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O Netflix e o conceito de clássico

5 set

Outro dia estávamos num restaurante, tomando um bom vinho e batendo papo sobre cinema, eu e um amigo, grande cinéfilo, que me perguntou se eu já tinha o Netflix. Ao ouvir que não, foi logo, munido de seu potente celular, me mostrando, entusiasmado, as maravilhas desse aplicativo de cinema.

“Tem filmes clássicos?” Perguntei, e ele: “Claro. Quer testar? Diga aí o nome de um clássico que você queira rever”. E eu: “Crepúsculo dos deuses”. Ele foi lá, cutucou daqui, cutucou dali, e nada… Não tinha. Ele: “Esse, por coincidência, não tem. Diga outro”. E aí eu apelei pro óbvio: “Casablanca”. Não tinha. Depois foi “E o vento levou”. Também não tinha. “Cantando na chuva”. Também não.

Com as negativas seguidas, o entusiasmo de meu amigo foi virando embaraço, e, sensatamente, mudamos de assunto, e passamos a comentar a boa qualidade do espaguete com molho de camarão servido, e principalmente o buquê especial do Chianti.

Ora, algumas semanas depois desse jantar que o amigo tão gentilmente me oferecera, o que me acontece? Ganho, dos meus filhos, o acesso ao Netflix, instalado no meu notebook – sintomaticamente – pelo meu neto de nove anos de idade.

Fiquei muito feliz com mais essa fonte de acesso ao cinema, que é realmente maravilhosa. Meu notebook é ligado ao meu aparelho de tv de 46 polegadas, e, assim posso ver os filmes do Netflix – que são de fato, em grande quantidade, e alguns, muito bons – na tela (mais ou menos) grande, com uma qualidade de imagem impressionante. Nesse dia, entendi o entusiasmo de meu amigo cinéfilo…

“Cantando na chuva”, um dos muitos clássicos fora do Netflix

Mas, voltemos aos clássicos. Na página principal do Netflix há um quadro com as categorias dos filmes disponíveis, e uma dessas categorias é CLÁSSICOS. Curioso, cliquei lá e – como já supunha que aconteceria – a decepção foi enorme.

Da totalidade dos filmes disponíveis nessa categoria, só consegui detectar cinco filmes que, a rigor, poderiam ser chamados corretamente de clássicos, que são: “Janela indiscreta” (1954), “Um corpo que cai” (1958), “Psicose” (1960), “Spartacus” (1960) e “Bonequinha de luxo” (1961)… Todo o restante são filmes lançados na segunda metade do Século XX, se estendendo até o ano 2000. Muitos são realmente filmes bons, alguns muito bons, mas, clássicos?

Ok, vamos considerar – e se for o caso, aceitar – que o pessoal do Netflix esteja, por conta própria, chamando de “clássico” tudo o que se produziu antes deste Novo Milênio em que estamos. A idade da maior parte dos seus jovens usuários deve justificar esse elastecimento do conceito de “clássico”.

Pois bem, mesmo assim, permanece o problema: se for “clássico” tudo o que o Século passado produziu, por que só está no Netflix a segunda metade? E a primeira? Não existe? A ironia é que, se for pelo critério de ´quanto mais antigo mais clássico´, essa primeira metade ausente é muito mais clássica que a segunda!

“Onde os fracos não têm vez”, como filme noir – parece piada.

A minha segunda decepção com o Netflix tem a ver com outra categoria, a de filme noir: fui checar os títulos e – desta feita não adianta acochambrar – não existe um só filme noir, dentre os filmes noir oferecidos pelo Netflix. Ocorre que o noir é um gênero historicamente datado, que vai de 1940 (com “Relíquia macabra”) ao final dos anos cinquenta (com “A marca da maldade”, 1958). São todos filmes preto e branco, com uma estrutura semiótica particular, com um estilo plástico e enredo bem particulares, com ingredientes diegéticos igualmente particulares. Aliás, diga-se de passagem, todos eles REALMENTE clássicos.

Mas, sosseguem: não estou aqui para meter o pau no Netflix. Como se trata de um Programa novo, pode ser que, com o tempo e aos poucos, venham a ser incluídos mais títulos antigos no seu repertório de clássicos. Aguardemos. Na verdade, estou curtindo um bocado tê-lo a meu inteiro dispor. É legal poder ver ou rever, com uma qualidade de imagem de fato excelente, grandes sucessos dos anos 70, 80 e 90, bem como os filmes da atualidade.

Contanto que não tenhamos que chamar “Uma linda mulher” de clássico, e “Onde os fracos não têm vez” de noir!

Rick e Ilsa (Casablanca, 42), provavelmente, se perguntando: por que não estamos no Netflix?

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“Além das palavras” – Emily Dickinson para poucos

8 maio

Ainda não tinha visto “Além das palavras” (“A quiet passion”, 2016) quando o recomendei aos amigos do Facebook, e o fiz por ter lido, na sinopse, que focava a vida da poetisa que mais admiro, Emily Dickinson. Várias pessoas foram à sessão sugerida por conta de minha recomendação, mas, com meia hora de projeção decorrida, fiquei em dúvida se devia ter feito essa recomendação, assim às cegas.

Não é que “Além das palavras” não seja um bom filme: é que sua proposta é bem particular, pessoal, concebida para um público também particular. Não há como negar, o filme é lento, arrastado, eventualmente maçante e, para curti-lo, o espectador precisa estar familiarizado com a obra da poetisa, mais que isso, precisa ser seu admirador apaixonado.

A narração é feita em quadros, quase estáticos, com os atores quase imóveis, quase sempre articulando um diálogo agudo, sagaz, ferino, inteligente, na maior parte dos casos, inteligente demais, ao ponto de parecer um monte de aforismos saídos de livros de filosofia.

