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Menores que nós

3 jul

Estamos em Belo Horizonte e a data é 19 de junho de 1950. Mais especificamente, o local é o Estádio de Futebol da cidade, o evento é o primeiro jogo da Copa do Mundo, e as seleções em confronto são a inglesa e a americana.

Lotando as arquibancadas, os mineiros e demais brasileiros presentes torcem com gosto pelos americanos e têm uma razão para isso: a seleção inglesa é uma das favoritas da Copa, ao passo que a americana, coitada, mal citada na imprensa, não constituirá perigo para o Brasil, quando ou se a ocasião chegar.

A partida é renhida e o resultado – surpresa para todos! – é “um a zero” para a desprestigiada seleção americana, cujos jogadores comemoram feito loucos, levando nos braços, campo afora, o autor do gol, Joe Gaetjens, o único negro do time.

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Cinquenta e cinco anos depois, quem conta o fato é o cineasta americano David Anspaugh no seu filme de 2005 “Duelo de campeões”, título português pouco apropriado para o original, bem mais modesto, “The game of their lives” (‘o jogo de suas vidas’). Sim, pois, composta quase toda de jogadores inexperientes, a precária seleção americana não tinha nada de campeã, e, baseado nos fatos reais, o filme narra, desde o início, a sua problemática formação, com todos os duros percalços, até a zebra de 19 de junho em Belo Horizonte.

Tudo começou na pequena St Louis, Missouri, onde um grupo de rapazes, quase todos ex-combatentes na II Guerra e quase todos de descendência italiana, passava o pouco tempo livre de que dispunha, treinando esse esporte tão pouco popular nos States, lá chamado de “Soccer”. Ninguém sabe bem como, esse pessoal inexperiente e sem currículo esportivo é convidado a integrar a seleção do país, para a disputa da Copa do Mundo. Os familiares não vêem com bons olhos esse gosto por soccer, mas os rapazes enfrentam a oposição como podem. Um está de casamento marcado, o outro deve fazer curso técnico para seguir a profissão do pai, um outro tem medo de avião… No final, esses e outros problemas são contornados e Borghi, Bahr, PeeWee, Gloves, Pariani e Keough são levados a Nova Iorque para juntar-se ao resto da equipe.

Cheios de desentendimentos e pessimismos, os treinos em Nova Iorque não ajudam muito e, mais apreensivos que felizes, esses rapazes provincianos embarcam para o Rio de Janeiro, e, de lá, entre sambas e bandeiras verde-amarelas, para essa cidade de que nunca ouviram falar, de nome difícil de pronunciar, Belo Horizonte, onde, por azar, enfrentarão justamente a seleção que mais temiam.

Anspaugh faz questão de concluir a narrativa na euforia do gol em Belo Horizonte, até porque, como se sabe, foi este o único momento de glória da seleção americana naquela Copa. Depois disso, corta-se a narração para o tempo presente (ou seja, o ano de 2005), e, numa celebração na St Louis de hoje, mostram-se, documentalmente, alguns dos jogadores da heróica seleção, hoje idosos, mas sorridentes e orgulhosos de seu feito.

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Obviamente, “Duelo de campões” tinha que ter aquele tom patriótico que tanto agrada às platéias americanas. Se os Estados Unidos nunca foram bons em futebol, a estória sobre o esporte bretão a contar tinha que ser esta, e exatamente até aí, o instante de um gol, pela diegese tornado mítico. Como anuncia o cartaz do filme “America´s finest moment in the world´s greatest game”: ´o melhor momento dos Estados Unidos no maior esporte do mundo´.

Não se trata, de modo algum, de um grande filme e a crítica concorda, por exemplo, em que está muito aquém do excelente “Momentos decisivos” (“Hoosiers”), filme de Anspaugh também sobre esporte que, em 1986, deu um Oscar de coadjuvante a Dennis Hopper. De fato, os personagens não têm densidade psicológica, ao desenvolvimento do enredo falta originalidade, e o desenlace é excessivamente previsível.

De qualquer forma, acho que “Duelo de campeões” é um filme interessante para o espectador brasileiro, especialmente para o amante de futebol.

Se não agradar muito enquanto cinema, agradará de outro modo. Não sei que resultado teremos nesta Copa de 2014, mas, como, de qualquer maneira, já somos penta, talvez, vendo o filme de Anspaugh, nos regozijemos com a ideia ufanista de que, pelo menos em um item particular, os imperialistas do planeta são menores que nós.

Por aí.

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Maracanã, 1950

19 jun

Que resultados teremos no dia 13 de julho ninguém sabe, mas, esta Copa em solo brasileiro nos faz lembrar – com receio ou com esperança – que já tivemos uma outra aqui, infelizmente de triste fim.

