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LANA TURNER: esquecer nunca

26 dez

Reprises fílmicas não se fazem mais. Nos cinemas, não, mas nos canais pagos de televisão, sim. No Canal CURTA, por exemplo, já tive o prazer de ver duas ou três vezes o documentário sobre a vida da grande atriz do período clássico do cinema, Lana Turner (1921-1995).

E cada vez gosto mais. A duração é só sessenta minutos e, portanto, não se perdeu tempo com muitos detalhes irrisórios. Assim, a infância e adolescência são abreviadas para que se passe logo ao que interessa: a carreira e a vida dessa que foi uma das mais brilhantes estrelas da constelação clássica.

Nascida na pequena Wallace, estado de Idaho em 1921, logo a família pobre se muda para São Francisco em busca de trabalho, e em seguida, para Los Angeles. Um dia, tomando um refrigerante numa lanchonete, um figurão de Hollywood se aproxima dela e, encantado com seu charme de adolescente, lhe pergunta se ela não gostaria de trabalhar em cinema. “Tenho que perguntar a mamãe” – é a resposta sincera dessa mocinha interiorana e ingênua.

Bem, mamãe consente e o resto da estória a gente mais ou menos conhece. Com 16 anos de idade, roda o seu primeiro filme, em 1937, “Esquecer, nunca”, um drama leve dirigido pelo também produtor Melvyn LeRoy, para quem trabalha em outros filmes mais ou menos obscuros, até ser comprada pela MGM. Aí a coisa pega. Depois de seu ousado papel da amante criminosa em “O destino bate a sua porta” (“The postman always rings twice”, 1946), sua imagem na tela passa a ser familiar para o mundo inteiro.

Entre filmes de aventura (“Os três mosqueteiros, 1948) e melodramas (“É proibido amar”, 1951), vai moldando seu perfil de ´golden blonde´ de acordo com os preceitos da MGM, mas, chamará  mesmo a atenção da crítica ao fazer o dramático papel de uma atriz hollywoodiana em “Assim estava escrito” (“The bad and the beautiful”, 1952), grande filme do grande Vincente Minnelli.

No papel da imperiosa Constance McKenzy em “A caldeira do diabo” (“Peyton Place”, 1957) desperta a atenção da academia e recebe uma indicação ao Oscar. Outro desempenho que seus fãs lembram com carinho é o da mulher batalhadora de “Imitação da vida” (“Imitation of life”, 1959). Já madura, seu último grande desempenho foi como a mãe torturada pelo destino, no melodrama “Madame X”. Já a sua derradeira aparição nas telas, “A poção mágica” não significa nada, salvo decadência.

Mas claro, o documentário abrange a vida privada de Lana Turner, até porque, nela, carreira profissional e coisas pessoais estão inevitavelmente interligadas. Nisso ajuda o longo e sentido depoimento de sua única filha, hoje madura, Cheryl Crane, que relata, sem reservas mas também sem alarde, as questões mais intramuros.

E aí passamos a conhecer as relações amorosas de Lana.

Ao longo da vida a atriz famosa teve vários casamentos, quase todos desastrosos, e, no entanto, dentre os homens com que se envolveu, não houve ninguém mais amado que o ator Tyrone Power, com quem nunca casou. Ocorre que, quando estava o casal de namorados no auge da paixão, ele viaja para a Europa para filmar “O sol também se levanta” e, por lá mesmo, contrai matrimônio com outra pessoa. Depois ela viria a saber que tudo não passara de uma trama da MGM com a Fox (companhia de Tyrone Power), companhias rivais que não queriam que seus respectivos empregados mais famosos contraíssem matrimônio entre si, e assim, assumissem um poder de barganha perigoso para ambas as companhias. O fato é que, segundo sua filha, Lana nunca esqueceu Tyrone.

Um dos casamentos turbulentos da atriz foi com Lex Baxter, de quem Lana, quando interrogada, dizia que “gosto de ficar olhando para ele”. Mas certamente não estava olhando no dia em que o ex-Tarzan assediou sexualmente sua filha de 14 anos. E o resultado foi, mais um escândalo e mais um divórcio.

