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O esgrimista

20 maio

Com assinatura do finlandês Klaus Härö, o filme “O esgrimista” (“Miekkailija”, 2015), disponível em dvd, mistura bem veracidade histórica e drama pessoal, e pode ser visto com prazer.

Sigamos as linhas mestras de seu roteiro. A estória começa na Estônia do início dos anos cinquenta, quando este país ainda fazia parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. À pequena cidade de Haapsalu chega o desconhecido e meio arisco Endel Nelis para assumir, na Escola local, o posto de professor de esportes.

Apesar de mal recebido por uma direção desconfiada, logo ele funda o clube da esgrima, ao qual acorrem alunos das várias séries, fascinados por um esporte que oscila entre a destreza da luta e a elegância da dança. Dadas e recebidas com rigor e dedicação, as aulas fazem efeito e daí a pouco, a equipe esgrimista já está bem consolidada. Sempre antipática ao novo professor, a direção da escola tenta extinguir a esgrima do currículo, porém, o corpo docente em peso, considerando o interesse evidente do alunado, vota pela permanência.

Poster do filme, com o título internacional, "The fencer"

Poster do filme, com o título internacional, “The fencer”

O impasse aparece no dia em que divulga-se o grande Evento Nacional de esgrima competitiva, a acontecer em data próxima, em Leningrado. Entusiasmados, os alunos querem participar, mas, o professor Endel, não. Ele é, como se diz nos resumos de “movie guides” americanos, “a man with a past” (´um homem com um passado´).

Ocorre que, ao tempo em que, antes dos soviéticos, a Estônia encontrava-se sob domínio alemão, Endel, como muitos outros jovens de sua faixa etária, fez, inocentemente, parte do exército daquele país. Com a vitória dos Aliados, esses jovens passaram a ser perseguidos como inimigos da pátria: muitos foram enviados a campos de concentração na Sibéria por Stalin, e Endel, miraculosamente, escapara, mudando então o sobrenome de Keller para o atual Nelis.

Sob o duro regime stalinista, retornar a Leningrado era um perigo que ele não podia correr e, por outro lado, não participar da competição nacional de esgrima seria uma atitude que os alunos, sem conhecer os seus motivos, iriam repudiar. Ir a Leningrado como técnico da equipe e ser preso, ou ficar e decepcionar uma turma de adolescentes tão estimulados ao esporte?

o esgrimista 2

O que torna o dilema maior é que, sendo quase todos os alunos da escola órfãos da guerra, o professor Endel havia se tornado, para eles, querendo ou não, uma espécie de ´figura paterna´, que supria o afeto inexistente em casa. Na estação de trem, no momento da partida, é isso que lhe diz a namorada, também professora, querendo argumentar em favor de sua desistência. A resposta de Endel é, contudo, inequívoca: ‘por isso mesmo, eu tenho que ir´. E vai.

Durante a realização do torneio, já chegada ao Ginásio a polícia que deverá levar o subversivo treinador do time de Haapsalu, o diretor da escola, a sós com ele num pé de escada, ainda tem a surpreendente fineza de lhe oferecer a fuga. Diz ele, “a URSS é um país enorme”, o que Endel ouve, treme e cala. Mas não foge.

A estória do desportista estoniano Endel Nelis (1925-1993) é um caso real, historicamente datado, porém, não quer isso dizer que o filme de Härë lhe tenha sido subalterno.

A simples forma de narrar evidencia a invenção que está nos enquadramentos, na montagem, na fotografia, no uso da música, nas interpretações, nas escolhas dos cenários, enfim, em toda a mis-en-scène. Com certeza, a própria roteirização apelou para lances que transcendem a estória real, modificando-a ou lhe fazendo acréscimos.

Aulas de esgrima, para crianças...

Aulas de esgrima, para crianças…

Coisas assim ficam claras na caracterização de pelo menos dois dos alunos de Endel, a irrequieta Marta e o contido Jaan. É Marta quem suscita as aulas de esgrima ao espiar o professor em seu exercício solitário; é ela quem ganha dele o amuleto e é ela quem o devolve num momento de decepção; é dela, mera suplente no jogo de Leningrado, de quem dependerá o sucesso do time. Já Jaan é o único aluno que divisamos em casa; o único que tem um avô entusiasta da esgrima; o único que perde um ente querido durante o período do curso; e o único que contesta o talento do professor em um momento de crise: “Você só está aqui porque não é bom”, diz ele, referindo-se à pequenez de Haapsalu, em oposição à grandeza de Leningrado”.

