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Esperando “Hitchcock”

14 fev

A estreia brasileira do filme “Hitchcock” (Sacha Gervasi, 2012) está prevista para primeiro de março, e, com certeza, a expectativa é grande para toda uma gama de cinéfilos que – como eu – reverencia a obra do cineasta, não apenas o “Psicose” enfocado, mas praticamente tudo.

Enquanto o filme não chega, vamos tratar do livro que lhe deu origem?

Já nas livrarias brasileiras, “Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose” (Ed. Intrínseca, 2013), do jornalista americano Stephen Rebello, reconstitui, como sugere o título, todo o processo que deu origem a essa produção independente em que o mestre do suspense tanto investiu, do seu bolso e de sua mente.

Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose

Fruto de exaustiva pesquisa, o livro de Rebello começa com o fato real que gerou tudo e vai até as últimas repercussões do filme, passando por uma inumeridade de pequenos detalhes de produção, que vão encantar os fãs. O fato que gerou tudo foram os crimes do psicopata de Wisconsin, Ed Gein, que, ficcionalizados, viraram o romance do escritor Robert Bloch, “Psicose” (1959), logo comprado pelo velho Hitch.

Segundo Rebello, Hitchcock andava, havia anos, intrigado com um certo filme preto-e-branco francês que teria feito mais ´suspense´ que os seus e pensava revidar: “As diabólicas” de G H Clouzot (1955). Além do mais, vivia amargando o fracasso de público de “Um corpo que cai” (1958), e queria, agora, fazer um filme independente, barato e autoral, sem interferência dos estudos da Paramount. Quando a estória de “Psicose” lhe caiu nas mãos, achou que era o que procurava, e, imediatamente, deu ordens à secretária para comprar todo o estoque disponível do livro no país, pois queria que tudo nesse pequeno filme fosse secreto.

Os executivos da Paramount não gostaram, porém, ele não hesitou em fazer acordo: a despesa da produção seria sua, não receberia como diretor e sua renda seria um certo percentual da bilheteria. Barata, a equipe seria o pessoal da televisão, com quem já rodava a série ‘Hitchcock apresenta´.

Mas como por na tela um romance tão contundente, cheio de crimes hediondos, insanidade, travestimento, necrofilia, nudez, e uma cena sangrenta de chuveiro que dificilmente os censores de Hollywood aprovariam?

Os primeiros problemas já apareceram na roteirização. Por sorte, o roteirista Joseph Steffano, um novato sem experiência, convenceu o diretor de que tinha entendido ´o espírito da coisa´. À sua proposta, o diretor fez cortes, porém, em compensação, também aceitou sugestões que não lhe haviam ocorrido, por exemplo, a filmagem em plongée do assassinato do detetive Arbogast, desempenhado pelo ator Martin Balsam.

Aliás, escolhido pelos estúdios, o elenco terminou por, parcialmente, agradar ao velho Hitch, que achou Anthony Perkins perfeito para o papel do psicopata Norman Bates, e a loura Janet Leigh ideal para ser esfaqueada na famosa cena do banheiro. Tudo bem, teve que engolir o canastrão John Gavin e, pior, aturar Vera Miles a quem nunca perdoou por havê-lo “traído”, ao engravidar às vésperas de desempenhar o papel principal em “Um corpo que cai” (1958). (Kim Novak veio depois).

Stephen Rebello, o autor do livro.

Stephen Rebello, o autor do livro.

Apesar do baixo orçamento, Hitchcock conseguiu colaboradores de primeira grandeza, dois exemplos sendo Sal Bass, que fez o design dos letreiros e vários storyboards das filmagens, e George Tomasini, o genial montador, com quem também faria, mais tarde, “Os pássaros. Não largou o seu músico favorito, Bernard Herrman, colaborador precioso de tantos anos. Em depoimento, Herrman conta a Rebello que Hitchcock (puxa vida!) não queria música alguma na cena do chuveiro e só a pôs convencido pelo compositor.

Um capítulo do livro todo especial se refere à publicidade de “Psicose”, um investimento pessoal de Hitchcock, quase tão dispendioso quanto a produção. Em folhetos distribuídos pelos exibidores, pedia-se que, depois de visto o filme, ninguém contasse o seu final, e – medida mais autoritária – proibia-se sistematicamente que os espectadores entrassem nas salas de espetáculo depois da projeção começada.

