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OLIVIA

1 jul

 

Cento e quatro anos completa hoje, primeiro de julho de 2020, a atriz americana Olivia de Havilland, aquela que a maioria das pessoas lembra mais como a prima e rival de Vivien Leigh em “…E o vento levou”, mas que teve uma carreira posterior brilhante e se afirmou como uma das grandes atrizes da era clássica.

Reclusa e sem contato com a imprensa, a atriz americana mora, tranquila, em Paris, cidade que escolheu como lar desde há muito. A rigor, ela não é propriamente americana. Filha de pais ingleses, nasceu em Tóquio, em primeiro de julho de 1916. Ainda pequena seus pais se divorciaram e a mãe mudou-se para a Califórnia, junto com ela e a irmã menor, Joan, que mais tarde se tornaria Joan Fontaine.

Na escola secundária a adolescente Olivia já se interessava por teatro. Em encenação de Max Rheinhardt, esteve na shakespeariana “Sonho de uma noite de verão”, e tão bem se saiu no palco escolar que o diretor da peça a empurrou para a versão cinematográfica homônima (1935), uma produção da Warner Brothers, companhia com a qual ela fechou contrato de sete anos.

A partir daí, foi um filme atrás do outro, inclusive os oito que rodou com um parceiro muito especial, Errol Flynn. Acho que os mais conhecidos da dupla são: “Capitão Blood” 1935), “A carga da brigada ligeira” (1936) e “As aventuras de Robin Hood” (1938). Tão famosa ficou que, em 1939, o todo poderoso produtor David O. Selznick a pediu emprestado a Warner, para o papel da suave Melanie de “E o vento levou”, sua primeira indicação ao Oscar.

Olivia de Havilland em “Tarde demais”, 1949.

De saco cheio dos papéis cor de rosa que a Warner lhe impunha, fez greve contra a companhia e foi punida. Levou o caso à Justiça e ganhou um processo que dava mais liberdade aos atores, e que, de tão importante para a profissão, passou a ser apelidado de “a decisão de Havilland”, pois vários outros atores haviam processado a Warner, sem sucesso. É que, ao contrário do que sugere a expressão “star system”, os atores e atrizes da época, anos quarenta, sofriam pressões dos estúdios e, em muitos casos, eram obrigados a aceitar termos de contrato limitativos.

Então com mais liberdade de ação, Olivia passou a escolher papéis a dedo e o resultado não demorou a aparecer, para a crítica e para o público. Dessa fase mais madura, entre 1946 e 1960, saíram dramas, policiais, romances, e até um western. Eis alguns desses títulos, três dos quais lhe deram dois Oscar de melhor atriz e uma indicação:

“Devoção” (1946), “Só resta uma lágrima” (1946) (Oscar), “Champanhe para dois” (1946), “Espelhos d´alma” (1946), “A cova da serpente” (1948) (indicação), “Tarde demais” (1949) (Oscar), “Eu te matarei, querida” (1952), “A favorita de Felipe II (1955), “Não serás um estranho” (1955), “A filha do embaixador” (1957), “O rebelde orgulhoso” (1958), “A noite é minha inimiga” (1959).

Como as irmãs gêmeas em “Espelhos d´alma”, 1946.

Acho que posso dizer que o pique dessa fase próspera foi “Tarde demais” (“The heiress”, 1949), um dos seus papéis mais fortes, provavelmente o mais impressionante de toda a sua carreira. Dirigido pelo mestre William Wyler, adaptando parte do romance “Time Square”, de Henry James, o filme contava a estória de uma moça rica, mas feia, a quem um pai rigoroso (Ralph Richardson) e um pretendente ambicioso (Montgomery Clift), cada um a seu respectivo modo, ensinam a ser cruel.

Infelizmente, depois desse ápice profissional não veio nada mais brilhante. Na verdade, nos anos sessenta e adiante, Olivia fez cada vez menos filmes, e passou a atuar um pouco mais em teatro e mais ainda em televisão. Em que pese ao seu sempre superior desempenho, filmes, por exemplo, como “A dama enjaulada” (1964), ou “Com a maldade na alma” (1964), não acrescentam muito a uma carreira de êxitos passados. Melancólica, sua derradeira aparição na tela foi em “O quinto mosqueteiro”, película esquecível de 1979.

Sobre o tema da efemeridade da fama, é a própria Olivia quem diz: “Gente famosa acha que tem que ficar eternamente na crista da onda, sem entender que isto é contra todas as regras da vida. Você não pode estar no topo o tempo todo: não é natural.”

Pode ser, mas, para mim, ainda hoje Olivia de Havilland está no topo.

 

Em tempo: este texto adapta matéria já publicada neste blogue, quando a atriz completou cem anos, em 2016.

Há oitenta anos

30 abr

Alguns críticos e historiadores defendem a ideia de que 1939 teria sido o ano dourado do cinema clássico. Será que foi mesmo? Vamos revisar os filmes e então decidir.

Se for pelos doze mais conhecidos, aqueles de que ainda hoje – oitenta anos depois – a gente se lembra, parece que a resposta é afirmativa.