Sabe-se que a família da poetisa de Amherst era refinada, porém, o espectador sente falta de uma representação, mínima que seja, do dia a dia. Não há um momento em que se diga “me passa a manteiga”, ou “a chuva molhou o terraço”, ou qualquer banalidade assim. Os personagens só abrem a boca para emitir formulações graves sobre a existência e, com a repetição, isso torna-se artificial, teatral mesmo. Ficam de fora os “esquilos” e “migalhas” e as outras tantas coisinhas miúdas que estão, sim, nos próprios textos de Dickinson.

Suponho que mesmo os apaixonados por Dickinson têm certa dificuldade de recepção. Eu tive. Por exemplo, os muitos poemas citados ao longo do filme (em voz over, ou pela protagonista) são os menos conhecidos do leitor, e não necessariamente, os melhores. E para piorar, as legendas, claro, não os traduzem à altura, e o efeito é, no geral, meio pífio, ao menos se você não domina o inglês para, nesses momentos, atiçar o ouvido e dispensar as legendas. Uma impressão é que esses poemas menos conhecidos tomaram a vez dos mais populares porque o cineasta quis fugir do óbvio, uma obsessão da própria Dickinson, mas não sei se a medida foi boa.

Só praticamente três dos poemas mais antologizados aparecem e – devemos admitir – bem empregados. Um é “I am nobody”, recitado pela poetisa de modo engraçado para o sobrinho, recém-nascido. O outro vai aparecer no desenlace, cobrindo a morte da poetisa de uma maneira, de fato, muito efetiva e bela: “Because I could not stop for death…” (“Como não pude parar para a morte…”). Muito bem utilizado, também, é o do fotograma final, que, astutamente, fica igualmente valendo para o autor do filme: “This is my letter to the world, that never wrote to me”: “Esta é minha carta para o mundo, que nunca me escreveu”.

De minha parte, senti falta de poemas que, pela temática, caberiam muito bem em certos trechos da estória. Por exemplo, nas cenas da Guerra de Secessão, achei que ia ouvir aquele, sobre o soldado agonizante, que começa: “Success is counted sweetest / by those who never succeed”. Ao ser tratado o caso de Emily com o Reverendo Wadsworth, supus que ouviria “The soul selects her own society…”, um dos mais belos poemas de amor que conheço, e, no agravamento da doença da poetisa, bem que dava certo aquele, sobre a fragilidade da esperança: “Hope is the thing with feathers…”.

Penso que na segunda parte do filme vai tornar-se um pouco mais fácil para o espectador envolver-se na estória, ao despontarem os casos amorosos (o amor platônico de Emily pelo reverendo Wadsworth e a relação adúltera entre Austin, o irmão de Emily, casado, e a amiga, também casada), ocasiões em que os diálogos parecem mais reais… e os personagens idem.

Antes de fazer o filme, o diretor Terence Davies deve ter lido todas as biografias da poetisa e não quis deixar faltar os elementos mais comentados da fase final de sua vida, possivelmente, sua única concessão ao óbvio: a radical reclusão da escritora em seu quarto doméstico, a sistemática hostilidade para com os eventuais visitantes, e as indefectíveis roupas brancas, possivelmente simbólicas de uma pureza almejada.

Na minha chamada do Facebook, antes de ver “Além das palavras”, fiz uma brincadeira com os versos “Hope is the thing with feathers / that perches on the soul”, dizendo que “não sei se o filme vai pousar na minha alma, mas tenho esperança que sim”. Agora posso dizer que pousou, mas não cantou…

Um filme sobre poesia, um bom filme, não resta dúvida, mas não sei se propriamente um filme poético. Seguro não estou, mas, de uma coisa desconfio: é que ele não estimula a leitura de Emily Dickinson. E quando digo isto, penso nos jovens que ainda não tiveram a oportunidade de conhecer a singularíssima obra da poetisa de Amherst, e sua impressionante modernidade.

Como escrever sobre cinema (III)

21 fev

Na discussão sobre a escritura crítica, um tópico interessante são as divergências. Claro, nada mais democrático do que divergir, porém, a coisa complica um pouco quando as opiniões, de divergentes, passam a ser praticamente excludentes.

Tenho amigos que acham “Morte em Veneza” uma chatice, enquanto outros o têm como um filme superior, perfeito. Descompasso semelhante de opiniões entre meus amigos, eventualmente constato em filmes como “O anjo azul”, “O ano passado em Marienbad”, “Oito e meio”, e tantos outros.

Há amigos meus que julgam filmes como “Cidadão Kane” e mesmo “Um corpo que cai” um lixo só, e, neste caso, conversando com eles, eu fico sem saber o que argumentar em favor dessas obras primas… E dou um jeito de mudar de assunto, pois são pessoas instruídas cujas bagagens culturais eu tenho o bom senso de respeitar.

Como dar a "Um corpo que cai" o estatuto de "lixo"?

Como dar a “Um corpo que cai” o estatuto de “lixo”?

Sobre esse tópico das divergências, uma coisa que me diverte é consultar o setor de comentários dos usuários do IMDB. Não necessariamente para ler os textos, mas, tão somente para cotejar os títulos que são dados aos comentários,  geralmente títulos que já dizem tudo das reações dos espectadores aos filmes vistos. Não é raro que, de um mesmo filme recém lançado, estejam, lado a lado, títulos assim: “Uma obra prima” e “Um fracasso completo”. Como disse, nem sempre me dou ao trabalho de ler os textos, mas, imagino que cada um dos comentaristas argumente com a lógica que lhe é possível, seja qual for essa lógica.

Os usuários do IMDB, em princípio, não são críticos de cinema, porém, o intrigante é que entre os profissionais, as divergências também venham a ter o tom de recíproca excludência.

Quando escrevo sobre filmes antigos, – e faço isso com relativa frequência – gosto de consultar suas respectivas fortunas críticas, em vários locais, mas, especialmente nos video-guides da vida, livrinhos bastante úteis pelo seu caráter conciso. Dois há a que sempre recorro, a saber, o do inglês Leslie Halliwell, e o do americano Leonard Maltin. E, não vou negar, também me divirto muito com as excludentes divergências.