Pode-se perfeitamente dizer que “O esgrimista”, como tantos outros, é só mais um filme sobre a relação professor/aluno, ou sobre o espírito de grupo esportivo que leva à vitória, ou sobre a dureza do regime totalitário…. mas, acontece que o cineasta Härë soube juntar bem os três temas e nos oferece uma obra singela, mas convincente e honesta.

Enfim, o espectador pode sair dele com a sensação de “já ter visto esse filme”, porém, – suponho eu – também sairá com a sensação de ter gostado da “revisão”. Eu gostei.

Na estação, a caminho de Leningrado.

Na estação, a caminho de Leningrado.

 

Malala

14 abr

A estória de Malala Yousafzai eu vinha acompanhando pela imprensa, mas agora – ainda bem – sai o belo documentário “Malala” (“He named me Malala”, 2015), do americano Davis Guggenheim, sobre sua vida, suas crenças, sua luta.

Essa adolescente paquistanesa que acredita que a educação pode salvar o mundo nasceu na pequena Mingora, aldeia no vale Swat, ao norte do seu país, em 1997. Ainda na barriga da mãe, o pai lhe contava a estória dessa heroína do passado, uma certa mulher afegã, chamada Malalai, que, nova Joana Darc, estimula os soldados derrotados de seu país a voltar a enfrentar os exércitos britânicos na guerra anglo-afegã do século XIX; luta junto com eles, os conduz à vitória, mas morre no campo de batalha, e se torna um símbolo de resistência.

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O pai não só lhe conta a estória várias vezes, como lhe dá o mesmo nome da heroína, ou quase o mesmo: Malala. Sob a influência e proteção do pai, a pequena Malala frequenta a escola, num país em que meninas não tinham esse direito. O que é facilitado pelo fato de que o pai é o dono da escola. Tudo vai indo bem até o dia em que o Talibã invade a região e começa a campanha terrorista contra a educação feminina. Primeiro são pregações em microfones; depois ação: centenas de escolas são explodidas.

É nesse tempo que a brava Malala, então com 12 anos de idade, usando pseudônimo, passa a alimentar um blogue para a BBC de Londres, onde relata as atrocidades talibãs. O blogue mais tarde é descoberto pelo Talibã e o conflito, já grosso, se torna pessoal. O resultado, já se sabe: em 9 de outubro de 2012, os terrotistas talibãs atacam o ônibus que conduz Malala e suas colegas de turma à escola, e a atingem com uma bala na cabeça.

Meses no hospital, a adolescente é salva, ficando com as sequelas esperadas: o ouvido esquerdo meio surdo e o lado direito da boca meio torto. Felizmente, a mente é a mesma e o espírito de luta ainda mais aguçado. Como ela dirá mais tarde para o mundo ouvir: “Fraqueza, medo e desespero morreram; força, poder e coragem nasceram”.

Malala e o pai...

Malala e o pai…

Inevitavelmente, a família ganha asilo britânico, e, a partir de então, Malala, residente em Birmingham, passa a ser uma figura internacional. A imprensa a assedia, as autoridades a recebem, e os institutos a homenageiam. Uma certa frase sua passa a ser repetida e promete ficar como das mais citadas no século XXI: “Um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”. Em 12 de junho de 2013, dia do seu aniversário de 16 anos, discursa na ONU, e, no ano seguinte, recebe o Prêmio Nobel da Paz. Hoje em dia, mantém um Fundo internacional com o objetivo de ajudar na educação de crianças do mundo todo.

Montado em cima de material de arquivo, com entrevistas com a família e outros depoentes, o documentário faz com frequência recurso à técnica da animação, uma forma criativa e poética de ilustrar conceitos e/ou queimar etapas narrativas. Por exemplo, a aventura da heroína afegã, já referida, é todo narrado em imagens animadas, bem como os episódios mais marcantes no passado dos pais de Malala. Sem coincidência, muitas dessas sequências animadas se referem a situações em que os personagens precisaram discursar em público, e então, suas vozes são representadas por ondas brancas que escapam de suas bocas e atingem as multidões. Associado, como se sabe, ao mundo infanto-junvenil, o recurso da animação reforça o tema e eleva o drama.

O irmão caçula depondo...