Ainda mais grave foi sua relação com o mafioso Johnny Stampanato, relação cheia de violência que terminou em crime. Vendo um dia a mãe sendo espancada pelo amante dentro de casa, a filha Cheryl nos seus 16 anos – sim, a mesma que depõe no documentário – agarra a faca de cozinha mais próxima e o perfura no abdômen: a morte é instantânea. Caso escandaloso, ocorrido em 1958, que quase encerra a carreira da atriz, só restabelecida pela sua aplaudida participação em “Imitação da vida”.

Enfim, como esta matéria saudosista é também uma homenagem, fecho-a com o título, já mencionado, do primeiro filme de Lana Turner: ESQUECER NUNCA.

Não é o que diríamos dela?

Com Kirk Douglas, em ASSIM ESTAVA ESCRITO

INDIANARA

10 dez

Nenhum país do mundo mata mais LGBTs que o Brasil. Segundo as estatísticas, só no ano de 2018, foram 320 (trezentos e vinte) assassinatos, quase um por dia. Situação vergonhosa que deve piorar, se considerarmos a linha visivelmente homofóbica e armamentista do governo em vigência.

Daí a importância de um filme como Indianara (2019), exibido (e premiado) entre nós na décima quarta versão do Fest-Aruanda, festival anual de cinema paraibano.  Mas não só daí.

Bem roteirizado, bem montado e bem dirigido, o documentário da dupla Marcelo Barbosa e Aude Chevalier-Beaumel acompanha o dia a dia dessa líder transgênero Indianara Siqueira que, com heroísmo admirável, mantém, no Rio de Janeiro, uma espécie de ONG para auxiliar toda uma população LGBT a sobreviver ao meio do preconceito e da violência.

A chamada “Casa Nem” acolhe e abriga prostitutas, gays, lésbicas, trans e bissexuais, gente sem recursos para se manter por conta própria ou, se for o caso, para progredir e profissionalizar-se. Muitos deles foram expulsos de seus lares – ou deles fugiram por não aguentar maus tratos – e, não fosse Indianara e seu projeto filantrópico – estariam nas ruas, em condição de mendicância.

Natural de Paranaguá, Paraná, a jovem Indianara saiu de casa aos dezoito anos de idade para fazer a vida e a vida não foi fácil. Sem moralismos, abraçou a profissão de prostituta, que a levou a Santos e de lá ao Rio.

Mas, atenção, o filme não é – nem pretende ser – uma biografia. Mais modesto, ele apenas registra cerca de dois anos (de 2016 a 2018) na vida de Indianara, no caso, misturando momentos privados do seu cotidiano com o esposo Maurício e cenas públicas quando a ativista trans, nas ruas e às vezes de peito aberto (literalmente) enfrenta multidões, polícia e autoridades, com seu inflamado discurso libertário e demolidor de hipocrisias. Tanto é assim que nem direita, nem esquerda, escapam de seus ataques. Seu desentendimento com o PSOL, por exemplo, vem à tona com o mesmo furor com que denuncia o falso moralismo da direita.

Esses dois anos de filmagens coincidiram com o governo Temer e, inevitavelmente, estão registrados os protestos de rua que marcaram essa fase da história brasileira. Como grita Indianara em ocasião de desabafo: “não chamem Temer de filho da puta. Putas somos nós, e ele não é nosso filho. Ele é filho de Cunha”. No meio desses protestos, dois momentos são particularmente significativos, pela sua desoladora disforia: a ocasião do assassinato de Marielle, e a vitória nas urnas de Bolsonaro – duas “mortes” recebidas pelo grupo LGBT com profunda tristeza.

E por falar em mortes, a primeira cena do filme já se dá no cemitério, onde Indianara e o pessoal da “Casa Nem” sepulta o corpo de uma amiga LGBT: em dado momento, com um travelling por sobre os túmulos, ouve-se a voz da protagonista, nos lembrando que os vermes não distinguirão entre trans, bis, homos e heteros…

O filme não é, porém, um amontoado de desolações. Ele tem seus momentos de alegria e descontração – por exemplo, nas brincadeiras com os amigos, nas farras, e nos instantes mais privados em que Indianara troca miudezas com o esposo, os dois deitados na sua cama de casal. Dois auges dessa euforia são a comemoração do aniversário da protagonista em via pública e o ritual do seu casamento com Maurício.

