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Centenário de Ingmar Bergman

10 jul

No dia 14 deste mês de julho comemora-se o centenário de nascimento de um dos maiores cineastas do planeta, o sueco Ingmar Bergman (1918-2007). Para celebrar, reproduzo crônica que publiquei na ocasião da morte do cineasta, onde relato o meu primeiro impactante contato com sua obra cinematográfica, no caso, com “A fonte da donzela” (1960).

Nunca esquecei o meu primeiro contato com Ingmar Bergman. Foi em 1961, ou 62, no Cine Sto Antônio, no bairro de Jaguaribe, João Pessoa. Consumidor voraz de cinema, eu estava, pelas estatísticas das exibições locais, acostumado a um modelo de cinema americano onde, pelo menos até então, contundência tinha limites. Por mais noir que fosse o policial, por mais selvagem que fosse o western, por mais ousado que fosse o melodrama – vocês lembram – as cenas de violência eram sempre suavizadas pelas lentes auto-censuradas de Hollywood. Pekimpah, Altman e Kubrick só seriam possíveis bem mais tarde…

Pois foi então que assisti a “A Fonte da donzela” (Junkfraukällen, 1960). Num acesso de lucidez da Meca, ele havia ganhado o Oscar de melhor filme estrangeiro, em 1961, e creio que somente por essa razão entrara no nosso circuito comercial de exibição.

O impacto foi tão grande que, de repente, me vi obrigado a reconsiderar as minhas ideias de realismo cinematográfico e a questionar o modelo de cinema que o acaso me impusera. Tudo bem, àquela altura eu já conhecia um Eisenstein aqui, um Kurosawa ali, um Clouzot acolá, porém nada que, fora do modelo clássico, tivesse me provocado tamanho abalo.

Ainda hoje me recordo de como, depois de ver “A fonte da donzela” saí do cinema estremecido, e como passei vários dias sob efeito do impacto. Lembro que tentei contar o filme em casa a um irmão, e meu relato, depois de alguns esforços, virou um gaguejado confuso, do qual desisti, com medo de que a família começasse a desconfiar que ir a cinema estava atrapalhando minha sanidade mental. Aquela criança vomitando depois de ter presenciado um estupro e assassinato só podia vir da Suécia.

Mais tarde vi outros Bergmans, inclusive alguns cronologicamente anteriores a “A fonte”, como “Morangos Silvestres”, mas a impressão inicial persistiu, e para mim, na maior parte do tempo, Bergman era “A fonte da donzela”.

A ideia que não consegui transmitir a meu irmão era a de que um filme tão contundente, com cenas de estupro e assassinato mostradas tão cruamente, fosse ao mesmo tempo – e por causa disso mesmo! – tão belo. Como era possível esse milagre de casar a infinita crueldade do tema com a suprema beleza da imagem? Onde residia o ponto de tensão entre conteúdo e forma? Como era possível, em cinema, ser tão inseparavelmente primitivo e requintado, explosivo e contido, pulsional e estruturado?

Hoje em dia, quando a contundência virou regra, o filme pode ter perdido parte de seu impacto, mas duvido que a sua beleza. Revê-lo uns tempos atrás foi uma experiência e tanto, a oportunidade de constatar que não perdeu qualidade com o passar do tempo e que, ainda hoje, se alinha entre o melhor cinema que se fez no século inteiro.

Uma curiosidade sobre essa obra prima, no meu entender e da crítica em geral, quase irretocável, é que tenha sido renegada pelo seu próprio autor. Em “O cinema segundo Bergman” (Paz e terra, 1977), o cineasta considera o filme com certo desprezo como “um acidente de percurso”, segundo ele, “um filme para turista ver”, “imitação miserável de Kurosawa”.

Claro que levei um choque ao ler isso pela primeira vez. Gastei tempo e energia refletindo sobre o assunto e fiquei com questões que sempre lanço aos cinéfilos que, como eu, amam “A fonte da donzela”.