O irmão caçula depondo…

Indagado sobre que pessoa teria atirado em Malala, o pai responde convicto que “não foi uma pessoa; foi uma ideologia”.  A frase diz tudo, mas, por sorte e talento do diretor, o filme não está, como se poderia supor, empanturrado de “palavras de ordem”. Ao contrário, a melhor coisa do documentário de Guggenheim é não mitificar a protagonista. O que se vê é uma garota comum, como outra qualquer, simples, brincalhona, tímida, sonhadora, e preocupada com suas tarefas escolares, pois, por famosa que seja, ainda hoje é uma estudante. Naturalmente, uma estudante inconformada com as estatísticas, que lhe dizem que 57 milhões de crianças, no planeta, ainda não têm acesso a escolas.

Como santo de casa não faz milagre, o filme não deixa de mostrar compatriotas de Malala, dela falando mal. Um, por exemplo, culpando-a por ter abandonado o país. Sem lembrar, claro, que os Talibãs haviam jurado que a matariam se ela voltasse. Malala sabe disso e o diz ao diretor do filme. Já que asilo político também é exílio, ela aproveita para expressar sua saudade de casa, seu desejo de rever o belo vale Swat, ainda que fosse só por uma vez.

Enfim, um filme singelo, poético e honesto, para nos fazer acreditar que a humanidade tem conserto… e futuro. Por várias razões, recomendo.

Foto com a família...

Foto com a família…

Palavras e imagens

17 mar

Fazia tempo que não ouvia falar de Fred Schepisi, aquele cineasta australiano que despontou lá pelos anos oitenta e logo chamou a atenção da América.

Dele lembro bem de Um grito no escuro (1988), a estória da uma mulher cujo bebê é, durante um piquenique, devorado por um dingo, e que é acusada pelo acidente, papel dramático de uma ainda não tão famosa Meryll Streep. Mais ou menos da mesma época são outros filmes seus também interessantes como: Roxane, A casa da Rússia e A teoria do amor.

Agora nos chega esse Palavras e imagens (Words and pictures, 2013), para se perfilar no rol dos filmes sobre sala de aula.

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E a sala de aula é bem americana. O nível é o secundário, mas os alunos são todos bem dotados e os professores, sortudos, não têm os problemas de disciplina que, por exemplo, tiveram os pobres mestres de Sementes da violência (1955) ou de Infâmia (1961). Sim, a coisa é muito mais para Sociedade dos poetas mortos

A trama toda é montada em cima de uma dicotomia docente bem particular: um professor de inglês e uma professora de arte. Ele, arrogante e agressivo, defende a primazia da palavra sobre a imagem; ela, igualmente arrogante e agressiva, defende a primazia da imagem.

Uma imagem vale por mil palavras, ou, uma palavra vale por mil imagens? A guerra está declarada e os coitados dos alunos e alunas são praticamente obrigados a tomar partido e pegar em armas na defesa de um ponto de vista do qual nem têm essa convicção toda.

Palavras...

Palavras…

No meio do fogo cerrado, o que acontece? Inevitavelmente, os dois inimigos mor se descobrem apaixonados um pelo outro e a briga termina na cama. Sim, tal e qual está nos roteiros das velhas comédias românticas do passado que a Hollywood clássica fez aos montes…

Mas esperem: se, no enredo, este foi porventura uma espécie de “casamento” literal entre palavra e imagem, o filme seria muito curto, se ficasse só nisso.

Pois é, depois do ápice amoroso tinha que vir o turning point que desse existência à segunda metade da estória: numa crise de humildade, o prepotente e cheio de si professor revela à amada que o poema enviado à revista da Escola, para publicação, não era de sua autoria.

Entre artistas, o fake é um crime: a hostilidade entre o casal é imediatamente retomada e, de sua parte, o ´forlorn´ professor também retoma o que vinha atrapalhando seu desempenho profissional havia tempos: o alcoolismo.

Imagens...

Imagens…

Eu disse ´forlorn´ porque é o termo arcaico que a professora usa para seu colega e este, como sempre faz, se apressa em fornecer a sua etimologia e sentido original de ´abandonado´, ´perdido´, ´miserável´. As explicações etimológicas são um hábito seu, que, infelizmente, o espectador monoglota vai encontrar dificuldade em apreciar, já que as legendas em português não dão conta das acepções dos termos ingleses e muito menos de suas idades. Vocábulo medieval, `Forlorn´, por exemplo, é simplesmente traduzido como ´infeliz´, como se se tratasse de uma palavra de uso atual.

