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Galinho de ouro

9 out

Se não gosto de boxe e não aprecio a produção comercial da Globo Filmes, por que fui ao cinema assistir a “10 segundos para vencer” (José Alvarenga Jr, 2018)?

O motivo é estritamente saudosista. Acontece que entrei na adolescência na primeira metade dos anos sessenta, quando o país – vocês lembram – era um palco de otimismo e esperança. Saíramos do progressismo de Juscelino e (apesar de Jânio), estrávamos numa fase promissora, cheia de coisas novas e boas acontecendo em todos os setores. No esporte e nas artes, pelo menos, era uma notícia boa atrás da outra: as copas de 58 e 62, o prêmio em Cannes para “O pagador de promessa”, as vitórias das nossas misses, o badalado advento do Cinema Novo, Brasília, a poesia concreta, a Bossa Nova… era tanta coisa levantando a nossa moral que dava gosto, sobretudo para um adolescente como eu, curioso e interessado. E claro, no meio disso tudo, Eder Jofre, o campeão mundial de boxe, carinhosamente apelidado de “o nosso galinho de ouro”.

Pois bem, Eder Jofre – ou melhor, sua vida – é o assunto de “10 segundos para vencer”, e foi isso – sua lembrança dentro desse contexto de otimismo – que me levou ao cinema.

E ainda bem que fui, pois o filme – meu saudosismo à parte – tem alguma qualidade. Começa em 1946, quando Eder era um garoto pobre e acompanhava os penosos esforços do pai para transformar o irmão mais velho num grande pugilista. Esforços inúteis, pois o rapaz não passava de um boêmio brigão que não levava a profissão a sério. Ainda criança, Eder pede ao pai para fazer dele o boxeur que o irmão não foi. Já adulto, opta por ser desenhista, mas, a coceira do boxe em família grita mais alto.  E, a partir daí, o filme, seguindo de perto a vida verídica do atleta, vai nos contar todo o difícil percurso até a glória.

Todo não, mas ao menos os itens mais decisivos e dramáticos. Por exemplo: o rigor espartano do pai/treinador que, em muitas ocasiões, põe a saúde do filho em risco; a luta que o consagrou em território nacional, ao ponto de ninguém mais querer enfrentá-lo; a sofrida e heroica vitória em Los Angeles, que lhe concede a definitiva fama internacional; o casamento, a vida doméstica, a crise e o melancólico afastamento do ringue, fato que quase mata o pai. E, obviamente, o retorno em grande estilo, em 1973, com a famosa luta, durante a qual, o pai, de tão emocionado, desmaia e é levado ao hospital. Nessa luta, um detalhe: alguém avisa a Eder que o Presidente Medici, presente na plateia, quer ficar com suas luvas, e ele responde, categórico: diga a ele que estas luvas já têm dono.

Não conheço de perto a vida de Eder Jofre e não posso garantir que tudo no filme seja biográfico. Mas, se não é biográfico, é ao menos cinematográfico.

Um exemplo, creio eu, de equilíbrio entre dado biográfico e lance de roteiro está na sequência que antecede a luta em Los Angeles. Num quarto frio de hotel, com apenas duas semanas para chegar aos 53 quilos exigidos, vemos o desumano tratamento a que o pai/treinador submete o filho: sem beber água havia dias e sendo obrigado a cuspir sem parar (“em cada cuspida se perdem muitos gramas”, lhe garante o pai), o jovem atleta enfraquece. e é fraco assim que irá ao ringue, e, sob as vaias de uma plateia hostil, que o chama de “macaco da Amazônia”, vence o conceituado boxeur mexicano em luta que virou história.

Momentos mais subjetivos e/ou íntimos na vida do pugilista são, naturalmente, criações dos roteiristas, por exemplo, o que se passa na sua cabeça antes de cada luta: sempre o rosto em close dele mesmo quando criança, primeiramente sério e apreensivo e, logo em seguida, abrindo um sorriso promissor – suposta garantia de sucesso.

Eder Jofre, o galinho de ouro.

Curiosa foi a escolha do elenco. Vejam que os atores que fazem os irmãos de Eder Jofre são, de fato, normalmente feios e têm o mesmo nariz ossudo e saliente que a gente ainda hoje lembra da família do pugilista. E, no entanto, justamente o ator que faz Eder (o galã Daniel de Oliveira) nem tem esse nariz saliente nem é feioso. Exigências mercadológicas da Globo Filmes, com certeza. Com relação às interpretações, quem se destaca mesmo é o grande Osmar Prado no papel do obsessivo pai/treinador.

Como disse, nunca curti boxe, e, no entanto, a expressão “galinho de ouro”, ouvida tantas vezes na minha adolescência, ficou como um dos sons que me evocam a festa que foi a primeira metade dos anos sessenta no Brasil.

