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La dolce vita

26 ago

 

Era abril de 1953, dia 9, quando o corpo de Wilma Montesi foi encontrado. Seminu, era arrastado pelas ondas nas areias da praia de Torvaianica, a uma certa distância de Roma. Com 21 anos de idade, Wilma Montesi era uma moça humilde: filha de marceneiro, morava num subúrbio romano. Como fora parar naquela praia distante, e mais importante, de que morrera?

Em seguida veio o escândalo. Aparentemente a moça estaria envolvida com rapazes da elite que costumavam se divertir em orgias movidas a drogas. Um deles era o músico Piero Piccione, amante da atriz de cinema Alida Valli, e filho do ministro Attilio Piccione. Piero e um de seus companheiros de farra, Ugo Montagna chegaram a ser julgados, na Corte de Veneza, porém, por falta de provas, foram absolvidos, e o caso foi arquivado, tudo indica que para sempre.

Marcello Mastorianni e Anita Egberg em cena de La Dolce Vita.

Mas, claro, nem todo mundo esqueceu o caso: o cineasta Federico Fellini, por exemplo. Segundo consta, foi nele que pensou ao bolar, junto com Pasolini, o enredo de “A doce vida” (1960).

Assim, teria sido o dúbio papel da imprensa da época o que motivou a construção do personagem de Marcello Rubini (Marcello Mastroiani), esse jornalista que se divide entre o compromisso profissional com a informação e o fascínio pela ´doce vida´ da burguesia italiana.

De fato, várias cenas no filme costuram pobreza e riqueza de modo irônico. A primeira noitada de Marcello com a ricaça Madalena é bem sintomática: os dois dão carona a uma pobre garota de programa (certamente inspirada em Wilma) que termina abrigando-os por uma noite em seu mais que modesto casebre, usado pelo casal como motel.

Uma segunda cena a citar dessa mistura entre pobreza e riqueza é a da mocinha loira (parecida com um anjo renascentista, segundo Marcello) que o protagonista conhece quando se isola, com sua máquina datilográfica, para escrever o livro que nunca escreverá. No final, esse ´anjo renascentista´ vai reaparecer, na praia, mas Marcello não lhe escuta a voz, porque dele está distanciado, no espaço e, principalmente, no espírito.

A famosa cena Fontana di Trevi.

A famosa cena Fontana di Trevi.

Aliás, é nessa cena final, depois de uma noite de orgia com direito a striptease ao som de “Patricia”, que Marcello e seus companheiros de farra se dirigem ao mar e, nas areias da praia, se deparam com aquele peixe disforme que os fita com ar hostil. Para o resto do mundo nem tanto, mas para muitos espectadores italianos da época, esta cena era – se indiretamente o filme todo não já fora – uma remissão direta ao caso Wilma Montesi. Uma metáfora grotesca que fechava o filme com ar de indagação acusativa.

Com o passar do tempo, o intertexto Montesi foi ficando para trás no filme de Fellini… até quase que desaparecer. Hoje ninguém mais – se um dia dele teve notícia – o recorda. O filme foi, aliás merecidamente, ganhando estatuto de cult, e, por ironia, o lado atrativo, fascinante, da ´doce vida´ se sobrepujou ao seu caráter de crítica. E, inevitavelmente, o filme entrou no imaginário cinéfilo muito mais como um doce fornecedor de imagens amadas. Há muito tempo, o que vem à memória do espectador a propósito de “A doce vida”? Não são os seus eventuais pobres, mas os seus tantos ricos. Não é sem razão que a cena mais revisitada – aliás, uma das mais citadas na história do cinema – é a do banho de Anita Ekberg e Marcello Mastroianni na Fontana di Trevi.

Marcello e

Marcello e “o anjo renascentista”

Sim, a idéia de que o filme de Fellini fazia uma crítica à alta burguesia italiana, de óbvia, foi se tornando secundária. De algum modo, afinal de contas, o filme era a definitiva despedida do diretor do espírito crítico do neo-realismo e, com ou sem enfoque social, era o seu início de mergulho na fantasia que viria em seguida.

