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Coadjuvantes

28 set

Um componente forte na mitologia do cinema sempre foi o culto aos astros e estrelas. O pensador Edgar Morin teorizou o assunto em seu livro de 1957, “Les stars – mythe et séduction au cinéma”, mas, há sempre algo mais a ser dito. Por exemplo: que a mitologia não está restrita aos atores principais: que os coadjuvantes podem ser tão, ou mais queridos que aqueles.

Sim, até porque os coadjuvantes da tela, de alguma maneira, podem funcionar, no inconsciente do espectador, como uma representação dos coadjuvantes da vida real. No plano da existência, você é o protagonista de sua própria história, mas essa história está repleta de coadjuvantes que podem ser, ou ter sido, ou vir a ser, mais – ou menos – importantes, ou mesmo decisivos, para você.

Há muito me interessa o tema e já escrevi vários artigos tratando de um ou uma coadjuvante que foi importante na história do cinema. Na verdade, pretendo reunir esses artigos – por enquanto cerca de 25 – e publicar o conjunto em formato de livro.

Antes disso, porém julguei que seria interessante uma matéria de caráter interativo em que não apenas eu, mas os cinéfilos a que tenho acesso me apontassem nomes de coadjuvantes que julgassem indispensáveis para constar de uma antologia.

Assim, pedi a amigos cinéfilos – quinze ao todo – os nomes de cinco coadjuvantes e, claro, supus que, no quadro completo, haveria recorrências, as quais, se fosse o caso, me conduziriam a um pequeno cânone. Nesta primeira etapa do trabalho, limitei-me a nomes masculinos, ficando para a segunda etapa (aguardem) a matéria sobre as mulheres coadjuvantes.

Comecemos, portanto, com os mais votados na minha pesquisa, que, no caso, são coincidentemente cinco. Para facilitar a identificação vou estar citando, em cada caso, pelo menos três filmes em que o contemplado participou, com breve descrição de seu personagem.

Walter Brennan, o rei dos coadjuvantes.

Walter Brennan (três Oscars), o rei dos coadjuvantes.

Com quatro votos, o grande campeão na preferência de meus amigos cinéfilos é Walter Brennan (1894-1974) que, desconfio, o leitor mais jovem nem sabe quem seja.

Walter Brennan foi o chefe da quadrilha dos Clanton, rivais dos irmãos Earp, contra os quais debateu-se no famoso ´duelo do OK Corral´. Verídico, o duelo foi filmado várias vezes, em filmes diferentes, mas aqui me refiro naturalmente à versão do grande John Ford, em “Paixão dos fortes” (“My darling Clementine”, 1945). Brennan também foi o empregado de John Wayne na interminável condução do gado em “Rio Vermelho” (“Red River”, 1948) de Howard Hawks. O seu terceiro papel que destaco foi como o parceiro alcoólico de Humphrey Bogart no barco que, negócios à parte, conduzia um prisioneiro de guerra para longe dos ventos nazistas, em “Uma aventura na Martinica” (“To have and have not”, 1944), também de Howard Hawks.

Os próximos colocados tiveram um número igual de votos (3) e, assim, menciono-os em ordem alfabética.

Ernest Borgnine, em segundo lugar

Ernest Borgnine, em segundo lugar

O talentoso grandalhão Ernest Borgnine (1917-2012) fica, portanto, no segundo lugar, e acho que pode ser lembrado pelo seu papel do Sargento Fatso, que, em “A um passo da eternidade” (“From here to eternity”, Fred Zinnemann, 1953) se debate com o magrelo FranK Sinatra, dentro de uma boate de Pearl Habour, em cena inesquecível. Em “Demetrius, o gladiador” (“Demetrius and the gladiators”, Delmer Daves, 1954) ele é um dos gladiadores que vão duelar com Victor Mature na arena romana. E em “Meu ódio será tua herança” está entre os membros da ´wild bunch´ de  Sam Peckimpah (1969).

Lee J. Cobb, em terceiro.

Lee J. Cobb, em terceiro.

