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Quase “Shane”

14 nov

Lembremos a cena. Estamos no velho Oeste selvagem e a câmera nos mostra, numa paisagem desolada, um rancho modesto, com um pequeno lago onde um garoto brinca. Lá no fundo se veem as montanhas, de onde parece vir esse forasteiro que se aproxima, misterioso. Mas vamos além da cena: adiantemos que o forasteiro vai se hospedar no rancho por algum tempo; que vai ajudar no conflito com os outros habitantes do território; que o garoto vai tornar-se seu admirador e que a mãe do garoto vai ter uma queda pelo forasteiro, visivelmente correspondida.

Pela descrição, tenho certeza que você, leitor, está pensando em “Os brutos também amam” (“Shane”, George Stevens, 1953). Pois bem, até que poderia ser… se não se tratasse de um outro faroeste, por sinal, do mesmo ano, também colorido e também com trilha musical de fundo.

O forasteiro que chega no rancho

O forasteiro que chega no rancho

Estou falando de “Caminhos ásperos” (John Farrow, 1953), cujo título original – mais uma coincidência – também é uma única palavra, o nome do protagonista: “Hondo”.

Capciosamente, fiz a descrição acima de forma a que fossem levantados somente os pontos que os dois filmes têm em comum. Evidentemente, a partir daí as igualdades desaparecem. O que não nos impede de prosseguirmos com a comparação, agora de forma contrastiva.

Primeiro dado diferenciador: o forasteiro que se aproxima do rancho (John Wayne, e não Alan Ladd) não vem a cavalo, mas a pé, pois seu cavalo fora baleado em conflito pré-tela. Em sua companhia vem um cachorro, ao passo que em “Os brutos” o cachorro existente é da casa, companheiro do garoto Joey nos momentos mais críticos. Os inimigos do rancho não são os latifundiários do gado, e sim, os índios Apache. Diferentemente do enigmático personagem de Shane, o nosso Hondo exibe uma vida sem segredos: passou parte de sua existência entre os índios, foi casado com uma Apache, e hoje pertence à cavalaria dos Estados Unidos, que combate os mesmos índios.  E, um dado mais sintomático: em “Caminhos ásperos”, o dono da casa está ausente, desaparecido há algum tempo.

Um romance que brota entre o forasteiro e a esposa do rancheiro

Um romance que brota entre o forasteiro e a esposa do rancheiro

Pois é, se porventura uma frustração do espectador em “Os brutos” consiste em que Shane, o forasteiro amado por todos, não fica com a esposa do rancheiro, “Caminhos ásperos” parece resolver o problema: a ausência do marido e, mais tarde, a sua morte, e mais que isso, a descoberta de seu mau caráter, possibilitam a união amorosa que não fora possível no filme de George Stevens. De tal modo que, em termos de desenlace, se “Os brutos” tem um final feliz parcial (a querela com os latifundiários do gado foi vencida, mas Shane vai embora sozinho…), em “Caminhos” a felicidade final é plena: os apaches foram dominados e o casal, Hondo e Angie (Geraldine Page) ficam juntos para sempre, o garoto sendo levado pelas circunstância a abraçar esse novo pai.

Fiz o cotejo entre “Hondo” e “Shane” (mantenhamos os títulos originais) com alguma culpa, pois, o filme de John Farrow não precisa de comparações: é um bom filme em si mesmo. Evidentemente, nunca teve a fama de seu semelhante, e o próprio John Wayne alegava que, sendo do mesmo ano e tão “parecido”, “Shane” atrapalhou a carreira crítica e recepcional do seu filme. Eu mesmo não o conhecia e só cheguei a ele por indicação de amigos cinéfilos.

