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Poesia na tela

26 abr

Ontem fui cascavilhar uma parte meio empoeirada de minha estante onde repousam os livros de literatura anglo-americana, disciplina que lecionei na UFPB por tanto tempo. Tirei a poeira e reabri as páginas de William Carlos Williams, poeta maior que tanto admiro.

O responsável por esta visita tardia e culposa é o cineasta Jim Jarmusch, com o seu filme “Paterson” (2016), em cartaz no Cine Bangüê. Conheço bem a curta filmografia de Jarmusch, mas este me surpreendeu, para não dizer que me pegou. O filme é uma homenagem a William Carlos Williams, feita de uma forma graciosamente “mimética”.

Sim, seria possível fazer cinema como W. Carlos Williams fez poesia? Jarmuch enfrenta o desafio e – impressionante – se sai bem, muito bem.

No estilo objetivista do poeta (“Say it, no ideas but in things”: ´Diga-o, não em ideias, mas em coisas`), o filme conta a vida singela de um motorista de ônibus em Paterson, New Jersey, e o faz em sete dias da semana, de segunda a domingo. Com o mesmo nome da cidade onde mora (e, não esquecer, o mesmo nome do famoso livro de W. Carlos Williams), o jovem motorista leva uma vida sem surpresas, com sua jovem esposa e um buldogue  inglês. Dirigir durante o dia, levar o cachorro para passear à noite e tomar uma cervejinha no bar da esquina são ações repetidas… Tão repetidas que nos fazem pensar no título daquele filme antigo de Ozu “A rotina tem seu encanto”.

O encanto na rotina de Paterson é rabiscar poemas no seu caderno secreto. Tudo começa descritivamente, com a visão e lembrança de uma caixa de fósforo, e vai crescendo, até ´explodir numa bola de fogo´. Na medida em que escreve em seu caderno, suas palavras manuscritas são transpostas para a tela, como se esta fosse uma página do caderno secreto.

Entre o casal, Paterson e a esposa Laura, não há conflitos. Ela faz cupcakes para vender e quer uma guitarra para tocar, mas isso não é problema. No ônibus Paterson escuta conversas mirabolantes dos passageiros; no bar presencia cenas melodramáticas entre os fregueses, mas nada disso altera sua rotina. Na sexta-feira, o ônibus quebra, mas isto tampouco é o fim do mundo. Para ser franco, este seria, de cabo a rabo, um filme sem conflitos, não fosse o desenlace proporcionado pelo cachorro da família, que, assumindo o papel do vilão que faltava na estória, estraçalha o caderno poético de Paterson e o deixa melancólico.

A licença poética vem na forma de um senhor japonês, em visita à cidade, sem coincidência leitor de W. Carlos Williams, que, misteriosa e oportunamente, doa a Paterson um caderno em branco… supostamente para nova aventura poética que deverá começar em algum tempo pós-tela.

Um japonês providencial…

Um motorista de ônibus que escreve poesia? Quando a esposa lhe diz que ele devia publicar seus poemas, Paterson pergunta se ela está tentando apavorá-lo. A sinceridade modesta desta reação fica, porém, suspensa, ao divisarmos no quarto de Paterson os muitos livros que ele possui – de Baudelaire a Poe, passando, naturalmente e bem à vista, pelos de W. Carlos Williams.

Falei em licença poética a respeito da aparição misteriosa do japonês, mas, na verdade, o filme inteiro é uma grande e deliciosa licença poética em que as coisas banais se misturam com as fantasiosas, para dar ao todo o lirismo a que o autor aspira – e isto sem muita preocupação com verossimilhança.

Pensando bem, aquela adolescente que, na calçada, recita o poema sobre o tema da chuva, enquanto espera a mãe e a irmã gêmea, já parecera, antes do japonês, licença poética. A repetição por vários personagens ao longo do filme da expressão ´explosão numa bola de fogo´ tem esse mesmo efeito, como o têm as aparições de irmãos gêmeos na trajetória diária de Paterson, a gente lembra, tudo motivado por um sonho da esposa, em que tinha filhos gêmeos. Lembrar, mais um exemplo, que quando o casal vai assistir ao terror com Lou Costello, a personagem feminina é a cara de Laura, a esposa: “podia ser sua irmã gêmea”, lhe diz um Paterson inocente.