Seguindo este critério da memorabilidade, me parece que o primeiro a ser citado deve ser “E o vento levou”, superprodução de David Selznick para a MGM, adaptando o best-seller de Margareth Mitchell sobre a Guerra de Secessão, com Clarke Gable, Vivien Leigh, e Olivia de Havilland no elenco. Ganhou o Oscar do ano, mas aqui destaco a deslumbrante fotografia colorida de Ernest Haller, quando fazia apenas três anos que a cor aparecera no cinema.

O segundo a mencionar só pode ser “O mágico de Oz” (“The wizard of Oz”), que o mesmo Victor Fleming dirigiu, com Judy Garland no papel da jovem sonhadora Dorothy Gale: com seus estranhos companheiros, ela viaja a Oz só pra aprender que “não lugar como o lar”. Musical infanto-juvenil, muito lembrado pela trilha sonora, em especial por “Over the rainbow”.

Suponho que o terceiro a merecer o conceito de memorável seja “No tempo das diligências” (“Stagecoach”) do mestre John Ford, com John Wayne na pele do herói Ringo Kid e Claire Trevor, na da prostituta Dallas. O filme que Orson Welles confessaria, mais tarde, ter visto mais de 40 vezes, antes de rodar a primeira tomada de “Cidadão Kane”.

O quarto seria, acho, “O morro dos ventos uivantes” (“Wuthering Heights”), dirigido por William Wyler, com Merle Oberon e Laurence Olivier nos papéis de Cathy e Heathcliff, nesta adaptação fílmica do romance vitoriano de Emily Brontë.

O quinto lugar dou a “A mulher faz o homem” (“Mr Smith goes to Washington”), emocionante drama político de Frank Capra, com direito a lição de ética e tudo mais. James Stewart é o Mr Smith do título e Jean Arthur, a secretária que “o faz”.

Penso que vocês concordam se eu der o sexto lugar para o “Beau Geste”, de William Wellman, aventura dramática no Oriente, onde Gary Cooper, Ray Milland e Robert Preston desempenham papéis de soldados encurralados num Forte.

Que o sétimo mais lembrado de 1939 seja “O corcunda de Notre-Dame” (“The hunchback of Notre-Dame”), direção de William Dieterle, com Charles Laughton e Maureen O´Hara, nos papéis chave. Outras adaptações do romance de Victor Hugo haveria, mas esta foi a mais marcante.

“Ninotchka”, de Ernst Lubitsch, pode muito bem ser o oitavo mencionado. Com Greta Garbo no papel da soviética que Paris corrompe, e Melvyn Douglas, no do playboy conquistador, a comédia romântica e política ainda hoje arranca gargalhadas.

Vamos dar o nono lugar ao faroeste “Jesse James”, de Henry King, sobre esse mito do Oeste, supostamente injustiçado. No elenco, os galãs da época, Tyrone Power, Henry Fonda e Randolph Scott.

O décimo que seja o melodrama “Duas vidas” (“Love affair”) de Leo McCarey, com Charles Boyer e Irene Dunne como os amantes que se desencontram, ao tentar chegar ao terraço do Empire State Building em data marcada. Estória de amor que o mesmo McCarey refilmaria, em 1957, como “Tarde demais para esquecer”.

Ainda devo citar “Aliança de aço” (“Union Pacific”), de Cecil B. DeMille, com Barbara Stanwyck e Joel McCrea, em meio à luta para ligar as costas Leste e Oeste americanas com a providencial linha de trem.

Fecho em doze com “Juarez”, de William Dieterle, filme baseado em fatos históricos em que, com a força interpretativa de sempre, Paul Muni vive o poderoso líder mexicano.

Suponho que estes doze filmes são suficientes para confirmar a ideia de que 1939 foi mesmo o ano dourado do cinema clássico americano.

Mas, se me for dado mais espaço, cito rapidamente, uns outros tantos:

“Heróis esquecidos” (“The roaring twenties”) de Raoul Wash; “Carícia fatal” (“Of mice and men”) de Lewis Milestone; “A morte me persegue” (“Each down I die”) de William Keighley; “Vitória amarga” (“Dark victory”) de Edmund Goulding; “Gunga Din”, de George Stevens; “O cão dos Baskervilles” (“The hound of the Baskervilles”) de Sidney Lanfield; “Adeus, Mr Chips” (“Goodbye Mr Chips”) de Sam Wood; “Meu reino por um amor” (“The private lives of Elizabeth of Essex”) de Michael Curtiz.

Esqueci algum? Se esqueci é porque não era assim tão memorável…

Olivia

14 jan

 

Quem vai estar completando 100 anos de vida, neste 2016, é Olivia de Havilland. Reclusa e sem contato com a imprensa, a atriz americana mora, tranquila, em Paris, cidade que escolheu como lar desde há muito.

Olivia e Kirk Douglas, também centenário neste ano, são alguns dos poucos ídolos do cinema clássico americano ainda vivos.