Para dar um toque pessoal a este comentário, a reprise atual de “A doce vida”, no programa “Cinema de Arte” do Cinespaço, me remete a sua estreia em João Pessoa, início dos anos sessenta. Foi a minha introdução ao chamado cinema de arte europeu. Como todos em meu convívio doméstico, eu estava habituado ao modelo de cinema de Hollywood, e o filme de Fellini me deixou confuso. Aliás, quase o perdia: um irmão mais velho, que o vira a contragosto, deu o aviso para todos de casa: “uma merda”. Apesar do diagnóstico escatológico fui ver e, depois, vi todas as outras maravilhosas “merdas” de Fellini; não apenas de Fellini, mas de quase todo o brilhante cinema italiano dos anos sessenta.

Rever “A doce vida” agora, em tela grande, é, confesso, uma experiência saudosista; mais do que qualquer outra coisa, uma viagem no tempo.

Um tempo que só se repete em coisas tristes, já que ainda hoje, a gente sabe, outras Wilmas Montesi, na Itália e aqui, são vítimas de garotos da doce elite. Enfim.

Anouk Aimée, Mastroianni e Fellini, durante as filmagens.

Anouk Aimée, Mastroianni e Fellini, durante as filmagens.

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Perdidos na estrada

29 jul

Escrito em 1951 e só publicado em 1957, “On the Road” (no Brasil: “Pé na estrada”) é há muito considerado um dos romances mais influentes do Século XX. O seu autor, Jack Kerouac, foi um dos cabeças da chamada ´Beat Generation´, movimento poético-literário que, com agressividade e escândalo, mexeu com os conceitos de literatura e de comportamento nos Estados Unidos dos anos cinqüenta.

Autobiográfico, o romance contava as aventuras de Sal Paradise e seu amigo Dean Moriarty, que se conhecem após a morte do pai daquele, e, entre 47 e 50, se deslocam país afora, em sucessivas e tresloucadas viagens de automóvel, que se assumem como fuga ao Establishment e busca de uma verdade interior mais profunda que a convenção social e familiar. O consumo de drogas, jazz e sexo faz parte dessa busca por novos valores que justifiquem a existência.

Como um ´roman à clef´, o livro camuflava personagens reais em nomes fictícios, três dos quais são os principais componentes do movimento Beat, a saber: o próprio Kerouac (como Sal Paradise), Allen Ginsberg (Carlos Marx) e William Burroughs (Old Bull Lee) – estes dois últimos futuros autores de poemas que definiriam a atitude Beat para o mundo, a saber “Howl” (`Uivo´) e “Naked Lunch” (´Almoço despido´).

Por outro lado, ou pelo mesmo, o romance também era a estória de uma amizade entre dois rapazes (Dean e Sal), ambos obcecados com a fúria de viver intensamente, e um deles com uma obsessão a mais: a de pôr em palavras a experiência dessa fúria.

Apesar do título, é a narração dessa amizade “furiosa” – mais que a aventura automobilística pelas estradas americanas – o que está no filme de Walter Salles, “Na estrada” (2012), adaptação direta e, posso dizer, apaixonada, do livro de Kerouac, recentemente em cartaz em João Pessoa.

Para quem conhece o romance, é possível sentir o empenho de Salles em ser fiel a Kerouac e sua proposta – diálogo, mise-em-scène, fotografia, caracterizações e reconstituição de época são perfeitos e o espectador, de fato, se reporta à América dos anos cinqüenta e (re)mergulha no clima de inconformismo e rebeldia de uma geração que, não de muito longe, prenunciou o advento da era hippie.

Já para quem não conhece o livro, tenho dúvidas se a curtição será a mesma. Para pôr tudo nos 130 minutos do filme, Salles teve que cortar muitas páginas, indicando na tela os “pulos”, no início de cada nova sequencia, com as referências gráficas ao novo local e data onde os personagens se encontram. Resultado: são tantos locais e datas que o espectador desatento corre o risco de se perder no mapa diegético e ficar com a sensação de acúmulo repetitivo de viagens, sem uma linha dramática amarrada.