Um exemplo que me ocorre, no momento, é o de “O homem que matou o facínora” (“The man who shot Liberty Valence”). Seria essa realização de John Ford, de 1962, um filme ruim, ou um excelente filme? Em seu conceituado video guide, o afamado crítico Halliwell, do total de quatro estrelas, lhe concede uma única, o que o põe na categoria de “ruim”. Ao passo que o igualmente afamado Maltin lhe doa o total de suas estrelas, quatro, colocando-o, portanto, no patamar de “excelente”.

Para o espectador comum que toma esses ´guides´ como orientações, divergências desse tipo devem ser difíceis de compreender. Como resolver o impasse? Como é que dois profissionais teoricamente aparelhados para emitir julgamentos da mesma natureza estética, podem divergir a esse ponto sobre uma mesma obra?

"O homem que matou o facínora" - ruim ou excelente?

“O homem que matou o facínora” – ruim ou excelente?

Pois é. É aqui que entra aquele conceito incômodo chamado “gosto”.

Naturalmente, a primeira verdade a ser admitida é que crítico de cinema é gente de carne e osso, coração e mente, e que, portanto, está sujeito às trapaças da sorte, como qualquer mortal. Cada um tem sua própria formação cultural, experiência de vida, e, se for o caso, posicionamento ideológico. As preferências decorrem disso tudo, e, eventualmente, de coisas mais íntimas, por vezes inconfessáveis, ou indevassáveis. O domínio da teoria da linguagem cinematográfica deveria salvaguardar uma certa objetividade no julgamento, mas… como já disse um personagem fílmico do mestre Billy Wilder, ninguém é perfeito.

De minha parte, fico pensando onde é que residiriam as minhas limitações, os meus defeitos de crítico. Ao certo não sei, mas posso adiantar o seguinte.

Quem acompanha os meus escritos sabe que sou admirador do cinema produzido ao tempo da Hollywood clássica, aquele período de ouro, que recobre as décadas de trinta, quarenta e cinquenta. Quem me acompanha também sabe que, salvo as honrosas exceções, não alimento entusiasmo especial pelo cinema de hoje em dia, principalmente (sintam a ironia) pelo da Hollywood moderna, cheio de pirotecnias e efeitos especiais de toda ordem eletrônica.

Ao escrever sobre um filme qualquer, antigo ou moderno, confesso que faço sinceros esforços para me distanciar desse meu ´gosto clássico´ e ser objetivo no meu julgamento, e, mesmo assim, não seria tomado de espanto se um dia um paciente estudioso de minha produção crítica demonstrasse, a mim e a todos, que, no geral, possuo a tendência a ser um pouco complacente com os filmes antigos, e um pouco intransigente com os filmes modernos.

Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.

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Como escrever sobre cinema (II)

14 fev

Conversando sobre cinema é comum que as pessoas me perguntem se, na sala de projeção, sentado na poltrona, eu já assisto ao filme com a postura crítica de um profissional que escreve sobre a sétima arte.

Normalmente essas pessoas se surpreendem ao me ouvirem dizer que, quando vou a cinema, deixo em casa minha “farda de crítico” e vejo o filme como um espectador comum, completamente despojado, entregue ao que der e vier, solto para mergulhar na estória e sofrer, ou gozar, com os personagens, como se tudo fosse realidade.

O exercício da análise, quando vem, vem depois, já em casa, geralmente no dia seguinte, quando estou para decidir se vale a pena, ou não, escrever sobre o filme visto.

Aí então tem início o trabalho de rememoração. Nos depoimentos de colegas, não vejo referências à memória, mas ela é fundamental para o crítico. Nem sempre posso assistir ao filme mais de uma vez, e a reprodução dele na minha cabeça é essencial para gerar uma crítica correta e pertinente.

Mas, claro, o mais difícil é o que vem em seguida: a análise, etapa em que seria esperável demonstrar o que mais interessa em um filme de qualidade: a necessária relação entre conteúdo e forma. Que aspectos plásticos, por exemplo, refletem a temática, ou, o que dá no mesmo, que ideias na estrutura narrativa, por exemplo, estão manifestas no plano visual?

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Como o espaço para a crítica, em jornais, é curto, uma atitude para a qual tenho que estar pronto é a da seleção, ou seja, a de escolher que trechos do filme vou citar para exemplificar a relação conteúdo/forma que fui capaz de captar.

Para que minhas exemplificações fiquem mais claras, muitas vezes preciso reconstituir, para o leitor, o enredo do filme. Está é uma parte mecânica do trabalho, sem muita graça, mas que precisa ser feita. De modo tal que, quando eu analisar a cena, ou a tomada, ou a sequência que ilustra o meu enfoque, esse leitor compreenda a minha linha de argumentação.

Estou falando de bons filmes, mas, criticar um filme ruim também pode ser muito instrutivo. Em termos teóricos, o que acontece num filme ruim seria, mutatis mutandis, a ausência de relação entre conteúdo e forma. Se, criticando-o, digo apenas que os atores estão mal, a montagem está mal feita, a fotografia é péssima, etc… minha crítica pode ficar tão ruim quanto o filme. Preciso ser mais convincente e ser capaz de demonstrar, se for o caso, o deslocamento entre forma e conteúdo com mais consequência.

Não é comum, mas às vezes acontece de um filme conter uma proposta própria, toda sua (os filmes ditos de vanguarda, geralmente fazem isso), e neste caso, ela precisa ser respeitada. Eu, pessoalmente, posso até não gostar dela, mas devo aceitá-la como proposta autoral. Neste caso, o filme deve cumprir sua proposta, do começo ao fim, em todos os níveis; se ele não faz isso, já será criticável, e é então que eu poderia entrar com a minha argumentação desfavorável, apontando a incoerência.