Em que pese a cena do anúncio da vitória de um presidente homofóbico, vista na televisão da “Casa Nem” pelos seus residentes em pranto, em que pese esta cena – uma das mais emblemáticas do filme, por apontar para um futuro incerto e temeroso, – acho que Indianara mesmo assim, nos deixa com alguma esperança. Se não for outra, a que brota da força, determinação, carisma, charme e beleza de sua protagonista.

Com sua aisance no andar, seus olhos amendoados, seus lábios grossos e seus seios generosos, a mim, ela (presente no Fest-Aruanda) me soou como uma espécie de Anita Ekberg brasileira. Torçamos para que um dia ela possa banhar-se livremente na sua Fontana di Trevi sem ser molestada. O seu Mastroianni ela já tem.

Indianara concorreu à “Palma queer” no Festival de Cannes deste ano, onde, segundo consta, foi ovacionado em três sessões especiais. Esperemos que o sucesso em festivais de cinema conduza o filme a um público maior, se possível, aos circuitos comerciais. Os parentes e amigos dos 320 LGBTs assassinados o ano passado, com certeza, agradeceriam.

O HOMEM DE FERRO

18 set

Não curto esporte, mas gostei de ver o documentário “1932 – a medalha esquecida” (Ernesto Rodrigues, 2017), sintomaticamente (re)apresentado no Canal Brasil, no dia 7 de setembro deste ano.

Entre documental e ficcional, o filme reconstitui a história da participação brasileira nas Olimpíadas de Los Angeles de 1932, com tudo que teve ela de patético e heroico.

Estávamos então no Brasil de Vargas, um país falido, com a queda da bolsa de Nova Iorque, queda que trouxe a desvalorização do nosso principal produto de exportação – o café, e, por tabela, a revolução constitucionalista de São Paulo.

Para Los Angeles segue a comitiva brasileira, no navio cargueiro Itaquicê, com falsa fachada de navio de guerra, escondendo, no subsolo, nada menos que 55 mil sacas de café e muita cachaça.

A falsa fachada bélica era para ganhar isenção da obrigatória taxa de travessia do Canal de Panamá, porém, a polícia local descobre a tramoia e a taxa tem que ser paga de qualquer jeito. As sacas de café eram para ser vendidas no percurso, para pagar a taxa de desembarque no Porto de Los Angeles, porém, que país da igualmente pobre América Central teria grana pra bancar tanto café? E em L. A. o nosso falso navio de guerra fica detido sem poder fazer o devido atracamento.

A corrupção brasileira vem de longe, diz a voz narrativa do filme, e para provar dá mais exemplos: a comitiva japonesa levou para L. A. 200 atletas e apenas dois técnicos. Já a comitiva brasileira foi com 80 atletas e cerca de 120 acompanhantes que pouco ou nada tinham a ver com esporte. Como a narração faz questão de mencionar, a cantora Carmem Miranda (ainda no Rio e ainda sem fama internacional) perde um namorado, pois o rapaz embarca na turma do oba oba para L. A.

O Itaquicê não atraca no Porto de Los Angeles, mas isto não impede que, lá onde estava, se transforme numa espécie de paraíso etílico-erótico, com farras monumentais que entraram para o anedotário da Califórnia. Em plena lei seca, os americanos não podiam tomar whisky em solo pátrio, mas, se entupiam de cachaça nas dependências do navio brasileiro, e isto, ao som do samba mais animado, executado por uma orquestra que fazia parte da tripulação.

Uma figura, no entanto, destoou dessa zorra toda, e nela o filme se centra: o atleta-marinheiro Adalberto Cardoso, que deixou sua marca na corrida de dez mil metros – não ganhando, e sim, perdendo, mas perdendo de forma heroica.

Ocorre que, junto com parte dos atletas, Adalberto fora instalado em São Francisco e, no dia em que devia competir, foi obrigado a fazer a difícil viagem num carro velho de São Francisco a L. A., uma viagem cheia de atropelos (carro quebrado no meio da estrada, fome, cansaço). De modo que, esgotado e mal nutrido, vestindo uma roupa emprestada de última hora (pois a pressa o fizera esquecer a farda no automóvel) enfrenta o desafio e vai sofrer o que poderia perfeitamente chamar-se de “o calvário na pista”.