Em terceiro lugar vem o grande Lee J. Cobb (1911-1976) que o espectador com certeza lembra, entre tantos outros, em três papéis marcantes: o chefe da gangue dos portuários de “Sindicato de ladrões” (“On the waterfront”, Elia Kazan, 1954), aquele que se debate com Marlon Brando, em luta braçal no final do filme. Ou o preconceituoso jurado de “Doze homens e uma senteça” (“Twelve angry men”, Sidney Lumet, 1958), o último na mesa a se render à inocência do réu em julgamento. O terceiro papel em destaque pode muito bem ser o do médico psiquiatra que trata essa mulher com múltiplas personalidades (Joanne Woodward) em “As três máscaras de Eva” (“The three faces of Eve”, Nannaly Johnson, 1957).

Quarto lugar para o feioso Lee Van Cleef.

Quarto lugar para o feioso Lee Van Cleef.

No quarto lugar está Lee Van Cleef (1925-1989), sempre associado a vilões, seja de faroestes ou de filmes policiais. Seu primeiro papel na tela já é marcante como Jack Colby, um dos três bandidos que chegam a essa pequena cidade do Oeste, aguardando um quarto, que virá no trem do meio dia, para formar o grupo vingativo que vai dar fim ao xerife local, Gary Cooper: o filme é “Matar ou morrer” (“High Noon”, Fred Zinnemann, 1952). No noir “O império do crime” (“The big combo”, Joseph H. Lewis, 1955), Lee Van Cleef faz o papel de um dos membros de um bando de malfeitores, com um caso estranho com o seu companheiro de trabalho, de tons visivelmente homossexuais. Já em “Três homens em conflito” (“Il buono, il bruto, il cativo”, Sergio Leone, 1966), ele é um dos homens conflitantes, aquele denominado no título original do filme, como `o feio´.

O quinto colocado é o grande Thomas Mitchell.

O quinto colocado é o grande Thomas Mitchell.

Por fim, o quinto dos mais votados é Thomas Mitchell (1892-1962), para o qual escolho os seguintes papéis, acho que relativamente fáceis de lembrar: o médico que faz partos e pega em armas com a mesma habilidade em “No tempo das diligências” (“Stagecoach”, John Ford, 1939); o tio meio atrapalhado e bastante desastroso de George Bailey (James Stewart) em “A felicidade não se compra” (“It´s a wonderful life”, Frank Capra, 1946); o tenente Stevenson de “Espelhos d´alma” (“The dark mirror”, Robert Siodmak, 1946), que investiga um crime em que estão envolvidas duas irmãs gêmeas (Olivia de Havilland), ambas aparentando culpa.

Com dois votos ficaram: Roy Barcroft, Karl Malden, Eli Wallach, George Sanders, Dan Duryea, Peter Lorre, Robert Duvall, Joe Pesci, J. K. Simmons e Wilson Grey. O restante da lista teve um único voto.

Adiante arrolo os votantes e seus votos, mas não sem antes tecer algum comentário sobre esse rol de (descontadas as repetições) mais de 50 coadjuvantes.

Acho que a primeira observação a ser feita diz respeito à época. Notar que, em sua maioria, são coadjuvantes do cinema clássico, naquele período que vai dos anos trinta aos cinquenta. Atores atuais são poucos: Joe Pesci, Steve Buscemi, Charles Durn Robert Duvall e Christof Waltz

Uma segunda observação pode ser sobre as nacionalidades, quase todas americanas. Há um espanhol (Fernando Rey), um italiano (Enzo Staiola) e três brasileiros (Wilson Grey, José Lewgoy, e Guará Rodrigues). Naturalizado americano, o alemão Peter Lorre é muito mais lembrado pela sua atuação em Hollywood que em seu país de origem. Quanto aos ingleses, há vários, mas, não sei se faz sentido destacá-los, já que todos fizeram carreira profissional em Hollywood, como Claude Rains, James Mason, George Sanders… alguns deles naturalizados americanos. Talvez a citação obrigatória, neste caso, seja a de John Gielgud.