Voltando à querela básica, a esperada segunda e definitiva reconciliação só acontece com a ajuda dos alunos, os quais promovem, num evento de final de curso, o matrimônio entre palavra e imagem, agora de modo didático e público. Como é comum acontecer em “filmes escolares”, a resolução do roteiro é uma cena com discursos repletos de sábias considerações filosóficas sobre a diversidade dos meios e o bom senso de saber lidar com ela.

Naturalmente, é interessante que o defensor da palavra seja um homem e que justamente uma mulher defenda a imagem. A dicotomia deixa pano para as mangas aos pensadores dos gêneros, especialmente os que ainda lidam com a idéia de que, historicamente, os machos seriam mais logopáicos, isto é, mais racionais, cerebrais, objetivos, e as mulheres mais fanopáicas, ou seja, mais imagéticas e intuitivas. Por aí.

Julette Binoche e Clive Owen: fanopeia vs logopeia

Julette Binoche e Clive Owen: fanopeia vs logopeia

Uma coisa é certa: os atores que desempenham a dupla são muito bons e dão o melhor de si para enfatizar a dicotomia tematizada, e, ao mesmo tempo, a sua problematização: Clive Owen é o professor de língua e literatura Jack Marcus, que vive explicando a si aos outros, a etimologia das palavras e seu potencial poético, e Juliette Binoche é a professora de artes Dina Delsanto, que, insatisfeita com sua própria produção plástica, critica os alunos com a dureza de quem estivesse fazendo autocrítica.

No mínimo, um filme inteligente e instrutivo, que vai inquietar meio mundo de cinéfilos, especialmente os que, mais de perto, lidam com literatura e/ou com pintura. Sem dúvida, um daqueles filmes cuja qualidade estética será sempre aumentada pelos olhos – e ouvidos – dos espectadores. Já o antevejo circulando em universidades, em cursos de currículos ligados ao seu temário.

Fora desse contexto, não sei até quando será lembrado, pois, como cinema em si, creio eu que fica apenas no nível mediano dos filmes de seu gênero – o chamado ´filme sobre artes´.

De qualquer forma, não posso deixar de recomendar.

Tarja branca

24 jul

Que brincar é essencial à vida das crianças todo mundo sabe. Que também o seja à vida dos adultos, poucos sabem… ou acreditam. É do que trata o documentário brasileiro “Tarja branca – a revolução que faltava” (Cacau Rhoden, 2014), em cartaz na cidade.

É claro que o título é uma ironia com os remédios chamados de ´tarja preta´. E, neste sentido, tarja branca seria a brincadeira que nos livra das doenças. Das doenças que nos levam às tarjas pretas.

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Recolhendo depoimentos de pessoas que trabalham, ou trabalharam, em atividades as mais diversas – algumas famosas, outras, nem tanto – o autor do filme montou um painel de opiniões sobre a pulsão lúdica na natureza humana. Ficasse nisso e “Tarja branca” seria um filme convencional, manjado, talvez chato. Para fugir à convenção dos documentários tradicionais, o seu autor inventou uma fórmula própria de abordar os seus depoentes, que pode ser resumida na tríade: verbo, conceito, imagem.

Assim, tem-se primeiramente a recordação, em palavras, das brincadeiras infantis dos entrevistados; depois disso vem a discussão de questões conceituais sobre o gesto de brincar, seu significado e seu papel na vida infantil e adulta; e, por fim, em terceiro lugar, o retorno à infância dos entrevistados, agora de forma visual, através da remissão a fotos desses entrevistados quando eram crianças, sem dispensar suas respectivas interpretações dessas fotos.

Cena do filme de Cacau Rhoden

Cena do filme de Cacau Rhoden

Cada depoente, cada um em três turnos, recobre as três etapas citadas, o que concede ao filme uma estrutura narrativa extremamente simétrica e – no bom sentido da palavra – fechada, mais fechada ainda, na medida em que as conceituações, sem exceção, convergem ideologicamente para uma mensagem inequívoca: brincar é essencial a todos, e, consequentemente, não brincar é nocivo à saúde mental e física… do indivíduo e da sociedade.

É verdade que às vezes a segunda etapa, a da conceituação, é expressa através de confissões biográficas, como a daquele senhor, ao dizer que, trabalhando em uma agência bancária, passou vinte e cinco anos carimbando mecanicamente cheques devolvidos, até descobrir que podia simplesmente abandonar o Banco… e partir para uma ocupação bem mais criativa. Ou pode ser expressa de modo metafórico, como foi o caso daquela senhora que, observando garotos empinando pipas e premiando as mais elevadas, aprendeu que brincar na vida era “usar a corda toda”.