Mas enfim, mesmo para quem não viveu a época, acho que vale a pena ver “10 segundos para vencer”.

O esgrimista

20 maio

Com assinatura do finlandês Klaus Härö, o filme “O esgrimista” (“Miekkailija”, 2015), disponível em dvd, mistura bem veracidade histórica e drama pessoal, e pode ser visto com prazer.

Sigamos as linhas mestras de seu roteiro. A estória começa na Estônia do início dos anos cinquenta, quando este país ainda fazia parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. À pequena cidade de Haapsalu chega o desconhecido e meio arisco Endel Nelis para assumir, na Escola local, o posto de professor de esportes.

Apesar de mal recebido por uma direção desconfiada, logo ele funda o clube da esgrima, ao qual acorrem alunos das várias séries, fascinados por um esporte que oscila entre a destreza da luta e a elegância da dança. Dadas e recebidas com rigor e dedicação, as aulas fazem efeito e daí a pouco, a equipe esgrimista já está bem consolidada. Sempre antipática ao novo professor, a direção da escola tenta extinguir a esgrima do currículo, porém, o corpo docente em peso, considerando o interesse evidente do alunado, vota pela permanência.

Poster do filme, com o título internacional, "The fencer"

Poster do filme, com o título internacional, “The fencer”

O impasse aparece no dia em que divulga-se o grande Evento Nacional de esgrima competitiva, a acontecer em data próxima, em Leningrado. Entusiasmados, os alunos querem participar, mas, o professor Endel, não. Ele é, como se diz nos resumos de “movie guides” americanos, “a man with a past” (´um homem com um passado´).

Ocorre que, ao tempo em que, antes dos soviéticos, a Estônia encontrava-se sob domínio alemão, Endel, como muitos outros jovens de sua faixa etária, fez, inocentemente, parte do exército daquele país. Com a vitória dos Aliados, esses jovens passaram a ser perseguidos como inimigos da pátria: muitos foram enviados a campos de concentração na Sibéria por Stalin, e Endel, miraculosamente, escapara, mudando então o sobrenome de Keller para o atual Nelis.

Sob o duro regime stalinista, retornar a Leningrado era um perigo que ele não podia correr e, por outro lado, não participar da competição nacional de esgrima seria uma atitude que os alunos, sem conhecer os seus motivos, iriam repudiar. Ir a Leningrado como técnico da equipe e ser preso, ou ficar e decepcionar uma turma de adolescentes tão estimulados ao esporte?

o esgrimista 2

O que torna o dilema maior é que, sendo quase todos os alunos da escola órfãos da guerra, o professor Endel havia se tornado, para eles, querendo ou não, uma espécie de ´figura paterna´, que supria o afeto inexistente em casa. Na estação de trem, no momento da partida, é isso que lhe diz a namorada, também professora, querendo argumentar em favor de sua desistência. A resposta de Endel é, contudo, inequívoca: ‘por isso mesmo, eu tenho que ir´. E vai.

Durante a realização do torneio, já chegada ao Ginásio a polícia que deverá levar o subversivo treinador do time de Haapsalu, o diretor da escola, a sós com ele num pé de escada, ainda tem a surpreendente fineza de lhe oferecer a fuga. Diz ele, “a URSS é um país enorme”, o que Endel ouve, treme e cala. Mas não foge.

A estória do desportista estoniano Endel Nelis (1925-1993) é um caso real, historicamente datado, porém, não quer isso dizer que o filme de Härë lhe tenha sido subalterno.

A simples forma de narrar evidencia a invenção que está nos enquadramentos, na montagem, na fotografia, no uso da música, nas interpretações, nas escolhas dos cenários, enfim, em toda a mis-en-scène. Com certeza, a própria roteirização apelou para lances que transcendem a estória real, modificando-a ou lhe fazendo acréscimos.

Aulas de esgrima, para crianças...

Aulas de esgrima, para crianças…

Coisas assim ficam claras na caracterização de pelo menos dois dos alunos de Endel, a irrequieta Marta e o contido Jaan. É Marta quem suscita as aulas de esgrima ao espiar o professor em seu exercício solitário; é ela quem ganha dele o amuleto e é ela quem o devolve num momento de decepção; é dela, mera suplente no jogo de Leningrado, de quem dependerá o sucesso do time. Já Jaan é o único aluno que divisamos em casa; o único que tem um avô entusiasta da esgrima; o único que perde um ente querido durante o período do curso; e o único que contesta o talento do professor em um momento de crise: “Você só está aqui porque não é bom”, diz ele, referindo-se à pequenez de Haapsalu, em oposição à grandeza de Leningrado”.

Pode-se perfeitamente dizer que “O esgrimista”, como tantos outros, é só mais um filme sobre a relação professor/aluno, ou sobre o espírito de grupo esportivo que leva à vitória, ou sobre a dureza do regime totalitário…. mas, acontece que o cineasta Härë soube juntar bem os três temas e nos oferece uma obra singela, mas convincente e honesta.