E as perguntas vieram: agnóstico assumido, Bergman não estaria apenas refutando a premissa cristã que o desenlace do seu filme encarna? A alegada imitação de Kurosawa, afinal nem tão visível assim, não seria o pretexto para a renegação? Outra coisa, renegar “A fonte” não é renegar Hollywood, que o premiara? Sejam quais forem as respostas, de uma coisa não tenho dúvidas: é de que o affair Bergman versus “A fonte da donzela” ilustra um desses casos – afinal nem tão raros assim na história das artes! – em que o autor se equivoca redondamente sobre sua própria obra. Umas vezes o equívoco consiste em superestima, outras vezes, como aqui, em subestima.

Quem quiser constatar que reveja “A fonte da donzela”!

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Sr. Sherlock Holmes

21 abr

Quem iria querer imaginar o seu ídolo idoso e doente? Por exemplo, Tarzan velhinho sem poder trepar em seus cipós? Ou Roy Roger alquebrado sem conseguir montar o seu cavalo?

O escritor inglês Mitch Cullin fez isso com Sherlock Holmes. No seu livro “A slight trick of the mind” (´Um ligeiro truque da mente´), imaginou-o aos noventa e dois anos, já no final dos anos 1940, atacado de demência, vivendo quase isolado no condado de Sussex, tentando desesperadamente lembrar-se de seu último caso… e sem conseguir. E isto, sem a ajuda de seu amigo Watson, já falecido havia anos.

O diretor americano Bill Condon gostou tanto da estória desse Holmes gagá que resolveu filmar.

mr holmes 1

O filme “Sr Sherlock Holmes” (2015), no original “Mr Holmes”, acaba de ser lançado em DVD e pode ser uma boa pedida para um confronto com as outras tantas versões cinematográficas sobre a vida do personagem de Conan Doyle.

Seguindo o livro, o filme mostra um protagonista com perda constante de memória e seu mundo mental é, portanto, um tanto e quanto nebuloso, com retrocessos e avanços temporais que nem sempre se encaixam.

Quem é aquela mulher de comportamento estranho e hostil? Por que faz túmulos para filhos inexistentes? Por que o marido contrata os serviços de um detetive? Por que uma vidente é procurada? O que faz ela sozinha, sentada num banco de praça? O que significa a imagem de uma abelha sobre sua luva branca?

De alguma maneira, essa nebulosidade é transferida para o filme, e, ao espectador, dá trabalho juntar as peças e entender o que de fato aconteceu no misterioso último caso do Sr Sherlock Holmes. Sabemos apenas – e isto é um agravante sério, do ponto de vista dramático – que este caso foi decisivo para o nosso personagem isolar-se do mundo, cheio de remorso e culpa, sentimentos que ele, amargurado, curte sem conhecer a causa.

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“Doença e morte são banais: raro mesmo é a lógica” – ensina o velho Holmes ao seu companheiro infantil e fã, o filho da empregada na casa de campo de Sussex. Só que a lógica teima em não funcionar e, quando funciona, no desenlace, é só para provar que, mais que ela, valem os sentimentos.

Sim, é que, ao contrário dos muitos casos investigados pelo famoso detetive, este último o envolveu, emocionalmente, com a mulher casada que ele investigava a pedido do marido. Não vou contar a estória para não estragar o prazer de quem quer ver o filme de Condon.

Permitam-me apenas citar o próprio Holmes, naquele momento em que, achando-se satisfeito com a solução que encontrou para o seu enigma, filosofa: “One shouldn´t leave this life without a sense of completion” / “Ninguém devia deixar esta vida sem um sentido de compleição”.

Com ou sem compleição, o filme é, plasticamente falando, uma delícia para os olhos, cenário limpo e elegante como uma fleumática casa inglesa. Se, obedecendo à temática, a montagem é confusa, a fotografia, ao contrário, é límpida, nítida, clara, como um cartão postal.