Os inimigos agora são os índios Apache

Os inimigos agora são os índios Apache

Wayne deve ter razão, mas, vale lembrar que, com o passar do tempo, o filme reabilitou-se junto à crítica, pelo menos isso. Com efeito, “Hondo” tem méritos inegáveis que podem colocá-lo entre os bons westerns da sua década. Narrado com fluência e boas interpretações, amarra bem os conceitos de ´filme de amor´ e ´bang-bang´. Um ponto seu extremamente favorável é a fuga ao maniqueísmo, e o melhor exemplo está na construção do personagem-título, ao mesmo tempo grosseiro e violento, terno e compreensivo; astuto e ardiloso na luta, mas desprendido e entregue na amizade.

Num filme sobre o conflito entre brancos e índios, sua origem é sintomática, pois se diz mestiço, e faz questão de resguardar, em palavras e gestos, o que há de típico nas duas raças. Numa situação crítica, Hondo hesita, como o faria qualquer ser humano, como é o caso quando precisa (por questões morais) confessar à companheira Angie que foi ele quem – por legítima defesa – matou o esposo dela, pai de seu filho. E sua justificativa para a confissão é orientada pelos inimigos que o torturaram, os Apaches, gente que – segundo ele – não conhece o conceito de mentira.

Enfim, com ou sem comparações com “Shane”, uma raridade cinematográfica que merece ser conhecida e apreciada.

Em tempo (1): autor de vasta e diversificada filmografia, John Farrow também é lembrado por ser o pai da atriz Mia Farrow.

Em tempo (2): esta matéria é dedicada ao amigo Joaquim Inácio de Brito, que me apontou o caminho a “Hondo”.

Apaches por toda parte.

Apaches por toda parte.

Poesia

8 ago

A crítica é cheia de paradoxos. Ou seria o crítico? Às vezes filmes ruins me instigam a escrever, e, às vezes, um filme ótimo me sugere ficar calado.

Uma sugestão de silêncio – mas de silêncio respeitoso – me deu esse excelente “Poesia” (“Shi”, 2010) do sul coreano Chang-dong Lee, que tive a sorte de ver nesse novo Canal Arte-1 da televisão paga.

Sim, alimento a sensação de que escrever sobre esse doce e terno filme é como maculá-lo. E, paradoxalmente, escrevo, pois me vejo no afã de divulgá-lo. Se pudesse, ao invés de escrever, tiraria cópias, e carinhosamente distribuiria entre os amigos.

poetry poster 1

Devo começar dizendo que, neste cinema do terceiro milênio que me chega, poucas vezes vi um personagem, cativante e verdadeiro, tão bem construído como essa Sra Misha, de sessenta e seis anos de idade que, acometida de lapsos de memória, se matricula num curso de poesia. Caminhando devagar pelas calçadas de Seul, Misha destoa da pressa reinante, com sua elegância e sua delicadeza – seu rosto de sessentona ainda é bonito, seu corpo ainda é esguio e o chapéu branco, ligeiramente antiquado, que teima em usar, lhe concede um ar vagamente aristocrático.

Não sei se vou conseguir passar a sua beleza interior, mas começo com o óbvio, o que o enredo me fornece, até porque o enredo é outro enorme mérito do filme.

poetry 5

Viúva há muito, Misha viveria sozinha, não fosse por esse neto, filho de pais separados, que ela praticamente é obrigada a hospedar – um adolescente hostil, com quem não consegue se entender, embora faça todos os esforços.

Um dia Misha ouve a notícia de que uma jovem de dezesseis anos cometera suicídio, jogando-se da ponte no rio que banha Seul. Não apenas tem a notícia como, indo ao hospital para exames, testemunha uma cena terrível: a mãe da moça morta, enfurecida pelo desespero, gritando e se arrastando pelo chão como uma louca.

Logo depois, vem o pior: Misha é secretamente procurada por uma comitiva de pais, cujos filhos haviam estuprado a jovem, e o neto de Misha estava entre eles. Os pais a procuram porque, juntos, estão – sem que a polícia ou a imprensa o saiba – coletando dinheiro para uma indenização.