Depoimentos: Antônio Nóbrega.

Depoimentos: Antônio Nóbrega.

É verdade também que, em dado momento do filme, os esforços de conceituar conduziram – não sei se casualmente ou de propósito – a uma ideia mais genérica e menos pessoal, segundo a qual o Brasil seria um país ´brincalhão´ e que esse aspecto do nosso perfil antropológico deveria ser considerado, respeitado e preservado. Imagens de nossos folguedos são usadas como ilustração.

Outro dado que não escapou às discussões teóricas foi que, em alguns casos, certas profissões permitem o usufruto da brincadeira, e não apenas as profissões artísticas, mas também outras mais científicas, como – uma depoente a cita – a engenharia.

Os entraves à ludicidade na vida adulta, segundo a opinião de alguns dos depoentes, não ficam por conta apenas da descrença dos adultos, da desistência de permanecerem crianças, mas também, do sistema que organiza a sociedade moderna. O capitalismo, onde “negócio” é a negação do “ócio”, seria, nessa perspectiva, o grande vilão…

José Simão: um dos depoentes.

José Simão: um dos depoentes.

Engraçado, vendo “Tarja branca” me lembrei de um filme muito sério que conta a estória de um homem rico e poderoso que, ao morrer, pronuncia uma palavra misteriosa.

A palavra é ´rosebud´ e os outros personagens do filme gastam a projeção inteira tentando descobrir o que ela significava, e ninguém descobre. Nós, espectadores, por sorte, bem no finalzinho do filme, descobrimos: era o nome de um trenó com que Charles Foster Kane, em criança, brincava (grifo meu), antes de conquistar a sua riqueza e o seu poder. Ou seja, a mensagem inteira de “Cidadão Kane” (Orson Welles, 1941) parece ser esta: não há, em toda a existência humana, nada mais importante que a infância e sua natureza lúdica.

Por tabela, isso também me fez lembrar da chegada do próprio Orson Welles a Hollywood, com vinte e quatro anos de idade, na iminência de rodar o seu primeiro filme. Eis o que, na ocasião, disse ele do cinema: “é o melhor brinquedo (grifo meu, de novo) que a humanidade já inventou!”.

Pois é, mesmo sem nada ter a ver com “Cidadão Kane” ou Orson Welles, ocorre-me que o filme do jovem diretor Cacau Rhoden também é, e foi confeccionado para ser, um brinquedo. E como todo brinquedo, de grande utilidade.

País brincalhão: folguedos brasileiros

País brincalhão: folguedos brasileiros

 

 

 

 

Os quatrocentos golpes

18 abr

1O melhor na programação do Festival Varilux de Cinema Francês foi, com certeza, a exibição da cópia restaurada do clássico de François Truffaut, “Os incompreendidos” (“Les quatre cents coups”, 1959), filme que historicamente inaugurou o movimento de cinema a que se deu o nome de Nouvelle Vague.

Achei ótimo que a sessão tenha sido no domingo à tarde, pois foi numa tarde de domingo que vi o filme de Truffaut pela primeira vez… meio século atrás, puxa vida, e é dessa primeira sessão que guardo minhas melhores impressões. Em que cinema o vi? No Cine Brasil, ali na Guedes Pereira, em frente ao antigo Grupo Tomás Mindelo.

Lembro que saí do cinema perturbado. Primeiramente era algo diferente do modelo hollywoodiano a que eu estava acostumando, na maior parte dos casos, filmes de finais felizes, principalmente se o assunto fosse crianças. Em segundo lugar, eu era o próprio Antoine Doinel da estória contada. Bem entendido: nunca fugi de casa, nem roubei máquinas de datilografia, mas, como não me identificar com esse garoto que quase tinha a minha idade, e não tinha a compreensão (Conferir título brasileiro) de ninguém ao redor de si? Esse garoto que dava menos golpes (Conferir título original: ´Os quatrocentos golpes´) do que os recebia, na escola, na família e na sociedade.

Hoje todo mundo sabe que Truffaut foi biográfico ao rodar “Os incompreendidos”, porém, o que interessa é que fez um dos primeiros filmes, na história do cinema, a enfrentar o problema da adolescência (quase infância) sem dourar a pílula.

