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LEITURAS DA QUARENTENA (8) AS CIGARRAS DE SÉRGIO

20 jul

Há poemas que me pegam pelo pé. Ou seria por outra parte do corpo, ou do espírito.

Foi o que se deu quando li pela primeira vez “as cigarras”, de Sérgio de Castro Pinto.

Entre uma aula e outra, eu estava, uma manhã, na pracinha da alegria da UFPB, conversando com o amigo André Ricardo Aguiar que, junto com Geraldo Maciel, fazia naquela época a Revista “Olho d´Água”. De repente, Ricardo tira da sua pasta uma folha de papel, dizendo, orgulhoso: “Olha que luxo, um inédito de Sérgio de Castro Pinto”.

Li o poema e, juro, a análise veio toda pronta na minha cabeça. Bateu-me um desespero de escrever e fui logo pedindo uma cópia a Ricardo que se recusou a dar, alegando que só podia se escrever sobre o poema depois de devidamente publicado. Eu não quis conversa: arranquei a folha das mãos dele e saí correndo desembalado para a Xerox mais próxima, com Ricardo protestando atrás de mim.

Longo e minucioso, o meu ensaio foi publicado, mais tarde, no Correio das Artes, e aqui não vou retomá-lo, mas apenas chamar a atenção para um ou outro aspecto do poema.

Como se trata de um poema sobre som (e música) o seu estrato fônico tem um destaque. As expressões “dós sustenidos”, o termo “guitarras”, mais os verbos /plugar-se/ e /recitar/, todos termos técnicos de uma mesma atividade, já estão dentro de uma isotopia musical, mas, não só eles. A expressão da sonoridade é mais sutil. Já começa com as similaridades fônicas entre as palavras “cigarras”, “guitarras” e mesmo “trágicas” e seus /aa/ e /rr/ reiterados.

Genial é o efeito conseguido com a repetição (e, como se sabe, repetição é coisa básica em música) do pronome reflexivo “se”, para onomatopeizar a voz das cigarras, e de sobra, permitindo a associação com as primeiras palavras do famoso poema do poeta inglês Rudyard Kipling, onde cada período se inicia com a conjunção condicional “Se”. Afortunadamente, pronomes e conjunções que são homógrafas e homófonas em língua portuguesa. Esse namoro irônico, delicioso e cruel com a música conclui-se com as rimas entre “vidros” e “moídos” e “pulmões” e verões”.

O resultado disso tudo é um encantamento que só a grande poesia pode propiciar. Dos “poemas animais” de Sérgio de Castro Pinto, acho que este é um dos mais elaborados, daqueles construídos com tal capricho que todos os seus detalhes confluem para um efeito específico, de modo a nada ficar fora do lugar. Desta coesão textual nem o título escapa. Notar como ele – à imagem das cigarras nas árvores – está “plugado” ao texto – no caso, como sujeito que é do primeiro verso.

Não preciso dizer que, no bojo do gozo estético do poema, me veio ao espírito a repetição sem fim de todo aquele “suicídio coletivo e barulhento” (título que dei a meu ensaio) das cigarras nos quintais da minha infância.

Por falar em infância, uma pergunta que lembro ter feito a propósito de “as cigarras” foi a seguinte: incluído mais tarde no livro de caráter infanto-juvenil, “Zoo imaginário” (2005), até que ponto o poema, com sua complexidade estrutural e apelo a um intertexto literário estrangeiro – poderia ser visto como um poema destinado a crianças e adolescentes. Questão que deixo em aberto, lembrando apenas que elementos essenciais à leitura infantil são geralmente a intuição e – por que não? – a curiosidade.

Enfim, sobre a obra poética de Sérgio de Castro Pinto escrevi e publiquei, em 1995, tese de doutorado e, até hoje, não paro de me encantar com seus poemas, os novos e os velhos, agora reunidos no livro “Folha corrida” (São Paulo: Escrituras, 2017).

Nessa tese, a semiótica de Michael Riffaterre me ajudou a destrinchar a linguagem, enquanto que a fenomenologia de Gaston Bachelard me forneceu asas para voar. E isso por quê? Porque, como se observa na leitura de “as cigarras”, a poesia de Sérgio de Castro Pinto é um misto inconsútil de construção e imaginação.