Uma certa cena em "Pacto sinistro"

Uma certa cena em “Pacto sinistro”

Mas, voltando à postura do crítico na sala do cinema, confesso que, mesmo assistindo a um filme, como assisto, com o despojamento conceitual a que me referi, às vezes – talvez mais vezes do que sugiro – ocorre que, durante a projeção, questões de linguagem já me chamam a atenção, de alguma forma interferindo na minha curtição de espectador comum. Digamos que, vendo um dado filme, estou envolvido na estória narrada, identificado com algum personagem, torcendo para que ele consiga o que pretende, etc, quando, de repente, a direção me mostra um enquadramento inusitado, suponhamos, uma contra-plongée radical, aquela angulação de baixo para cima, tão fora dos pontos de vista da vida real, e por isso, tão estranha. Bem entendido, foi uma contra-plongée bem feita e funcional, até brilhante, e talvez por isso mesmo, me prendeu a atenção e, no momento, em plena sala de projeção, me fez lembrar de minha função de analista. E aí, eu, já pensando em escrever sobre o filme, digo a mim mesmo, bem baixinho, ´preciso lembrar de citar isto´.

Para não deixar de dar exemplos, isto aconteceu quando vi a cena do crime em “Pacto sinistro”, 1951, de Alfred Hitchcock. Vocês lembram: os dois personagens, assassino e vítima, estão em pé e nós, espectadores, feito formiguinhas, estamos em baixo, no chão, olhando para cima, vendo o corpo da vítima desabar sobre nós, como se fosse nos esmagar.

Tudo bem, vou ser mais confessional ainda: há filmes – raros, é verdade, mas há – tão engenhosos na capacidade de, ao mesmo tempo, nos envolver e nos convencer de que são arte, que, ao vê-los, eu já saio do cinema ansioso para escrever, doido para chegar ao meu computador e meter os dedos nas teclas, no caminho de casa preocupado em estar talvez esquecendo o que quero arguir para confeccionar uma crítica à altura do filme.

Como nunca tive o hábito de levar cadernetinhas e canetas para o cinema, treinei minha mente, ao longo dos anos, para conceber, organizar e armazenar ideias durante um certo “tempo morto” – digo, enquanto me alimento na saída do cinema, converso com amigos, dirijo, ou durmo. No outro dia, se for o caso, minha “caderneta mental” está – graças a Deus – disponível para o uso…

E o texto sai.

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Coadjuvantes (2) as mulheres

27 nov

Na edição de setembro do Correio das Artes, e neste blogue (Conferir), veiculei matéria sobre os atores coadjuvantes que foram importantes na história do cinema. Quinze cinéfilos (eu incluso) escolheram, cada um, cinco nomes de atores de sua preferência que se destacaram nesta categoria. Inevitavelmente, houve repetições, as quais me conduziram a pensar uma espécie de pequeno cânone.

O ator coadjuvante com maior número de escolhas foi o veterano Walter Brennan (com cinco votos), seguido de Ernest Bognine, Lee van Cleef e Lee J. Cobb e Thomas Mitchell, com quatro.

Agora é a vez das mulheres. Dentro do mesmo procedimento, pedi a quinze cinéfilos amigos que me dessem cinco nomes de suas coadjuvantes mais amadas, e aqui segue o resultado, devidamente comentado.

Como na matéria sobre os coadjuvantes masculinos, a fase do cinema mais evidenciada pelas escolhas foi a clássica, aquele período que vai dos anos trinta aos sessenta. Cinéfilos de memória privilegiada lembraram atrizes de um passado remoto, como – para citar apenas dois exemplos – Edna Purviance e Margaret Dumont. Purviance atuou, com frequência, no cinema mudo, em muitos dos filmes de Chaplin, quando o personagem era o vagabundo Carlitos, e Dumont foi, também com frequência, aquela senhora meio ingênua que, nos anos trinta, servia de escada para as palhaçadas dos irmãos Marx.

Atuantes no tempo em que afrodescendentes eram raro(a)s na tela – proibido(a)s pelo Código Hays de Censura – foram lembradas atrizes como Hattie McDaniel – a empregada negra de “E o vento levou” (1939), e Juanita Moore, a sofredora mãe negra, rejeitada pela filha branca, em “Imitação da vida” (1959).

Thelma Ritter com James Stewart, em Janela Indiscreta.

Thelma Ritter com James Stewart, em Janela Indiscreta.

As nacionalidades são quase todas americanas, mas houve votos, sim, para as brasileiras Ruth de Sousa, Geny Prado, Thelma Reston e Zezé Macedo.

Vejamos, agora, que atrizes tiveram os maiores números de escolhas. Com um número avassalador de votos (treze) ganha Thelma Ritter o primeiro lugar na preferência dos cinéfilos e cinféfilas consultados. Se formos considerar um segundo lugar, este seria dividido entre Agnes Moorehead e Judith Anderson, ambas com cinco votos. E um terceiro honroso lugar fica para a brasileira Zezé Macedo, com quatro votos.

Para quem pode não estar lembrado, Agnes Moorehead, entre muitos outros papéis importantes que desempenhou em filmes da era clássica, foi a mãe do protagonista no filme mais conceituado da história do cinema, o “Cidadão Kane” de Orson Welles (1941). Já Judith Anderson pode muito bem ser lembrada pelo seu papel marcante como a sombria governanta no hitchcockiano “Rebeca, a mulher inesquecível” (1940). Quanto a Zezé Macedo, acho que, entre nós, dispensa apresentação, mas lembremo-la como a esposa matuta de Oscarito na chanchada de primeira classe “O homem do Sputnik” (Carlos Manga, 1959).

A grande atriz Thelma Ritter seria, portanto, a coadjuvante que mais encantou/encanta os cinéfilos e cinéfilas, mas, será que o leitor do Correio das Artes lembra mesmo quem é ela?

Não há outro jeito de saber, se não for repassando os seus papéis, nos muitos filmes em que participou, sempre ao lado de grandes astros e estrelas, filmes dirigidos por cineastas importantes da chamada Hollywood clássica. Vejamos.

Em “A malvada” (“All about Eve”, 1950, de Joseph Mankiewicz) ela era a dedicada camareira de Bette Davis, que dava seus pitacos certeiros, sem nunca ser levada a sério. Em sua intuição de mulher simples, foi a primeira a notar a falsidade da protagonista do título do filme, a “Eva” feita por Anne Baxter.