Furtando uma máquina de datilografia

Furtando uma máquina de datilografia

Vejam a tocante cena final, que, aliás, nunca saiu de minha cabeça, desde a sessão do Brasil. Fugido da Casa de Reabilitação, o garoto corre sem destino pelos arredores, até se deparar com o mar que ele nunca tinha visto. Diante da imensidão das águas, ele pára e, sem saber para onde ir mais, se desloca de novo, agora em nossa direção, quando a câmera congela a imagem do seu rosto desencantado e… FIN. O que vai ser de Antoine Doinel? Será que vai, como Truffaut, encontrar o pai num estranho (André Bazin, a quem o filme é dedicado) e assumir a vida de cinéfilo brilhante? Ou vai voltar à prisão e seguir uma carreira de marginal? Num miniconto brincalhão que escrevi para homenagear o filme (Cf o livro “Um beijo é só um beijo”) imagino, esperançoso, a primeira hipótese.

Para quem não conhece, reproduzo um trecho do miniconto, como se perceberá, todo narrado em primeira pessoa verbal, a voz do protagonista Doinel:

Morávamos num apartamento modesto, sem elevador e com três lances de escada que eu era, toda noite, obrigado a descer e subir para depositar o lixo lá embaixo, e, imposta por minha mãe, essa obrigação era uma das formas que ela tinha de expressar seu desamor. E então, depois daquele dia em que a avistei se beijando com seu amante, em recinto público… De início, temeu que eu fosse contar a meu pai e ficou uns tempos se desdobrando em amabilidades comigo, para depois retornar a uma hostilidade ainda mais dura.

Não sei se era esse clima ruim em casa que atrapalhava o meu desempenho na escola. Não me entendia com os professores e, logo cedo, passei a gazear aulas para vagabundear pelas ruas. Quando tinha grana, me metia no escurinho de algum cinema e via um filme atrás do outro. Foi nessa época que criei o hábito de furtar as fotos dos filmes, expostas nas paredes dos cinemas, e colecioná-las.

Em fuga e sem destino

Em fuga e sem destino

Uma vez disse na escola que tinha faltado porque minha mãe havia falecido, e quando ela apareceu lá, vivinha da silva, foi um horror. Essas escapadas foram se tornando cada vez mais freqüentes, até que fugi de casa de vez e passei a morar, às escondidas, na casa de um colega de turma tão desajustado quanto eu. Um dia roubamos – nem lembro mais para quê – uma máquina de datilografia da repartição de meu pai e, ao tentar devolvê-la, fui pego. Por causa desse roubo, fui parar no Reformatório de Menores, de onde um dia fugi e, sem saída, concluí o itinerário de minha fuga no mar. Quando não tinha mais para onde correr, fui capturado e cumpri a pena.

Hoje, já de maior, subempregado, vivo me enfiando, toda vez que posso, numa sala de projeção. Nunca parei de furtar fotos de filmes, e minha coleção já é enorme. Dei em freqüentar cineclubes, pois não há nada que ame mais que o cinema. Na verdade, meu sonho secreto é ser cineasta. Bem que já é tempo de minha sorte mudar. Cinéfilo como sou, fico imaginando que eu seria descoberto por algum figurão do mundo do cinema, que me daria apoio e chance de desenvolver meus potenciais. E, aí, eu lutaria por recursos para fazer um filme. Poria tanto amor em cada tomada, em cada plano, em cada posição de câmera… Não iria querer ganhar o Festival de Cannes, nem fundar um novo movimento de cinema em meu país; iria só querer expressar meu amor pelo cinema e contar uma estória, a minha.

Seria talvez um filme triste, mas honesto e humano, profundamente humano.

Por trás das grades

Por trás das grades

Antes da televisão

20 out

O rádio foi sempre um elemento presente no cinema, mas, duvido que homenagem maior lhe tenha sido feita do que a que recebe no filme de Woody Allen, “Radio Days” (1987), no Brasil chamado de “A era do rádio”.

Entre saudosista e irônico, biográfico e imaginativo, o filme conta, não tanto uma estória, mas um apanhado de episódios que giram em torno de uma família pobre do bairro judeu de Rockaway, Nova York, mais ou menos num périplo que vai de 38 a 44. Todo narrado em voz over pelo próprio Allen, “Radio Days” tem estatuto de flashback, e um roteiro que é todo cerzido pelas muitas canções da época. De Cole Porter a Glenn Miller, passando por Ary Barroso e Carmem Miranda, a trilha, sempre diegética e determinante dos episódios narrados, concede ao filme um certo jeitão de musical.

