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O futuro não se vê

9 nov

Com o filho de dez anos, Hank, o casal McKenna está de férias em Marrocos. Residentes em Indiana, Estados Unidos, ele é médico e ela, ex-cantora, hoje dona de casa.

A viagem teria sido ótima, se não tivesse havido aquele pequeno incidente, no ônibus. Num movimento brusco do veículo, Hank, sem querer, arrancou de uma passageira árabe, o seu intocável véu facial, e isso deu confusão, que foi contornada por um desconhecido de sotaque francês, o qual se fez amigo do casal americano.

À noite, no quarto do hotel, enquanto o pai se apronta, a mãe e o garoto solfejam e dançam, juntos, aquela cançãozinha cuja letra faz perguntas sobre o tempo por vir, com o refrão “Que será, será…”. E tudo parecia normal. Parecia mas não estava. Saberemos no dia seguinte, quando o casal e o garoto vão passear no mercado árabe e presenciam um assassinato. Antes de morrer, a vítima agonizante confidencia uma informação no ouvido do Sr McKenna, e…

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Não vou contar o resto da estória, mas, é claro que o leitor, homem ou mulher, sabe demais de que filme estou falando. Sim, é isso mesmo: “O homem que sabia demais” (“The man who knew too much”, 1956, de Alfred Hitchcock).

No elenco estão James Stewart (o pai), Doris Day (a mãe), e Daniel Gélin (o homem morto no mercado) mas – pergunta de gaveta que faço ao leitor cinéfilo – quem é o ator que desempenha o papel do garotinho Hank? Faço a pergunta porque esta matéria pretende ser sobre ele.

Se você não sabe, não se preocupe. Pouco tempo depois de atuar nesse filme inesquecível, esse ator mirim desaparecia do cenário cinematográfico… E nunca mais ninguém ouviu falar dele.

Christopher Olsen – este é o seu nome – nasceu em 1946, em Los Angeles, e aos dois anos de idade já aparecia na tela. Era o bebê, filho de Dana Andrews, no sombrio noir sobre a guerra fria “Cortina de ferro” (William Wellman, 1948).

Entre 1948 e 1958, Olsen apareceu na tela várias vezes, na maior parte dos casos em pontas não creditadas, em filmes menores.

Mãe e filho cantando "Que será, será".

Mãe e filho cantando “Que será, será”.

Eventualmente, também esteve em alguns poucos filmes de mais destaque, por exemplo: em 1952 foi o filho de Barry Sullivan no drama “Assim estava escrito” (Vincente Minnelli); em 1956 esteve no faroeste de Russell Rouse “Gatilho relâmpago”; no mesmo ano foi o filho de James Mason em “Delírios de loucura”, de Nicholas Ray; e em 1957 foi o filho de Robert Stack em “Almas maculadas”, de Douglas Sirk.

Mas nada que lhe tenha dado a visibilidade que conseguiu em “O homem que sabia demais”. É verdade que a canção “Que será, será” ajudou, até porque é com ela que o desenlace se organiza para o ansiado final feliz, mas, além disso, a figura de Olsen é cativante, com seu cabelo louro, seus olhos azuis, e seu jeito despachado de garoto típico americano.

Ora, com essa visibilidade toda, o esperado era que sua carreira ascendesse e ele viesse, mais tarde, com mais idade, a se tornar um galã das décadas seguintes.

Tal não aconteceu. Seu último filme, “Return to Warbow”, um faroeste de segunda categoria, não exibido entre nós, foi rodado e lançado em 1958, e, depois disso, nunca mais o mundo cinematográfico teve notícia de Christopher Olsen.

Perto do desenlace ansiado em "O homem que sabia demais".

Perto do desenlace ansiado em “O homem que sabia demais”.

No seu país, foi ator infantil de televisão e esteve em vários seriados, como “Cheyenne”, “Lassie”, “The millionaire”, mas, em 1960 também encerrou sua carreira na telinha… definitivamente.

Depois dessa data, o que é feito de Christopher Olsen? Ninguém sabe, ninguém viu. Nem o Google dá conta do seu paradeiro. Nos muitos sites de cinema da internet, o único dado sobre ele é que está vivo, já que, em nenhum deles, consta data de sua morte. Se é vivo, estaria, portanto, com setenta anos de idade, completados no dia 09 de setembro deste ano.

Por que esse vazio de informação sobre sua vida, mesmo que fora das telas? Não assumiu porventura uma outra profissão que fizesse constar seu nome nas enciclopédia eletrônicas de hoje em dia? Ou teria havido um recolhimento de ordem ideológica, desejado e assumido?

