano, 1962, a imprensa divulgava o suicídio de Marilyn Monroe.

Pois é, ao invés do incômodo documentário da televisão paga, fico com a Marilyn cinematográfica que amamos. E não preciso de leilões para saber o quanto valeu a vida de uma criança de nome Norma Jeane Mortenson, nascida nunca casa humilde nos arrabaldes de Los Angeles, em 1926, nunca reconhecida pelo pai biológico, mais tarde relegada pela mãe, e criada entre parentes hostis, orfanatos e pensões.

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In the fountain, with Anita

20 jan

Besides Fellini´s “La Dolce Vita” (1960), what other Anita Ekberg movies have you seen?

I asked friends and none had seen any. Some cinephiles were able to mention “Intervista” (Fellini, 1987) where, anyway, the recently deceased Swedish actress appears as herself, old and fat, with nothing of her once astounding beauty.

And, however, Anita is one of the most worshipped divas of the cinema.

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The truth is: to be a diva a single role may be enough.

And hers was that one, I mean, the big tits and hoarse voice sensual Sylvia, the gorgeous blonde who invites Marcello into the waters of the Fontana di Trevi, in Fellini´s 1960 masterpiece.

One funny thing was, some of my friends confessed not even “La dolce vita” they had seen, and, nonetheless, (they could not explain why), they seemed to remember the Roman fountain scene.

Actually, the fact can be explained. The cinema, or rather, cinephilia, is not necessarily made of entire movies, but also of single images or scenes that sometimes impose themselves as recurring intertexts. That which elsewhere I once called “beloved images”.

For instance, recently two movies showed the Fontana di Trevi scene, by the way, not just showed, but made it the core of their fictional universe. They both told the romantic adventure of this old lady who dreams of meeting her perfect valentine and with him travel to Rome, just to recreate the emblematic fountain scene – if possible, including the little white cat and the glass of milk which is served to it.

An Argentina production of 2005, the first movie is the original one; a Hollywood production of 2014, the second one is its remake, both with the same plot and title, although not with the same artistic quality: “Elsa & Fred”.

Not to mention that, a couple of decades ago, in “Intervista”, the very same scene had been (re)exhibited, when a real Mascello Mastroiani, along with the whole film stuff, visits Anita´s farm house, and there, in the sitting room, with a fellinian magic power, reproduces the Fontana di Trevi scene, on a white sheet used as screen.

Anita and Mastroiani in Fellini´s masterpiece.

Anita and Mastroiani in Fellini´s masterpiece.

The fact that moviegoers do not recall other Anita Ekberg movies is understandable.

Although she was in 63 movies, very few, besides “La dolce vita”, are worth mentioning, “War and peace” (king Vidor, 1956), where she has a supporting role, is almost an exception.

I myself could only remember her in “Boccacio 70”, a film in four episodes, and in that also episodical bittersweet comedy by Vittorio DeSica, “Seven times woman” (1970), in which, anyway, the repeated woman is not herself, but Shirley MacLaine.

Only in checking over her filmography could I identify some of the her movies I had seen in the past: two comedies by Frank Tashlin, with Jerry Lewis and Dean Martin, “Artists and models (1955) and “Hollywood or bust” (1956), and the film she was making when Fellini found her in Italy: “Sheba and the gladiator” (1959), you know, one of those void Italian epics which were so often produced at that time, leading nowhere…

But, who cares? Anita Ekberg is the eternal diva whom we shall forever worship.

In the fountain, with Anita.

In the fountain, with Anita.

Anita

16 jan

Além de “A doce vida” (Fellini, 1960), que outros filmes de Anita Ekberg (1931-2015) você lembra de ter visto?

Fiz a enquete entre amigos e ninguém lembrava nenhum. Os mais cinéfilos ainda mencionaram o “Entrevista” de Fellini (1987), onde, afinal de contas, ela aparece documentalmente, ou seja, como ela mesma, já idosa e gorda, sem mais nada de sua beleza deslumbrante.

E no, entanto, a atriz de origem sueca é uma das musas mais cultuadas do cinema.

Sim, é que, para ser musa, um único papel pode bastar.