Claro que a competente narração de Salles faz seus acréscimos compensatórios, no sentido de sustentar essa linha dramática. Sem muito espaço, lembro só um pequeno exemplo: naquele momento em que a segunda esposa de Dean, Camille, rompe com ele, os dois rapazes, Sal e Dean, vão embora e com ela ficamos a sós no quarto, nós e a câmera, acompanhando o choro e o olhar desalentado da moça para a criança no berço. Vejam bem: a estória toda nos é narrada por Sal que, sem estar presente no quarto, não pode haver testemunhado isto que vemos. Vários destes oportunos “contributos” paralépticos vão ocorrer ao longo de um filme cujo refrão é, afinal de contas, o ato de escrever do protagonista, que não larga papel e lápis, ou, quando pode, uma máquina datilográfica.

Uma influência definitiva para Kerouac foi Marcel Proust, cujo livro “Swan´s way” (“No caminho de Swan”) aparece várias vezes no filme, ao lado do escritor Sal, a câmera sempre lhe destacando a capa brilhante. Afinal, uma associação mais que verídica, lógica.

 

 

Bem, resta perguntar quais as influências de Walter Salles. Não ponho a mão no fogo por nada, mas, fico pensando se aqui não estão ecos de pelo menos dois filmes marcantes na história do cinema moderno, que, com ou sem estrada no meio, narraram estórias de amizades masculinas, por coincidência ambos de 1969: “Sem destino” (Dennis Hopper) e “Perdidos na noite” (John Schlessinger).

Vejam que, como aqui, aquele primeiro filme termina sua viagem numa espécie de “inferno” ( aqui México e New Orleans lá) e que, também como aqui, o segundo faz os dois amigos se envolverem a um nível que beira a homossexualidade, sem contar que tanto o Joe Buck de Schlessinger, como o Dean de Salles chegam ao extremo de cometer sodomia por dinheiro.

Eu sei, eu sei, Hopper e Schlessinger é que devem ter sido influenciados pelo livro de Kerouac, porém, como nos assegura o bruxo Borges, toda intertextualidade é vai-e-vem, e nada impede Salles de ter ouvido os ecos desses dois filmes, com os seus personagens, todos eles, – tanto no bom como no mal sentido da palavra – igualmente perdidos…

Raul sem fim

20 dez

Chave de ouro que fechou o Fest-Aruanda deste ano foi “Raul – o início, o fim e o meio” (2011), do cineasta Walter Carvalho – filme ainda inédito em circuito comercial e, até então só exibido no Festival do Rio e no Festival Internacional de São Paulo.

Vigoroso e vibrante documentário sobre Raul Seixas, o homem e o mito, o filme de Walter Carvalho reconstitui momentos significativos na vida e na carreira do “maluco beleza”, esse ícone controverso da MPB que ainda hoje assombra o imaginário de multidões de fãs.

Como filmar a trajetória de um astro tão sui generis, polêmico, escorregadio e inexplicável? A partir daquela velha opinião formada sobre tudo, ou, ao contrário, com a explosão de uma metamorfose ambulante?

Carvalho parece ter encontrado um meio termo aristotélico (onde o fim fica no meio!) que deu certo, na medida exata. Se tivesse dado mais certo do que deu, não ficaria legal.

Na verdade, o seu filme tem dois movimentos, mais ou menos antagônicos – um racional, objetivo, lógico; o outro, apaixonado, carnal, entregue. O primeiro movimento é o do pesquisador que, perdido ao meio de um monstruoso material recolhido e a recolher, viu-se na obrigação sensata de dar ao espectador um fio condutor que fosse fiel à História; o outro movimento é o do fã envolvido na estória do seu ídolo, que empenhou-se em não trair o espírito libertário, irreverente e indócil do cinebiografado.

Não que esses dois movimentos – lucidez e maluquez, se vocês quiserem chamá-los assim! – se explicitem ou se distingam no filme. Ao contrário disso, estão imbricados, em tensão, e o belo equilíbrio dessa delicada antítese autoral é perfeito. De forma que a projeção flui fácil, que nem uma canção que faça bem aos ouvidos e… aos olhos.