Na corrida de dez mil metros, fragilizado e ofegante, fica atrás desde o início, porém, em sua posição de último lugar, corre – ou melhor dizendo, se arrasta – até o final, mesmo depois de o anúncio do nome vitorioso já haver sido devidamente divulgado pelos amplificadores. No seu penoso e demorado arrastado, sofre, como Cristo, três quedas e, diferentemente de Cristo, quanto mais se arrasta e mais cai, mais aplausos recebe das comovidas plateias americanas, boquiabertas diante de tão grande sacrifício inútil. No diante seguinte, os jornais de L. A. mal citam o Brasil: em seu lugar só dá “The iron man”, “o homem de ferro”, epíteto que honrosamente lhe concede a imprensa americana.

Em “Retratos da vida”, o cineasta francês Claude Lelouch conta uma história comovente que se inicia com uma derrota – a bailarina russa que não consegue o primeiro lugar no concurso do balé Bolshoi.

“Derrota” também é o tema no filme de Rodrigues, mas nele, a palavra é – em vário sentidos – mais grave.

 

Em tempo: esta matéria é dedicada ao jornalista e pesquisador Edônio Alves.

Estou me guardando para quando o carnaval chegar

7 ago

Na infância, o cineasta recifense Marcelo Gomes costumava visitar essa pequena cidade do agreste pernambucano, Toritama. Originário da vizinha Caruaru, seu pai o levava a passeio pelas ruas e redondezas dessa cidadezinha idílica cujo nome indígena significa “terra da felicidade”.

Quatro décadas depois, Gomes resolve retornar a Toritama, hoje conhecida como “a capital do jeans”, produtora de 20% das roupas deste tecido fabricadas em todo o país. O que aconteceu à idílica Toritama do passado, agora um exemplo de capitalismo tupiniquim desenfreado? É o que nos mostra o documentário de Gomes “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” que, no título, já é intrigante.

Bem, o mínimo o que se pode dizer de Toritama é que é um caso sui generis, no Brasil e talvez no mundo. Lá todo mundo trabalha na mesma coisa – a confecção de roupas jeans – e o faz em árduo tempo integral, cada um ganhando por produção. A maioria das casas virou “facções”, como são chamadas essas oficinas domésticas, com suas máquinas de costura e demais apetrechos mecânicos.

Uma calça jeans está longe de ser uma coisa fácil de se fazer. A confecção de uma única peça envolve cerca de trinta pessoas. Quando se considera que a cidade fabrica cerca de 20 milhões de jeans por ano, dá para se ter uma ideia do que é a vida em Toritama. Segundo seus habitantes, 14 horas é a média do trabalho diário de cada um, e cada um é pago pela sua especialidade – cortar o tecido, ou costurar, ou fazer abanhados, ou pregar zíperes, seja o que for… Como confessa uma residente, fora disso só há tempo pra comer e dormir, e mais nada.

Naturalmente, as atividades tradicionais da região ficaram para trás. Não há mais agricultura, nem pecuária, e a secura do agreste ficou mais grave e mais feia.

Com sua equipe, Gomes entrevista os moradores, mas não faz só isso. Como nos documentários de Eduardo Coutinho, o realizador interage com os entrevistados, não apenas oralmente, mas também no fazer cinematográfico. Haja vista aquela cena em que se mostram pedaços de tecido passando na máquina de costura, um após o outro, a mão do costureiro repetindo o gesto infinitamente, e isto ao som do barulho ensurdecedor da máquina. Primeiramente se mostra o gesto repetido até saturar a paciência do espectador; depois se tira o som da máquina; e por fim se põe música no lugar do som. E tudo isso orientado pela voz over do cineasta. E, mais que isso, mais tarde, o cineasta vai fazer um pacto com os residentes do lugar: fornecerá um transporte que os leve à desejada praia, no carnaval, contanto que eles se filmem a si mesmos, durante essas férias carnavalescas. De forma que as cenas finais são de autoria dos próprios toritamenses.