Anita na Fontana di Trevi

Anita na Fontana di Trevi

E o seu foi mesmo o da sensual Sylvia, aquela estrela loura estonteante, de seios grandes e fala rouca, que convida Marcello ao banho na Fontana di Trevi.

Engraçado é que algumas das pessoas com quem conversei sobre Anita Ekberg me disseram não ter visto sequer “A doce vida”, e que, no entanto – não sabiam explicar como – lembravam da famosa cena da fonte romana.

Isso tem explicações. É que o cinema, ou melhor, a cinefilia, não é feita só de filmes inteiros, mas também de imagens isoladas, que às vezes se impõem como intertextos recorrentes. O que chamo de “imagens amadas”…

Querem ver? Recentemente, dois filmes mostraram a cena Fontana de Trevi, aliás, não só mostraram, como a tornaram o pivô de sua temática toda, ao narrarem a aventura romântica de uma senhora idosa que sonha em encontrar o grande amor e com ele viajar para Roma, só para lá recriar a emblemática cena felliniana. Isto, com direito àquele gatinho vira lata e o copo de leite que lhe é servido ao pé da fonte, e tudo mais.

Sempre Anita...

Sempre Anita…

O primeiro, argentino de 2005, é o original, e o segundo, americano de 2014, é o seu remake (aqui comentado por mim), ambos com o mesmo esqueleto narrativo e o mesmo título, embora não exatamente com a mesma qualidade: “Elsa e Fred”..

Aliás, bem antes disso, no já citado “Entrevista”, a mesma cena já fora (re)exibida, quando um Mastroiani verídico, já idoso, visita, junto com toda a equipe de filmagem, a casa de campo de Anita – esta, como dito, já deformada pela idade – e, com o poder felliniano de um mágico, reproduz a imagem da cena Fontana di Trevi num lençol branco, estendido na sala à guisa de tela. E, para a tristeza dos presentes e de nós espectadores, com a mesma magia, a desfaz.

O desconhecimento da filmografia de Anita Ekberg, de alguma maneira, se justifica. Embora tenha rodado ao todo 63 filmes, afora “A doce vida”, ela infelizmente não esteve em produções dignas de nota, e quando esteve, como é o caso de “Guerra e Paz” (King Vidor, 1956), foi em papéis secundários, quando não em pontas.

Anita e Marcello na cena emblemática

Anita e Marcello na cena emblemática

De minha parte, só lembrava dela em “Bocaccio 70” (1962), filme de episódios, e naquela comédia doce amarga, também episódica, de Vittorio De Sica, “Sete vezes mulher” (1970) em que, afinal, a mulher repetida nem é ela, e sim, Shirley McLaine.

Só na checagem de suas atuações é que consegui identificar alguns filmes que vi com ela, dos quais não lembrava, e muito menos de sua participação neles.

São duas comediazinhas dos anos cinquenta, dirigidas por Frank Tashlin, com a dupla Jerry Lewis e Dean Martin: “Artistas e modelos” (“Artists and models”, 1955) e “Ou vai ou racha” (“Hollywood or bust”, 1956). E mais o filme que ela rodava quando foi abduzida por Fellini, “O escudo romano” (1959), um daqueles vazios épicos italianos que então tanto se produziam e que a nada levavam.

Mas, que importa? Anita Ekberg é, sim, a diva eterna que vamos sempre cultuar.

A beleza sueca de Anita Ekberg

A beleza sueca de Anita Ekberg

Lauren Bacall, teu nome é mulher

21 ago

De ascendência judia, a pequena Betty Joan Perske nasceu em Nova Iorque, em 16 de setembro de 1924 – o pai um comerciante próspero e a mãe, secretária. Seu sonho de menina era ser bailarina, mas a vida lhe reservara outro métier. Aquele que nós conhecemos.

Ao terminar a escola secundária a jovem Betty Joan matriculou-se na Academia Americana de Artes Dramáticas e descobriu-se atriz. Mas os caminhos para a fama são tortuosos, mesmo para quem tinha garra, talento e beleza.