A rigor, ela não é propriamente americana. Filha de pais ingleses, ela nasceu em Tóquio, em primeiro de julho de 1916. Ainda pequena seus pais se divorciaram e a mãe mudou-se para a Califórnia, junto com ela e a irmã menor, Joan, que mais tarde se tornaria Joan Fontaine.

Mais lembrada pelo seu papel em "E o vento levou"

Mais lembrada pelo seu papel em “E o vento levou”

Na escola secundária a adolescente Olivia já se interessava por teatro. Em encenação de Max Rheinhardt, esteve na shakespeariana “Sonho de uma noite de verão”, e tão bem se saiu no palco escolar que o diretor da peça a empurrou para a versão cinematográfica homônima (1935), uma produção da Warner Brothers, companhia com a qual ela fechou contrato de sete anos.

A partir daí, foi um filme atrás do outro, inclusive os oito que rodou com um par muito especial, Errol Flynn. Acho que os mais conhecidos da dupla são: “Capitão Blood” 1935), “A carga da brigada ligeira” (1936) e “As aventuras de Robin Hood” (1938). Tão famosa ficou que, em 1939, o todo poderoso produtor David O. Selznick a pediu emprestado a Warner, para o papel da suave Melanie de “E o vento levou”, sua primeira indicação ao Oscar.

De saco cheio dos papéis cor de rosa que a Warner lhe impunha, fez greve contra a companhia e foi punida. Levou o caso à Justiça e ganhou um processo que dava mais liberdade aos atores, e que, de tão importante para a profissão, passou a ser apelidado de “a decisão de Havilland”, pois vários outros atores haviam processado a Warner, sem sucesso.

Com Errol Flynn, em "As aventuras de Robin Hood".

Com Errol Flynn, em “As aventuras de Robin Hood”.

É que, ao contrário do que sugere a expressão “star system”, os atores e atrizes da época, anos quarenta, sofriam pressões dos estúdios e, em muitos casos, eram obrigados a aceitar termos de contrato limitativos, o que, ironicamente, parecia justificar a maldosa boutade do venenoso Alfred Hitchcock, segundo a qual “atores são gado”.

Agora com mais liberdade de ação, Olivia passou a escolher papéis a dedo e o resultado não demorou a aparecer, para a crítica e para o público. Dessa fase mais madura, entre 1946 e 1960, saíram dramas, policiais, romances, e até um western. Eis alguns desses títulos, três dos quais lhe deram dois Oscar de melhor atriz e uma indicação:

“Devoção” (1946), “Só resta uma lágrima” (1946) (Oscar), “Champanhe para dois” (1946), “A cova da serpente” (1948) (indicação), “Tarde demais” (1949) (Oscar), “Eu te matarei, querida” (1952), “A favorita de Felipe II (1955), “Não serás um estranho” (1955), “A filha do embaixador” (1957), “O rebelde orgulhoso” (1958), a noite é minha inimiga” (1959).

No noir "Espelhos d´alma" em papel geminado.

No noir “Espelhos d´alma” em papel geminado.

Acho que posso dizer que o pique dessa fase próspera foi “Tarde demais” (“The heiress”, 1949), um dos seus papéis mais fortes, provavelmente o mais impressionante de toda a sua carreira. Dirigido pelo mestre William Wyler, adaptando parte do romance “Time Square”, de Henry James, o filme contava a estória de uma moça rica, mas feia, a quem um pai rigoroso (Ralph Richardson) e um pretendente ambicioso (Montgomery Clift), cada um a seu respectivo modo, ensinam a ser cruel. Com certeza, um dos mais belos e contundentes dramas que Hollywood já foi capaz de engendrar. Confesso, um dos meus filmes mais amados em todos os tempos e espaços.

Infelizmente, depois desse ápice profissional não veio nada mais brilhante. Na verdade, nos anos sessenta e adiante, Olivia fez cada vez menos filmes, e passou a atuar um pouco mais em teatro e mais ainda em televisão. Em que pese ao seu sempre superior desempenho, filmes, por exemplo, como “A dama enjaulada” (1964), ou “Com a maldade na alma” (1964), não acrescentam muito a uma carreira de êxitos passados. Melancólica, sua derradeira aparição na tela foi em “O quinto mosqueteiro”, película esquecível de 1979.

Primeiro Oscar por "Só resta uma esperança"

Primeiro Oscar por “Só resta uma esperança”

Sobre o tema da efemeridade da fama, é a própria Olivia quem diz o seguinte – e sua frase ficou registrada pela imprensa : “Gente famosa acha que tem que ficar eternamente na crista da onda, sem entender que isto é contra todas as regras da vida. Você não pode estar no topo o tempo todo: não é natural.”

Pode ser, mas, para mim, ainda hoje Olivia de Havilland é famosa. Figura mais adorada na minha privada galeria de ídolos.

Em tempo: como antropônimo inglês, o termo Olivia não leva acento.

Papel decisivo e segundo Oscar: "Tarde demais" (1949).

Papel decisivo e segundo Oscar: “Tarde demais” (1949).