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“A Malvada” às avessas

29 out

Misturar ficção literária e cinema e se sair bem não é para todo mundo. Quem faz isto é o jovem escritor inglês David Nicholls em seu recente romance “The understudy” (Hodder, 2005), no Brasil traduzido para “O substituto”.

A palavra ´understudy´ designa aquela profissão do mundo do teatro que a gente pode chamar livremente de ´ator de reserva´: você decora toda a fala de um dado personagem de uma peça, ensaia com o mesmo rigor dos atores titulares, porém, nunca vai ao palco… a não ser que o ator titular do seu personagem fique, por alguma razão, impossibilitado de atuar. Se isto nunca ocorrer, você nunca atuará, por mais que domine o seu papel.

understudy-logo

No livro de Nicholls esta é a profissão de Stephen C. McQueen, um quarentão descasado, com todo o perfil de ´loser´, que ainda ama a ex-esposa e que vive fazendo esforços para alimentar o afeto da filha, uma garota de oito anos.

Mas, se o cenário do livro é o teatro, o imaginário, não. O imaginário é definitivamente o cinema, conforme já está ironicamente prometido no nome do protagonista, quase o mesmo do famoso ator hollywoodiano Steve McQueen. Só que, ao contrário do astro americano, Stephen vive, como quebra-galho, fazendo pontas em produções cinematográficas locais, geralmente em papéis obscuros e pouco visíveis, em muito casos, e sintomaticamente, como mortos, vítimas descartáveis, ou equivalentes. A peça todo dia encenada, em que Stephen é reserva, versa sobre a vida do poeta Byron, e, no entanto, os grandes intertextos do livro não são literários, nem teatrais.

capa da edição brasileira de "The Understudy"

capa da edição brasileira de “The Understudy”

O fato é que Stephen é um cinéfilo viciado que, quando não está diante da tela, está pensando cinema o tempo todo. Claro, essa cinefilia obsessiva é partilhada pelo próprio narrador da estória, que, quase sempre, antes de introduzir um novo episódio, gasta tempo imaginando como ele seria se se tratasse de um filme.

Isto para não dizer que os capítulos do livro têm títulos sempre – digamos – “cinematográficos”, nomes de atores/atrizes, fatos do show business, ou títulos de filmes conhecidos. Por exemplo, o capítulo em que se descrevem os dotes físicos da ex-esposa de Stephen é, por causa de uma vaga semelhança, intitulado “Lauren Bacall”. Outro exemplo: um capítulo do livro se chama: “The awful truth”, e aqui confesso que li o livro no original, e fico imaginando as dificuldades do tradutor da edição brasileira, já que este filme teve, no Brasil, um título completamente diferente, e que não se coaduna com o conteúdo do capítulo que encabeça. Sim, “The awful truth” (´a terrível verdade´) se chamou por aqui “Cupido é moleque teimoso”.

Na verdade, o que não dá para esconder é que o livro todo foi concebido para virar cinema, aliás, como a maior parte da literatura ficcional que se escreve hoje em dia mundo afora. Não sei se dará um bom filme, tão bom quanto o é, de fato, o romance, irônico, engraçado, divertido.

A estória é simples. Esse deprimido e atropelado Stephen C. McQueen está sendo o reserva de um famoso ator londrino, Josh Harper, um astro que as revistas especializadas já consideram o décimo segundo homem mais sexy do mundo. Mesmo sem maldade, Stephen vive sonhando com a chance de alguma coisa acontecer ao astro, para que possa substituí-lo no palco e – quem sabe? – a crítica especializada notar sua presença e seu desempenho, e daí, ele deslanchar sua própria carreira. Mas, o que pode acontecer a Josh? Um piano cair na sua cabeça? Stephen chega a ter um sonho politicamente incorreto com o tal providencial piano, mas foi só um sonho…

David Nicholls, autor de "The Understudy"

David Nicholls, autor de “The Understudy”

Enquanto isso, trabalhando de garçon numa festa na mansão de Josh, Stephen conhece Nora, a esposa do anfitrião, e uma improvável amizade começa a brotar entre os dois. Não pretendo contar o resto da estória, mas não resisto em dizer que o andamento da narrativa, e mais ainda o desenlace, sugerem um certo emprego dúbio para a palavra titular ´understudy´, ao mudar o contexto profissional do teatro para o universo amoroso.

Fazia tempo que não me divertia tanto lendo um livro; bem entendido, não que ele tenha me provocado risadas, mas, o tempo inteiro, do primeiro ao último parágrafo, aquele estado de espírito de leveza que nos acomete ao nos darmos conta de estarmos lendo um texto extremamente inteligente e inspirado.

Voltando à presença do cinema no livro, quer me parecer que o intertexto mais forte é justamente o não nomeado e que funciona como um escondido mas ubíquo contraponto à narrativa. Refiro-me à estória, bem conhecida dos espectadores de cinema, de uma certa “understudy” que cometeu todas as incorreções políticas – todas as que o nosso Stephen não ousou – para tomar o lugar da atriz titular… e tomou.  Sim, de alguma maneira sutil, o livro de Nicholls é “A malvada” às avessas.

E lembro ao leitor que o filme de Joseph Mankiewicz, 1950, foi há pouco comentado neste blog.

Risos de terceira idade

2 maio

Um asilo para idosos seria, em princípio, um lugar triste. E um filme sobre o assunto, idem. Em “Cocoon” (1985), por exemplo, fez-se necessária uma interferência interestelar para que os velhinhos se animassem, e, por tabela, os espectadores.