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 Mas, claro, nem só de música vive o filme – uma força decisiva vem da capacidade de persuasão da palavra oral, no caso, aquela que se escuta no rádio caseiro, seja o assunto as incríveis aventuras do Vingador Mascarado, ou o diário show do café da manhã das socialites, ou porventura a reportagem sobre uma catástrofe local, como aquela da menina soterrada. O personagem central é esse garoto (de 8 a 12 anos), filho único, cuja mãe abomina a vida que leva, cujo pai esconde a profissão que tem, e há ainda uma tia solteirona especialmente infeliz nas relações amorosas. Aliás, os dois únicos personagens a ganharem um relativo desenvolvimento narrativo são essa Tia Bea (Dianne Wiest), com seus inúmeros pretendentes, e Sally, a vendedora de cigarro (Mia Farrow) que, depois de quebradas de cara, alcança, por vias improváveis, um certo estrelado no rádio. Os episódios narrados teriam sido testemunhados pelo garoto,- uma espécie de alterego de Allen – que os viu de perto, dentro de casa, ou no bairro, ou que simplesmente deles ouviu falar, ou melhor ainda, com a ajuda de Allen, os inventou, caso bem óbvio da narração radiofônica do jogador de beisebol que, por acidente, foi perdendo partes do corpo.

Em muitos casos esses “episódios” estão possuídos de uma certa autonomia narrativa, como se valessem por “curtas” dentro de um longa, como se dá com o acidente que abre o filme: dois ladrões em ação atendem o telefone e – surpresa – tratava-se de um programa de rádio para os ouvintes dizerem qual música está sendo executada no momento: o ladrão conhece as três músicas, dá as respostas e deixa o enorme prêmio para a família roubada. Outro episódio completo que vem ao caso é o dos garotos que espiam a vizinha nua, e na semana seguinte, a belezona lhes aparece como professora da escola, e um deles, acometido de culpa judaica, deduz que eles e seus colegas vão todos para o inferno.

Patéticos ou líricos, alguns desses episódios também servem para demarcar a época, como o incidente com o namorado de Bea (a tia solteirona), que a abandona dentro do carro num lugar ermo, com medo da invasão de ETs, transmitida pelo rádio – a gente sabe – na voz fake de Orson Welles em 1938. Outra marcação evidente é a do anúncio radiofônico do ataque a Pearl Harbor, interrompendo um número musical. Vejam que o filme termina com a comemoração do ano novo de 1944, e o faz muito bem, pois – também sabemos – logo depois disso um novo meio, a televisão, começaria a tomar conta dos lares americanos, empurrando o rádio para uma posição secundária.

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Um mérito especial está no modo como, na concepção dos episódios, o roteiro combina o público e o privado; é o caso da surra que o pai está dando no garoto, no exato momento em que uma rádio local transmite o triste caso da menina que caiu numa cratera e, depois de muitos esforços dos bombeiros, não pôde ser salva e morreu: é a comoção com o fato que vai transformando aos poucos as pancadas paternas no corpo do menino em gestos de extremo carinho.

Uma coisa a notar é como, sendo o rádio o tema, o filme tem o cuidado de não tratar de cinema, quando se sabe que a época enfocada era também a áurea da sétima arte. Para não misturar as bolas, os personagens quase não falam de cinema, uma das poucas exceções sendo aquela cena na praia em que os três garotos, falando de suas musas da tela, ouvem um deles mencionar Dana Andrews, como se se tratasse de uma mulher. Resta observar a força da imagem num filme sobre uma mídia oral como o rádio, com o detalhe de, às vezes, a imagem chegar a substituir a oralidade desse meio, conforme acontece no relato do jogador de beisebol, por exemplo. No mais, a fotografia em si mesma, tanto fiel à época quanto criativa, é um item todo especial, com os tons frios (tendentes a azul) escolhidos para a paisagem e os quentes (inclinados ao vermelho) para os interiores.

Enfim, “A era do rádio” pode não ser um Woody Allen maior, mas, com certeza, é um dos mais saborosos.

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A separação

15 mar

Simin, a mulher, quer deixar o Irã supondo poder dar à filha uma educação melhor. Nader, o marido não concorda, pois tem, em casa, um pai com Alzheimer que precisa de seus cuidados. Simin e Nader são casados há quinze anos e, agora, em pleno tribunal, enfrentam a alternativa do divórcio.

Em cartaz na cidade, “A separação” (Asghar Farhadi, 2011) – Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano – abre-se com esta sequência e a impressão de que o restante do filme vai ser um bate-boca sem fim entre os dois cônjuges.