Sim, para o espectador é uma beleza (!) poder reviver a carreira conturbada e delirante desse pequeno gênio da MPB, eventualmente estabelecendo as relações viáveis entre letras de canções e aspectos biográficos, e, de sobra, penetrando sorrateiramente os desvãos mais privados e mais sombrios de sua frenética e desconcertante personalidade.

Rebeldia, instabilidade, desobediência civil, irresponsabilidade, inconsequência, impulso criativo, humanismo, doçura, misticismo, esoterismo, satanismo, paroxismo, alcoolismo e outros vícios mais pesados – está tudo lá, e o conjunto é enriquecido por depoimentos de familiares, colegas, amigos e por falas ou lágrimas de ex-amantes e/ou filhos, ou, se for o caso, corroborado por farta iconografia, sem falar nos preciosos registros de seus shows – tudo isso num ritmo oportuno que transforma as execuções musicais em elementos de pontuação.

Por sorte, mas sem coincidência, as três palavras da frase na canção que deu subtítulo ao filme tem esta e não outra ordem – o início, o fim e o meio – pois o núcleo proposital do filme, se existe um, é justamente o de que não há fim para o mito Raul Seixas.

Para não nos alongarmos na questão, digamos apenas que, no início, era Elvis e o Baião… e deixemos para os espectadores de “Raul” a tarefa hermenêutica de identificar e ordenar os dois outros termos da equação.

De minha parte, amei o filme e fico aguardando sua exibição comercial para uma segunda curtição. Não posso, porém, deixar de observar que ele possui um contexto: perfila-se nessa curiosa corrente de filmes brasileiros recentes – documentais ou ficcionais – em que a música é o assunto.

Aparentemente, tudo teria começado com “Cazuza – o tempo não para”, do próprio Walter Carvalho e Sandra Werneck (2004), um sucesso de público que fez platéias dançarem e cantarem nas salas de projeção. Digo “aparentemente” porque três anos antes disso, o cineasta Eliseu Ewald já rodara a ficção “Nelson Gonçalves – o filme” (2001).

De qualquer forma, depois de “Cazuza” vieram: “Vinicius” (Miguel Faria, 2005), “2 filhos de Francisco- a história de Zezé di Camargo e Luciano” (Bruno Silveira, 2005), “Noel, o poeta da vila” (Ricardo Van Steen, 2006), “Cartola – música para os olhos” (Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, 2007), “O homem que engarrafava nuvens” (Lírio Ferreira, 2008), “Waldick – sempre no meu coração” (Patrícia Pillar, 2008) e “Loki” (Paulo Henrique Fontanelle, 2008).

Em 2009 o número engrossou com: “Simonal – ninguém sabe o duro que dei” (Micael Langer e Calvito Leal), “Herbert de perto” (Roberto Beliner), “O milagre de Sta Luzia” (Sérgio Roizenblitz), “Cantoras do rádio” (Gil Baroni) e “Zé Ramalho, o herdeiro de Avohai” de Elinaldo Rodrigues.

É interessante notar que até os cineastas tradicionalmente documentaristas, como Vladimir Carvalho e Eduardo Coutinho estão aderindo ao motivo da música, como comprovam os recentes “Rock Brasília” e “Canções”, respectivamente.

Como se vê, para o périplo abarcado – pouco mais de cinco anos, se “Cazuza” tiver sido mesmo o ponta-pé inicial – o número de filmes nacionais tratando de música é mais do que significativo. Com ficção ou em linguagem documental, até parece que estamos fundando um gênero.

O que não seria de estranhar num país musical como o Brasil.

Uma longa viagem

14 dez

Uma verdadeira pérola exibida no Fest-Aruanda foi, com certeza, esse belo e tocante semi-documentário “Uma longa viagem” (2011) de Lúcia Murat. Para quem acompanha a carreira de Murat (“Que bom te ver viva”, 1989; “Brava gente brasileira”, 2000), uma agradável surpresa, um filme praticamente sem parentes dentro da cinematografia nacional.