As interpretações são ótimas e o velho e enrugado Ian McKellen oferece um desempenho magnífico. Não fica atrás Laura Linney, como Mrs Munro, a empregada sempre desconfiada de seu patrão; como também o garoto Milo Parker, no papel de Roger, o filho da empregada, apaixonado pelas teorias de Holmes e cuidador de seu apiário.

mr holmes pro face 1

A trilha sonora de Carter Burwell (músico de “Fargo”, “Quero ser John Malkovich” e “Crepúsculo”) desempenha um papel fundamental, lembrando às vezes – e com motivo justificável – o tema musical de Bernard Herrman em “Um corpo que cai”. Aliás, outras referências hitchcockianas são visíveis, por exemplo, quando a misteriosa investigada Ann Kelmot se detém na frente de uma loja de couros que se chama Ambrose Chapel, o mesmo nome – vocês lembram – que está em “O homem que sabia demais”.

Do jovem cineasta novaioquino Bill Condon, eu conhecia apenas dois filmes que, aliás, tive o prazer de comentar nesta coluna. “Deuses e monstros” (“Gods and monsters”), de 1998, ficcionalizava a vida do diretor americano James Whale, autor de alguns bons horror movies dos anos trinta; e “Kinsey – vamos falar de sexo”, de 2004, sobre o sexólogo americano que, nos anos cinquenta, lançou um livro que mudaria o comportamento de gerações.

Mas, voltando ao filme em questão, se porventura você é um leitor entusiasta de Conan Doyle e não está a fim de ver o seu ídolo decadente, veja outra coisa. “Sr Sherlock Holmes” não é obrigatório.

O veterano Ian McKellen no papel de Holmes idoso.

O veterano Ian McKellen no papel de Holmes idoso.

Viagem aos seios de Duília, o filme.

7 ago

A cinefilia doméstica costuma associar os anos sessenta ao movimento do Cinema Novo Brasileiro, como se, nessa década, nada mais no país, em termos de atividade cinematográfica, tivesse sido feito.

E não é o caso. Para se ter uma idéia, a década de sessenta inteira produziu nada menos que 404 películas, das quais duvido que 40 possam ser caracterizadas como realizações do Cinema Novo.  E ainda que possam, sobram 364 realizações fora do esquema do famoso movimento.

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Uma dessas “sobras” é “Viagem aos seios de Duília”, película de 1965 de Carlos Hugo Christensen, cineasta oriundo da Argentina que ninguém de bom senso enquadraria na turma de Glauber Rocha, Rui Guerra e Nelson Pereira dos Santos. Não porque fosse argentino, mas porque, desde sua chegada ao Brasil, vinha cometendo filmes com fins visivelmente comerciais, como “Matemática zero, amor dez” (1958) e “Meus amores no Rio” (1959), comédias românticas completamente antagônicas ao espírito vanguardista e político dos cinemanovistas.

Em 65 Christensen resolveu adaptar o antológico conto de Anibal Machado e se deu bem, mas não creio que isso o torne um cinemanovista. Como o conto, o filme narra a desventura desse senhor idoso, solteirão recém aposentado, que decide empreender uma viagem ao passado, em busca de uma miragem: a visão deslumbrante dos seios da jovem Duília, que nunca lhe saíra da memória. Na remota Pouso Triste de sua infância e adolescência, um dia, a moça lhe abrira a blusa e…

Agora a aposentadoria o angustia e José Maria, para surpresa de sua velha empregada, arruma as malas e se entrega a uma viagem penosa que, lamentavelmente, tem um final mais penoso ainda: professora primária e viúva idosa, a Duília de seus sonhos eróticos não tem mais nada a ver com a imagem que dela guardava, e o encontro dos dois é puro desencanto.

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Mesmo sem a perfeição do conto – considerado a obra prima de Anibal Machado – o filme de Christensen tem qualidade e merece uma espiada.

Evidentemente, o primeiro problema da adaptação foi a pouca extensão do texto. Em sua inteireza, o conto daria um curta, ou talvez um média metragem, mas dificilmente um filme de duração padrão. O problema foi resolvido com um relativamente longo preenchimento diegético, onde se narra o que não está no conto, mas, aristotelicamente falando, poderia estar: as primeiras semanas de vida aposentada de José Maria e a crise existencial dela decorrente.

Na ocasião de sua despedida da repartição, os colegas oferecem uma festa a José Maria, mas isso é tudo. O que vem depois é frieza e indiferença. Nas próximas tentativas de contato, José Maria começa a se dar conta do que é ser considerado velho, e, portanto, descartável. Vários incidentes lhe revelam a dureza de ser idoso entre os mais jovens, e aos poucos ele vai aprendendo a se manter no seu lugar de inativo e inútil.