Dentro desse espírito de surpresa, não aconteceram as obrigatórias estreias para a imprensa, e com isso, o diretor comprou uma briga com os críticos do país, que tiveram que assistir ao filme junto com os espectadores comuns. Segundo Rebello, esse fato motivou a maior parte das primeiras apreciações negativas da crítica americana a “Psicose”, só corrigidas com o tempo.

Claro, esse “amuo” da crítica americana fez contraste com a reação internacional. O mundo todo se dobrou ao filme, especialmente os intelectuais franceses que, na revista “Cahiers du cinéma”, já vinham defendendo Hitchcock como um crânio cinematográfico cujo aspecto comercial escondia uma genialidade insuperável.

Enfim, fiquemos por enquanto com o livro de Rebello, e aguardemos “Hitchcock”, o filme.

Hitchcock pedindo silêncio.

Hitchcock pedindo silêncio.

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Suave é a noite

4 set

Por que alguém hoje decidiria ver, ou rever, o filme “Suave é a noite” (“Tender is the night”, 1962, Henry King)? Por ser adaptação do romance homônimo de Scott Fitzgerald? Por causa do elenco: Jennifer Jones, Jason Robards e Joan Fontaine? Pela bela canção, também homônima, muito popular na época?

Revi-o por motivos mais privados, puro saudosismo. Foi um dos primeiros filmes (a rigor, o terceiro) exibidos no Cine Plaza, depois da grande reforma por que passou aquela bela casa de espetáculos, reinaugurada em julho de 1963. Para nós, que éramos jovens então, qualquer coisa que ocupasse a tela charmosa desse cinema, surpreendentemente moderno para os padrões de João Pessoa, nos enchia de alegria, e se fosse uma estória de amor da 20th Century Fox, cinemascope e colorida, com uma trilha sonora agradável…

Tomara que algum leitor meu se lembre do enredo: meio surtada por causa de uma estória feia com o pai, essa mocinha rica, Nicole, (Jennifer Jones) é tratada, numa clínica da Suíça, por esse psiquiatra americano, Dr Diver (Jason Robards); ao longo do tratamento se apaixonam e – a moça aparentemente curada – casam-se e vão residir em uma luxuosa mansão da Riviera francesa. Entre obrigações sociais, festas vazias e muito álcool, reduzido à condição de marido de mulher rica, o psiquiatra semi-aposentado vai desmoronando moralmente, até – como ocorrera com a sua ex-paciente – chegar à beira de um surto. E um psiquiatra sabe muito bem quando vai surtar.

Como disse, loquei o filme por saudosismo, mas gostaria de retomar as hipóteses com que abro esta matéria.

Se o espectador vai ver “Suave é a noite” por causa do livro, creio que a decepção será grande. Não que o filme não seja fiel, mas, como se sabe, fidelidade não é tudo no terreno da adaptação, e principalmente, não é garantia de qualidade.

Um tanto e quanto superficial, engessado, arrastado, o filme tem falhas visíveis que nem a influência do lendário produtor David Selznick (marido de Jennifer Jones) conseguiu evitar. Um dos problemas mais óbvios parece ser o anacronismo na recriação da época, anos vinte, que ao espectador de hoje – mais talvez que ao de então – soam como anos sessenta. Embora os supostamente retratados no livro sejam os milionários Murphy (Gerald e Sarah), dizem que livro e filme têm muito de autobiográfico, e traços dos protagonistas adviriam do homem Fitzgerald e da esposa endinheirada Zelda, mas, se é verdade, isto tampouco melhorou a adaptação.

Se o espectador procurou o filme pelo elenco, também não creio que se satisfaça. Não há dúvidas de que os atores são grandes, porém, grande não foi a direção de atores. De minha parte, praticamente nenhum deles me convenceu plenamente, salvo talvez Joan Fontaine, como Baby, a irmã dominadora de Nicole. No seu papel de desequilibrada mental, Jennifer Jones parece mais uma ´doidinha´ do que um caso sério. Tom Ewell, por exemplo, (lembram dele em “O pecado mora ao lado”?), amigo do casal, está muito pouco convincente no papel do compositor em crise. Enfim, interpretações chapadas, nos fazendo lembrar que, na época, Hollywood era mesmo sinônimo de decadência.