 O argumento é simples, embora o tratamento, não. No final dos anos sessenta, a família Murat receia que o filho caçula (Heitor) tome o rumo da irmã mais velha, Lúcia (no caso, a própria cineasta) e se engaje na luta armada contra a ditadura, e assim, o envia a Londres, onde o rapaz mergulha de cabeça na psicodelia, e, alimentado pelas drogas e pelo clima paz e amor da época, resolve correr mundo.

Austrália, Índia, Afeganistão, Estados Unidos são roteiros de uma viagem psicodélica, da qual a família só tem notícia através de cartas. Agora, quarenta anos depois, Lúcia Murat resolve contar essa estória e o faz a partir de duas fontes: o confuso e incongruente depoimento do irmão, hoje um cinqüentão completamente sonado, e as cartas, estas “performatizadas” por um personagem que o representa em sua juventude (o ator Caio Blat).

O resultado poderia ter sido um relato familiar de interesse apenas privado. Mas que nada. O filme conquista o espectador logo cedo e daí a pouco já estamos todos ´metidos na vida alheia´. Na verdade, a grande força e também o grande charme do filme é trabalhar com o elemento da memória, fazendo confluir o pessoal e o histórico de uma forma inconsútil, e mais que isso, lírica.

Não esqueçamos que duas figuras típicas dos anos sessenta/setenta foram o guerrilheiro que abraçou a luta armada e o jovem que optou pelo “paz e amor” dos hippies, cada um arcando com suas respectivas conseqüências, tortura e morte num caso, piração, no outro. Ora, em carne e osso, Lúcia e Heitor são dois representantes ostensivos dessa época, e embora o filme seja carinhosamente dedicado a um terceiro irmão, Miguel, já falecido, é nessa antítese actancial que ele funciona.

Obviamente, Lúcia (personagem e cineasta ao mesmo tempo) dá vez e voz ao irmão, e de alguma maneira o documentário é sobre – como no famoso poema de Frost, “the road not taken”, (`o caminho não tomado´) – uma tentativa comovente e comovida de entender o outro, aquele que tomou “o outro caminho”.

Nesse particular, um excelente recurso está em todas as muitas cenas em que se mostra o que a cineasta não viu: o jovem Heitor no Exterior. Como rodar um filme de época cujo cenário seria o planeta? Sabiamente, a cineasta opta pela metonímia: o personagem sempre aparece fotografado em recorte ou moldura, em ambientes fechados, ou, quando abertos, sobreimpressos com imagens de arquivo – tudo isso ajudado pela edição e trilha sonora da época.

Por falar em trilha, o melhor lance sonoro de “Uma longa viagem” é a nada gratuita escolha do tema musical, o “Summertime” de Gershwin cantado – tinha que ser! – por Janes Joplin. E aqui peço ao leitor/espectador que revise a letra da canção (ofuscada pela interpretação implosiva de Joplin) e releia essa estória de um filhote de gaivota que, ainda no ninho e, por enquanto, sob a proteção materna e paterna, se prepara para voar. Ora, o jovem Heitor do filme já está “voando”, sem a proteção familiar, e a inevitável associação de sua situação com a do pássaro traz um enorme dividendo semântico ao filme.

Uma virtude a mais do filme está na fuga ao esquema melodramático da estória sobre um ente querido já falecido (do tipo “As pontes de Madison”): o Heitor maduro do filme está sonado mas está vivo e, mais, seu discurso desconexo provoca o riso no público (houve riso à beça na sessão em que estive) e não parece ter havido esforço da direção em castrar esse riso.

Risos à parte, pelo tema e pela situação diegética (reencontro entre irmãos), mas também pela delicadeza e pelo lirismo, “Uma longa viagem” me transportou saudosisticamente a dois clássicos do cinema europeu que me indago se Lúcia Murat conhece, a saber, “Dois destinos” de Valério Zurlini (1962) e “Três irmãos” (1981) de Francesco Rosi. Aliás, eu disse acima que o filme de Lúcia Murat não tem parentes no cinema nacional. Se tiver, o mais aproximado deve ser o “Santiago” (2007) de João Moreira Salles, apesar de, neste caso, as relações familiares não serem consanguineas.

Em tempo: premiado em Gramado, “Uma longa viagem” já deve estar para ser, ou já foi, selado em DVD.