No início, o filme parece otimista (uma cidade do interior nordestino que soube se virar economicamente), porém, logo vai ficando triste, o que atinge um ápice constrangedor na parte final, quando se mostra a ansiedade desesperada da população local para fugir da cidade para o carnaval na praia, vendendo tudo – geladeiras, celulares, micro-ondas, etc – pra não ficar na, então, desolada Toritama. Nesse momento, o espectador dá-se conta do quanto o “progresso” da cidade é relativo e mesmo precário: se não fosse, os moradores do lugar não precisariam vender os seus eletrodomésticos para fazer uma viagem à praia mais próxima, e isso, uma vez no ano. O fotograma que fecha o filme diz tudo: o grupo de mascarados fantasmagóricos sugere o inferno que é ser toritamense.

Os comentadores do filme enfatizam a questão do capitalismo, mas, de minha parte, achei que o tema é mais universal, e mesmo bíblico, ocorrendo-me a etimologia da palavra “trabalho”, que, como se sabe, vem de “tripaliu”, um terrível instrumento de tortura antigo, formado por três paus, um dos quais era cruelmente introduzido no ânus dos torturados. Com efeito, os toritamenses de Gomes é o que me pareceram: escravos torturados pelo trabalho, que não leva a nada, salvo – viciosamente – ao trabalho.

Enfim, saí de “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” entristecido, mas essa tristeza não compromete o filme: ao contrário, é um mérito seu.

E fecho minha leitura com um detalhe nostálgico. Dentre os muitos casos dos produtores de jeans mostrados no filme, um deles é o daquela senhora humilde que transformou o quintal de sua modesta casinha numa “facção”, dando fim ao chiqueiro ali existente. Ficou só uma galinha de estimação (a quem a câmera de Gomes dá um close destacado), batizada de Sara Jane. Pois, desculpem a minha cabeça viciada de cinema, mas fiquei pensando: quem sabe se, nos tempos pré-Jeans, Toritama não tinha um cinema? Quem sabe se, nesse cinema, a idosa dona do chiqueiro, quando jovem, não teria assistido ao filme “Imitação da vida”, onde, vocês lembram muito bem, uma personagem básica (a mocinha negra que queria se passar por branca e, nesse querer, matava a mãe) se chamava justamente Sara Jane…? Por favor, me permitam esse delírio de cinéfilo viciado, que, afinal, nos faz remontar à Toritama lírica da infância de Marcel Gomes, ou mais provavelmente, um pouco antes dela…

O cineasta pernambucano Marcelo Gomes

JACKSON E GLENN

30 jul

Nunca fiz isso, pois não sou da área, mas se um dia ousasse elencar minhas preferências musicais, a lista iria ter brasileiros e americanos, sempre intercalados, um ao lado do outro, sempre assim, e isto seguindo a cronologia do século XX inteiro. Mesmo que um nada tivesse a ver com o outro – como aparentemente não têm. A única justificava para os pares seria que me encantaram mais ou menos na mesma época da minha vida, e, inevitavelmente ficaram misturados no meu espírito.

Se for para dar exemplos, eis um fragmento dessa lista imaginária: Noel Rosa, Cole Porter, Luiz Gonzaga, The Platters, Lupicínio Rodrigues, Ella Fitzgerald, Jackson no Pandeiro, Glenn Miller… e por aí iria…

Jackson no Pandeiro e Glenn Miller? Pois qual não foi a minha surpresa ao constatar que o nosso ritmista de Alagoa Grande era um ouvinte admirador dos arranjos do maestro e compositor americano. O meu “par” estava longe de ser gratuito e fiquei sabendo desse dado – e vibrei com ele – ao assistir ao belo documentário “Jackson – na batida do pandeiro” (2019), de Marcus Vilar e Cacá Teixeira. Dado enfatizado pelo maestro Carlos Anísio no debate sobre o filme.

Tudo bem, as relações culturais e musicais entre Brasil e Estados Unidos estariam, mais tarde, no irônico “Chiclete com banana” de Jackson, mas nada como ter em mãos o dado biográfico de um caso mais remoto e bem específico: Jackson vs Glenn.