Até eu, que não curto futebol, sei do caso. Foi em 1950: na partida final, jogando em pleno Maracanã, na condição de favorito absoluto para quem um empate seria vitória, o Brasil, por causa de um gol aos 34 minutos do segundo tempo, que mudou o placar de 1 x 1 para 2 x1, perdeu para o Uruguai, no dia 16 de julho de 1950, possivelmente a data mais fatídica de toda a história do esporte brasileiro.

o gol que fez o país chorar

o gol que fez o país chorar

Tão fatídica que virou literatura e, depois, cinema. Foi o gaucho Jorge Furtado quem teve a idéia de adaptar para a tela o texto de Paulo Perdigão “Anatomia de uma derrota”, e fez o belo curta-metragem “Barbosa” (1988). Barbosa, para quem não sabe, era o nome do goleiro que sofreu o gol do artilheiro uruguaio Ghiggia, gol que fez muitos milhões de brasileiros chorar.

No filme de Furtado, um senhor, carioca de meia idade (Antônio Fagundes) entra numa máquina do tempo e vai parar nas arquibancadas do então recém construído Maracanã, exatamente no dia da final Brasil vs Uruguai, local onde, trinta e oito anos atrás, ele estivera como criança, na companhia do pai.

A angústia é grande, já que ele sabe o resultado do jogo. Sabe, mas – como todo torcedor brasileiro – nunca se conformou. E o que faz? Ao se aproximar o momento fatídico do gol uruguaio, ele deixa a arquibancada e, sorrateiramente, se dirige a uma entrada do estádio que leva aos fundos do campo, por trás da trave de Barbosa, com a intenção de avisar ao goleiro brasileiro, exatamente na ocasião do chute do adversário, e assim, evitar o trágico gol.

A entrada não é permitida, mas, em um instante de distração do guarda, ele o dribla e adentra os arredores da quadra, e, por trás da trave, no exato momento em que o artilheiro uruguaio chuta a bola, ele grita a todo pulmão “Barbosa!”.

Cenas de rua no filme semi-docujmental de Jorge Frutado

Cenas de rua no filme semi-docujmental de Jorge Frutado

Ora, o que acontece? Ouvindo o seu nome chamado, Barbosa se vira para trás e, por causa disso, a bola entra na trave… e o gol foi feito.

Triste conseqüência: ao invés de evitar o gol, o nosso personagem o provocou. E agora, vai carregar nas costas, pelo resto da vida, a culpa da derrota brasileira de 1950…

Como se percebe, o filme é um ensaio criativo e inteligente sobre o imaginário do torcedor, sempre povoado, como sabemos, dos sonhos mais ditosos, e – já que a um time ganhador tem que corresponder um perdedor – dos pesadelos mais horrendos.

E aqui o pesadelo é mais horrendo, porque tem, nas imagens do filme, o seu lado cru e cruelmente realista.

As cenas ficcionais são todas circundadas por filmagens documentais de arquivo, e o filme já começa, nos seus créditos, com a transmissão radiofônica verídica dos momentos que precedem o jogo, o locutor, enfatizando o favoritismo do Brasil, informando sobre os preparativos da partida, e convidando ao microfone, ninguém menos que o prefeito da cidade Ângelo Mendes de Morais, o construtor do estádio carioca. “Eu, que vos dei o Maracanã, – diz a voz emocionada do prefeito – já vos considero vencedores”.

Antônio Fagundes em cena do filme

Antônio Fagundes em cena do filme

Igualmente documentais, e mais recentes no tempo, são as entrevistas com o próprio Barbosa, que relembra o passado com a melancolia de um injustiçado. Como é sabido, por causa daquela falha infeliz, o jogador tornou-se uma espécie de persona non grata do mundo futebolístico e viveu, para sempre, no ostracismo e na miséria. Conta ele em dado momento da entrevista que, algum tempo depois do jogo, despachando na sua humilde loja, uma freguesa teria dito ao filho pequeno, lhe apontando um dedo acusativo: “está vendo, meu filho, foi este homem que fez o país inteiro chorar”.

Mas, as cenas documentais de arquivo mais doídas são, sem dúvida, aquelas da saída do estádio, depois do jogo findo, mostrando a multidão caminhando meio sonâmbula, milhares de desesperados e desiludidos, alguns chorando pelas ruas, muitos sem entender bem o que havia acontecido e por quê.

Em 1950 eu tinha apenas quatro anos de idade e não lembro nada, mas lembro bem, oito anos adiante, a Copa de 1958, e hoje me dou conta de que, embora o lugar e os adversários fossem outros, as estrondosas comemorações dessa primeira vitória brasileira na Copa “descontavam” a fatalidade de 50.

Infelizmente mal conhecido dos torcedores, o curta-metragem de Furtado é extremamente bem concebido e realizado, além de tocante, até para quem, como eu, não acompanha de perto o esporte bretão. Aos interessados, aproveito para informar que “Barbosa” está inteiramente disponível no Youtube.

Enfim, fiquemos por aqui, torcendo para que o dia 13 de julho de 2014 nada tenha a ver com o 16 de julho de 1950.

Moacir Barbosa, tema do curta de Jorge Furtado.

Moacir Barbosa e a Copa de 1950, tema do curta de Jorge Furtado.