Em “Anjo do mal” (“Pickup on South Street, 1953, de Samuel Fuller) era a desencantada vendedora de gravatas que, sem culpa no cartório, é assassinada por espião comunista. Sim, aquela mesma que vive juntando o seu dinheirinho mirrado para um funeral com dignidade. Um papel sombrio, num filme sombrio, para uma grande atriz. Nas minhas conversas com os cinéfilos consultados, foi este o seu papel mais mencionado.

Thelma Ritter em A Malvada, com Bette Davis.

Thelma Ritter em A Malvada, com Bette Davis.

Em “Janela indiscreta” (“Rear window”, 1954, Alfred Hitchcock) foi a tagarela enfermeira de James Stewart, que ajudou tanto na cura da perna engessada, como no desvendamento do crime cometido no condomínio. É ela que desce, com Grace Kelly para remexer a terra do jardim lá embaixo, onde o cachorrinho da vizinha cavara, e, por isso, fora morto.

Em “Confidências à meia noite” (“Pillow talk”, 1959, de Michael Gordon) foi a faxineira de Doris Day, que só dava conta da arrumação do apartamento entre um gole e outro, e, sempre cambaleante, ainda tinha tempo para conselhos a essa jovem patroa que vivia envolvida com um vizinho chato e um amante cavalheiro, que, na verdade, eram a mesma pessoa.

Em “Os desajustados” (“The misfits”, 1961, de John Huston) era a amiga de Marilyn Monroe, que desaparecia depois de meia hora de filme, mas deixava o seu rastro, mesmo porque, onde Thelma Ritter aparecia ninguém esquecia seu rosto e seu jeito.

Em “O homem de Alcatraz” (“The birdman of Alcatraz”, 1962, de John Frankenheimer) foi a sofrida genitora desse criador de pássaros, mais preso que eles. Suas visitas ao filho encarcerado não eram constantes, mas deixaram marcas.

Suponho que, a esta altura, o leitor – se não tinha – já tem uma ideia da figura de Thelma Ritter, até porque as suas atuações reforçavam um tipo, físico e psicológico, bem particular, que poderia talvez se rotular de mulher do povo: baixinha, rosto redondo, olhos apertadinhos, bochechas ligeiramente salientes, cabelo encaracolado, nem curto nem comprido, dicção inconfundível, cheia de tiradas curtas e grossas, andar peculiar, balançando o corpo de um lado para o outro, em alguns casos criando um ritmo que também era o do filme.

Thelma Ritter (1902-1968) nasceu no Brooklyn, Nova Iorque, e se interessou por teatro desde tenra idade. Na juventude, foi aluna do “American Academy of Dramatic Arts”, porém, a sua vida profissional na ribalta mal começara e ela já casou-se com o executivo da publicidade Joseph Moran, teve duas filhas, e, salvo participações em rádio durante os anos quarenta, interrompeu a carreira para ser mãe e dona de casa.

Os Desajustados (1960): Thema Ritter com Marilyn Monroe.

Os Desajustados (1960): Thema Ritter com Marilyn Monroe.

De forma que, ao retornar à profissão e ser escalada pela equipe da 20th Century Fox para uma ponta em “De ilusão também se vive” (“Miracle on 34th street”, 1949, de George Seaton) já era uma senhora de quarenta e cinco anos. Vocês lembram, não é? Com Natalie Wood ainda garota, o filme era a estória de um Papai Noel que, para a perplexidade de todos, se revelava verídico.

Depois dessa ponta sem créditos, não parou mais de ser chamada para os fundamentais “supporting roles” – papéis de apoio.

Eis alguns de seus outros filmes: “Quem é o infiel?” (1949, de Mankiewicz), “Duas almas, dois destinos” (1950, de Bretaigne Windust), “O quarto mandamento” (1951, de Mitchel Leisen), “O modelo e a casamenteira” (1951, de George Cukor), “Meu coração canta” (1952, de Walter Lang), “Náufragos do Titanic” (1953, de Jean Negulesco), “Papai pernilongo” (1955, de Negulesco), “Os viúvos também sonham” (1959, de Frank Capra), “A conquista do Oeste” (1962, de vários diretores), “Por amor ou por dinheiro” (1963, de Michael Gordon), “Ele, ela e a outra” (1963, de Gordon).

Sua última participação em cinema não correspondeu ao seu talento: “Boeing Boeing” (1965, de um tal de John Rich), foi uma comédia tola onde o jornalista Tony Curtis, controlando o esquema de voos, conseguia ter casos simultâneos com três aeromoças.

Na categoria de atriz coadjuvante, Thelma Ritter mantém ainda hoje um recorde, ao mesmo tempo honroso e desfavorável: foi seis vezes (em 1950, 51, 52, 53, 59 e 62) indicada ao Oscar, sem nunca receber o prêmio. Esse recorde ela partilha com Deborah Kerr (no caso, como atriz principal), só que Kerr pôde receber, no fim da vida, um prêmio pelo conjunto da obra, e ela não. Mais uma das injustiças da Academia de Hollywood.

Enfim, eis a lista completa dos depoentes e suas escolhas – aqueles relacionados em ordem alfabética, e estas, na ordem em que me foram entregues:

Alessandra Brandão:

Thelma Ritter, Hattie McDaniel, Ruth Gordon, Judith Anderson, Shelley Winters.

André Ricardo Aguiar:

Thelma Ritter, Margaret Dumont, Joan Cusak, Gloria Grahame, Maggie Smith.

Edward Lemos:

Celeste Holm, Agnes Moorehead, Thelma Ritter, Jessica Tandy, Barbara Eden.

Fernando Trevas:

Thelma Ritter, Marisa Tomei, Geny Prado, Zezé Macedo, Thelma Reston.

Homero Fonseca:

Ruth de Sousa, Maggie Smith, Judi Dench, Kim Hunter, Agata Kuleszca.

Ivan (Cineminha) Costa:

Thelma Ritter, Agnes Moorehead, Jo Van Fleet, Judith Anderson, Zezé Macedo.