Uma dessas decepções ocorre na noite em que aceita o convite de um dos colegas a ir a uma boate da cidade, na companhia de duas moças, amigas do ex-colega – e a cidade, não esqueçamos, é o Rio de Janeiro – e se vê passado para trás pela companheira de noitada, além de ser conduzido a pagar a conta, e depois, deixado na rua, porque, dali, os dois casais, formados na boate, iam para outras paradas, mais íntimas.

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Todo esse preenchimento diegético poderia estragar a imagem que se tem do conto de Anibal Machado, e, no entanto, não é bem assim. Não apenas ele não macula o conto, como vem a contento para o filme, ajudando a incrementar o conflito central do personagem: o seu enfrentamento da velhice.

Depois de ver o filme (eu não o vira na época de sua estréia), fiquei curioso em checar a autoria de um roteiro tão eficiente, e não tive surpresa em constatar que era de ninguém menos que o escritor Orígenes Lessa.

Um outro ponto nevrálgico da adaptação é o desenlace. Como fazer para expressar em imagens a desolação do protagonista, no encontro com Duília? A voz em off, repetindo as palavras do texto, seria um recurso manjado que, se consolaria os apreciadores do conto, não soaria satisfatório para os espectadores do filme. Sensata e criativamente, Christensen optou praticamente pelo contrário: ao invés de qualquer verbalidade, encheu a tela de imagens onde se vê uma sequência de cenários vazios, digo, sem a presença física do ator/personagem, sequência que simbolicamente refaz a vida triste de um personagem que, sem saída, se entrega à tristeza de sua condição.

Um comovente filme sobre a ´terceira idade´, rodado numa época em que sequer se conhecia a expressão.

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Hud, o “car boy”

11 mar

Foi nos anos 1950 que o filme faroeste amadureceu, e tanto que, no processo, gerou uma espécie de parente agregado: o filme que tinha o mesmo cenário, o Oeste, mas o tempo era outro; era o presente, contemporâneo às filmagens. Nesse novo modelo de ´western´, o cavalo cedeu lugar ao automóvel, e o ´mocinho´, subtraído de seu mítico heroísmo de cowboy – bem que poderia ser chamado de ´car boy´.

Não sei dizer quem foi, na cronologia, o primeiro “parente agregado” do faroeste, mas, lembro pelo menos três filmes nesse modelo: “Assim caminha a humanidade” (George Stevens, 1956), “Os desajustados” (John Huston, 1960) e “Hud, o indomado” (Martin Ritt, 1963). hud poster Sobre os dois primeiros já escrevi alhures, e aqui me atenho a “Hud, o indomado”, recentemente circulando na programação da televisão paga, um filme de boa qualidade que teve cinco indicações ao Oscar e levou três.

Nessa fazenda de gado, no Oeste americano de hoje em dia (ou seja, de 1963) vivem três homens de faixas etárias diferentes: o proprietário e idoso Homer, seu filho Hud e o neto adolescente Lon. De pais falecidos, este último é sobrinho de Hud, de forma que a única presença feminina na casa fica por conta da empregada, a simpática e atraente Alma Brown.

O velho Homer representa o passado e todos os seus valores; nele o espectador pode ler claramente o perfil de todos os rancheiros ou criadores de gado dos velhos faroestes e, por tabela, a bravura dos que conquistaram o Oeste bravio.

Já no cínico e inescrupuloso Hud, seu filho, ao contrário, divisamos o novo western man, – o nosso “car boy” – aquele que dirige seu cadillac em alta velocidade, que namora todas as mulheres casadas do lugar, que enche a cara nos prostíbulos da cidade, e que pensa em vender a fazenda para escavação de petróleo, algo bem mais rentável do que a atividade pecuária. É o novo tempo chegando, com sua nova moral, ou seria mais apropriado dizer, falta de moral.

Brando De Wilde e Paul Newman em cena do filme.

Brando De Wilde e Paul Newman em cena do filme.