Ney nu

20 dez

Entrando no rol das ´atuais películas brasileiras sobre música´, o documentário “Olho Nu” (Joel Pizzini, 2013, exibido no FestAruanda) sustenta o nível do gênero, e, em certos aspectos, até o eleva. Construído a partir de mais de 300 horas de gravações do acervo pessoal do cantor Ney Matogrosso, o filme de Pizzini se equilibra entre a biografia, o ensaio e a poesia plástica. Como Ney, nem porra-louca nem certinho; como Ney, elegante.

ney 1

Deixando de lado o esquema tradicional da entrevista do biografado, a narração faz uso criativo de sua fala, quase sempre em over, usando imagens de suas performances em combinação com essa fala, e mais, com uma mui bem-vinda dosagem de encenações originais, concebidas para o filme, em que Ney, no papel de ator, interpreta a si mesmo – encenações, atenção, não necessariamente musicais. Uma das mais curiosas é aquele ´trompe l´oeil´ onde se vê, primeiramente uma paisagem rural, por trás da qual, de repente, vai surgindo a enorme cabeça de Ney, e só então nos damos conta de que se tratava de uma maquete.

Da vida pessoal do cantor/ator fica-se sabendo o que interessa, e o que interessa é o que de mais subjetivo nessa vida conduziu à carreira profissional desse ícone da MPB.

Claro, está lá toda a sensualidade de sua figura e o seu conhecido poder de sedução das plateias. Andrógino, mutante, polimorfo, transgressor, Ney, foi, historicamente falando, como se sabe, um dos nomes a contribuir – propositadamente ou não – para a consciência da diversidade.

Ney Matogrosso, recebendo o troféu Aruanda, em João Pessoa.

Ney Matogrosso, recebendo o troféu Aruanda, em João Pessoa.

Quando ainda pequeno – ele mesmo conta – a direção de sua libido foi despertada pela igreja. Ao se confessar, o padre teria lhe perguntado se fizera ´saliências com meninas´, e depois da resposta negativa, o padre teria insistido ´e com meninos?´ Segundo Ney, foi nesse momento que descobriu que existia a possibilidade de se fazer ´saliências com meninos´, Em dado momento chave, agradece ter tido um pai militar e moralista… ´para poder ser transgressor´.

A propósito de erotismo – um elemento decisivo na carreira do cantor – até mesmo a relação com o público é assim definida, quando confessa que, em começo de carreira ele queria ´comer´ as plateias, enquanto que hoje, ele se satisfaz em ´acariciá-las´.

Aberto, solto, sincero, esse Ney não esconde suas inseguranças. ´Não acho meu corpo bonito – diz ele – mas ajo como se fosse… e o público acredita´. Há mesmo um Ney indeciso, cindido pelo tempo: em dado momento do passado, ele aparece dizendo que precisava de um ´esquema´, e agora o vemos, assistindo a si mesmo na TV, negando isso, ou seja, discordando de si mesmo. Já um Ney brincalhão nos explica o seu sucesso pelo buraco entre os dentes: ´dizem que quem tem buraco nos dentes tem sorte: acho que é o meu caso´, solta ele, rindo e mostrando a saliência dentária.

Ney: voz, talento e sedução

Ney: voz, talento e sedução

Pouco linear, este semi-documentário ritmado e inventivo não se incomoda de misturar os tempos e um show do cantor já consagrado pode anteceder o seu relato de juventude quando, em Brasília, fazia parte modesta de um coral em que, meio por acaso, o maestro lhe descobriu o que ele não sabia que tinha: extraordinários dotes vocais.

Algumas chaves de sua carreira nos são entregues de modo franco. Uma delas, talvez despercebida para muitos, consistiu na quebra de uma regra básica nos shows televisivos de seu tempo: nunca olhar para a câmera. ´Ora – confessa ele – era o que eu mais queria fazer e foi o que eu fiz: encarar a câmera´ – com certeza, mais um de seus caminhos para a sedução do público.

No filme, mesmo sem o esquema da entrevista clássica, ele também nos olha nos olhos, daí o título “Olho nu”. E não só ´olho´ porque, sim, Ney, em dois ou três momentos da mise-em-scène, nos aparece completamente despido, nos seus setenta e um anos de idade, esbelto como um garoto e cheio de vigor.

Esse vigor, aliás, foi conferido ao vivo pelos freqüentadores do Fest-Aruanda, onde ele se fez presente, claro, para receber o troféu de ator, que, modestamente, confessou não merecer – embora ser ator tenha, na sua trajetória pessoal, lhe antecedido o desejo de ser cantor.

“Olho Nu” é claramente um daqueles filmes em que o assunto seduziu o cineasta. E com Ney Matogrosso poderia ser diferente?

Cartaz do Fest-Aruanda em sua versão 2013

Cartaz do Fest-Aruanda em sua versão 2013

Vocação em pauta

19 jun

Uma forma toda especial de recepção artística é certamente a da música. Digo, não a de cds, rádios, ou equivalentes eletrônicos, mas a que, pela tradição, se ouve ao vivo, por exemplo, em um palco de teatro.