E vejam que dois irmãos de Olsen estiveram no show business. Seu irmão mais velho, nascido em 38, Larry Olsen foi ator de cinema, normalmente coadjuvante, com 25 filmes rodados, carreira também bruscamente encerrada em 1954, no filme “A lenda dos beijos perdidos”. Sua irmã mais nova, nascida em 61, Susan Olsen, foi atriz de televisão.

A canção do filme de Hitchcock – vocês lembram – afirma que ´o futuro não se vê´. No caso particular de Christopher Olsen, a frase ganha contornos semânticos adicionais.

Christopher Olsen em "Delírios de loucura", 1956, com James Mason.

Christopher Olsen em “Delírios de loucura”, 1956, com James Mason.

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Jornalismo no cinema

8 out

Prometendo dar o que falar, o recém lançado livro de Paulo Henrique Amorim “O quarto poder” (Hedra, 2015) me faz lembrar a sempre fértil relação entre o jornalismo e o cinema.

O livro de Amorim nada tem a ver com cinema, porém, em uma de suas páginas, o autor registra que, em 1993, a televisão britânica exibiu o documentário “Beyond Citizen Kane”, sobre Roberto Marinho, onde o poderoso jornalista brasileiro era comparado ao protagonista do clássico de Orson Welles (1941).

Este dado em si remeteu meu espírito cinéfilo, por tabela, aos filmes que, ao longo de toda a história do cinema, tiveram o jornalismo como tema. No final desta matéria arrolo pelo menos dez filmes clássicos com esta temática, mas, por enquanto quero tratar de duas pequenas películas dos anos cinquenta que abordaram a profissão do jornalista de modo mais que interessante.

O primeiro é “Cidade cativa” (“The captive city”, 1952) do mestre Robert Wise, que discute a relação entre o poder e a liberdade de imprensa.

Cena de "Cidade Cativa".

Cena de “Cidade Cativa”.

Baseado em caso real, o filme de Wise mostra bem o drama de um editor de jornal que, mexendo daqui, mexendo dali, como lhe cabe, vai descobrindo uma rede de corrupção cujas teias recobrem praticamente a cidade inteira, no caso a pequena Kenninston. Na medida em que mexe e remexe, o bravo editor, ansioso por noticiar, vai constatando o envolvimento dos cidadãos mais respeitados do lugar – e isto para não falar da polícia! – e, na mesma medida, vai recebendo, primeiramente tentativas de suborno, e em seguida, ameaças de morte cada vez mais explícitas… até sua situação pessoal tornar-se completamente inviável… no posto que ocupa e, mais que isso, no lugar onde mora.

Bem roteirizado e bem dirigido, o filme começa pelo fim, com o editor e a esposa perseguidos, fugindo de carro para uma cidade vizinha onde, na delegacia local, ele relata a um gravador a trama toda, desde o começo, e, ao fazê-lo, a estória nos é mostrada em flashbacks cronológicos.

Curiosamente documental, o desenlace expõe o senador americano Estes Kefauver pronunciando um discurso verídico sobre o assunto, mas, nem esse ´prólogo pedagógico´ compromete a qualidade do filme, com certeza, um dos melhores no seu gênero.

O outro que destaco é uma comédia romântica de 1958, chamada “Um amor de professora” (“Teacher´s pet”, de George Seaton).

Doris Day e Clark Gable

Doris Day e Clark Gable

A estória gira em torno dos muitos percalços no caso de amor entre uma professora universitária de jornalismo (Doris Day) e um profissional da imprensa, veterano e tarimbado (Clark Gable), que é obrigado pela empresa onde trabalha a fazer um curso de atualização. Mas não se enganem com a faceta romântica do roteiro: nunca vi, em cinema, tão bem discutidas as relações entre a teoria do jornalismo e a sua prática.

O que vale mais, o aprendizado no batente, ou os muitos livros que se leem sobre os conceitos gerais de imprensa? De onde vem o talento que supera a mera obediência aos lides? Como se redige um texto jornalístico que transcenda a informação óbvia? Onde ficam os limites entre imparcialidade e compromisso pessoal com a notícia? Até que ponto a vida particular do jornalista interfere na sua atividade profissional? Praticamente todas as grandes questões relativas ao métier do jornalismo vêm à tona no enredo desta comediazinha de amor que, por trás de seu romantismo, esconde o enfrentamento sério de uma das profissões mais fascinantes do mundo moderno. Sem favores, um pequeno filme que pode ser extremamente útil a quem faz ou a quem ensina jornalismo.

Barbara Stanwyck e Gary Cooper em "Meet John Doe", de 1941.