Entre os dois personagens, e também entre os dois modelos éticos, se equilibra o adolescente Lon, aquele a quem a câmera concede mais tempo de tela. Para dramatizar o contraste entre passado digno e presente corrupto, dois lances de roteiro são básicos.

O primeiro é a doença – em si mesmo simbólica – que acomete o gado. Quando morre a primeira rês, Hud sugere ao pai que venda a manada toda e repasse o problema para outrem, o que, naturalmente, deixa o genitor indignado – e se for o caso, também o espectador – com a sugestão de contaminar o gado no país inteiro, meramente por conta do lucro. Ponto dramático que completa as caracterizações dos personagens e define o caminho actancial da narrativa, o segundo lance de roteiro a que me refiro é a cena em que Hud tenta estuprar a emprega, e só não o faz porque o sobrinho interfere.

Paul Newman e o veterano Melvyn Douglas.

Paul Newman e o veterano Melvyn Douglas.

Trata-se, evidentemente, de um filme contundente, só possível depois de estar fora de validade o Código Hays de censura, aliás, extinto para sempre no ano seguinte, 1964. Seu diretor, Martin Ritt, era um dos jovens novatos, como Sidney Lumet ou Sam Peckimpah, com vontade explícita de quebrar barreiras e impor novos conceitos, estéticos e de outra ordem. Por exemplo, numa data em que a cor já era praxe, o seu preto e branco impressiona, especialmente pelos criativos dotes fotográficos do grande mestre James Wong Howe, sem coincidência, um dos três Oscars recebidos.

Um comentário obrigatório sobre o filme de Martin Ritt diz respeito ao elenco. No papel do imoral e “indomado” Hud, Paul Newman está ótimo, e melhor ainda está a sempre soberba Patricia Neal, como a empregada Alma, vítima de suas garras, mas não de todo inocente: quando ela decide ir embora do rancho, uma alegação é a de que não resistiria por muito tempo aos sedutores ombros largos de Hud.

No terraço: avô, neto e filho...

No terraço: avô, neto e filho…

Mas, quero me referir a dois atores cujas simples presenças trazem, para o filme, significações adicionais. Sim, para o espectador da época (e se for o caso, para o de hoje também) Melvyn Douglas, como o velho rancheiro deprimido com o seu legado carnal, era o símbolo da Hollywood clássica, anos 30 e 40, agora decadente como a vida no Oeste. (Lembram dele como o galanteador de Greta Garbo em “Ninotchka”, 1939?).

E, do mesmo modo, Brandon De Wilde simbolizava o auge do gênero faroeste, aquele adolescente que todo mundo lembrava como o garotinho amigo de Shane em “Os brutos também amam” (1953): e sintam a ironia intertextual, na infância seu amigo era não apenas um herói, mas a encarnação de todos os mitos do faroeste; agora, na adolescência, seu “amigo” não passa de um cínico e devasso que enterra o Oeste, como o velho Homer foi obrigado a, literalmente, enterrar uma manada inteira, contaminada por uma doença – repito – simbólica em vários sentidos.

A empregada Alma (Patricia Neal), dias antes do estupro...

A empregada Alma (Patricia Neal), dias antes do estupro…

A separação

15 mar

Simin, a mulher, quer deixar o Irã supondo poder dar à filha uma educação melhor. Nader, o marido não concorda, pois tem, em casa, um pai com Alzheimer que precisa de seus cuidados. Simin e Nader são casados há quinze anos e, agora, em pleno tribunal, enfrentam a alternativa do divórcio.

Em cartaz na cidade, “A separação” (Asghar Farhadi, 2011) – Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano – abre-se com esta sequência e a impressão de que o restante do filme vai ser um bate-boca sem fim entre os dois cônjuges.

Não é. Consumada a separação, passamos a acompanhar de perto a vida diária de só um dos cônjuges, aquele com quem a filha fica, o marido, que se vê obrigado a contratar uma pessoa para ajudá-lo a cuidar do pai enfermo.

