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Oscar 2013

21 fev

Todas as vezes que se fala em Oscar me lembro dos grandes injustiçados, sem coincidência, filmes que amo.

Já escrevi sobre o assunto várias vezes, mas aqui recordo os casos mais escandalosos, os de 1952 e 1977. Em 52, “Depois do vendaval” (John Ford), “Matar ou morrer” (Fred Zinnemann) e “Moulin Rouge” (John Huston) perderam para “O maior espetáculo da terra” de Cecil B. DeMille. Em 77, “Rocky o lutador” (George Avildsen) ganhou para “Todos os homens do presidente” (Alan Pakula) e “Taxi driver” (Martin Scorsese).

Essas injustiças têm sido menos frequentes, ou mais atenuadas, nos últimos tempos, ainda bem.

Matar ou morrer, vencido por O maior espetáculo da terra

Matar ou morrer, vencido por O maior espetáculo da terra

Nos últimos anos, uma curiosidade que noto – e tenho escrito sobre – é que os grandes concorrentes nas categorias mais importantes (melhor filme, melhor direção, melhor interpretação) têm, por coincidência ou não, se perfilado dentro de uma certa linha temática. Senão vejamos.

Em 2011 a linha temática parece ter sido a própria linguagem, abstratamente concebida. Filmes como “O discurso do rei”, “Rede social” e “Cisne negro” tinham em comum a investigação do funcionamento da linguagem, respectivamente, a oral, a internética e a teatral. Em si, são filmes diferentes, porém, quando você se detém nas suas construções, é esse lance semiótico que os une de uma forma indiscutível.

2012 foi dedicado à cinefilia, como fica claro com “O artista”, “A invenção de Hugo Cabret” e, ainda, “Uma semana com Marilyn”.

E para 2013, existe uma linha temática? Parece-me que sim, e ela está nos principais concorrentes, a saber, “Django livre” (Quentin Taratino), “Lincoln” (Steven Spielberg), “Argo” (Ben Affleck) e “A hora mais escura” (Kathryn Bigelow).

Essa linha temática são os próprios Estados Unidos da América, evidentemente, em fases diversas de sua história: durante a escravidão em “Django”, no período da abolição em “Lincoln”, nos anos 1970 em “Argo”, e, por fim, nos tempos atuais em “A hora mais escura”. Acho que dentro dessa mesma linha temática também pode se incluir esse delirante “Indomável sonhadora” (Benh Zeitlin) que, de alguma maneira, ficcionaliza os efeitos, em 2004, do furacão Katrina na região sul dos Estados Unidos.

Uma cena em Indomável Sonhadora

Uma cena em Indomável Sonhadora

Ninguém tem bola de cristal, porém, não creio que constituirá admiração para espectador algum se os principais prêmios forem entregues aos autores desses quatro ou cinco filmes.

Nesta mesma página, escrevi sobre “Lincoln” e “Django livre”, mas, de minha parte, dos já citados, o que mais gostei foi esse “Argo”, um filme inegavelmente bem construído sobre aquele caso verídico dos seis cidadãos americanos que, em 1979, depois da queda do Xá Reza Pahlavi, ficaram presos na embaixada canadense no Iran, e só conseguiram sair através de uma estratégia ardilosa do governo americano que envolvia cinema, no caso, a simulação da rodagem de uma película de ficção científica no país do Aiatolá Khomeini. A recriação dos fatos pode não ser autenticamente histórica, porém, é extremamente funcional do ponto de vista cinematográfico. Patriotadas à parte, um belo exercício de suspense.

Ben Affleck atuando e dirigindo Argo

Ben Affleck atuando e dirigindo Argo

Fora dessa linha temática etnocêntrica, estão, entre os nove indicados a melhor película do ano, – é verdade – filmes que emocionam e eventualmente convencem público e crítica.

 “A aventuras de Pi” mistura metafísica e diversão infanto-juvenil de um modo que só um mestre como Ang Lee saberia fazer. Dirigido pelo mesmo caprichoso Tom Hooper de “O discurso do rei”, “Os miseráveis” reconta, agora com música, uma estória que, de tão lida, ouvida e vista, já faz parte do imaginário ocidental, a do ex-presidiário Jean Valjean e seu eterno perseguidor, o maligno inspetor Javert. Sobre um caso de bipolaridade, “O lado bom da vida” (David O Russell) se assume como uma comédia romântica e, infelizmente, transfere a chatice do protagonista para o filme.

Beleza plástica em As aventuras de Pi

Beleza plástica em As aventuras de Pi

Resta citar o – no meu entender – mais comovente de todos os nove indicados à categoria de melhor filme do ano, esse “Amor” (Michael Haneke), que conta uma estória de terceira idade, confesso, particularmente dolorosa para os de minha geração, ou mais velhos. Afinal de contas, aos oitenta anos, Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva são ícones cinematográficos que, “se despedindo”, despedem uma época de ouro do cinema mundial. Como diria o poeta Drummond, ele também um fâ de cinema, farewell.