Assistindo a Lou Costello…

Esse recurso audio-visual de entrelaçar as coisas simples da vida e a fantasia vem, naturalmente, da poética de W. Carlos Williams que, por sua vez, conhecera muito bem Paterson (digo, a cidade), e eternizou em seus livros as suas ruas, prédios e esquinas, ou seja, as suas “coisas”, (o termo “things” do verso citado acima).

Fico pensando se o espectador que não conhece a poesia de W. Carlos Williams – ou que sequer gosta de poesia – perde parte do prazer de assistir a “Paterson”. Espero que não. E, provavelmente influenciado por Jarmusch, cometo a “licença crítica” de supor que esse espectador vai, depois de ver o filme, se interessar por poesia.

Se porventura for o seu caso, me procure que lhe empresto as antologias de William Carlos Williams, culposamente empoeiradas na minha estante.

Um motorista de ônibus que escreve poesia.

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Fazendo (melo)drama

4 ago

Como se faz um melodrama? Hoje em dia não sei, mas nos velhos tempos da Hollywood clássica havia uma fórmula corriqueira e… eficaz. Ou fórmulas que se combinavam.

O tema, obviamente, tinha que ser o amor, e, claro, amor com conflito. Quanto mais intenso o amor, melhor; quanto mais ameaçador e intransponível o conflito, melhor.

A estória funcionava bem se fosse assim: os dois, homem e mulher, se conheciam por acaso, ficavam amigos e, dentro de pouco tempo, apaixonavam-se perdidamente. Depois de apaixonados é que o conflito ia se intrometendo – por exemplo: ela era solteira, porém, ele era casado.

Um acidente aéreo pode ser conveniente ao melodrama...

Um acidente aéreo pode ser conveniente ao melodrama…

O cenário ideal era um lugar romântico, se possível no exterior; a Itália, por exemplo. Mas, o que fariam na Itália esses dois americanos? Estavam de férias, livres de compromissos e rotinas, e por isso, mais abertos a novas experiências, ora.

Até aqui, todos estes itens estão dentro do roteiro de um monte de filmes que você já viu…

Mas, atenção: os roteiristas mais tarimbados tinham o direito de ampliar os contornos da fórmula e, por vezes, metiam desdobramentos narrativos mais complicados e mais ousados.

Suponhamos, portanto, que no dia do retorno à América – o dia do adeus – o casalzinho apaixonado, entre beijos, drinques e passeios turísticos, chegasse atrasado ao aeroporto e… perdesse o avião.

Elaboremos mais: suponhamos que no dia seguinte, os dois, tomando o seu café da manhã na pousada, lesse no jornal, abismados, que o avião sofrera um acidente do qual ninguém, ninguém mesmo, escapara.

Roma, cenário romântico de muitos melodramas...

Roma, cenário romântico de muitos melodramas…

Vejam só: de repente, os dois davam-se contas de que estavam “mortos” (entre aspas) para os seus respectivos familiares nos Estados Unidos e – assim quis o destino – vivinhos da silva na bela Itália, apaixonados e dispostos a viver um grande amor.

Pois é, vamos supor que ousassem fazer o gesto supremo de assumir novas identidades e nova vida, bem longe dos proibitivos grilhões domésticos. E assim, vão ser felizes para sempre, nesse paraíso romântico que é a bela e acolhedora Itália.

Como se trata de melodrama, naturalmente não serão felizes para sempre. E é aqui que entrará a parte mais grossa do conflito.

Que tal se, algum tempo depois de curtir o luto, a esposa dele – digo, a pseudo viúva – decidisse, junto com o filho adolescente, conhecer o país que o marido havia escolhido para gozar suas férias solitárias? E, evidentemente, por maior que seja a Itália, os roteiristas darão um jeito de perpetrar o desastroso encontro.

Não será muito legal que a “viúva” encontre o marido. Será bem mais efetivo que ela, por algum acaso, venha a conhecer a sua rival, a qual, por sua vez, depois do encontro, vai sofrer com a culpa e providenciar, para o filme, o desenlace melodramático que ele requer.

Um trabalho adicional da produção de um filme desses vai ter a ver com a música. Sim, terá que haver uma trilha sonora bem romântica, falando de perda, saudade e dor, alguma coisa assim como “September Song”, ou como o segundo concerto para piano de Rachmaninoff. Ou os dois juntos, combinados em arranjo perfeito.

Joan Foantaine e Joseph Cotten poderiam estar no elenco...

