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In the fountain, with Anita

20 jan

Besides Fellini´s “La Dolce Vita” (1960), what other Anita Ekberg movies have you seen?

I asked friends and none had seen any. Some cinephiles were able to mention “Intervista” (Fellini, 1987) where, anyway, the recently deceased Swedish actress appears as herself, old and fat, with nothing of her once astounding beauty.

And, however, Anita is one of the most worshipped divas of the cinema.

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The truth is: to be a diva a single role may be enough.

And hers was that one, I mean, the big tits and hoarse voice sensual Sylvia, the gorgeous blonde who invites Marcello into the waters of the Fontana di Trevi, in Fellini´s 1960 masterpiece.

One funny thing was, some of my friends confessed not even “La dolce vita” they had seen, and, nonetheless, (they could not explain why), they seemed to remember the Roman fountain scene.

Actually, the fact can be explained. The cinema, or rather, cinephilia, is not necessarily made of entire movies, but also of single images or scenes that sometimes impose themselves as recurring intertexts. That which elsewhere I once called “beloved images”.

For instance, recently two movies showed the Fontana di Trevi scene, by the way, not just showed, but made it the core of their fictional universe. They both told the romantic adventure of this old lady who dreams of meeting her perfect valentine and with him travel to Rome, just to recreate the emblematic fountain scene – if possible, including the little white cat and the glass of milk which is served to it.

An Argentina production of 2005, the first movie is the original one; a Hollywood production of 2014, the second one is its remake, both with the same plot and title, although not with the same artistic quality: “Elsa & Fred”.

Not to mention that, a couple of decades ago, in “Intervista”, the very same scene had been (re)exhibited, when a real Mascello Mastroiani, along with the whole film stuff, visits Anita´s farm house, and there, in the sitting room, with a fellinian magic power, reproduces the Fontana di Trevi scene, on a white sheet used as screen.

Anita and Mastroiani in Fellini´s masterpiece.

Anita and Mastroiani in Fellini´s masterpiece.

The fact that moviegoers do not recall other Anita Ekberg movies is understandable.

Although she was in 63 movies, very few, besides “La dolce vita”, are worth mentioning, “War and peace” (king Vidor, 1956), where she has a supporting role, is almost an exception.

I myself could only remember her in “Boccacio 70”, a film in four episodes, and in that also episodical bittersweet comedy by Vittorio DeSica, “Seven times woman” (1970), in which, anyway, the repeated woman is not herself, but Shirley MacLaine.

Only in checking over her filmography could I identify some of the her movies I had seen in the past: two comedies by Frank Tashlin, with Jerry Lewis and Dean Martin, “Artists and models (1955) and “Hollywood or bust” (1956), and the film she was making when Fellini found her in Italy: “Sheba and the gladiator” (1959), you know, one of those void Italian epics which were so often produced at that time, leading nowhere…

But, who cares? Anita Ekberg is the eternal diva whom we shall forever worship.

In the fountain, with Anita.

In the fountain, with Anita.

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Elsa e Fred

13 dez

Por alguma razão estranha, Hollywood nunca foi lá muito boa em homenagear o cinema, digo, em lhe declarar o seu amor. Nota-se isso claramente na acareação com outras cinematografias do mundo.

Por exemplo, a Meca do cinema nunca fez nada com a dimensão emotiva e poética de “Cinema Paradiso” (Itália, 1989), “Splendor” (Itália, 1989) ou “A noite americana” (França, 1973).

Os grandes filmes hollywoodianos sobre cinema, como “Crepúsculo dos deuses” (1950), “Cantando na chuva” (1952), e “Assim estava escrito” (1952) são obras primas, porém, não eram propriamente declarações de amor à sétima arte, a qual só neles aparecia como pano de fundo de dramas ou de comédia.

A exceção a essa regra – já que toda regra tem exceções – veio da Costa Leste, e não de Hollywood: “A rosa púrpura do Cairo” (Woody Allen, 1985).