Enquanto não apareciam as grandes oportunidades para a ribalta, seguiu a carreira de modelo, e, já com o nome artístico de Lauren Bacall, fez tanto sucesso que uma foto sua foi parar na capa de uma das mais badaladas revistas de moda da época, a “Harper´s Bazaar”.

bacall

A foto chamou a atenção de uma senhora, tão bela e elegante quanto a própria Bacall. Esta senhora, esposa do afamado diretor Howard Hawks, mostrou a foto ao marido, fez a sugestão, e não deu outra: ela foi logo contratada pela Warner Brothers para atuar, ao lado do já famoso Humphrey Bogart, na adaptação do conto de Hemingway “To have and have not”, filme que no Brasil chamou-se “Uma aventura na Martinica” (1944).

A Sra Hawks e Lauren ficaram amigas, tanto que a atriz usou o nome de sua protetora no seu primeiro filme, Slim (é por esse apelido que Bogart a chama, lembram?), e não só isso: dizem que a sua figura pública foi toda moldada em cima do charme e elegância da Sra Hawks. Bem, de todo jeito, o que a Sra Hawks certamente não tinha era a sensualidade daqueles olhos felinos esverdiados e daquela voz rouca e aveludada.

Com Gregory Peck, em "Teu nome é mulher".

Com Gregory Peck, em “Teu nome é mulher”.

Enfim, Hollywood havia descoberto Lauren Bacall, que não parou mais de filmar, pode se dizer até o final do século. Com Bogart, com quem casou em 45 compôs, em pelo menos quatro filmes, uma das duplas mais queridas do cinema… até a morte do ator em 57.

Não tenho espaço para citar todos os filmes da carreira de Lauren Bacall e anexo a esta matéria apenas uma seleção de dez títulos de sua fase clássica. (Veja adiante).

De todo jeito, para não deixar de citar filmes da segunda metade do século XX, relembremos de passagem os seus papéis em: “Assassinato no Expresso Oriente”, “O último pistoleiro”, “O fã – obsessão cega”, “Louca obsessão”, “Pret-à-porter”, “Meus queridos presidentes” e “Dogville”.

Com Humphrey Bogart, em "Prisioneiro do passado"

Com Humphrey Bogart, em “Prisioneiro do passado”

Com filmografia tão vasta, Bacall nunca ganhou um Oscar por seu desempenho em determinado filme. Em 1996 foi indicada como coadjuvante no filme de Barbra Streisand, “O espelho tem duas faces”, mas perdeu. Em 2010, é que foi homenageada pela Academia com um Oscar honorário pelo conjunto de sua carreira.

Atriz talentosa, é difícil escolher o seu melhor desempenho. Fiquemos apenas com o personagem que mais ressaltou seu charme e elegância, possivelmente aquela comédia romântica de Vincente Minnelli onde ela, contracenando com Gregory Peck, faz uma bela estilista, eventualmente mais charmosa que suas freguesas. O filme se chama “Teu nome é mulher” (1957), que, por razões óbvias, julguei um bom título para esta matéria.

Num outro clássico dos anos cinquenta, “Angústia de tua ausência” (1958), infelizmente um filme sem grandes méritos estéticos, o seu personagem é uma dona de casa que vem a falecer e retorna na forma de um anjo da guarda, que passa a proteger o marido e a filha pequena. Agora, na ocasião de sua morte, não duvido nada que algum fã inconformado esteja aspirando a sua benfazeja proteção…

Com Marilyn Monroe e Betty Grable em "Como agarrar um milionário"

Com Marilyn Monroe e Betty Grable em “Como agarrar um milionário”

 

Dez clássicos para lembrar Lauren Bacall (1924-2014):

 

Uma aventura na Martinica (1944)

À beira do abismo (1946)

Prisioneiro do passado (1947)

Paixões em fúria (1948)

Êxito fugaz (1950)

Como agarrar um milionário (1953)

Paixões sem freios (1955)

Palavras ao vento (1956)

Teu nome é mulher (1957)

Angústia de tua ausência (1958)

 

Em "Angústia de tua ausência";  anjo da guarda do lar

Em “Angústia de tua ausência”; anjo da guarda do lar