Enfim, o espectador pode sair dele com a sensação de “já ter visto esse filme”, porém, – suponho eu – também sairá com a sensação de ter gostado da “revisão”. Eu gostei.

Na estação, a caminho de Leningrado.

Na estação, a caminho de Leningrado.

 

Menores que nós

3 jul

Estamos em Belo Horizonte e a data é 19 de junho de 1950. Mais especificamente, o local é o Estádio de Futebol da cidade, o evento é o primeiro jogo da Copa do Mundo, e as seleções em confronto são a inglesa e a americana.

Lotando as arquibancadas, os mineiros e demais brasileiros presentes torcem com gosto pelos americanos e têm uma razão para isso: a seleção inglesa é uma das favoritas da Copa, ao passo que a americana, coitada, mal citada na imprensa, não constituirá perigo para o Brasil, quando ou se a ocasião chegar.

A partida é renhida e o resultado – surpresa para todos! – é “um a zero” para a desprestigiada seleção americana, cujos jogadores comemoram feito loucos, levando nos braços, campo afora, o autor do gol, Joe Gaetjens, o único negro do time.

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Cinquenta e cinco anos depois, quem conta o fato é o cineasta americano David Anspaugh no seu filme de 2005 “Duelo de campeões”, título português pouco apropriado para o original, bem mais modesto, “The game of their lives” (‘o jogo de suas vidas’). Sim, pois, composta quase toda de jogadores inexperientes, a precária seleção americana não tinha nada de campeã, e, baseado nos fatos reais, o filme narra, desde o início, a sua problemática formação, com todos os duros percalços, até a zebra de 19 de junho em Belo Horizonte.

Tudo começou na pequena St Louis, Missouri, onde um grupo de rapazes, quase todos ex-combatentes na II Guerra e quase todos de descendência italiana, passava o pouco tempo livre de que dispunha, treinando esse esporte tão pouco popular nos States, lá chamado de “Soccer”. Ninguém sabe bem como, esse pessoal inexperiente e sem currículo esportivo é convidado a integrar a seleção do país, para a disputa da Copa do Mundo. Os familiares não vêem com bons olhos esse gosto por soccer, mas os rapazes enfrentam a oposição como podem. Um está de casamento marcado, o outro deve fazer curso técnico para seguir a profissão do pai, um outro tem medo de avião… No final, esses e outros problemas são contornados e Borghi, Bahr, PeeWee, Gloves, Pariani e Keough são levados a Nova Iorque para juntar-se ao resto da equipe.

Cheios de desentendimentos e pessimismos, os treinos em Nova Iorque não ajudam muito e, mais apreensivos que felizes, esses rapazes provincianos embarcam para o Rio de Janeiro, e, de lá, entre sambas e bandeiras verde-amarelas, para essa cidade de que nunca ouviram falar, de nome difícil de pronunciar, Belo Horizonte, onde, por azar, enfrentarão justamente a seleção que mais temiam.

Anspaugh faz questão de concluir a narrativa na euforia do gol em Belo Horizonte, até porque, como se sabe, foi este o único momento de glória da seleção americana naquela Copa. Depois disso, corta-se a narração para o tempo presente (ou seja, o ano de 2005), e, numa celebração na St Louis de hoje, mostram-se, documentalmente, alguns dos jogadores da heróica seleção, hoje idosos, mas sorridentes e orgulhosos de seu feito.

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Obviamente, “Duelo de campões” tinha que ter aquele tom patriótico que tanto agrada às platéias americanas. Se os Estados Unidos nunca foram bons em futebol, a estória sobre o esporte bretão a contar tinha que ser esta, e exatamente até aí, o instante de um gol, pela diegese tornado mítico. Como anuncia o cartaz do filme “America´s finest moment in the world´s greatest game”: ´o melhor momento dos Estados Unidos no maior esporte do mundo´.

Não se trata, de modo algum, de um grande filme e a crítica concorda, por exemplo, em que está muito aquém do excelente “Momentos decisivos” (“Hoosiers”), filme de Anspaugh também sobre esporte que, em 1986, deu um Oscar de coadjuvante a Dennis Hopper. De fato, os personagens não têm densidade psicológica, ao desenvolvimento do enredo falta originalidade, e o desenlace é excessivamente previsível.

De qualquer forma, acho que “Duelo de campeões” é um filme interessante para o espectador brasileiro, especialmente para o amante de futebol.

Se não agradar muito enquanto cinema, agradará de outro modo. Não sei que resultado teremos nesta Copa de 2014, mas, como, de qualquer maneira, já somos penta, talvez, vendo o filme de Anspaugh, nos regozijemos com a ideia ufanista de que, pelo menos em um item particular, os imperialistas do planeta são menores que nós.

Por aí.

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