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As tentativas hollywoodianas de tratar do amor ao cinema que me ocorrem, se comparadas aos filmes estrangeiros acima citados, não chegam aos seus joelhos. Para confirmar, vejam os casos de “No mundo do cinema” (1976) de Peter Bogdanovich e “Cine Majestic” (2001) de Frank Darabond.

Este “Elsa e Fred” (Michael Radford, 2014), que está em cartaz, bem que poderia ter sido uma bela homenagem à sétima arte, mas não é. Nem quis ser, aliás. De novo, o cinema nele é só o pano de fundo para uma outra coisa, no caso, uma estória de amor entre dois idosos, e não é o cinema como um todo: é só um filme, no caso, o famoso “A doce vida” (1960) de Federico Fellini. Notem que inexistem referências a outras películas, de forma a que se pudesse pensar em cinefilia.

Além do mais, nem no plano emotivo o filme convence, sendo apenas uma estória previsível em dois sentidos: o enredo o é, e os recursos expressivos para veicular esse enredo o são. Começa o filme, e o espectador já sabe no que ele vai dar, o que fica, a cada cena e a cada sequência, reforçado pela quase nenhuma inspiração do diretor, com seu apelo ao convencional, já visto em centenas de filmes sobre estórias de amor, entre idosos ou entre jovens, tanto faz.

Shirley McLaine no papel de Elsa.

Shirley McLaine no papel de Elsa.

Quando Elsa bate no carro e dribla o neto dos vizinhos novatos no seu prédio é porque vai conhecer o avô do garoto; quando Fred diz a Elsa que detesta parques, já sabemos que iremos vê-lo, mais tarde, passeando no parque, com ela; quando a filha de Fred lhe pede dinheiro emprestado para os negócios do marido, deduzimos que esse dinheiro vai terminar nas águas da Fontana di Trevi, em Roma, etc, etc, etc…  São regras de um tipo de comédia romântica que remonta aos anos trinta e que podem ser resumidas no chavão: /a rivalidade conduz ao amor/.

E vejam que o enredo é interessante, aliás, muito interessante.

Na estória Elsa, essa senhora idosa, mas ativa e cheia de vitalidade e bom humor, é fã do filme de Fellini, e não só isso: sonha um dia viver um grande amor e repetir a famosa cena da Fontana di Trevi, ela no lugar de Anita Ekberg e o seu amado no de Marcelo Mastroiani, e isso sem faltar o banho nas águas da fonte, com direito ao gatinho e ao copo de leite.

A possibilidade de Elsa realizar o seu sonho romântico aparece no momento em que muda-se para o apartamento vizinho ao seu esse senhor idoso, viúvo, e portanto, disponível. O viúvo é mal humorado e não tem, nem de longe, a vitalidade de Elsa, mas, em tudo se dá um jeito.

Christopher Plummer é o idoso Fred.

Christopher Plummer é o idoso Fred.

Com a ajuda do filme, Elsa dá um jeito, sim, e a Fontana di Trevi acontecerá. Mesmo que, na hora h, o gatinho não tenha sido da mesma cor, e o leite tenha sido apenas um copo de iogurte, encontrado de última hora.

Inevitavelmente, o filme tem uma pitada de humor de “Ensina-me a viver” (“Harold and Maude”, 1971, de Hal Ashby), misturada com um pouquinho do sentimentalismo de “Love Story” (1970), mas isso é tudo.

Nos papéis título estão dois nomes de peso que devem arrastar espectadores ao cinema (eu fui por causa deles!), Shirley MacLaine e Christopher Plummer, mas isso é tudo.

Porém, o mais drástico sobre “Elsa e Fred” ainda não foi dito: o filme é um remake de uma produção homônima argentina com muito mais qualidade do que ele. Confira, se puder, “Elsa y Fred” (Marcos Carnevale, 2005), um filme empolgante, completamente disponível no Youtube.

Enfim, um remake aquém do filme original, e feito apenas nove anos depois dele: só mais uma prova de que a Hollywood de hoje em dia vive em desastrosa crise de inspiração. Ou estou enganado?

A cena Fontana di Trevi no filme de Fellini.

A cena Fontana di Trevi no filme de Fellini.