Na verdade, a câmera vai aos poucos se desviando do empregador e se fixando na empregada, que carrega tantos problemas quanto. Essa mulher de aspecto doentio tem uma filha pequena, mora longe, o marido está desempregado e ela está grávida. Sem contar que o serviço a fazer é inadequado – por exemplo, quando o seu paciente urina nas calças, ela precisa telefonar para orientadores religiosos para saber se, pelos preceitos do Corão, é pecado, ou não, trocar as suas calças.

Quando estamos ficando acostumados ao tempo de tela doado a essa empregada, eis que o patrão retorna com toda força, ponto a partir do qual, outros personagens ganharão seu tempo, inclusive a esposa, parcialmente sumida da tela.

Ocorre que, ao chegar um dia em casa com a filha, Nader  encontra o pai idoso desfalecido, caído ao chão. A empregada sumira e ao voltar não oferece justificativas satisfatórias para a ausência e, por isso, é expulsa do apartamento, com um ligeiro solavanco, e o caso vai parar na justiça.

Não interessa contar o resto da estória, bastando dizer que as coisas – do ponto de vista jurídico e emocional – se complicam cada vez mais para todos, e boa parte do restante da narrativa se passa em tribunais, perante juízes que ouvem e fazem anotações ou prescrevem sentenças.

Equilibrando-se entre a superfície e o abismo, o roteiro vai nos relatando os muitos e contraditórios desdobramentos do caso (aborto provocado por violência, acusação de crime, falso testemunho, sonegação de informação judicial, etc) com seus detalhes viciosos de uma verdadeira reação em cadeia.

Um mérito, com certeza, está na polifonia da situação descrita, naquele sentido bakhtiniano de multiplicidade de vozes em jogo, cada uma com sua verdade. Sim, acompanhando de perto cada caso individual, o espectador compreende os personagens, e tende a lhes dar razão, cada um na sua vez, sem que isso retire as razões dos outros. As atitudes são por vezes ambíguas, mas isto porque a vida é ambígua. Só a miopia da Lei é monofônica e unilateral, e por isso mesmo, não é a Lei que tem a última palavra, no desenlace.

“Não foi nada grave” diz um dos personagens a certa altura. “Nada grave?” retruca o outro, indignado. “Bem, tornou-se grave”, corrige aquele primeiro. “A separação” gira em torno de miudezas familiares que se avultam e o impressionante é que, com essa matéria supostamente simplória (homem não aceita descaso para com o pai enfermo, mulher se ofende com indiferença para com a educação da filha, empregada se indigna com tratamento violento…) produza um drama de proporções quase trágicas – coisa que Hollywood desaprendeu a fazer há muito tempo.

Outro ponto alto é a construção dos personagens – naturalmente ajudada pela extrema qualidade das interpretações – todos verticais e convincentes, mas um pouco diversos dos padrões ocidentais. Vejam o caso de Simin e Nader: divorciam-se por discordar em um ponto chave e se mantêm firmes em suas posições até o fim, porém, o divórcio não os conduz à baixaria de acusações pessoais que marcaria qualquer filme moderno sobre o assunto. Foi a censura que impediu isso? Se foi, essa censura foi muito bem administrada e deu bons frutos do ponto de vista estético.

Completamente aberto (com quem vai ficar Termeh, a filha adolescente do casal, depois de tudo passado?), o final tinha que ser assim. Inevitavelmente, a decisão a ser tomada pela adolescente adquire um certo valor judicativo que a direção – coerente com o sentido de polifonia já referido – quis evitar. Daí a providencial lacuna diegética da última cena (a tela escurecendo e o casal, conosco, esperando a decisão da moça), lacuna a ser preenchida pelos espectadores.

Desde o final dos anos oitenta, o cinema iraniano, com Abbas Kiarostami e tantos outros, vem se impondo ao Ocidente. Com a singeleza neo-realista de suas ficções (um sapato infantil perdido, um jarro escolar quebrado, um tapete a ser tecido…) ganhou notoriedade e, durante algum tempo, chegou a virar grife, e a ser, por isso mesmo, maldosamente questionado.

Forte, profundo, perfeito, comovente e impressionantemente universal, “A separação” parece que põe as coisas no lugar, provando que, com ou sem singeleza, e indiferente a pechas de ser grife ou outra coisa, o que mais conta é a qualidade.