Vale ressaltar alguns casos curiosos, de coadjuvantes que, em papéis infinitamente repetidos encarnaram tipos, em muitos casos, tipos que serviam de escada aos protagonistas e que, por isso mesmo, tinham uma importância especial para as plateias de sua época. Altamente populares no seu tempo, esses coadjuvantes-tipos hoje em dia só são lembrados por cinéfilos de memória extraordinária.

Roy Barcroft, o "Joâo Branco" dos espectadores infantis de antigamente.

Roy Barcroft, o “Joâo Branco” dos espectadores infantis de antigamente.

Acho que são os casos de Smiley Burnette e Roy Barcroft. Burnette fazia, com frequência, o papel do “doidinho”, uma figura indispensável nos faroestes dos velhos tempos. Nesses mesmos faroestes, um malfeitor obrigatório era Barcroft, calculadamente o bandido que mais apanhou e que mais vezes “morreu”, se contabilizadas todas as películas do gênero. Era tão assíduo que os espectadores infantis da época – conforme relato em ensaio publicado neste Correio das Artes – o confundiam com o autor das legendas e o chamavam de “João Branco”.

Eis, afinal, a lista dos votantes (citados em ordem alfabética) e dos votados (citados na ordem em que me foi entregue):

 

André Cananéa: Joe Pesci, Robert Duvall, J. K. Simmons, Mark Rylance, Martin Landau.

André Ricardo Aguiar: James Cromwell, Lee van Cleef, Richard Jenkins, Charles Coburn, Joe Pesci.

Edward Lemos: John Carradine, Donald Crisp, Victor MacLagen, Dan Duryea, Pat O´Brien.

Fernando Trevas Falcone: Walter Brennan, Peter Lorre, Wilson Grey, Ward Bond, Guará Rodrigues.

Homero Fonseca: José Lewgoy, Wilson Grey, George Sanders, James Mason, John Gielgud.

Ivan (Cineminha) Costa: Roy Barcroft, Elisha Cook Jr, Ted de Corsia, Walter Brennan, Jack Elam.

Jefferson Cardoso: Peter Lorre, Van Heflin, Claude Rains, J. K. Simmons, Lee Van Cleef.

João Batista de Brito: Lee J. Cobb, Thomas Mitchell, Ernest Borgnine, Walter Brennan, Raymond Burr.

Joaquim Inácio Brito: Arthur Kennedy, Thomas Mitchell, Herbert Marshall, Leo G. Carroll, George Sanders.

Josafá Soares: Slim Pickens, Ernest Borgnine, Enzo Staiola, John Cazale, Christoph Waltz.

Martinho Moreira Franco: Lee Van Cleef, Andy Devine, Karl Malden, Eli Wallach, Fred Clark.

Paulo Melo: Fernando Rey, Ned Beatty, Melvyn Douglas, Charles Durning, Sterling Hayden.

Renato Felix: Woody Strode, Oscar Levant, Eli Wallach, Robert Duvall, Steve Buscemi.

Rolf de Luna Fonseca: Walter Brennan, Dan Duryea, Thomas Mitchell, Lee J. Cobb, Barry Fitzgerald.

Silvino Espínola: Karl Malden, Roy Barcroft, Smiley Burnette, Lee J. Cobb, Ernest Borgnine.

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Ernest Borgnine

12 jul

Foi segunda-feira à noite, dia oito deste mês de julho que, num canal qualquer da televisão paga, ouvi a notícia: aos noventa e cinco anos de idade, rodeado da família, havia falecido o ator americano Ernest Borgnine (1917-2012).

Imediata e inescapavelmente, me reportei aos anos cinqüenta, especialmente aos velhos faroestes da época, que foram tantos e tão bons, quase todos com aqueles títulos brasileiros enormes, por exemplo, “Os homens das terras bravas” (“The badlanders”, Delmer Daves, 1958), em que o querido e saudoso Borgnine atuava ao lado de Alan Ladd e Katy Jurado.

Ernest Borgnine não foi nenhum astro de primeira grandeza no Star System de Hollywood, mas acho que posso dizer, junto com muita gente boa, que foi um dos coadjuvantes mais queridos do cinema americano, extremamente competente em seu ofício, para não dizer brilhante. Eu gostava dele especialmente porque parecia com um vivente do meu bairro.