Barbara Stanwyck e Gary Cooper em “Meet John Doe”, de 1941.

Resenhados estes dois títulos, faço seguir, em ordem cronológica, uma lista de dez outros filmes clássicos que abordaram o tema da imprensa.

 

A primeira página (The front Page, 1931, Lewis Milestone,)

Nada é sagrado (Nothing sacred, 1937, William Wellman)

Jejum de amor (His girl Friday, 1940, Howard Hawks)

Adorável vagabundo (Meet John Doe, 1941, Frank Capra)

Cidadão Kane (Citizen Kane, 1941, Orson Welles)

A montanha dos sete abutres (Ace in the hole, 1951, Billy Wilder)

A embriaguez do sucesso (Sweet smell of success, 1957, Alexander McKendrick)

Viver por viver (Vivre pour vivre, 1967, Claude Lelouch)

Todos os homens do presidente (All the president´s men, 1976, Alan Pakula)

O homem de mármore (Czlowieki z marmuru, 1977, Andrey Wajda).

"His girl Friday": Cary Grant e Rosalind Russell.

“His girl Friday”: Cary Grant e Rosalind Russell.

Anúncio de tempestade

21 ago

Na televisão ou nos cinemas, quando a programação do dia ou a local não atrai, o jeito é ir atrás de um velho clássico… É o que sempre faço, e foi o que fiz esta semana.

O filme que vi já começa lhe amarrando a atenção. Vinda de Nova Iorque, essa moça desce do ônibus nessa pequena cidade do Interior americano, e procura a casa da irmã, que vem visitar depois de muito tempo.

É noite escura e, antes de achar a casa, ela, sem ser vista, testemunha, apavorada, um assassinato: numa esquina qualquer, um homem é morto a tiros pela KuKluxKlan, e diante do cadáver, dois ou três deles retiram as máscaras que lhes cobriam os rostos. Ao chegar na casa da irmã, a moça descobre o mais grave: que o cunhado – que ela não conhecia – tinha o rosto do assassino.

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Ora, um filme que começa com uma cena dessas, pode até não ser grande coisa, mas, vai  envolver-nos de modo completo, se for o caso, até o fim. Esse é o tipo de roteiro que obriga o diretor a dar o máximo de si, bem como os atores.

O que faz a pessoa numa situação dessas? Denuncia o cunhado e destrói o feliz casamento da irmã querida? Ou cala-se e, sem ninguém saber, será conivente com um crime hediondo, cometido por um dos membros de uma seita tenebrosa?

O título dado ao filme no Brasil expressa a situação da protagonista: “Dilema de uma consciência”, mas, o original inglês é mais sutil: “Storm warning”, que significa ´aviso, ou anúncio, de tempestade´, sugerindo que, seja qual for a decisão a ser tomada pela moça que visita a irmã, vem mau tempo por ai, sobre essa cidadezinha do sul americano, chamada Rockpoint, dominada pelo obscurantismo.

Produção de 1951, o filme é um noir bem típico da Warner, e tem Stuart Heisler na direção. Como não podia deixar de ser, sua fotografia, de Carl Guthrie, é preto-e-branco, com predomínio de sombras sobre os claros. O elenco é que é inesperado: Ginger Rogers (sim, ela mesma) faz Marsha, a modelo novaiorquina que vem ver a irmã e cai numa fria. A irmã, Lucy, é Doris Day, e o marido assassino, Hank, é Steve Cochran. O promotor público que, mais adiante na estória, deverá enfrentar a KKK é o ator Ronald Reagan, provavelmente em seu melhor desempenho.

Ginger Rodgers, Doris Day e Steve Cochran em querela familiar

Ginger Rodgers, Doris Day e Steve Cochran em querela familiar

O filme quer ser uma denúncia da famigerada KKK, mas também é a estória pessoal de duas mulheres, duas irmãs em perigo, e o seu enredo se equilibra nesse meio tom entre documento e melodrama. E o faz muito bem. Não tive surpresa em saber que um dos roteiristas era o grande Richard Brooks, mais tarde um cineasta de filmes impressionantes, como, “Sementes da violência” e “Doce pássaro da juventude”.

Para voltar à dupla principal, urbana e modelo de profissão, Marsha é uma moça moderna, acostumada a dizer a verdade na ponta da língua, a quem quer que seja. Residente no Interior e sem muita instrução, Lucy, ao contrário, está habituada a dizer sim ao marido dominador, e a não questionar suas atitudes ou o que quer que seja.