Se a motivação do espectador foi a música, pode ser que fique satisfeito. Há primeiro a ´background music´ do grande Bernard Herrman, executada nos momentos mais dramáticos, com ecos identificáveis de sua trilha para o hitchcockiano “Um corpo que cai”, sim. Mas, claro, a música mais famosa é a composição de Sammy Fain, com letra de Paul Francis Webster “Tender is the night”, que dá título ao filme e dera ao livro. Suave como o adjetivo no seu nome, a canção é bela e ainda hoje continua encantando, com sua atmosfera de tristeza amorosa e romantismo.

Acho que vale lembrar que a frase (nome e também primeiro verso da canção), Fitzgerald foi buscá-la em um dos mais belos poemas de John Keats, “Ode to a nightingale” (`Ode a um rouxinol´, 1819)) que lê assim: “tender is the night, / and haply the Queen-Moon is on her throne / Cluster´d around by all her starry Fays”. Traduzo: “suave é a noite, e feliz a Lua-Rainha está em seu trono, circundada por todas as suas fadas estelares”.

Uma pena que a lua de Keats não tenha inspirado a produção cinematográfica de “Suave é a noite”.

Mas, que importa, para mim, fica a lembrança do Plaza e da minha juventude.

Troca de elenco

16 jul

Uma amiga minha não sabia que as atrizes hollywoodianas Bette Davis e Joan Crawford eram, na vida real, inimigas figadais. Ao saber, me conta ela que, agora, toda vez em que assiste a um filme com Davis, fica imaginando como seria esse filme se fosse com Crawford, e vice-versa.

Que tal “Johnny Guitar” com Bette Davis? Ou “A carta” com Joan Crawford? Conversando sobre o assunto, concordamos em que, se aleatoriamente generalizada, a troca de elenco dos filmes da vida bem que daria uma matéria engraçada para divertir os cinéfilos.

Mas, ora, uma coisa curiosa é que, para fazer tal matéria nem precisamos fantasiar muito.

Ocorre que normalmente, ao longo do convulso processo de produção, os filmes não tiveram o elenco que exibem depois de prontos. Na verdade, coisa caótica e sem controle, o “engarrafamento” de nomes a contratar e a contratação de última hora do elenco foram sempre a regra, pelo menos na Hollywood clássica, e os fatores que determinavam quem ia trabalhar em que eram tantos que seria cansativo listá-los. De repente, um ator, ou atriz, escalado para uma produção podia ser barrado pelos estúdios, ou eventualmente optar por outro projeto mais rentável, ou não gostar do papel, ou adoecer, ou o diretor podia não ir com cara dele/dela, ou ele/ela podia ser recusado pelo produtor, ou pela companhia distribuidora, etc, etc, etc…

Nesse sentido, e para não perder o gancho que minha amiga me deu, passo a listar uma série de filmes, consumados e consumidos, cujos elencos nos parecem os mais perfeitos, e que, no entanto, por muito pouco não tiveram outros nomes em seus créditos.

Um caso famoso é o de “Um corpo que cai”. Se porventura é difícil imaginar alguém mais perfeito do que a maravilhosa Kim Novak na carne e no espírito da misteriosa Madeleine, na verdade o papel não foi concebido para ela. Junto com seu roteirista, Hitchcock concebeu o papel, com o maior carinho, para Vera Miles, uma de suas louras preferidas. Nos preparativos das filmagens, Vera aparece grávida e, aí, os estúdios empurram a substituta Kim e o velho Hitch é forçado a aceitar a troca. Dizem que, inconformado, nunca dirigiu uma só palavra à Kim, durante toda a filmagem.

Vera Miles, por sua vez, nunca mais foi a mesma e sua carreira degringolou depois disso. A coisa foi tão séria que, há não muito tempo, o seu filho (sim, aquele cujo nascimento a tirou de “Um corpo que cai”!) publicou uma autobiografia se redimindo da culpa de haver nascido em momento tão inoportuno.

