Tag Archives: Eisenstein

Ninfomaníaca

15 jan

Se gostei de “Ninfomaníaca”? Não sei, pois não vi o filme inteiro. Afinal, o que está em cartaz é a metade, e é difícil julgar um filme pela metade.

Digamos que o filme promete, o que não é surpresa para quem acompanha a perturbadora carreira do cineasta dinamarquês Lars Von Trier, que, nos anos noventa, encabeçou o rigoroso movimento “Dogma” e dele foi se afastando com o passar do tempo e da grana adquirida com a fama. O tal Dogma – vocês lembram – proibia as convenções técnicas mais óbvias do cinema consagrado e, na época, gerou filmes semioticamente curiosos. O fato é que, mesmo cedendo às convenções consagradas, os filmes pós-Dogma de Von Trier continuaram curiosos.

ninfo poster

Em conformidade com o título, “Ninfomaníaca” é a estória de uma mulher viciada em sexo, e que conta a sua vida a um desconhecido, um senhor idoso que, numa noite chuvosa, a encontrou num beco escuro da cidade, suja e espancada.

Quem é essa mulher? Por enquanto só se sabe o que ela conta e até o final desta metade do filme não é tanto assim. Desde criança suas brincadeiras tinham um teor sexual e, ainda adolescente, pede a um amigo que a deflore. Depois disso, suas experiências eróticas vão ficando cada vez mais ousadas, cínicas e perigosas, embora o filme contenha menos cenas de sexo explícito do que está anunciado nos press-releases.

E o seu interlocutor? Quem seria esse senhor que tão solicitamente se dispôs, não apenas a acolhê-la, mas – mais que isso – a escutar toda a sua longa estória, feito um psiquiatra remunerado? Poderia ser um qualquer, mas – grande lance de roteiro (ou pequeno?) – trata-se de um homem extremamente culto, detentor de um vasto conhecimento, que vai da ciência da pesca à numerologia, passando por Johan Sebastien Bach e Edgar Allan Poe – e, por tabela, prometendo muito mais. Vejam bem: que seja homem é compreensível para, num filme sobre a questão sexual, formar a antinomia masculino/feminino, agora que seja culto assim, só nos faz pensar num alterego de Von Trier.

ninfo 3

Dividido em ´capítulos´ devidamente intitulados, o filme investe um bocado na expressão, ao ponto de mais parecer um ensaio cinematográfico que uma obra ficcional. Notem que embora o cenário do tempo presente seja sempre o mesmo – o quarto na casa do Sr Seligman, com a cama onde a mulher repousa – e cada ´capítulo´ seja um flashback motivado pela voz da auto-narradora, ou por eventuais comentários do seu ouvinte, às falas sempre se acrescentam elementos visuais extra-diegéticos, explicativos, como se tudo consistisse em uma aula.

Assim, a tela fica, com freqüência, cheia de formas gráficas ou imagens simbólicas que “ratificam” as falas dos personagens. Algumas dessas imagens são verdadeiras metáforas plásticas, daquelas que o cinema primitivo costumava fazer, e como se teve em abundância nas propostas estéticas de um Eisenstein. Por exemplo, quando a mulher, na narração de seus casos, compara um dos amantes a um tigre, a tela se enche da imagem deste animal, como se a fala da personagem fosse insuficiente.  Outras são meras provocações, como aquela compilação de genitálias masculinas, claramente retiradas da internet.

Tela dividida, mistura de cor e preto-e-branco, gráficos, números, letras, linhas, ícones, símbolos visuais, exercícios plásticos, câmera acelerada – a coisa toda confere ao filme um sentido conceitual, sintomaticamente afastado do seu assunto, que é o do desejo descontrolado e suas consequências.

ninfo 1

Que consequências? Personagem central e pivô de tudo, a mulher se apresenta como uma ´pessoa errada´ e seu desabafo tem jeito de ´mea culpa´, embora, mais adiante, ela mesma arrefeça a culpa ao confessar que “talvez a diferença entre eu e os outros seja que sempre exigi mais do por-do-sol, mais luzes e mais cores espetaculares”. Aqui para nós, uma daquelas frases de cinema que (de novo) diz mais do autor do filme que do personagem.

Enfim, ao terminar esta primeira parte do filme – chamada de Volume I – a mulher está no meio de uma transa, revelando, apavorada, que simplesmente não está sentido nada. Ou seja, o Volume I se fecha com um “episódio” (lembram dos antigos seriados?) que pretende deixar o espectador curioso para ver o Volume II, que vem por aí, lá para março. Concessões de Lars Von Trier ao comércio?

Por falar em comércio, consta que “Ninfomaníaca” está atraindo público pelas cenas de sexo explícito, que o associam ao gênero pornô. Sobre a questão, não consigo deixar de lembrar a definição irônica que Umberto Eco dá do gênero em seu “Segundo Diário Mínimo”: ´se o filme a que você está assistindo demora a chegar ao que interessa, é porque se trata de um filme pornográfico´.