Joan Foantaine e Joseph Cotten poderiam estar no elenco…

Um lance interessante será dar à amante a profissão de pianista, de modo que isto facilite a intromissão da música no enredo.

O elenco terá que ser também bem especial, para agradar ao público pagante. Que tal Joan Fontaine e Joseph Cotten para o casal fujão e Jessica Tandy para a esposa chorosa? Acho que daria certo.

Não sei se, a essa altura dos acontecimentos, você identificou, mas o melodramático enredo aqui construído, com música, elenco e tudo mais, é de um filme existente. Talvez seja muito pedir a identificação do filme, mas, com certeza, os cinéfilos de carteirinha, já chegaram lá.

La vai: o filme é “Paraíso proibido” (“September affair”), uma produção em preto-e-branco da Paramount que o mestre William Dieterle dirigiu em 1950.

O interessante não é tanto que “Paraíso proibido” caiba, inteiro, dentro de fórmulas. O interessante é que, do jeito que está feito, as fórmulas funcionam. E muito bem.

Revi há pouco, e confirmo.

Na abertura desta matéria, digo que não sei como se fazem melodramas hoje. Na verdade, desconfio que não se fazem mais.

O cartaz original de "Paraíso Proibido".

O cartaz original de “Paraíso Proibido”.

Sr. Sherlock Holmes

21 abr

Quem iria querer imaginar o seu ídolo idoso e doente? Por exemplo, Tarzan velhinho sem poder trepar em seus cipós? Ou Roy Roger alquebrado sem conseguir montar o seu cavalo?

O escritor inglês Mitch Cullin fez isso com Sherlock Holmes. No seu livro “A slight trick of the mind” (´Um ligeiro truque da mente´), imaginou-o aos noventa e dois anos, já no final dos anos 1940, atacado de demência, vivendo quase isolado no condado de Sussex, tentando desesperadamente lembrar-se de seu último caso… e sem conseguir. E isto, sem a ajuda de seu amigo Watson, já falecido havia anos.

O diretor americano Bill Condon gostou tanto da estória desse Holmes gagá que resolveu filmar.

mr holmes 1

O filme “Sr Sherlock Holmes” (2015), no original “Mr Holmes”, acaba de ser lançado em DVD e pode ser uma boa pedida para um confronto com as outras tantas versões cinematográficas sobre a vida do personagem de Conan Doyle.

Seguindo o livro, o filme mostra um protagonista com perda constante de memória e seu mundo mental é, portanto, um tanto e quanto nebuloso, com retrocessos e avanços temporais que nem sempre se encaixam.

Quem é aquela mulher de comportamento estranho e hostil? Por que faz túmulos para filhos inexistentes? Por que o marido contrata os serviços de um detetive? Por que uma vidente é procurada? O que faz ela sozinha, sentada num banco de praça? O que significa a imagem de uma abelha sobre sua luva branca?

De alguma maneira, essa nebulosidade é transferida para o filme, e, ao espectador, dá trabalho juntar as peças e entender o que de fato aconteceu no misterioso último caso do Sr Sherlock Holmes. Sabemos apenas – e isto é um agravante sério, do ponto de vista dramático – que este caso foi decisivo para o nosso personagem isolar-se do mundo, cheio de remorso e culpa, sentimentos que ele, amargurado, curte sem conhecer a causa.

mr holmes 2

“Doença e morte são banais: raro mesmo é a lógica” – ensina o velho Holmes ao seu companheiro infantil e fã, o filho da empregada na casa de campo de Sussex. Só que a lógica teima em não funcionar e, quando funciona, no desenlace, é só para provar que, mais que ela, valem os sentimentos.

Sim, é que, ao contrário dos muitos casos investigados pelo famoso detetive, este último o envolveu, emocionalmente, com a mulher casada que ele investigava a pedido do marido. Não vou contar a estória para não estragar o prazer de quem quer ver o filme de Condon.

Permitam-me apenas citar o próprio Holmes, naquele momento em que, achando-se satisfeito com a solução que encontrou para o seu enigma, filosofa: “One shouldn´t leave this life without a sense of completion” / “Ninguém devia deixar esta vida sem um sentido de compleição”.

Com ou sem compleição, o filme é, plasticamente falando, uma delícia para os olhos, cenário limpo e elegante como uma fleumática casa inglesa. Se, obedecendo à temática, a montagem é confusa, a fotografia, ao contrário, é límpida, nítida, clara, como um cartão postal.