Grandalhão, forte, largo e feioso, ele tinha a cabeça meio achatada, a cara redonda, quase sempre com um sorriso franco, onde se destacava um orifício entre os dentes, bem no meio. Pesadão, não era nada elegante ao gesticular ou andar, e de sua bocarra nunca saiu uma palavra que não fosse a mais comum.

Ficou ainda mais parecido com um vivente do meu bairro no dia em que estreou “Marty” (Delbert Mann, 1955), um dos seus raros papéis principais, pelo qual, aliás, ganhou um Oscar.

Nesse belo e comovente drama de subúrbio com tons francamente neo-realistas, ele era um humilde e simplório açougueiro do Bronx, de ascendência italiana (a sua, na verdade) que, estando com trinta e poucos anos de idade, não conseguia atrair o sexo oposto. Singelo mas profundamente tocante, foi um filme feito ´com carinho, para os feios´, num tempo em que astro ou estrela de cinema tinha que ser bonito como Robert Taylor ou Ava Gardner.

Ernes Effron Borgnino nasceu na pequena Hamden, estado de Connecticut, em 24 de janeiro de1917. Afamília vinha da Itália, como indica o sobrenome, depois remodelado para a forma inglesa Borgnine. O pequeno Ernes foi um menino comum e nunca manifestou interesse por teatro ou cinema.

Na idade certa, serviu o Exército e, quando eclodiu a Segunda Guerra, foi obrigado a lutar nos campos de batalha europeus, como qualquer soldado americano. Finda a guerra, voltou à cidade natal, onde, desempregado, perambulou pelas ruas do bairro sem destino, até que a mãe teve a ideia: “Já que tu gostas tanto de te mostrar na frente dos outros, por que não tentas o teatro?” – perguntou, referindo-se ao seu jeitão descontraído e brincalhão.

O pai achou a ideia infame, mas Borgnine topou o desafio e daí a pouco já estava estudando teatro e atuando nos palcos da vida. De palco em palco, caiu na Broadway e em 1951, decidiu que Los Angeles era o seu destino. Não tinha ´physique du rôle´ para galã, mas e daí? Os filmes de Hollywood também precisavam de atores de suporte, e este poderia muito bem ser o seu caminho. E foi.

Com uma longa e intensa carreira, que iniciou em 1951, Borgnine atuou em cerca de 200 filmes que, naturalmente, não vou citar.

A primeira vez em que vi Borgnine na tela deve ter sido mesmo como o Fatso de “A um passo da eternidade” (1953) – lembram? – aquele soldado corpulento e agressivo que, num bar de portoem Pearl Harbor, puxa uma briga com o franzino e teimoso Frank Sinatra e quase mata o rapaz.

Depois fiquei vendo Borgnine em dezenas de westerns, entre os quais , além do já citado “Os homens das terras bravas”, estão: “Johnny Guitar” (1954), “Vera Cruz” (1954), “Ao despertar da paixão” (1956), “Meu ódio será sua herança” (1969), etc… Ou podia ser em aventuras, dramas ou filmes épicos, tais como: “Demetrio e os gladiadores” (1954), “A conspiração do silêncio” (1955), “Vikings, os conquistadores” (1958), “Barrabás” (1961), “O voo do Fênix” (1965), “Os doze condenados” (1967), etc…

Quando foi que vi Borgnine pela última vez em tela de cinema? Não sei ao certo, mas, deve ter sido em 1972, ou um pouco adiante, em “O destino do Poseidon”, um daqueles filmes catástrofe que marcaram a crítica década de setenta. Depois disso, perdi-o de vista, mas não de lembrança, pois sempre revisito seus filmes, digo, os antigos.

Junto com Burl Ives, Martin Balsam, Walter Brennan, Thomas Mitchell, Thelma Ritter, Katy Jurado, Arthur O´Connell, Ed Begley, e tantos outros, Ernest Borgnine faz parte da minha galeria de coadjuvantes amados, sobre os quais pretendo um dia editar um livro.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Gilberto Lucena.