Saí do cinema catando as semelhanças entre os dois itens do meu par e não demorei a encontrar. O “Moonlight Serenade” de Miller podia ser lento demais para ter a ver com o nosso ritmista maior, mas em compensação o swing desbragado de composições como “Pensylvania 6-5000”, “Chatanooga choo choo”, “Tuxedo Junction” e outras mais, iniludivelmente, amarrava esse “par” da minha lista imaginária. E, convenhamos, à parte o meu interesse pessoal pelo caso, ele só faz apontar a enorme envergadura (maior do que se pensa) do nosso pandeirista paraibano.

O maestro e compositor americano Glenn Miller

Mas não foi só isso que o documentário em questão me trouxe. Em uma hora e quarenta minutos de deleite, ele me trouxe – a mim e à plateia que lotou o Cine Bangue na noite de 27 de julho – a vida e a obra de um dos maiores talentos que a Paraíba já deu ao mundo. E o fez em grande estilo.

Começando pelo fim, o filme nos arrasta na ambulância pelas ruas de Brasília para um hospital onde vai agonizar o nosso herói. Quando a câmera, ao som da sirene atordoante da ambulância, penetra o túnel escuro, oportunamente corta-se para uma paisagem física e humana bem diversa, aquela onde tudo começou.

E aí, o espectador vai acompanhar, em ordem mais ou menos cronológica, a trajetória de José Gomes Filho, depois Jack, e finalmente, Jackson do Pandeiro. Primeiro, Alagoa Grande, depois Campina Grande, João Pessoa, Rio de Janeiro, e finalmente, Brasília. Primeiro, o coco de roda, os cabarés, os palcos das rádios, e finalmente, os grandes estúdios e o estrondoso sucesso de público e de crítica. Isso para não falar das participações nas Chanchadas da época.

Além de mitos da MPB, parentes, amigos e especialistas da área dão depoimentos esclarecedores sobre Jackson, porém, um longo e impagável depoimento quem dá é o próprio Jackson, tão autêntico e tão de perto (em close do rosto, o tempo quase todo, em repetidas tomadas) que até parece ter sido gravado especialmente para o filme.

O cineasta paraibano Marcus Vilar

Resultado de pesquisa exaustiva de muitos anos, o filme faz justiça estética à grandeza do biografado e, com ou sem coincidência, chega no momento oportuno de seu centenário.

Vi o filme ainda em pré-estreia, em sessão especial, com a presença de seus realizadores e oportuno debate mediado pelo pesquisador e crítico André Dib, porém, como enfatizou um dos presentes, o que se espera é que as devidas providências sejam tomadas no sentido de uma distribuição de “Jackson – na batida do bandeiro” que atinja um público maior do que o quase sempre o mesmo dos festivais de cinema da vida.

Abri esta matéria de modo pessoal e não resisto em fechá-la do mesmo modo.

Se coloquei Jackson do Pandeiro na minha lista imaginária de preferidos, não preciso mais dizer o quanto sua música foi marcante para mim. Nas rádios da infância eu o ouvia com frequência – a propósito, tanto quanto ouvia Glenn Miller – e, sem querer, solfejava baixinho, sempre com vontade de dançar, o que só não fazia impedido pelo medo de ser ridicularizado.

Enfim, fosse eu dançarino, acho que um pé seria de Jackson do Pandeiro, o outro de Glenn Miller. E daria tudo incrivelmente certo. Agora eu sei disso, e tenho provas.

Marilyn

26 set

Melancólico esse documentário que a televisão paga tem mostrado, “Marilyn Monroe à venda”, sobre um leilão em Los Angeles onde se negociaram objetos que pertenceram à estrela hollywoodiana.

Joias, vestidos, sapatos são vendidos a quem der mais, com, antes, uma explicação retroativa sobre por que, onde e quando a atriz fez uso do objeto. O leilão parece uma festa, mas, para o fã de Marilyn traz aquele cheiro desagradável de invasão tardia de privacidade. Confesso que nem assisti até o fim.