As interpretações são ótimas e o velho e enrugado Ian McKellen oferece um desempenho magnífico. Não fica atrás Laura Linney, como Mrs Munro, a empregada sempre desconfiada de seu patrão; como também o garoto Milo Parker, no papel de Roger, o filho da empregada, apaixonado pelas teorias de Holmes e cuidador de seu apiário.

mr holmes pro face 1

A trilha sonora de Carter Burwell (músico de “Fargo”, “Quero ser John Malkovich” e “Crepúsculo”) desempenha um papel fundamental, lembrando às vezes – e com motivo justificável – o tema musical de Bernard Herrman em “Um corpo que cai”. Aliás, outras referências hitchcockianas são visíveis, por exemplo, quando a misteriosa investigada Ann Kelmot se detém na frente de uma loja de couros que se chama Ambrose Chapel, o mesmo nome – vocês lembram – que está em “O homem que sabia demais”.

Do jovem cineasta novaioquino Bill Condon, eu conhecia apenas dois filmes que, aliás, tive o prazer de comentar nesta coluna. “Deuses e monstros” (“Gods and monsters”), de 1998, ficcionalizava a vida do diretor americano James Whale, autor de alguns bons horror movies dos anos trinta; e “Kinsey – vamos falar de sexo”, de 2004, sobre o sexólogo americano que, nos anos cinquenta, lançou um livro que mudaria o comportamento de gerações.

Mas, voltando ao filme em questão, se porventura você é um leitor entusiasta de Conan Doyle e não está a fim de ver o seu ídolo decadente, veja outra coisa. “Sr Sherlock Holmes” não é obrigatório.

O veterano Ian McKellen no papel de Holmes idoso.

O veterano Ian McKellen no papel de Holmes idoso.

Esquilos e nozes

2 nov

“Um amor em cada esquina” está em cartaz na cidade (ou ao menos, estava), mas, por que sair de casa para ir ver uma comédia romântica sobre garota de programa que vira atriz da Broadway?

Bem, cada um tem suas razões. Para ir ou para não ir. Eu fui por conta do diretor Peter Bogdanovich, de quem não via nada havia décadas. O seu último filme antes deste já tem catorze anos, o hilário “O miado do gato” (2001) onde ele conta aquele episódio verídico do crime no iate do magnata William Randolf Hearst, envolvendo sua amante Marion Davies e o amante dela, Charles Chaplin, lembram?

Não que Bogdanovich seja um realizador estupendo, mas, é, com certeza, o cineasta vivo mais cinéfilo que conheço. E eu adoro cinefilia, quanto mais desbragada melhor.

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Não morri de amores por “Um amor a cada esquina” (“She´s funny that way”, 2014), e, no entanto, curti um bocado a sua desbragada intertextualidade fílmica. Até imaginei como foi que Bogdanovich teve a ideia do roteiro.

Acho que foi assim: um dia qualquer, ele estava fazendo sua costumeira e saudosa revisita a um de seus cineastas mais amados, Ernst Lubitsch, e grudou em uma de suas comédias, no caso, “O pecado de Cluny Brown” (1946), aquela em que Jennifer Jones é empregada numa casa de campo inglesa e conhece o imigrante checo Charles Boyer. Os dois têm um flerte, porém, aparece um outro pretendente para a moça.

Bogdanovich grudou particularmente numa frase do personagem de Boyer, que, inspirado pelo amor, declara a uma Jennifer espantada: “No Hyde Park, as pessoas dão nozes aos esquilos, mas, se a torna feliz dar esquilos às nozes, quem sou eu pra dizer nozes aos esquilos?” O nonsense da frase o pegou, até porque era esse tipo de nonsense que alimentava as famosas “screwball comedies” (´comédias malucas´) dos anos trinta e quarenta.

E aí, ele, Bogdanovich começou a construir, primeiro na mente, depois no papel, um personagem que emitisse a frase e, melhor ainda, que a encarnasse. E imaginou esse Arnold Albertson (Owen Wilson), grande dramaturgo da Broadway que, espécie de Don Juan de bom coração, vive de ajudar garotas de programa a mudar de métier e crescer na vida. Pronto, assim foi. O resto – dá pra sentir – veio por tabela.

