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Anita

16 jan

Além de “A doce vida” (Fellini, 1960), que outros filmes de Anita Ekberg (1931-2015) você lembra de ter visto?

Fiz a enquete entre amigos e ninguém lembrava nenhum. Os mais cinéfilos ainda mencionaram o “Entrevista” de Fellini (1987), onde, afinal de contas, ela aparece documentalmente, ou seja, como ela mesma, já idosa e gorda, sem mais nada de sua beleza deslumbrante.

E no, entanto, a atriz de origem sueca é uma das musas mais cultuadas do cinema.

Sim, é que, para ser musa, um único papel pode bastar.

Anita na Fontana di Trevi

Anita na Fontana di Trevi

E o seu foi mesmo o da sensual Sylvia, aquela estrela loura estonteante, de seios grandes e fala rouca, que convida Marcello ao banho na Fontana di Trevi.

Engraçado é que algumas das pessoas com quem conversei sobre Anita Ekberg me disseram não ter visto sequer “A doce vida”, e que, no entanto – não sabiam explicar como – lembravam da famosa cena da fonte romana.

Isso tem explicações. É que o cinema, ou melhor, a cinefilia, não é feita só de filmes inteiros, mas também de imagens isoladas, que às vezes se impõem como intertextos recorrentes. O que chamo de “imagens amadas”…

Querem ver? Recentemente, dois filmes mostraram a cena Fontana de Trevi, aliás, não só mostraram, como a tornaram o pivô de sua temática toda, ao narrarem a aventura romântica de uma senhora idosa que sonha em encontrar o grande amor e com ele viajar para Roma, só para lá recriar a emblemática cena felliniana. Isto, com direito àquele gatinho vira lata e o copo de leite que lhe é servido ao pé da fonte, e tudo mais.

Sempre Anita...

Sempre Anita…

O primeiro, argentino de 2005, é o original, e o segundo, americano de 2014, é o seu remake (aqui comentado por mim), ambos com o mesmo esqueleto narrativo e o mesmo título, embora não exatamente com a mesma qualidade: “Elsa e Fred”..

Aliás, bem antes disso, no já citado “Entrevista”, a mesma cena já fora (re)exibida, quando um Mastroiani verídico, já idoso, visita, junto com toda a equipe de filmagem, a casa de campo de Anita – esta, como dito, já deformada pela idade – e, com o poder felliniano de um mágico, reproduz a imagem da cena Fontana di Trevi num lençol branco, estendido na sala à guisa de tela. E, para a tristeza dos presentes e de nós espectadores, com a mesma magia, a desfaz.

O desconhecimento da filmografia de Anita Ekberg, de alguma maneira, se justifica. Embora tenha rodado ao todo 63 filmes, afora “A doce vida”, ela infelizmente não esteve em produções dignas de nota, e quando esteve, como é o caso de “Guerra e Paz” (King Vidor, 1956), foi em papéis secundários, quando não em pontas.

Anita e Marcello na cena emblemática

Anita e Marcello na cena emblemática

De minha parte, só lembrava dela em “Bocaccio 70” (1962), filme de episódios, e naquela comédia doce amarga, também episódica, de Vittorio De Sica, “Sete vezes mulher” (1970) em que, afinal, a mulher repetida nem é ela, e sim, Shirley McLaine.

Só na checagem de suas atuações é que consegui identificar alguns filmes que vi com ela, dos quais não lembrava, e muito menos de sua participação neles.

São duas comediazinhas dos anos cinquenta, dirigidas por Frank Tashlin, com a dupla Jerry Lewis e Dean Martin: “Artistas e modelos” (“Artists and models”, 1955) e “Ou vai ou racha” (“Hollywood or bust”, 1956). E mais o filme que ela rodava quando foi abduzida por Fellini, “O escudo romano” (1959), um daqueles vazios épicos italianos que então tanto se produziam e que a nada levavam.

Mas, que importa? Anita Ekberg é, sim, a diva eterna que vamos sempre cultuar.

A beleza sueca de Anita Ekberg

A beleza sueca de Anita Ekberg

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Primeiro filme

15 maio

Qual foi o primeiro filme que você viu na vida? Eis uma pergunta que sempre circula entre os aficcionados da sétima arte.

Não sei se o leitor lembra o seu, mas o meu não foi nada marcante. Por ele, eu não teria tomado o rumo que tomei.