Jefferson Cardoso

Gloria Grahame, Edna Purviance, Dianne Wiest, Patricia Clarkson, Toni Collette.

Joao Batista de Brito:

Thelma Ritter, Agnes Moorehead, Katy Jurado, Celeste Holm, Elsa Lanchester.

Joaquim Inácio Brito:

Judith Anderson, Flora Robson, Gale Sondergaard, Thelma Ritter, Elsa Lanchester.

Martinho Moreira Franco

Katy Jurado, Thelma Ritter, Shelley Winters, Rosalind Russell, Zezé Macedo.

Paulo Melo:

Thelma Ritter, Lotte Lenya, Donna Reed, Ruth Gordon, Cloris Leachman.

Ramayana Lira:

Thelma Ritter, Marisa Tomei, Agnes Moorehead, Judith Anderson, Juanita Moore.

Renato Félix:

Thelma Ritter, Kathleen Freeman, Joan Cusak, Jean Hagen, Celeste Holm.

Rolf de Luna Fonseca:

Thelma Ritter, Jane Darwell, Judith Anderson, Agnes Moorehead, Gale Sondergaard.

Silvino Espínola:

Thelma Ritter, Dorothy Malone, Katy Jurado, Zezé Macedo, Angie Dickinson.

Thamara Duarte:

Rita Moreno, Donna Reed, Jessica Tandy, Hattie McDaniel, Edna Purviance.

A grande campeã das coadjuvantes, a magnífica Thelma Ritter.

A grande campeã das coadjuvantes, a magnífica Thelma Ritter.

Página de jornal velho

12 out

Em suas pesquisas iconográficas sobre o passado da cidade de João Pessoa, o poeta Águia Mendes nos brindou, recentemente, com fotografias das páginas do extinto jornal O Norte, em edição de março de 1960. (Vide: FaceBook).

Uma dessas fotografias mostra a programação do Cine São José, e isso me enviou ao passado, quando eu, garoto e morador de Jaguaribe, frequentava os três cinemas do Bairro.

Incrível como a fotografia de uma página antiga de jornal pode mexer com suas emoções. Olhando a foto, de repente, estou no Jaguaribe do comecinho dos anos sessenta. Nos meus treze anos de idade, ajudava meu pai na padaria que sustentava a família, rua Primeiro de Maio com Senhor dos Passos. Tanto despachava no balcão, como entregava as sacolas de pão nas mercearias do bairro, que eram muitas. A mesada que recebia desses serviços me permitia ir ao cinema e ver o que bem entendesse e a censura permitisse.

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Ao Cine São José fui com assiduidade, tanto às superlotadas soirées de final de semana, como a outras, em outros horários. Lembro com melancolia as matinées de domingo, em que vi tantos filmes de aventura que o tempo apagou da memória.

Na página fotografada de O Norte estão alguns dos filmes que vi no São José: a chanchada brasileira “O homem do Sputnik”, com Oscarito; a comédia americana “O bamba do regimento” com Jerry Lewis; o drama bíblico “O filho pródigo”, com Lana Turner; mas, nenhum desses teve a repercussão de “Sissi, a imperatriz”, o segundo filme da trilogia sobre a imperatriz austríaca, tão inesquecivelmente interpretada pela jovem e bela Romy Schneider.

Ainda hoje recordo a noite em que fui ao São José para ver esse filme. Eu havia me submetido a uma grave cirurgia de hérnia e estava saindo de casa pela primeira vez. Levaram-me minha irmã Genilda e o namorado Jackson, e a sessão estava cheia, com espectadores da vizinhança trazendo suas cadeiras de casa para completar a lotação do cinema – um costume que nunca vi, em nenhum outro cinema da cidade.

Prédio do Círculo Operário onde funcionava o Cine São  José.

Prédio do Círculo Operário onde funcionava o Cine São José.

A programação fotografada que se vê na página de O Norte deve ser de um dia de semana, pois o filme em cartaz, anunciado para as 19:45 horas, “Sob a lei da chibata”, só será exibido em um “único dia”. Calculo que esse único dia seria uma segunda-feira, dia sem prestígio para filmes sem prestígio. Para “amanhã” (provavelmente para a terça-feira e quarta) está anunciado “Rua dos fracassados”, outro filme para o qual não se conta um grande público, provavelmente bolado e exibido para uma plateia específica, fã de policiais ou filmes de ação.

As bilheterias mais promissoras ficavam para o fim de semana, e o anúncio já está dado, um pouco abaixo: “A partir de sexta feira”, “O bamba do regimento”, do qual – como nos casos anteriores – se oferece um miolo de enredo: “Ele era um problema para o sargento, um pesadelo para o capitão, e uma catástrofe para o general”. Com os nomes no elenco: Jerry Lewis e Phyllis Kirk. E com um “Vem aí!” exclamativo, sem datas especificadas, se anunciam ambos, o filme austríaco e a chanchada brasileira. Para a Semana Santa fica “O filho pródigo”, com o aviso de “cinesmascope”.

Para quem não lembra, ou não sabe, o Cine São José ficava na rua Senador João Lira, número 697, esquina com a rua Floriano Peixoto. Fundado em 1952, funcionava no prédio do Círculo Operário e tinha sessões diárias. Segundo dados deixados pela Companhia exibidora de Luciano Wanderley junto aos distribuidores, o cinema fazia uma média de 410 sessões por ano, que recebiam 51.635 espectadores.

Uma cena de "Sissi, a imperatriz", visto em 1960, no Cine São José.

Uma cena de “Sissi, a imperatriz”, visto em 1960, no Cine São José.

O Cine São José não era uma construção autônoma: fazia parte de um bloco maior, o prédio do Círculo Operário, este ocupando todo um quarteirão da Senador João Lyra. Mesmo sem individualidade arquitetônica era aconchegante, pelo menos para mim o foi. Tinha uma boa sala de espera, com uma escadaria curva que dava acesso ao setor superior, preferido pelos casais com intenções não propriamente cinematográficas. Seu salão de exibição era vasto, de dimensões mais ou menos quadradas. Se não me falha a memória, as últimas filas de assentos eram interrompidas, em dois pontos, por pilares redondos que sustentavam o setor superior da plateia.