Sem maiores recursos, Misha não tem como levantar a quantia pedida. Vive de pensão, e de um eventual trabalho de cuidadora – cuida de um senhor idoso que, acometido de AVC, mora só em seu apartamento de classe média.

poetry 4

Todos esses problemas – inclusive os lapsos de memória, diagnosticados como início de Alzheimer – não impedem Misha de continuar freqüentando o curso de poesia, onde o professor afirma que todo mundo é capaz de fazer poemas, pois a poesia está dentro de nós. Misha sempre gostou de flores e de palavras estranhas e isso lhe dá a ilusão de que possa vir um dia a escrever um poema. Gasta tempo fitando a natureza em busca de uma inspiração, que nunca vem. Ou (devo contar o resto da estória?) vem tarde.

Enquanto isso, impressionada com a morte da jovem, Misha vai até o local do suicídio, a ponte sobre o rio, e – triste prolepse – o vento arranca-lhe o chapéu, que cai nas águas sombrias.

Incumbida pela equipe dos pais, visita a mãe da jovem, no campo, porém, a visita não dá frutos, salvo um, literal, que Misha apanha do chão e mastiga. As duas mulheres conversam sobre frutas maduras e Misha volta como foi, sem soluções. Uma única, precária, é que furta o retrato da garota morta e o leva para casa, pondo-o à mesa, diante do neto delinqüente.

Ainda que por meios nada edificantes – espécie de estupro consentido – Misha consegue, com o senhor de quem cuida, enfim, o dinheiro para a cota indenizadora, o que não impede que, um dia, a polícia apareça em sua rua e leve o neto preso.

poetry 7

No fim do curso, nenhum aluno cumpriu a tarefa do professor, a de escrever um poema, salvo Misha, que não comparece a essa aula final, e, com um buquê de flores, envia o poema – o seu primeiro e (lembremos o chapéu no rio) último.

Enquanto se ouve a voz que lê o poema de Misha (primeiramente a do professor, depois a dela, depois a da adolescente morta), a câmera vai se deslocando na direção da ponte do suicídio e nós, espectadores, entendemos que houve outro. Não apenas as águas turvas do rio, filmadas assustadoramente de perto, nos dizem isto, como também as palavras estranhas e belas do poema que se escuta.

Desliguei a tv meio engasgado, me lembrando de outra vítima feminina do mundo dos homens, que a cada revisitação, me faz chorar, a Cabíria de Fellini.

Comecei esta matéria falando dos paradoxos da crítica. Um a mais é não atingir, na composição do texto, o nível de qualidade do filme, como é o caso aqui.

Portanto, vejam o filme e esqueçam a crítica.

Poetry 3

A visita

3 abr

Imaginem uma cidade pequena, digamos, nos anos trinta ou quarenta. Vivendo uma aventura amorosa, essa mocinha pobre e ingênua engravida do rapaz que ama. Acontece que, já comprometido com uma garota mais abastada, o rapaz forja, com a ajuda de amigos, uma farsa para se livrar do problema. Sem meios e sem apoio, a mocinha pobre, coberta de vergonha e decepção, vai embora, para uma cidade maior, onde, depois de abortar, é forçada a abraçar a profissão de prostituta.

Por sorte, um dia conhece um senhor mais idoso, um magnata do petróleo que, fascinado com sua beleza, a pede em casamento, e ela vai viver uma vida de tranqüilidade e luxo. Ocorre, porém, que ela nunca esqueceu o passado.

Décadas mais tarde, o magnata morto, a viúva milionária retorna à cidadezinha de sua origem, com um só intento na cabeça: exterminar o homem que, trinta anos atrás, a engravidara e traíra, hoje um senhor respeitado.