Concerto completo, quinteto, ou solo, notem que o prazer da platéia, nestes casos, não consiste apenas em ouvir a música, mas também em testemunhar sua execução. Consome-se com os ouvidos e com os olhos, sem separar uma coisa da outra. Comparando com outras modalidades de arte, é como se estivéssemos, não apenas lendo um poema, mas, vendo o poeta escrevê-lo. Essa dimensão eminentemente metalingüística do consumo musical nunca foi bem estudada e aqui deixo a anotação aos interessados.

Claro, apesar dos esforços do maestro, ou do instrutor, a pauta é um elemento precário e nenhuma execução é igual a outra – até porque enorme é o número de fatores (subjetivos ou não) que, favorável ou desfavoravelmente, influem no resultado final. Sim, cada membro de uma orquestra é um ser humano de carne e osso, coração e mente, e cada um traz sua estória, personalíssima, que não é a estória de ninguém mais.

É esse caminho da individualidade na formação musical que toma o belo documentário “Prova de artista” (2011) do cineasta carioca-paraibano José Joffily, no momento, em exibição local.

Só que, particularmente interessado no tema da propensão vocacional, Joffily não vai atrás dos grandes mestres consagrados, e sim, de jovens que, embora talentosos e promissores, estão em início de carreira, enfrentando as dificuldades de se afirmar profissionalmente, eventualmente sendo obrigados a passar pelo decisivo, polêmico e estressante crivo da “audição” (do inglês ´audition´ na acepção de: ´prova´, ´teste´, ´exame´) – daí o título do filme.

Com idades entre 19 e 28 anos, os personagens de Joffily são cinco, quatro rapazes e uma moça. Rodrigo de Oliveira é o mais novo (19) e toca violino na Orquestra Filarmônica de Minas Gerais; Rodney Silveira (20) optou por viola e está na Orquestra Sinfônica Brasileira; Catherine Carignan (27) é canadense de origem e mora em Minas há algum tempo, tocando fagote na OFMG; americano do Wyoming, Byron Hitchcock (27) mora no Rio e toca violino na OSB; finalmente, Ricardo Barbosa (28) executa o oboé e foi, durante a realização do filme, aprovado para a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

Origem modesta, determinação, muita disciplina, vocação musical: eis alguns dos elementos comuns a esses jovens, que lidam, cada um a seu modo, com as dificuldades que os impedem de galgar uma carreira de sucesso. Byron tem uma dívida financeira a pagar no seu país; Catherine cria uma filha que ainda é bebê… etc.

O documentário acompanha os personagens, antes, durante e depois das ´audições´, registrando suas vidas privadas e ouvindo suas opiniões – eventualmente também as de familiares – sobre questões nevrálgicas, relativas à profissão escolhida, com um pouco de ênfase, como já dito, no tema da vocação. Por que um jovem, sem background cultural em casa ou na rua, escolhe tocar oboé, violino ou viola, e sacrifica um tempo enorme de sua mocidade a estudar solitariamente, para chegar perto de um virtuosismo idealizado?

Como afirma um deles, em momento de desabafo, referindo-se à quantidade de horas de trabalho: ´se profissionais de outras áreas despendessem metade dos esforços de um músico, o mundo seria outro´.

Mas, inevitavelmente, os depoimentos não se restringem ao lado heróico da profissão. Também os aspectos menores vêm à tona, talvez pouco cogitados pelos freqüentadores de concertos. Por exemplo: nem toca música clássica, nos diz um dos depoentes, é, necessariamente, bela e agradável aos ouvidos, e uma execução de orquestra, mesmo para membros do grupo, pode ser rotineira e chata. Outra coisa, mais difícil de admitir diante de uma câmera ligada: o mundo dos músicos não é nada diferente dos outros mundos mais prosaicos – afirma um outro depoente – cheio de hipocrisia, inimizades e farpas cortantes, e conviver nele pode ser sufocante.

Referi-me à vocação como tema caro a Joffily por ser este “Prova de artista” o terceiro item de uma trilogia sobre a questão vocacional: a religiosa em “O chamado de Deus” (2002), e a política em “Vocação do poder” (2006). Para quem não lembra, Joffily, com longa carreira já firmada, é também o diretor bem sucedido de filmes ficcionais premiados, como “Dois perdidos numa noite suja” (2002) e o belo e comovente “Olhos azuis” (2009).

Uma anotação final, que não posso deixar de fazer: casualmente ou não, “Prova de artista” vem se perfilar junto a essa nova corrente do cinema brasileiro recente que privilegia a música, mas esta é outra estória, que fica para outra ocasião.