De minha parte, prefiro ficar com a Marilyn da tela. Não conheço todos os seus 29 filmes, mas vi os principais. Para seguir a cronologia, lembro seu começo de carreira em papéis secundários, ou mesmo em pontas, às vezes sequer creditada. “Idade perigosa”, de 1947, é o primeiro desses filmes obscuros, geralmente comédias de segunda categoria.

Sua primeira participação numa produção de peso está em “O segredo das joias” (John Huston, 1950). Mas, seu papel aí é pequeno como pequeno será no superpremiado “A malvada”, do mesmo ano, com direção do grande Joseph Mankiewicz.

Mais um punhado de filmezinhos irrisórios, até fazer, em papel ainda secundário, a Peggy de “Só a mulher peca” (“Clash by night”) que Fritz Lang dirigiu para o casal Robert Ryan e Barbara Stanwyck. Na ótima comédia de Howard Hawks “O inventor da mocidade” (1952) Marilyn já tem um certo charme especial, porém, nada que a destaque.

A rigor, seu primeiro protagonismo aconteceu em um filme ainda hoje pouco conhecido, e, aliás, bastante atípico do estilo Marilyn. Refiro-me a “Almas desesperadas” (1952, Roy Baker) onde ela faz Nell Forbes, essa moça mentalmente desequilibrada que confunde sonho e realidade, e quando frustrada, não hesita em ser violenta. Não é um grande filme, mas é um bom exemplo de Marilyn dramática do começo ao fim. Papel mais visível para o grande público ela vai ter no ano seguinte, em “Torrente de paixão” (1953), ao lado do astro Joseph Cotten, com as cataratas de Niágara como cenário.

 

Com “Os homens preferem as louras e “Como agarrar um milionário” (1953) veio a consagração definitiva. Quando, em 1954, os cinemas do mundo exibiram o faroeste “O rio das almas perdidas”, todo mundo já sabia quem era aquela loura sensual que dividia uma jangada com Robert Mitchum. No mesmo ano ela está deslumbrante como a dançarina de “O mundo da fantasia”, porém, mais que isso, em “O pecado mora ao lado” (1955), ela já era o próprio pecado do título. E, partir de então, era a estrela admirada e cultuada que garantia bilheteria, mesmo quando os filmes não estivessem a sua altura, como “Nunca fui santa” (1956) e “O príncipe encantado” (1957).

Mas é justamente nesse tempo de glória, meados dos anos cinquenta, que começam as suas crises, e, ligado a isso, seu empenho em superar sua imagem de “loura sensual e ingênua” para afirmar-se como a atriz que acreditava ser. Ao rodar “Quanto mais quente melhor” (1959) já era, havia tempos, uma seguidora do “Método”, técnica interpretativa do Actors Studio, a maior escola de atores do mundo, com sede em Nova Iorque.

Foi também esse o tempo do seu casamento com o dramaturgo Arthur Miller, e dos flertes com os Kennedy, John e Robert. Em 1960, com Yves Montand, fez a comédia romântica “Adorável pecadora”, e em seguida (1961) aquele que seria seu último filme “Os desajustados”, direção de John Huston, com roteiro de Miller – um filme melancólico que não era só sobre cavalos selvagens em extinção, mas sobre outras extinções…

“Something´s got give” (sem título em português) poderia ter sido sua última fita, mas não foi. Em crise, a Fox a demite no meio da produção e o filme nunca foi concluído. O resto da história vocês conhecem. Em 05 de agosto daquele ano, 1962, a imprensa divulgava o suicídio de Marilyn Monroe.

Pois é, ao invés do incômodo documentário da televisão paga, fico com a Marilyn cinematográfica que amamos. E não preciso de leilões para saber o quanto valeu a vida de uma criança de nome Norma Jeane Mortenson, nascida nunca casa humilde nos arrabaldes de Los Angeles, em 1926, nunca reconhecida pelo pai biológico, mais tarde relegada pela mãe, e criada entre parentes hostis, orfanatos e pensões.

Bergman 100 anos

30 jul

O cineasta Ingmar Bergman sentia dores estomacais constantes, detestava legumes e comia, o tempo todo, bolacha Maria. Coisas assim, e outras mais, estão no documentário “Bergman – 100 anos” (2018), em exibição local.