Emmanuelle Riva e as mãos de Jean-Louis Trintignant: "Amor"

Emmanuelle Riva e as mãos de Jean-Louis Trintignant: “Amor”

Django livre

8 fev

Com sua fama de ´cineasta cult´, Quentin Tarantino é o dono da fórmula que o tornou famoso desde “Pulp Fiction”, a saber, diálogos inteligentes e violência gráfica. Com um particular: nem sempre a inteligência dos diálogos teria a ver com a situação dramática que gera o grafismo da violência.

Será que a fórmula persiste neste “Django livre” (“Django unchained”, 2012), concorrente ao Oscar e em exibição local e mundial?

Dois anos antes da guerra de secessão, um escravo negro, de apelido Django (Jamie Foxx), é feito livre por um Dr Schutz, dentista disfarçado (Christoph Waltz), na verdade, um profissional do tiro cuja atividade consiste em perseguir e exterminar malfeitores cujas cabeças estão a preço, e, naturalmente, receber a recompensa em dinheiro vivo. Os dois, Schutz e Django, se associam, fazendo parte da sociedade a posterior operação de resgatar a amada deste segundo, hoje escrava num feudo chamado Candiland.

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Ao morrer o pistoleiro no confronto com o todo poderoso senhor de Candiland (Leonardo DiCaprio), Django, sozinho, assume o comando da operação para o resgate da amada (Kerry Washington), o que vem a ser feito com um sucesso ´estrondoso´, inclusive no sentido auditivo da palavra. E o filme se encerra com um apaixonado beijo no melhor estilo happy end de antigamente.

Criada no seio de família alemã, embora escrava, a amada de Django recebera educação refinada junto com o nome de Broomhilda, e o nome não é nada gratuito: era o nome de heroína de uma antiga lenda germânica, que é contada por Schutz a Django e a nós. Tal fato justificaria o modelo narrativo dado ao filme que é, do mesmo modo, o de uma lenda, com todos os ingredientes dessas fantásticas estórias infantis, inclusive a estrutura tripartite – primeiro, o sofrimento do casal heróico, separado e subjugado a poderosos; depois a longa e difícil superação do jugo, e por fim, o glorioso reencontro.

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Notem, por exemplo, que o papel do dentista-pistoleiro Schutz, por sinal ele também um alemão perdido no Sul dos Estados Unidos, é o mesmo do ´facilitador´ das lendas antigas (o mágico ou a fada) que vai fornecer ao herói os meios (intelectuais e/ou físicos) de reverter a sua situação de jugo e chegar à amada e ao final feliz.

Evidentemente, Tarantino não está preocupado com veracidade histórica – o filme é uma fantasia feérica que se assume como tal e os dados da história americana só são aproveitados em benefício da lenda. Vejam, por exemplo, que a data da narrativa, indicada na abertura do filme, está em ´poucos anos antes da guerra de secessão´  – obviamente para garantir o happy end no pós-tela: depois de Broomhilda salva, virá necessariamente o que? A abolição da escravatura, em 1865!

A rigor, portanto, não se trata de um western, já que historicamente este gênero cinematográfico se situa nos anos 1860/1890, e, além do mais, o cenário é todo ele o Sul americano, ao ponto de, indagado sobre o gênero, o próprio Tarantino propor o termo “southern”, ao invés de “western”.

Como sugere o nome do protagonista, houve, de todo jeito, uma homenagem ao Western Spaghetti, que Tarantino deve ter curtido em sua juventude, e, de fato, o filme se abre com a mesma bela música de Luis Bakalov, que foi trilha sonora do filme “Django” (1966) do italiano Sergio Corbucci, com Franco Nero no papel-título.

django unchained

Django livre” é um filme sobre vingança, como muitos westerns o foram, porém, mais interessante é lê-lo no contexto da recente filmografia de Tarantino onde a vingança tem sido mais histórica, e menos individual: em “Bastardos inglórios” eram os judeus que, de forma fantasiosa e espetacular, se vingavam dos nazistas; agora são os escravos negros que, de forma igualmente fantasiosa e espetacular, se vingam dos seus patrões brancos – e, sem coincidência, em ambos os casos, com o mesmo elemento: fogo.

Dá até para esperar o próximo “episódio” desse delírio tarantiniano e tentar adivinhar quem serão os implacáveis vingadores do futuro: talvez as mulheres, ateando fogo aos machistas? Ou os homossexuais, queimando os defensores da homofobia? Aguardemos.

  Não sei o que os fãs de Tarantino vão achar deste seu “Django livre”, porém, quer me parecer que, com o passar do tempo e do uso, a fórmula a que me referi na abertura desta matéria (diálogos versus violência) sofre sutis transformações, comprometedoras ou não, do estilo Tarantino. Parece-me que, com a repetição, a deliciosa gratuidade do diálogo diminui e este, como num filme convencional, tende a ficar mais preso ao drama narrado, ao mesmo tempo em que o grafismo da violência se apresenta menos realista e mais estilizado, em filmes mais consumíveis para um público que passa, assim, a transcender o círculo dos fãs.

Com “Django livre”, e já com “Bastardos inglórios”, estaríamos diante de um Tarantino menos livre (do cinema convencional)? Ou mais livre (de sua própria fórmula)?

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