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Claro que ele teve que trocar o Hyde Park londrino pelo Central Park novaiorquino, mas isso foi fácil. E, para ajudar o espectador na identificação de sua fonte inspiradora, ainda incluiu, nos créditos finais, a tal cena de “O pecado de Cluny Brown”…

Na verdade, “Um amor a cada esquina” tem ecos, não apenas de Lubitsch, mas praticamente de todas as ´comédias malucas´ do passado clássico, de Howard Hawks a Preston Sturges, passando por Frank Capra e outros mais. Uma gag atrás da outra, cada cena relembra o que a gente já viu em filmes como “Levada da breca” (1938), “O inventor da mocidade” (1952) “Contrastes humanos” (1941), “Esse mundo é um hospício” (1944), etc…

Até Blake Edwards entra na estória, quando a call girl Izzy Finkelstein (Imogen Poots) declara, em entrevista, ser fã da Audrey Hepburn de “Bonequinha de luxo”, este, como se sabe, também um filme sobre garota de programa. E mesmo o mais moderno Woody Allen é evocado, particularmente na escolha do ator principal, esse Owen Wilson com quase o mesmo gaguejado nervoso que faz o seu charme em “Meia noite em Paris”.

Com um monte de personagens se cruzando, entre conquistas, encontros inverossimilmente casuais, trompaços, traições e ´barracos armados´ por mulheres ciumentas, o filme de Bogdanovich tem um enredo farsesco, que seria cansativo reconstituir. Nem vale a pena tentar.

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Digo só o seguinte: há pouco comentei o último filme de Roman Polanski, localmente exibido. Pois, de alguma maneira, este “Um amor em cada esquina” é um “A pele de Vênus” em tom cômico. Sabe como é: marido dramaturgo dirigindo esposa no palco, etc e tal…

Fazendo um resumo da ópera: um filme para cinéfilo ver, que, aliás, não atrai muito, se não for pelo viés da remissão ao passado clássico. Fora dessa remissão, é quase que só uma chanchada hollywoodiana, uma a mais, perfeitamente esquecível.

Nada do frescor artístico que um dia constatamos, encantados, no Bogdanovich iniciante de, por exemplo, “A última sessão de cinema” (1071) e “Lua de papel” (1973).

Em tempo: o nome que dei a esta matéria é cópia aproximada do título provisório com que o filme de Bogdanovich foi rodado: “Squirrels to nuts” (/esquilos para nozes/ ou, com o trocadilho só possível em inglês /esquilos para malucos/).

Peter Bogdanovich e o ator Owen Wilson

Peter Bogdanovich e o ator Owen Wilson

Anúncio de tempestade

21 ago

Na televisão ou nos cinemas, quando a programação do dia ou a local não atrai, o jeito é ir atrás de um velho clássico… É o que sempre faço, e foi o que fiz esta semana.

O filme que vi já começa lhe amarrando a atenção. Vinda de Nova Iorque, essa moça desce do ônibus nessa pequena cidade do Interior americano, e procura a casa da irmã, que vem visitar depois de muito tempo.

É noite escura e, antes de achar a casa, ela, sem ser vista, testemunha, apavorada, um assassinato: numa esquina qualquer, um homem é morto a tiros pela KuKluxKlan, e diante do cadáver, dois ou três deles retiram as máscaras que lhes cobriam os rostos. Ao chegar na casa da irmã, a moça descobre o mais grave: que o cunhado – que ela não conhecia – tinha o rosto do assassino.

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Ora, um filme que começa com uma cena dessas, pode até não ser grande coisa, mas, vai  envolver-nos de modo completo, se for o caso, até o fim. Esse é o tipo de roteiro que obriga o diretor a dar o máximo de si, bem como os atores.

O que faz a pessoa numa situação dessas? Denuncia o cunhado e destrói o feliz casamento da irmã querida? Ou cala-se e, sem ninguém saber, será conivente com um crime hediondo, cometido por um dos membros de uma seita tenebrosa?

O título dado ao filme no Brasil expressa a situação da protagonista: “Dilema de uma consciência”, mas, o original inglês é mais sutil: “Storm warning”, que significa ´aviso, ou anúncio, de tempestade´, sugerindo que, seja qual for a decisão a ser tomada pela moça que visita a irmã, vem mau tempo por ai, sobre essa cidadezinha do sul americano, chamada Rockpoint, dominada pelo obscurantismo.