Não é. Consumada a separação, passamos a acompanhar de perto a vida diária de só um dos cônjuges, aquele com quem a filha fica, o marido, que se vê obrigado a contratar uma pessoa para ajudá-lo a cuidar do pai enfermo.

Na verdade, a câmera vai aos poucos se desviando do empregador e se fixando na empregada, que carrega tantos problemas quanto. Essa mulher de aspecto doentio tem uma filha pequena, mora longe, o marido está desempregado e ela está grávida. Sem contar que o serviço a fazer é inadequado – por exemplo, quando o seu paciente urina nas calças, ela precisa telefonar para orientadores religiosos para saber se, pelos preceitos do Corão, é pecado, ou não, trocar as suas calças.

Quando estamos ficando acostumados ao tempo de tela doado a essa empregada, eis que o patrão retorna com toda força, ponto a partir do qual, outros personagens ganharão seu tempo, inclusive a esposa, parcialmente sumida da tela.

Ocorre que, ao chegar um dia em casa com a filha, Nader  encontra o pai idoso desfalecido, caído ao chão. A empregada sumira e ao voltar não oferece justificativas satisfatórias para a ausência e, por isso, é expulsa do apartamento, com um ligeiro solavanco, e o caso vai parar na justiça.

Não interessa contar o resto da estória, bastando dizer que as coisas – do ponto de vista jurídico e emocional – se complicam cada vez mais para todos, e boa parte do restante da narrativa se passa em tribunais, perante juízes que ouvem e fazem anotações ou prescrevem sentenças.

Equilibrando-se entre a superfície e o abismo, o roteiro vai nos relatando os muitos e contraditórios desdobramentos do caso (aborto provocado por violência, acusação de crime, falso testemunho, sonegação de informação judicial, etc) com seus detalhes viciosos de uma verdadeira reação em cadeia.

Um mérito, com certeza, está na polifonia da situação descrita, naquele sentido bakhtiniano de multiplicidade de vozes em jogo, cada uma com sua verdade. Sim, acompanhando de perto cada caso individual, o espectador compreende os personagens, e tende a lhes dar razão, cada um na sua vez, sem que isso retire as razões dos outros. As atitudes são por vezes ambíguas, mas isto porque a vida é ambígua. Só a miopia da Lei é monofônica e unilateral, e por isso mesmo, não é a Lei que tem a última palavra, no desenlace.

“Não foi nada grave” diz um dos personagens a certa altura. “Nada grave?” retruca o outro, indignado. “Bem, tornou-se grave”, corrige aquele primeiro. “A separação” gira em torno de miudezas familiares que se avultam e o impressionante é que, com essa matéria supostamente simplória (homem não aceita descaso para com o pai enfermo, mulher se ofende com indiferença para com a educação da filha, empregada se indigna com tratamento violento…) produza um drama de proporções quase trágicas – coisa que Hollywood desaprendeu a fazer há muito tempo.

Outro ponto alto é a construção dos personagens – naturalmente ajudada pela extrema qualidade das interpretações – todos verticais e convincentes, mas um pouco diversos dos padrões ocidentais. Vejam o caso de Simin e Nader: divorciam-se por discordar em um ponto chave e se mantêm firmes em suas posições até o fim, porém, o divórcio não os conduz à baixaria de acusações pessoais que marcaria qualquer filme moderno sobre o assunto. Foi a censura que impediu isso? Se foi, essa censura foi muito bem administrada e deu bons frutos do ponto de vista estético.

Completamente aberto (com quem vai ficar Termeh, a filha adolescente do casal, depois de tudo passado?), o final tinha que ser assim. Inevitavelmente, a decisão a ser tomada pela adolescente adquire um certo valor judicativo que a direção – coerente com o sentido de polifonia já referido – quis evitar. Daí a providencial lacuna diegética da última cena (a tela escurecendo e o casal, conosco, esperando a decisão da moça), lacuna a ser preenchida pelos espectadores.

Desde o final dos anos oitenta, o cinema iraniano, com Abbas Kiarostami e tantos outros, vem se impondo ao Ocidente. Com a singeleza neo-realista de suas ficções (um sapato infantil perdido, um jarro escolar quebrado, um tapete a ser tecido…) ganhou notoriedade e, durante algum tempo, chegou a virar grife, e a ser, por isso mesmo, maldosamente questionado.

Forte, profundo, perfeito, comovente e impressionantemente universal, “A separação” parece que põe as coisas no lugar, provando que, com ou sem singeleza, e indiferente a pechas de ser grife ou outra coisa, o que mais conta é a qualidade.