O drama se intensifica porque, logo que chega à casa da irmã, Marsha lhe conta o crime que acabara de testemunhar na rua. Em seguida, chega Hank, o marido culpado, e a esposa por sua vez, ainda sem saber que ele era o autor do delito, lhe narra o que ouvira de irmã. A culpa está na cara de Hank e não precisa muito para que a verdade estoure (a primeira tempestade, digamos assim), dentro dessa casa, verdade que – supostamente – deveria ficar entre suas quatro paredes.

KuKluxKlan: terror em Rockpoint.

KuKluxKlan: terror em Rockpoint.

É claro que tal não é possível e logo a cidade vai aos poucos tomando conhecimento de pequenos detalhes que, mesmo confusos e obscuros, conduzirão a uma tempestade maior, a do título do filme. Enquanto isso, o espectador sofre com a angústia de uma irmã que se move, desequilibrada, entre a obrigação moral de delação e o apego a um ente querido inocente; tanto quanto com a dor de uma jovem esposa apaixonada que de repente descobre o que nunca imaginara: a faceta homicida do cônjuge…

O homem assassinado não é – como se poderia supor – de raça negra (alvo habitual da KKK), mas, um jornalista que, corajosamente, vinha se posicionando contra o domínio da seita local.

Não pretendo contar o resto da estória, para que seja mantido o interesse do leitor. Só lembrar que tão corajoso quanto a vítima do KKK, é o próprio filme, rodado numa época em que o WASP era o valor possível no país. Para quem não lembra ou não sabe, estas iniciais significam ´White Anglo Saxon Protestant´, ou seja ´Protestante anglo saxão branco´, o padrão racial, social e religioso, entendido como superior.

“Dilema de uma consciência” não é nenhuma grande obra, porém, um filme bastante apreciável em sua pequenez. Recomendo.

O promotor público Ronald Reagan.

O promotor público Ronald Reagan.

Modo de terminar

14 fev

Como terminar um filme? Que derradeira imagem deixar na tela, antes dos créditos finais? Imagino o quanto os cineastas da vida não se angustiam com a escolha a fazer.

A idéia consensual é que o último elemento de uma obra narrativa (filme, romance ou conto), simplesmente por ser o último, adquire uma significação toda especial, não raramente simbólica, que concederia uma direção interpretativa ao todo.

E, evidentemente, o efeito sobre a recepção pode ser marcante, no caso do cinema, arte visual, mais ainda. Qual é o cinéfilo que não guarda na memória os seus finais preferidos?

Eu tenho os meus, dos quais cito três.

Gosto do modo indireto, periférico, como Joshua Logan encerra o seu “Férias de amor” (1956), sem música nem beijos e abraços: no lugar disso, uma panorâmica bem alta sobre a paisagem campestre inteira onde se veem, diminutos como se fossem brinquedos infantis, de um lado, o trem que leva William Holden, e do outro, o ônibus que conduz Kim Novak, ambos correndo, paralelos, na mesma direção, pois o espectador desse melodrama sabe que o casal vai, em futuro breve, se encontrar em algum ponto do mapa exposto aos seus olhos, para o que der e vier e, como ficara sugerido no diálogo do filme, o que vai dar e vir não tem necessariamente que ser maravilhoso.

Amo o modo contido, implícito, como Billy Wilder fecha o seu “Se meu apartamento falasse” (1960), não com declarações de amor, e sim com um cortante “cala a boca e jogue”, dito pela ex-ascensorista Shirley McLaine ao recém-desempregado Jack Lemmon. Lembrem que, enfática, a cena anterior prometia beijos e abraços, mas, não foi o caso: na comemoração do ano novo, ela ficara sabendo que ele perdera o emprego por causa dela; não faz outra: deixa o amante cretino de lado e sai correndo feito louca até o apartamento dele, e, quando chega, ofegante, à porta, ouve um estouro – que, desesperada, interpreta como sendo um disparo suicida – grita, ele abre a porta e ela constata, aliviada, que era só um champanhe aberto com que ele, sozinho, comemorava o seu fracasso. Por isso mesmo, o final contido, com o jogo de baralho na cama e a frase dela, é uma benção e, mais que isso, é inesquecível.

Adoro o modo documental, quase jornalístico como Sidney Lumet termina o seu “Um dia de cão” (1974): depois de uma tarde inteira de sufoco, dentro de uma agência de banco, com dois assaltantes truculentos (Al Pacino e John Cazale) e funcionários em pânico, o carro da polícia nos conduz ao aeroporto onde, em princípio e pelo combinado, os dois assaltantes embarcariam para um país estrangeiro. Súbito, o tiro certeiro na testa de Cazale, e pronto: a partir daí o que o espectador tem é, não choro nem vela, mas toda uma cena sem personagens, somente a demorada e ensurdecedora movimentação de automóveis e aviões na pista, típica de qualquer aeroporto, com, daí a pouco, os créditos do filme subindo, como quem diz – já contamos nossa estória: faça o que quiser com ela.