Querem enredo cinematográfico mais arrebatante? Mais ainda se você considerar que quem faz a vingativa senhora Karla Zachanassian é ninguém menos que Ingrid Bergman, e que o seu algoz no passado e vítima no presente, Sr Serge Miller, é ninguém menos que Anthony Quinn.

the visit poster

Dirigido pelo alemão Bernard Wicki em 1964, o filme se chama “A visita” (“The visit”), ou, alternativamente, ´A visita da velha senhora´, título da peça adaptada. Coprodução internacional (Alemanha, França, Itália, Estados Unidos), distribuído pela Fox, ainda inclui no elenco a grande Valentina Cortese no papel da esposa perplexa de Miller.

Eu vi o filme no Plaza ao tempo de sua estreia local e nunca esqueci. Lembro que, com um entusiasmo sempre renovado, o contei e recontei a meus filhos e outras pessoas, em várias ocasiões. Agora ele me cai nas mãos em DVD.

Para tornar o drama mais lancinante, a rica Sra Zachanassian chega à pequena Golan com um plano bem definido – primeiro, promete aos habitantes locais uma quantia fabulosa de dinheiro que vai, uma parte para a prefeitura, e a outra, para cada cidadão; em segundo lugar, coloca suas condições: que, em tribunal popular, se leve o caso do Sr Miller a julgamento e que o resultado seja a condenação e sumária execução.

Ingrid Bergman como a Senhora idosa em A Visita

Ingrid Bergman como a Senhora idosa em A Visita

De início os habitantes do lugar protestam, mas, quem é que não quer dinheiro, sobretudo se for muito? Aos poucos, os amigos vão hostilizando Miller, e no final… bem não vou contar o final.

Digo apenas que a estória (que começa com a chegada da ´visita´) nos é narrada como se fôssemos um dos habitantes do lugar, mas um não identificado. De modo que ´a visita da velha senhora´ permanecerá, por algum tempo de projeção, como um mistério. Segundo os comentários locais, ela vivera aqui, mas, por que retorna, por que tão rica e o que pretende?

A instância narradora tem o cuidado de sonegar as informações diegéticas que ´matariam a charada´ antes do tempo, e de só as fornecer em doses compassadas, sempre em ritmo geométrico. Ao vermos, por exemplo, a Sra Zachanassian e Miller juntos, em cenas quase íntimas, um pouco antes de ela formular suas intenções para a cidade, supomos alternativas para o desenvolvimento da estória bem diferentes das que vão se seguir.

Anthony Quinn, o alvo da vingança em A Vsita

Anthony Quinn, o alvo da vingança em A Vsita

Quando esse desenvolvimento vai despontando, o que mais dói é acompanhar a derrocada moral de Miller, que começa com os fregueses de sua loja descaradamente comprando fiado… porque sabem que não vão ter a quem pagar: afinal de contas, muito brevemente, o proprietário vai estar morto. Sua primeira crise explícita é quando ele se dá conta disso e, emocionalmente descontrolado, lança as mercadorias na rua… Aquele momento em que confessa à esposa que casara com ela por interesse é um clímax de desespero. Em outras palavras, trata-se de um filme sobre vingança, mas também de um filme sobre culpa. Insisto em não contar o que ocorre pós-tribunal, mas, garanto, esse último turning point confirma a duplicidade da temática.

Confesso, porém, que gostei mais de “A visita” quando o vi pela primeira vez. Hoje o acho meio arrastado, sem o nível de suspense que, com o passar do tempo, minha memória de cinéfilo lhe atribuíra. Sem dúvida nenhuma, o filme que – visto quase cinquenta anos atrás – tantas vezes contei aos amigos e parentes tinha mais impacto e mais vigor.

Em outras ocasiões já tratei do fato de certos filmes serem, em termos qualitativos, menores que elementos de sua própria constituição, como: uma cena, uma sequência, a música, o elenco, a fotografia, etc. De “A visita” suponho poder dizer que ele é menor que seu enredo. Não muito, mas é.

Bergman e Quinn em cena de A Visita

Bergman e Quinn em cena de A Visita