Pois bem, em “O quarteto” (“Quartet”, 2012), recentemente exibido entre nós, não há propriamente clima ´para baixo´ e a razão é simples: todo mundo nesse asilo especialíssimo é ligado a essa coisa maravilhosa que se chama música, e só está lá por isso. Na verdade, o lugar funciona como um Conservatório bastante privilegiado, já que cada participante traz uma história musical por trás de si. E, além do mais, a direção vive a programar eventos que neles reacendam o talento porventura adormecido. O que, no momento, está para ocorrer é a celebração anual do aniversário de Verdi.

Quartet 1

Três dos hóspedes, dois senhores e uma dama, já se movimentam para formar um conjunto cantante, quando chega ao local essa nova hóspede, uma famosíssima Prima Donna do canto lírico, hoje devidamente aposentada – ideal para ser o quarto elemento de um quarteto a executar o “Rigoleto” de Verdi. Ocorre que um dos dois senhores havia sido, num passado remoto, casado com ela e a separação, ocorrida muito tempo atrás, não fora nada tranqüila, deixando sequelas que ainda magoam.

Não conto o resto da história, mas devo dizer apenas que o enredo é simples, lembrando – e eu diria mesmo, seguindo – aquelas velhas comédias do cinema clássico em que divorciados se reencontravam e, no casual reencontro, a chama do amor, por muito tempo apagada, miraculosamente reacendia, no modelo, se vocês quiserem, de “Cupido é moleque teimoso” (Leo McCarey, 1937), “Jejum de amor” (1940), e “Núpcias de escândalo” (George Cukor, 1940). Sim, tais filmes seguiam um esquema narrativo análogo em que o reencontro trazia à baila, em pontos estratégicos e espaçados do roteiro, os maus e os bons momentos da relação antiga, até o casal dar-se conta de que – para citar uma canção brasileira – os momentos felizes tinham deixado raízes…

Pauline Collins e Maggie Smith em cena do filme

Pauline Collins e Maggie Smith em cena do filme

Um detalhe contextual importante em “O quarteto” é que quase todo o enorme elenco é formado de pessoas que, na vida real, foram profissionais da área musical, maestros, compositores, instrumentistas, cantores, etc… e, nos créditos finais isto é indicado em detalhes. O que concede ao filme um certo charme documental.

Por ironia, a exceção fica com os que, no final do filme – e depois de muitos percalços, drásticos, patéticos e engraçados – vêm a formar o ansiado quarteto do título, que são Maggie Smith, Tom Courtenay, Billy Connoly e Pauline Collins.

Esses quatro dão desempenhos excelentes e o filme de alguma maneira é, centralmente, sobre seus personagens e o seu polêmico e planejado “quarteto”, que só abre a boca para executar Verdi no imediato pós-tela. No papel da orgulhosa e intocável Prima Donna Jean Horton, Maggie Smith está ótima, assim como Tom Courtenay, no papel de seu rancoroso ex-esposo, Reggie. (Lembram dele, quase meio século atrás, em “Dr Jivago”, como o irmão mais novo de Lara, entregando folhetos revolucionários nas ruas de São Pittsburgo?).

Billy Connoly é hilário como Wilf Bond, o velhinho tarado que só pensa naquilo, embora o seu “aquilo” hoje só lhe sirva para fazer pipi, e, aliás, com uma freqüência indesejada, porém, admitamos, – no que se refere a manter a linha cômica do filme estirada – quem rouba a cena é a engraçadíssima Pauline Collins, no papel de Cissy, essa adorável velhinha com um começo de esclerose, que esquece quase tudo, mas lembra muito bem quem foi que disse aquela frase fundamental, para a vida e para o filme: “Old age is not for sissies” (´a velhice não foi feita para molengas´). Com certeza, o leitor lembra dela num papel e filme chave dos anos oitenta: “Shirley Valentine” (1989), estória daquela coroa que enche o saco da fleumática Inglaterra e vai-se embora para a Grécia, a fim de aventuras mais cálidas.

Pauline Collins, Tom Courtenay, Billy Connoly e Maggie Smith: o quarteto.

Pauline Collins, Tom Courtenay, Billy Connoly e Maggie Smith: o quarteto.

Enfim, se o “deus ex machina” de “Cocoon” era extraterrestre e vinha do espaço sideral, o de “O quarteto” é humano e está entre nós – esse bem universal que é a música. Sem dúvida, é ele que permite que o filme possa dispensar os momentos de baixo astral atinentes ao tema, e possa ser, ele mesmo, fluente como uma composição, e, como se não bastasse, divertido, para cima, engraçadíssimo mesmo, acho que para espectadores de todas as idades.

Uma surpresinha a mais está nos créditos – a autoria da direção é de ninguém menos que Dustin Hoffman, sim, ele mesmo, assumindo, pela primeira vez, a mise-en-scène, nos seus setenta e quatro anos de idade. E se dando bem, muito bem. Uma pena que, em João Pessoa, o filme tenha saído de cartaz tão rápido. Quem não viu que espere pelo DVD. Vale a pena.

Em tempo: quem disse a frase “a velhice não foi feita para molengas” foi uma que entendia do assunto: Bette Davis.

Marinheiro de primeira viagem: Dustin Hoffman dirigindo "O Quarteto"

Marinheiro de primeira viagem: Dustin Hoffman dirigindo “O Quarteto”