Quem revisa a história do cinema costuma dizer que os filmes antigos tinham mais “finais felizes” que os de hoje. Pode ser, mas a coisa não é assim tão simples. Em primeiro lugar, o tipo de final sempre dependia dos gêneros, e, se uma comédia não podia ter um desenlace triste, em compensação um filme noir não podia ter um alegre. Em segundo lugar, ao meio desses dois tipos de desenlace, historicamente apareceu o chamado “final aberto” que, sonegando paradeiros, deixava o espectador livre para preencher lacunas e decidir sobre a inclinação tímica do filme. E, finalmente, em terceiro e mais importante lugar, alegre, triste ou neutro, o chamado “desenlace” sempre foi algo mais longo do que o que aqui estamos chamando de momento final, ou seja, as últimas ou a última tomada de um filme, a qual, por sua vez, pode muito bem assumir as formas mais variadas, eventualmente contrariando o sentido tímico do próprio desenlace. Um exemplo: o desenlace de “Noites de Cabíria” é francamente disfórico, porém, o último fotograma do filme é um belo e reconfortante sorriso da protagonista.

Um elemento complicador aparece quando o filme “começa pelo fim”, casos célebres de, por exemplo, “Cidadão Kane” (1941), “Crepúsculo dos deuses” (1950) e “A malvada” (1950). Nestes casos não é incomum que o roteiro, depois de narrar o que houve antes do final já visto no começo, crie um tempo “pós-final”, para poder encerrar o filme com algo diverso do que o espectador viu nos primeiros fotogramas.

Em “Kane” é a imagem do esqui do garoto Charles, queimando na lareira, com o nome ´rosebud´ impresso, e a fumaça subindo da chaminé para o céu aberto. Em “Crespúsculo” é a chegada da imprensa à mansão de Norma Desmond, e esta, pensando se tratar da equipe da Paramount, encenando a sua pose de estrela para as câmeras. Em “A malvada” é a figura de Phoebe, a nova empregada da famosa atriz teatral, vestindo a roupa da patroa e se olhando, vaidosa, em um espelho que reproduz a sua imagem centenas de vezes.

Uma coisa que se observa, sem dúvida, na história do cinema, é que certos cineastas – sobretudo os de estilo forte – têm maneiras pessoais de terminar os seus filmes, e, com freqüência, repetem fórmulas que, com o tempo, tornam-se reconhecíveis e mesmo previsíveis.

Quem não lembra, em Chaplin, o vagabundo afastando-se na paisagem, enquanto a tela em torno da figura dele vai ficando escura, até o círculo luminoso que o circunda se contrair por completo e tudo ficar preto?

Fellini adorava encerrar tudo com dança e música; Ford com um enquadramento geográfico; Capra com sorrisos e efusão…

Um caso curioso é o de Hitchcock que, pelo menos na sua fase americana, lidava com o conceito de final de uma maneira tão lúdica, ao ponto de uma amiga minha uma vez me confessar que “adoro Hitchcock, mas não gosto do modo brusco e às vezes anedótico como ele termina os filmes”.

E é verdade. Para não citar mais, vejam os casos de “O homem que sabia demais” (1956) e “Intriga internacional” (1959), thrillers densos e tensos que se fecham como piadas.

Depois de todo o sofrimento para o difícil resgate do filho, seqüestrado por uma secreta e criminosa organização estrangeira, James Stewart e Doris Day chegam ao seu apartamento londrino e “explicam” aos amigos, que os esperavam havia séculos, que “demoramos porque fomos pegar Hank”, como se nada demais tivesse acontecido ao filho do homem que sabia demais.

Em “Intriga”, Eva Marie-Saint, pendurada nas duras escarpas das montanhas Rushmore, quase caindo, presa apenas por uma das mãos de Cary Grant, que também não está lá nada seguro, pouco faltando para os dois despencarem e esfacelarem-se lá embaixo, é, num passe de mágica, puxada por Grant para cima do vagão-cama de um trem, que, por sua vez, adentra célere um túnel escuro, sugerindo a cópula que o espectador não pode espiar. Tudo assim, rapidinho e sem explicação nenhuma, salvo a pressa de encerrar, e encerrar bem.

Se não é fácil terminar um filme, tampouco é fácil terminar um artigo como este. Faço-o, sugerindo ao leitor que relembre os filmes que ama e elabore a lista dos seus finais preferidos. Que tal?