Sim, praticamente não lembro nada de “A mulher tigre”, só figuras descomunais se movendo a minha frente, tudo tão rápido que não dava para acompanhar a estória; além do mais, a sala quente do Cine São Pedro estava superlotada, com a criançada fazendo barulho e me desconcentrando. Era 1952 e eu tinha seis anos de idade.

Gravei o nome do filme menos por ter gostado e mais pelo orgulho de poder dizer, quando tocassem no assunto, que eu sabia o que era cinema, que já tinha ido a um.

Hoje entendo por que “A mulher tigre” não me atraiu. Consultando as fontes devidas, vejo que se tratava de um seriado e não de um filme inteiriço. O que vi naquela tarde quente no Cine São Pedro foi só um episódio de uma história maior cujo começo eu desconhecia. O seriado todo tinha – me garante o IMDB – 196 horas, divididas em 12 partes, estas exibidas em sessões diferentes nas salas do mundo. Uma produção da Republic, o filme foi dirigido em 1944 por Spencer Gordon Bennet, velho cineasta do tempo do cinema mudo.

Para minha surpresa, constato que “A mulher tigre” tinha Rocky Lane no elenco, então ainda chamado de Allan Lane. Na ocasião, mesmo se tivesse lido os créditos, eu nem saberia quem era, mas não iria demorar para o consumo de gibis fazer parte das minhas atividades de garoto, e Rocky Lane foi um dos heróis dessas revistas, com a mesma dimensão mágica de Roy Rogers, Hopalong Cassidy, Bill Eliot, Buffalo Bill ou David Crocket.

Nessa época de “A mulher tigre”, morávamos na Rua Amaro Coutinho, aquela rua estreita, paralela à Beaurepaire Rouhen, bem perto da Praça da Pedra, e o São Pedro era o cinema mais próximo de casa. Quem me levou foi uma irmã mais velha, ainda hoje me indago como, pois a família, então, vivia em situação financeira tão difícil que dois ingressos de cinema deviam pesar nas despesas: sustentando oito filhos, o nosso pai mantinha um pequeno bar, “Meu Cantinho”, já nas proximidades do Quartel da Polícia.

De qualquer modo, foi a minha única vez no Cine São Pedro. Logo nos mudaríamos para o remoto bairro de Jaguaribe, na época um fim de mundo para quem vinha do centro de João Pessoa. Mais tarde é que descobriria, encantado, que este bairro de ruas descalças, chafarizes nas esquinas, açougues com bandeirinhas vermelhas içadas, e tantas casinhas de palha, exibia nada menos que três cinemas.

Voltando a “A mulher tigre”, ao contrário da maioria dos amigos com a minha faixa etária, nunca gostei de seriados, e posso dizer que nunca acompanhei nenhum. “A deusa de Joba”, “Dick Tracy”, “Os tambores de Fu Manchu”, sei lá o que mais – só conheço essas coisas de ouvir falar, e se porventura vi algum de seus episódios, não me interessei e esqueci.

Desde sempre, me apeguei ao filme inteiriço, aquele que nos conta uma estória com começo, meio e fim. Como o que diz Poe do conto literário, acho que um filme é um universo íntegro, coerente, coeso, onde cada pequena parte reflete o todo e vice-versa. Essa totalidade igual a si mesma o arrebata e você se entrega a ela, até o final, sem chances de intervalos ou interrupções. Ao lhe devolver ao real, finda a projeção, a mágica já deu-se, e, com ou sem catarse, a sua experiência estética está concluída, ela também inteiriça.

A ironia é que, só gostando de filmes assim, inteiriços, não consigo me lembrar qual foi o primeiro que vi. Calculo que foi num dos cinemas de Jaguaribe, mas, a memória me trai e, ao olhar para trás, já me vejo enfiado nas cadeiras duras dos três cinemas do bairro, assistindo a um filme após o outro, como se nunca tivesse havido uma primeira vez.

De qualquer forma, não vou fugir da verdade – o meu primeiro contato com o cinema foi “A mulher tigre” que, em episódios ou por inteiro, gostaria de (re)ver e – quem sabe? – reencontrar aquele garotinho da Rua Amaro Coutinho, levado pela mão generosa da irmã.

E você, leitor, qual foi o seu primeiro filme e que importância tem ele na sua vida?