Quem imaginaria “E o vento levou” (1939) sem Clark Gable e Vivien Leigh? Pois é, o personagem de Rhett Butler era para Gary Cooper (que não quis), e o de Scarlett O´Hara para Paulette Godard (que não pôde), e as trocas foram feitas de última hora.

Por pouco quem ia cantar “Over the rainbow” em “O mágico de Oz” (1939) era a pequena Shirley Temple, na época muito mais conhecida do que a novata e já grandinha Judy Garland.

O bon vivant conquistador de “Ninotchka” (1939) era para ter sido, não Melvyn Douglas, mas Spencer Tracy (o primeiro cogitado), ou então Robert Montgomery (o segundo).

Já pensaram “Casablanca” (1942) sem Humphrey Bogart e Ingrid Bergman? Dá um frio na coluna saber que os primeiros escalados pela Warner foram (pasmem!) Ronald Reagan e Ann Sheridan.

O agente de seguros que trama o crime perfeito em “Pacto de sangue” (1944) seria George Raft, se o ator não tivesse tido outro compromisso, e a produção foi forçada a ficar com quem ficou: Fred MacMurray.

O alcoólico nada anônimo de “Farrapo humano” (1945) ia ser interpretado por Cary Grant, cujos agentes não gostaram da idéia de manchar sua imagem. Os produtores pensaram em Jose Ferrer, e Ray Milland, então considerado um canastrão, só entrou na jogada no último instante.

O papel de Margo, a atriz de teatro passada para trás pela novata Eve, em “A malvada” (1950) teve uma lista de candidatas, na ordem: Marlene Dietrich, Tallulah Bankhead, Susan Hayward, e finalmente, como sabemos, Betty Davis.

Outro papel disputado foi o de Norma Desmond, a decadente estrela do cinema mudo de “Crepúsculo dos deuses” (1950), feita por Gloria Swanson, que o ganhou de três concorrentes fortes: Mae West, Mary Pickford e Pola Negri.

Quem ia ser a frágil e nervosa Blanche de “Uma rua chamada pecado” (1951) era Olivia de Havilland, e o seu grosseiro cunhado Stanley Kowalski seria John Garfield, mas, problemas de bastidores mudaram o elenco para Vivien Leigh e Marlon Brando.

A imagem de Shane (de “Os brutos também amam”, 1953) está definitivamente associada ao ator Alan Ladd, porém, o papel foi concebido para Montgomery Clift, que teria como hospedeiro o rancheiro William Holden (no filme Van Heflin).

Em “A princesa e o plebeu” (1953) o nome de Audrey Hepburn surgiu de última hora, e, por decisão dos estúdios, tomou o lugar de Jean Simmons. Já “Sabrina” (1954) era para ter sido com Cary Grant, e não com Bogart, o qual, fez o que pôde para descartar Audrey e colocar sua mulher, Lauren Bacall, no papel-título. Por sorte nossa, não conseguiu.

Em “A um passo da eternidade” (1953), quem estava escalado para ser o charmoso sargento Warden, no quartel de Pearl Harbor, era o feioso Walter Matthau. Tivesse isto acontecido e um pouco diversa seria a cena do beijo na praia entre Deborah Kerr e (o escolhido) Burt Lancaster.
Judy, a namorada de James Dean em “Juventude transviada” (1955) seria – imaginem só – a louraça peituda Jane Mansfield, e não a delicada morena Natalie Wood. James Dean, por sua vez, quase não ganha os papéis que ganhou em “Vidas amargas” (1955) e “Assim caminha a humanidade” (1956), previamente indicados para, respectivamente, Paul Newman e Alan Ladd.

Foi para Marlon Brando que o diretor John Huston bolou o personagem do militar que, numa ilha do pacífico, vai se apaixonar por uma freira, em “O céu é testemunha” (1957), mas, as circunstâncias lhe deram Robert Mitchum, que, no meio das filmagens, ficou desanimado quando soube do fato.

Finalmente, e para não me estender mais, pois a lista de casos é interminável, a garota de programa Holly Golightly, de “Bonequinha de luxo” (1961) devia ter sido (juro) Marilyn Monroe, certamente em seu último desempenho, já que faleceria no ano seguinte.