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Doze homens e uma sentença

13 jun

Escrevi há pouco sobre o cineasta Sidney Lumet e não me detive no seu primeiro filme, um dos melhores, “Doze homens e uma sentença” (“Twelve angry men”, 1957).

Para compensar a lacuna, faço-o agora.

Numa claustrofóbica sala secreta de tribunal, doze jurados devem decidir se um rapaz pobre, acusado de haver matado o pai, seria culpado ou inocente, e o resultado da votação deve ser unânime. Na votação, um senhor de branco (Henry Fonda) é o único a votar ´inocente´ e, portanto, provoca a ´ira´ que está no título original do filme. Depois de defender a ideia de que não se pode condenar uma pessoa, se por acaso existe no julgamento uma ´dúvida razoável´, esse senhor de branco faz uma proposta: mudaria o seu voto, se, num novo sufrágio, todos votassem ´culpado´. Feita essa segunda votação, aparece mais um voto ´inocente´ e o calor da discussão aumenta consideravelmente.

O que vai ficando claro com o andar da contenda é que alguns dos jurados têm razões pessoais para manter ou mudar de voto, em alguns casos razões nada nobres – indiferença, desinteresse ou preconceito, por exemplo. Um caso exemplar deste terceiro termo, está na fala do personagem de Ed Begley, onde todos os chavões do discurso dos ricos sobre os pobres aparecem, implicados todos eles em seu repetido cacoete linguístico, “you know what I mean” (´vocês sabem o que estou dizendo´)

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O caso mais ostensivo, porém, é o do último a mudar de voto, o personagem feito por Lee J Cobb que, em dramática crise emocional, deixa ver que, em toda a sua radicalidade, estava transferindo para o réu, o ódio que, na verdade, sentia pelo filho, com quem sempre manteve uma relação de hostilidade.

O fato é que um rapaz pobre, residente da periferia, que, à primeira vista pareceu culpado a todos é, no final das difíceis discussões, dado como inocente. Se a temática da violência urbana, com a dura implicação de culpa social e/ou individual, já era pertinente ao tempo da feitura e estreia do filme, em nossa época o é muito mais… e não apenas nos Estados Unidos. Isto para não dizer que, no mundo todo, parece a matéria do dia.

Mas, seria um outro crime dizer que “Doze homens e uma sentença” é um bom filme por causa de sua atualidade.

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Ele é excelente porque tem as qualidades cinematográficas necessárias para tanto. As falas dos personagens são, naturalmente, argumentativas (cada um está tentando convencer os outros de que o seu pensamento é correto) e, o filme, ele mesmo, consiste numa grande argumentação, e, no entanto, em nenhum momento parece pregação ou maçada – ao contrário, prende a atenção do espectador… como se ele, o espectador, fizesse parte do julgamento.

Dirigida por Franklin Schaffner, uma primeira versão da estória aparecera na televisão americana em 1954. Quando a United Artists decidiu transformá-la em cinema, logo propôs a Henry Fonda que atuasse e co-produzisse, e este, impressionado com seu efeito, imediatamente indicou, para a direção, o nome de Lumet, que vinha se destacando com ótimos trabalhos no meio televisivo. Assim, Lumet assumiu o desafio de transformar em cinema algo que funcionara bem na televisão, mas que, se mal manuseado cinematograficamente, poderia resultar num feio fracasso na tela grande. E é então que nasce um grande cineasta.

Lee J Cobb em grande interpretação, como o pai hostil

Lee J Cobb em grande interpretação, como o pai hostil

Num set igualmente claustrofóbico, onde o elenco ensaiou durante duas cansativas semanas, o filme é rodado em 21 dias, somando ao todo 365 tomadas cuidadosamente estudadas para passar determinados efeitos.

Notem como no início do filme a câmera, em angulações predominantemente abertas, fica quase sempre posicionada acima do nível do olho humano, para dar a impressão de distância entre os personagens. Na medida em que a projeção prossegue, o nível da câmera vai baixando, ao mesmo tempo em que as tomadas vão ficando cada vez mais fechadas, com frequência de closes, o que enfatiza tanto a proximidade entre os personagens como a impressão de claustrofobia.

Naturalmente, as dificuldades de filmagens foram enormes, não apenas pelos limites do set, mas também pelo baixo orçamento da produção. Por exemplo, a fotografia montada para uma determinada tomada, em uma determinada fala de um personagem, precisava, por razões econômicas, ser mantida nas tomadas equivalentes, e por isso, as partes dos diálogos foram rodadas com semanas de distância entre uma fala e outra… E, contudo, no resultado, a sensação de ritmo é impressionante!

Hoje o American Film Institute lista “Doze homens e uma sentença” entre os melhores filmes do Século XX no gênero “drama de tribunal”.

Eu o listo entre os melhores filmes de qualquer época, em qualquer gênero.

Henry Fonda, ator e co-produtor de "Twelve angry men"

Henry Fonda, ator e co-produtor de “Twelve angry men”

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