Anos mais tarde, o Cine São José, não sei com que auspícios (possivelmente do pessoal do Círculo Operário), passou a incluir filmes de arte em sua programação e, num tempo em que, maiorzinho, já me interessava por crítica cinematográfica, lembro de ter visto lá raridades do cinema internacional, como o filme japonês Não deixarei os mortos, e outros de nacionalidades igualmente remotas.

Mas, volto a vista para a velha página de O Norte, e torno a ser criança, e assim permaneço por mágica fração de tempo.

Obrigado, poeta Águia Mendes pela visita ao Cine São José.

A jovem e bela Romy Schneider...

A jovem e bela Romy Schneider…

Coadjuvantes

28 set

Um componente forte na mitologia do cinema sempre foi o culto aos astros e estrelas. O pensador Edgar Morin teorizou o assunto em seu livro de 1957, “Les stars – mythe et séduction au cinéma”, mas, há sempre algo mais a ser dito. Por exemplo: que a mitologia não está restrita aos atores principais: que os coadjuvantes podem ser tão, ou mais queridos que aqueles.

Sim, até porque os coadjuvantes da tela, de alguma maneira, podem funcionar, no inconsciente do espectador, como uma representação dos coadjuvantes da vida real. No plano da existência, você é o protagonista de sua própria história, mas essa história está repleta de coadjuvantes que podem ser, ou ter sido, ou vir a ser, mais – ou menos – importantes, ou mesmo decisivos, para você.

Há muito me interessa o tema e já escrevi vários artigos tratando de um ou uma coadjuvante que foi importante na história do cinema. Na verdade, pretendo reunir esses artigos – por enquanto cerca de 25 – e publicar o conjunto em formato de livro.

Antes disso, porém julguei que seria interessante uma matéria de caráter interativo em que não apenas eu, mas os cinéfilos a que tenho acesso me apontassem nomes de coadjuvantes que julgassem indispensáveis para constar de uma antologia.

Assim, pedi a amigos cinéfilos – quinze ao todo – os nomes de cinco coadjuvantes e, claro, supus que, no quadro completo, haveria recorrências, as quais, se fosse o caso, me conduziriam a um pequeno cânone. Nesta primeira etapa do trabalho, limitei-me a nomes masculinos, ficando para a segunda etapa (aguardem) a matéria sobre as mulheres coadjuvantes.

Comecemos, portanto, com os mais votados na minha pesquisa, que, no caso, são coincidentemente cinco. Para facilitar a identificação vou estar citando, em cada caso, pelo menos três filmes em que o contemplado participou, com breve descrição de seu personagem.

Walter Brennan, o rei dos coadjuvantes.

Walter Brennan (três Oscars), o rei dos coadjuvantes.

Com quatro votos, o grande campeão na preferência de meus amigos cinéfilos é Walter Brennan (1894-1974) que, desconfio, o leitor mais jovem nem sabe quem seja.

Walter Brennan foi o chefe da quadrilha dos Clanton, rivais dos irmãos Earp, contra os quais debateu-se no famoso ´duelo do OK Corral´. Verídico, o duelo foi filmado várias vezes, em filmes diferentes, mas aqui me refiro naturalmente à versão do grande John Ford, em “Paixão dos fortes” (“My darling Clementine”, 1945). Brennan também foi o empregado de John Wayne na interminável condução do gado em “Rio Vermelho” (“Red River”, 1948) de Howard Hawks. O seu terceiro papel que destaco foi como o parceiro alcoólico de Humphrey Bogart no barco que, negócios à parte, conduzia um prisioneiro de guerra para longe dos ventos nazistas, em “Uma aventura na Martinica” (“To have and have not”, 1944), também de Howard Hawks.

Os próximos colocados tiveram um número igual de votos (3) e, assim, menciono-os em ordem alfabética.

Ernest Borgnine, em segundo lugar

Ernest Borgnine, em segundo lugar

O talentoso grandalhão Ernest Borgnine (1917-2012) fica, portanto, no segundo lugar, e acho que pode ser lembrado pelo seu papel do Sargento Fatso, que, em “A um passo da eternidade” (“From here to eternity”, Fred Zinnemann, 1953) se debate com o magrelo FranK Sinatra, dentro de uma boate de Pearl Habour, em cena inesquecível. Em “Demetrius, o gladiador” (“Demetrius and the gladiators”, Delmer Daves, 1954) ele é um dos gladiadores que vão duelar com Victor Mature na arena romana. E em “Meu ódio será tua herança” está entre os membros da ´wild bunch´ de  Sam Peckimpah (1969).

Lee J. Cobb, em terceiro.

Lee J. Cobb, em terceiro.

Em terceiro lugar vem o grande Lee J. Cobb (1911-1976) que o espectador com certeza lembra, entre tantos outros, em três papéis marcantes: o chefe da gangue dos portuários de “Sindicato de ladrões” (“On the waterfront”, Elia Kazan, 1954), aquele que se debate com Marlon Brando, em luta braçal no final do filme. Ou o preconceituoso jurado de “Doze homens e uma senteça” (“Twelve angry men”, Sidney Lumet, 1958), o último na mesa a se render à inocência do réu em julgamento. O terceiro papel em destaque pode muito bem ser o do médico psiquiatra que trata essa mulher com múltiplas personalidades (Joanne Woodward) em “As três máscaras de Eva” (“The three faces of Eve”, Nannaly Johnson, 1957).

Quarto lugar para o feioso Lee Van Cleef.

Quarto lugar para o feioso Lee Van Cleef.