Produção de 1951, o filme é um noir bem típico da Warner, e tem Stuart Heisler na direção. Como não podia deixar de ser, sua fotografia, de Carl Guthrie, é preto-e-branco, com predomínio de sombras sobre os claros. O elenco é que é inesperado: Ginger Rogers (sim, ela mesma) faz Marsha, a modelo novaiorquina que vem ver a irmã e cai numa fria. A irmã, Lucy, é Doris Day, e o marido assassino, Hank, é Steve Cochran. O promotor público que, mais adiante na estória, deverá enfrentar a KKK é o ator Ronald Reagan, provavelmente em seu melhor desempenho.

Ginger Rodgers, Doris Day e Steve Cochran em querela familiar

Ginger Rodgers, Doris Day e Steve Cochran em querela familiar

O filme quer ser uma denúncia da famigerada KKK, mas também é a estória pessoal de duas mulheres, duas irmãs em perigo, e o seu enredo se equilibra nesse meio tom entre documento e melodrama. E o faz muito bem. Não tive surpresa em saber que um dos roteiristas era o grande Richard Brooks, mais tarde um cineasta de filmes impressionantes, como, “Sementes da violência” e “Doce pássaro da juventude”.

Para voltar à dupla principal, urbana e modelo de profissão, Marsha é uma moça moderna, acostumada a dizer a verdade na ponta da língua, a quem quer que seja. Residente no Interior e sem muita instrução, Lucy, ao contrário, está habituada a dizer sim ao marido dominador, e a não questionar suas atitudes ou o que quer que seja.

O drama se intensifica porque, logo que chega à casa da irmã, Marsha lhe conta o crime que acabara de testemunhar na rua. Em seguida, chega Hank, o marido culpado, e a esposa por sua vez, ainda sem saber que ele era o autor do delito, lhe narra o que ouvira de irmã. A culpa está na cara de Hank e não precisa muito para que a verdade estoure (a primeira tempestade, digamos assim), dentro dessa casa, verdade que – supostamente – deveria ficar entre suas quatro paredes.

KuKluxKlan: terror em Rockpoint.

KuKluxKlan: terror em Rockpoint.

É claro que tal não é possível e logo a cidade vai aos poucos tomando conhecimento de pequenos detalhes que, mesmo confusos e obscuros, conduzirão a uma tempestade maior, a do título do filme. Enquanto isso, o espectador sofre com a angústia de uma irmã que se move, desequilibrada, entre a obrigação moral de delação e o apego a um ente querido inocente; tanto quanto com a dor de uma jovem esposa apaixonada que de repente descobre o que nunca imaginara: a faceta homicida do cônjuge…

O homem assassinado não é – como se poderia supor – de raça negra (alvo habitual da KKK), mas, um jornalista que, corajosamente, vinha se posicionando contra o domínio da seita local.

Não pretendo contar o resto da estória, para que seja mantido o interesse do leitor. Só lembrar que tão corajoso quanto a vítima do KKK, é o próprio filme, rodado numa época em que o WASP era o valor possível no país. Para quem não lembra ou não sabe, estas iniciais significam ´White Anglo Saxon Protestant´, ou seja ´Protestante anglo saxão branco´, o padrão racial, social e religioso, entendido como superior.

“Dilema de uma consciência” não é nenhuma grande obra, porém, um filme bastante apreciável em sua pequenez. Recomendo.

O promotor público Ronald Reagan.

O promotor público Ronald Reagan.

Real beleza

13 ago

 

Uma dona de casa apaixona-se por um fotógrafo que visita sua casa. “As pontes de Madison”? Não, “Real beleza” (2015), filme de Jorge Furtado, em cartaz na cidade e no país.

Pois é, mas as semelhanças com o filme de Clint Eastwood ficam por aqui. João, o fotógrafo de Furtado, não está interessado em paisagens, mas em pessoas, no caso, modelos, mais especificamente, na modelo de seus sonhos que, no início da narrativa, ele ainda não tem ideia de quem seja, ou que traços tenha.

Para encontrar essa real beleza, ele fotografa muitas centenas de adolescentes, todas descartadas logo em seguida, uma atrás da outra. “O que você procura?” lhe pergunta o colega de trabalho, intrigado com os descartes. E a resposta não demora a vir: “Não sei, mas quando achar, você verá!”

A novata Vitória Strada como Maria.