O filme da diretora Jane Magnusson concentra-se no ano de 1957, supostamente, o mais produtivo na carreira do cineasta sueco, tanto é assim que o título original se traduz por “Um ano em uma vida” (“A year in a life”).

De fato, nesse ano Bergman lançou e/ou rodou vários filmes, tanto para o cinema como para a televisão, e encenou mais de uma peça de teatro – numa demonstração homérica, não apenas de talento superior, mas de extraordinária capacidade de trabalho.

O filme segue a cronologia do ano, de janeiro a dezembro, embora, em cada caso, a narração retroceda ou se adiante no tempo, para incluir outros momentos da linha existencial do cineasta. De forma que, no geral, o espectador pode desfrutar de um passeio pela carreira e pela vida do biografado – do começo ao fim.

Como mantém o título brasileiro, o filme celebra o centenário de nascimento do autor e é, portanto, elogioso. Trata-se de um dos maiores cineastas de todos os tempos e a narração faz nisso a ênfase cabível. O que não impede que se revelem aspectos da personalidade do biografado não muito edificantes, suas idiossincrasias, suas contradições, incorreções políticas e suas sombras tímicas.

Uma dessas sombras mais desconcertantes para os fãs do cineasta é ficar sabendo que, na juventude, Bergman foi viver na Alemanha e se envolveu até a alma com o nazismo, tornando-se um declarado entusiasta da política de Hitler. Tanto assim que, ao término da guerra, quando os horrores dos campos de concentração vieram à tona, ele se recusou a acreditar, e, por um tempo, permaneceu fiel à ideologia nazista.

Cena em “Morangos silvestres”, 1957.

Menos desconcertante, até porque já conhecida, é a vida amorosa de Bergman, sempre envolvido com várias mulheres, algumas das quais suas belas atrizes. Acho que seu lado “monstro sagrado” tampouco deve ser surpresa para o espectador que, no documentário, tem notícias de seu massacre ao pessoal de sua equipe de filmagem a um nível que sugere sadismo.

Colegas de trabalho, como assistentes de direção, fotógrafos, roteiristas, atores, atrizes, além de amigos e parentes, dão depoimentos que, uns mais outros menos, confirmam esse comportamento autoritário de uma celebridade que usava seu status para conseguir seus objetivos artísticos.

Entre os depoentes alguns são meros fãs, como a cantora Barbra Streisand, e, em momentos assim, o espectador sente falta de fãs bem mais consequentes, por exemplo, o cineasta Woody Allen, que dele tanta influência recebeu. Sim, uma ausência incompreensível.

Bergman em ação.

Para o fã do Mito Bergman, a penetração na vida privada do seu ídolo é estimulante. Já para o estudioso da obra do cineasta sueco um problema seria o que fazer com todos esses dados biográficos. Ocorre que, se alguns deles se refletem nessa obra, outros, – a maioria – não, e ficam cheirando a mexerico de coluna social. Por exemplo: a competição entre o pessoal da equipe de filmagem para atacar a caixa de bolacha Maria e furtar bolachas sem Bergman pressentir. Ou depois do furto, devolvendo a bolacha, com receio da descoberta e consequente reprimenda.

Compreensivelmente, os filmes não são analisados – mesmo os do ano em foco (“O sétimo selo” e “Morangos silvestres”) e o espectador mais exigente sai do cinema com a sensação de ter visto mais “vida” que “obra”.

De minha parte, adorei o modo como o documentário se fecha, com Bergman revelando – e mostrando – qual é a sua tomada cinematográfica mais querida, aquela meio onírica do close no rosto do velho médico aposentado, no final de sua obra prima “Morangos silvestres”. Adorei porque esta também é a minha tomada favorita: no vídeo que montei com cem cenas de cinema, exibido no lançamento de meu livro “Imagens Amadas”, em 1995, foi esta a tomada que escolhi para representar Bergman, no ano do centenário da Sétima Arte.

Claro, o efeito colateral de “Bergman – 100 anos” é a vontade que nos ataca de rever os filmes do autor, se possível fosse, todos, se possível fosse, na ordem dos lançamentos.

O ator veterano Victor Sjöström, na tomada preferida de Bergman.