No quarto lugar está Lee Van Cleef (1925-1989), sempre associado a vilões, seja de faroestes ou de filmes policiais. Seu primeiro papel na tela já é marcante como Jack Colby, um dos três bandidos que chegam a essa pequena cidade do Oeste, aguardando um quarto, que virá no trem do meio dia, para formar o grupo vingativo que vai dar fim ao xerife local, Gary Cooper: o filme é “Matar ou morrer” (“High Noon”, Fred Zinnemann, 1952). No noir “O império do crime” (“The big combo”, Joseph H. Lewis, 1955), Lee Van Cleef faz o papel de um dos membros de um bando de malfeitores, com um caso estranho com o seu companheiro de trabalho, de tons visivelmente homossexuais. Já em “Três homens em conflito” (“Il buono, il bruto, il cativo”, Sergio Leone, 1966), ele é um dos homens conflitantes, aquele denominado no título original do filme, como `o feio´.

O quinto colocado é o grande Thomas Mitchell.

O quinto colocado é o grande Thomas Mitchell.

Por fim, o quinto dos mais votados é Thomas Mitchell (1892-1962), para o qual escolho os seguintes papéis, acho que relativamente fáceis de lembrar: o médico que faz partos e pega em armas com a mesma habilidade em “No tempo das diligências” (“Stagecoach”, John Ford, 1939); o tio meio atrapalhado e bastante desastroso de George Bailey (James Stewart) em “A felicidade não se compra” (“It´s a wonderful life”, Frank Capra, 1946); o tenente Stevenson de “Espelhos d´alma” (“The dark mirror”, Robert Siodmak, 1946), que investiga um crime em que estão envolvidas duas irmãs gêmeas (Olivia de Havilland), ambas aparentando culpa.

Com dois votos ficaram: Roy Barcroft, Karl Malden, Eli Wallach, George Sanders, Dan Duryea, Peter Lorre, Robert Duvall, Joe Pesci, J. K. Simmons e Wilson Grey. O restante da lista teve um único voto.

Adiante arrolo os votantes e seus votos, mas não sem antes tecer algum comentário sobre esse rol de (descontadas as repetições) mais de 50 coadjuvantes.

Acho que a primeira observação a ser feita diz respeito à época. Notar que, em sua maioria, são coadjuvantes do cinema clássico, naquele período que vai dos anos trinta aos cinquenta. Atores atuais são poucos: Joe Pesci, Steve Buscemi, Charles Durn Robert Duvall e Christof Waltz

Uma segunda observação pode ser sobre as nacionalidades, quase todas americanas. Há um espanhol (Fernando Rey), um italiano (Enzo Staiola) e três brasileiros (Wilson Grey, José Lewgoy, e Guará Rodrigues). Naturalizado americano, o alemão Peter Lorre é muito mais lembrado pela sua atuação em Hollywood que em seu país de origem. Quanto aos ingleses, há vários, mas, não sei se faz sentido destacá-los, já que todos fizeram carreira profissional em Hollywood, como Claude Rains, James Mason, George Sanders… alguns deles naturalizados americanos. Talvez a citação obrigatória, neste caso, seja a de John Gielgud.

Vale ressaltar alguns casos curiosos, de coadjuvantes que, em papéis infinitamente repetidos encarnaram tipos, em muitos casos, tipos que serviam de escada aos protagonistas e que, por isso mesmo, tinham uma importância especial para as plateias de sua época. Altamente populares no seu tempo, esses coadjuvantes-tipos hoje em dia só são lembrados por cinéfilos de memória extraordinária.

Roy Barcroft, o "Joâo Branco" dos espectadores infantis de antigamente.

Roy Barcroft, o “Joâo Branco” dos espectadores infantis de antigamente.

Acho que são os casos de Smiley Burnette e Roy Barcroft. Burnette fazia, com frequência, o papel do “doidinho”, uma figura indispensável nos faroestes dos velhos tempos. Nesses mesmos faroestes, um malfeitor obrigatório era Barcroft, calculadamente o bandido que mais apanhou e que mais vezes “morreu”, se contabilizadas todas as películas do gênero. Era tão assíduo que os espectadores infantis da época – conforme relato em ensaio publicado neste Correio das Artes – o confundiam com o autor das legendas e o chamavam de “João Branco”.

Eis, afinal, a lista dos votantes (citados em ordem alfabética) e dos votados (citados na ordem em que me foi entregue):

 

André Cananéa: Joe Pesci, Robert Duvall, J. K. Simmons, Mark Rylance, Martin Landau.

André Ricardo Aguiar: James Cromwell, Lee van Cleef, Richard Jenkins, Charles Coburn, Joe Pesci.

Edward Lemos: John Carradine, Donald Crisp, Victor MacLagen, Dan Duryea, Pat O´Brien.

Fernando Trevas Falcone: Walter Brennan, Peter Lorre, Wilson Grey, Ward Bond, Guará Rodrigues.

Homero Fonseca: José Lewgoy, Wilson Grey, George Sanders, James Mason, John Gielgud.

Ivan (Cineminha) Costa: Roy Barcroft, Elisha Cook Jr, Ted de Corsia, Walter Brennan, Jack Elam.

Jefferson Cardoso: Peter Lorre, Van Heflin, Claude Rains, J. K. Simmons, Lee Van Cleef.

João Batista de Brito: Lee J. Cobb, Thomas Mitchell, Ernest Borgnine, Walter Brennan, Raymond Burr.

Joaquim Inácio Brito: Arthur Kennedy, Thomas Mitchell, Herbert Marshall, Leo G. Carroll, George Sanders.

Josafá Soares: Slim Pickens, Ernest Borgnine, Enzo Staiola, John Cazale, Christoph Waltz.

Martinho Moreira Franco: Lee Van Cleef, Andy Devine, Karl Malden, Eli Wallach, Fred Clark.

Paulo Melo: Fernando Rey, Ned Beatty, Melvyn Douglas, Charles Durning, Sterling Hayden.

Renato Felix: Woody Strode, Oscar Levant, Eli Wallach, Robert Duvall, Steve Buscemi.

Rolf de Luna Fonseca: Walter Brennan, Dan Duryea, Thomas Mitchell, Lee J. Cobb, Barry Fitzgerald.

Silvino Espínola: Karl Malden, Roy Barcroft, Smiley Burnette, Lee J. Cobb, Ernest Borgnine.