Não é o caso, para quem tem que esperar meses para ver o filme de Lars Von Trier completo?

O diretor Lars Von Trier, imitando o personagem de um clássico americano ("O mensageiro do diabo").

O diretor Lars Von Trier, imitando o personagem de um clássico americano (“O mensageiro do diabo”).

Anúncios

Camarada Linduarte

31 jan

A estória é verídica, mas, de tão absurda, parece não sê-lo. É até possível imaginar, para ela, o roteiro de um curta-metragem de ficção.

Em 1963, o jovem cineasta Linduarte Noronha viaja ao Rio de Janeiro, com a missão acadêmica de adquirir, para a Universidade Federal da Paraíba, onde é professor, uma câmera cinematográfica.

Procura daqui, procura dali, Linduarte encontra uma pechincha: em bom estado e por preço módico, uma câmera33 mm, de marca Kohbac, e origem russa.

Além da sensação de missão cumprida, Linduarte volta a João Pessoa cheio de devaneios.

A origem soviética da câmera o remete, por tabela, ao cinema russo, que tanto ama. Não apenas o sagrado Sergei Eisenstein, mas, sobretudo, o instigante Dziga Vertov de “Um homem com uma câmera” filme que Linduarte assistira com entusiasmo em algum cineclube de sua juventude.

Aos trinta e três anos, Linduarte já era, então, uma figura nacionalmente conhecida, com o seu fundamental “Aruanda” (1960), documentário antropológico que dera o que falar junto à crítica, elogiado por todos, até pelo decisivo Glauber Rocha.

A aquisição dessa câmera pela instituição onde lecionava trazia expectativas de novos e promissores projetos. Como diria Glauber, depois de uma câmera na mão, bastava uma idéia na cabeça.

Ora, não deu tempo de Linduarte sequer assentar as idéias e muito menos de acionar a tão bem-vinda Kohbac. Entre a chegada da câmera e o primeiro vislumbre de projeto, aconteceu a revolução militar, que implantou a ditadura no país.

Na noite de 31 de março de 1964 Linduarte deitou-se apolítico – como sempre o foi – e, na manhã seguinte, acordou subversivo, e assim permaneceria por muito tempo. Havia comprado uma câmera soviética e, pela lógica dos militares e simpatizantes da ditadura, só podia ter lá as suas ligações escusas com Moscou, certamente um “camarada” disfarçado por trás de seu cachimbo e sua fala mansa.

Acusado, Linduarte é obrigado a responder a inquéritos e perde o emprego de professor universitário, que só recuperaria quinze anos depois, em 1979.

Relegada, a câmera russa iria para os porões da universidade. Durante todo o período da ditadura, nunca foi tocada, pois seguramente tinha-se medo de que as imagens a sair dela fossem inevitável e perigosamente comunistas.

Passada a ditadura, lá permaneceria, inativa e completamente esquecida. E ainda hoje lá está, para quem quiser ver e tocar. É até possível imaginar a cena: tantos anos depois, o nosso Linduarte sendo posto diante dela, pasmo, trêmulo, confuso, relembrando uma estória que seria cômica, se não fosse trágica.

A gente imagina a cena, mas o jovem cineasta Lúcio Vilar não imaginou: fez, e o que fez não foi ficção. Exibido no programa “Zoom” da TV Cultura, o seu documentário “Kohbac, a maldição da câmera vermelha”, reconstitui a estória toda de modo objetivo, mas nem por isso menos criativo.

Depois de tomar longo depoimento de Linduarte sobre o incidente todo, inserindo documentos e imagens da época que confirmavam o caso, Vilar comete um expediente nevrálgico: conduz Linduarte à famigerada câmera Kohbac e, com a sua própria, filma, quase meio século depois, o reencontro.

Para relembrar o filme de Vertov, acima citado, era “um homem com uma câmera”, mas em que circunstância, meu Deus! Todo um cinema que poderia ter sido e que não foi…

Sim, não tenham dúvidas: ver a perplexidade nos olhos cansados e mãos trêmulas de Linduarte Noronha, posto de surpresa perante esse objeto que virou um símbolo das truculências de um regime malsão, ver isso documentado é bem melhor do que ficção.

Está, portanto, em circulação mais uma realização audio-visual que vem somar-se à sempre inquietante e inovadora produção paraibana de cinema – produção, aliás, inaugurada por Linduarte que, da palavra “camarada” só detém mesmo a acepção bem brasileira de ´amigo´.

 

Em tempo: publicada alhures, quando do lançamento do curta “Kohback: a maldição da câmera vermelha”, esta matéria foi aqui reproduzida em homenagem ao nosso querido e saudoso Linduarte Noronha (1930-2012).