A novata Vitória Strada como Maria.

Ao encontrar Maria, João reconhece de imediato a beleza que procura. O encontro é epifânico, porém, quando o caminho parece ser este, digo, a estória de João e Maria, vem o turning point, bem ao estilo Furtado.

Como os pais de Maria (a novata Vitória Strada) não consentem na carreira de modelo, João (Vladimir Brichta) toma a iniciativa de visitá-los, para o devido convencimento. Nessa idílica casa de campo do interior gaúcho, só encontra a mãe da moça, Anita (Adriana Esteves), e é aqui que Eastwood dá uma mãozinha. Nos poucos dias em que, a convite de Anita, fica hospedado, uma paixão vai surgindo entre os dois, de modo que quando o marido, Pedro (o veterano Francisco Cuoco) – um senhor idoso e quase cego – aparece, o mal, ou seria o bem, já está feito.

Mas, ao contrário do que ocorre nos grandes melodramas sobre ´mulheres apaixonadas fora do casamento´, aqui a figura do marido traído não é nada pequena. Para João, essa figura já se agigantara antes do anfitrião chegar, ao ver sua vasta biblioteca, e agora, na sua presença, as impressões favoráveis aumentam, por exemplo, com a descrição incrivelmente minuciosa que esse cego faz de uma fotografia de Cartier-Bresson, aquela famosa, em que um cidadão anônimo salta sobre o calçamento molhado de uma rua qualquer.

Vladimir Brichta e Adriana Esteves em cena do filme.

Vladimir Brichta e Adriana Esteves em cena do filme.

Aliás, erudição é o que não falta nessa mansão, e desde que chegou João escuta citações de autores que leu ou que só conhece de ouvir falar: Molière, Shakespeare, Borges… Até a ideia que defende da indefinição da beleza, vem da boca da mãe da moça, via Guimarães Rosa: “ só conhecemos o que não entendemos”.

Tudo bem, são certamente preferências literárias de Furtado, mas elas entram no diálogo, nas caracterizações dos personagens e nas situações, de modo mais que apropriado e, inevitavelmente, enriquecem o efeito geral do filme.

Tão grande é a figura de Pedro o marido, esse intelectual refinado que nunca escreveu uma linha, que ela determina o desenlace. Ao invés de acompanhar a filha na viagem para São Paulo (como querem todos, sobretudo João), Anita decide que vai ficar em casa, como sempre faz, a ler para o esposo sem visão.

Numa cena sintomática, ela dele se aproxima na sala de estar para comentar e perguntar: “A mesma cadeira, a mesma música, a mesma mulher: você não se cansa?” O que ele responde é irrelevante para o espectador, pois, como nos grandes melodramas de David Lean, Michael Curtiz ou Douglas Sirk é muito mais o conflito dela o que nos interessa.

Um pouco mais tarde, indagada pelo próprio marido (que, cego, vê mais do que se pensa), ela responde que a relação com João foi boa, e acrescenta, “muito boa”, mas “nada é tão bom que substitua isso” e lhe desfere um beijo na boca.

Fotografia e amor...

Fotografia e amor…

Que o amante também se dobra ao desenlace, fica claro, em dois momentos: (1) quando ri ao descobrir que a mentirosa estória da mulher que manda bilhetes eróticos ao cego idoso, é uma apropriação do “Decameron”; e (2) quando, na despedida, esse mesmo cego sabendo-se idoso e doente, consola o rival dizendo “Você não vai esperar muito”, e a resposta de João é: “Não tenho pressa”.

E parte, com a jovem modelo ao seu lado, confiante em, no futuro, vir a ter a mãe da moça, uma mulher de meia idade, igualmente bela.

Mais do que sobre a busca do belo, o filme é sobre o conceito mesmo de beleza. Afinal de contas, o que é o belo e para que o queremos? Apesar do adjetivo “real” no título, o filme de Furtado não oferece resposta, e nos deixa com o benefício do paradoxo: a beleza da adolescente Maria, o fotógrafo profissional João só a quer em fotos; a beleza de Anita, ele a quer entre seus braços. Uma espécie de esquizofrenia estética que o espectador aceita… ou não.

De todo jeito, o filme é assistido com extremo interesse. Mais ainda, por quem conhece a curiosa trajetória fílmica de Jorge Furtado.

A equipe do filme, posando para a imprensa.

A equipe do filme, posando para a imprensa.