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Interlocutor acidental

7 out

Meu interlocutor é jovem. Tem cerca de vinte anos, o segundo grau completo, mas não está em universidade: ajuda o pai em atividade comercial.

Nosso contato é acidental. Estamos numa festa de aniversário familiar; ele, parente dos anfitriões, eu, amigo da casa. Por acaso, sentamos lado a lado, e a conversa decorreu dessa proximidade física. Havendo escutado de alguém que sou crítico de cinema, me pergunta pelos filmes em cartaz. Recomendo “Aquarius”, e ele faz cara de que não sabe que filme é esse, e lhe passo as informações básicas. Penso em recomendar “Café Society”, mas, indeciso sobre o seu gosto, desisto.

Ele continua no tópico do cinema, não porque, creio eu, esteja particularmente interessado, mas, porque quer ser sociável, sustentar um papo. Acho que há também a curiosidade de saber o que pensa um crítico de cinema, figura estranha que ele jamais pensou em vir a conhecer.

Cena de "Dilema de uma consciência", cujo resumo menciono adiante...

Cena de “Dilema de uma consciência”, cujo resumo menciono adiante…

Meu jovem interlocutor é sociável, mas – ainda bem – não é falso. Não tem receio em dizer que não gosta de filme velho. Preto-e-branco, nem pensar, diz ele rindo. Rio junto com ele, pois os dois sabemos – ou calculamos – que os nossos gostos diferem, não tanto pela formação cultural, mas pelo abismo etário. Mais ou menos implícita fica a ideia de que jovem gosta de filme novo, e velho gosta de filme velho.

Estrategicamente estabelecido esse limite geracional, passamos aos gêneros, e isto por iniciativa dele, que me pergunta de que tipo de filme gosto; se há um gênero que prefiro, etc. Respondo que gosto de filme bom, e ele responde que todo mundo gosta de filme bom, e, mais uma vez, rimos, tomando consciência de que voltamos ao impasse de antes: o que é bom para a minha geração, não é bom para a geração dele.

Aí ele arrisca seus gostos. Terror, muito terror, e filme de ação. Não suporta romances, estorinhas de amor, embora ainda admita uma comédia romântica, se for bem feita. Indago o que quer dizer com ´bem feita´, e ele: Se é uma comédia, tem que fazer rir, não é?

"Acorrentados", com Tony Curtis e Sidney Poiter, outro filme mencionado...

“Acorrentados”, com Tony Curtis e Sidney Poiter, outro filme mencionado…

Como privilegiou a ação, aproveito o embalo e lhe jogo na cara um começo de enredo de ´um filme velho´, com muita ação, para ver se o pego. E vou contando:

Num acidente de caminhão com prisioneiros, dois presos escapam e fogem juntos, com dois agravantes: estão acorrentados um ao pulso do outro, e, pior, um é branco e o outro, negro, isto nos Estados Unidos racistas dos anos cinquenta.

Muito atento, ele concorda comigo em que, com um começo de filme desses, você fica preso à tela e não dá para largar e ir fazer outra coisa. Concorda também que só pode ser um filme muito bom. E lhe digo que é de 1958, e ele se admira. Preto-e-branco? pergunta. Sim, respondo: e rimos mais uma vez.

Por causa do tema, o assunto desliza para filmes atuais sobre o racismo e ele menciona “12 anos de escravidão”. Comentamos o filme, e aproveito para fazer outro resumo de começo de filme preto-e-branco, com o tema do racismo. Conto:

A essa cidadezinha do Sul americano, chega essa moça de Nova Iorque, que vem de ônibus, para visitar uma irmã que não via havia cinco anos. É tarde da noite e, no caminho da casa, ela presencia, às escondidas, um crime do Ku-klux-klan, e vê o rosto do assassino. Ao chegar à casa da irmã, conta o caso, apavorada. Logo depois, chega o marido da irmã, que ela, horrorizada, constata ser o autor do crime. E aí, pergunto eu, me pondo no lugar da personagem: o que fazer, prejudicar a irmã querida ou deixar um assassino à solta?

"Rashomon", 1951, do japonês Akira Kurosawa.

“Rashomon”, 1951, do japonês Akira Kurosawa.

Sem nada dizer, só com expressões faciais, ele demonstra que está entendendo o que estou querendo argumentar: que, nos velhos tempos, se faziam filmes incríveis, que poderiam muito bem ser vistos hoje em dia por qualquer jovem da idade dele, ou mais jovem. Vou parar por aqui – digo, brincando – ou termino convencendo você de que os “filmes velhos” são melhores que os de hoje. E rimos da brincadeira. O problema é o preto-e-branco, diz ele… E mais risadas.

É quando lembra que viu uma vez um filme velho, preto-e-branco, mostrado por um de seus professores, na escola. Era um filme indiano, muito bom – me diz – sobre um estupro com morte, a estória sendo contada por quatro pessoas em versões diferentes. “Rashomon”? pergunto. Sim, isso mesmo. E eu corrijo: não é indiano; é japonês. Ele concorda, e acrescento: o filme é de 1951! E ele faz um meneio de cabeça, admirado.

No meio do papo, alguém vem avisar que estava na hora de cantar parabéns para o anfitrião e partir o bolo.

Saí da casa de meus amigos, pensando se não teria o meu acidental interlocutor um gosto diferente, mais aberto, se seu meio ambiente, familiar, social, tivesse sido outro. Inteligência não lhe falta. Saí pensando se porventura não haveria uma possibilidade de crescimento cultural, artístico, para o meu jovem interlocutor, e por tabela, para toda uma juventude atual que repudia o que nem sequer conhece.

Poitier e Curtis, dois presos unidos num filme preto-e-branco.

Poitier e Curtis, dois presos unidos num filme preto-e-branco.

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Era uma vez uma vaca…

14 fev

A estória não poderia ser mais real. Ou devo dizer surreal? Que decida o leitor desta matéria, ou o espectador do filme argentino “Um conto chinês” (“Un cuento chino”, 2011, de Sebastián Borensztein), atualmente em cartaz na cidade.

Na Buenos Aires de hoje, Roberto (Ricardo Darin) é dono de uma velha casa de ferragens, muito pouco procurada. Até porque a sua cara não ajuda. Misantropo, neurótico, sistemático, mal humorado, esse cinqüentão aborrecido costuma se desentender com os eventuais fregueses e nunca tem saco para desculpas.

Nem Mari (Muriel Santa Ana), a mulher que o ama, tem direito ao convívio com Roberto. Houve uma transa entre os dois no passado, mas, Roberto, embora aparentemente também a ame, continua impassível no seu propósito de aguentar a existência sozinho.

Se Roberto não suporta viver com quem ama, imagine com estranhos. Pois o destino lhe prega uma peça. Um dia, por acaso, socorre um jovem chinês que fora assaltado e agredido num taxi, e, sem ter para onde ir, o china – a revelia de Roberto – fica na sua casa. Jun (Ignácio Huang) é um imigrante ilegal que, sem falar uma palavra de espanhol, veio à Argentina no encalço de um tio distante… o qual, para desespero de Roberto, vendeu a casa onde morava e desapareceu – e esse era o único endereço de que Jun dispunha, tatuado na pele.

Jun parece ser uma boa criatura, mas, tê-lo em casa é demais para os nervos de Roberto. As tentativas de livrar-se do hóspede acidental são muitas e nenhuma dá certo; alias, cada uma é mais desastrosa que a anterior. Não vou arrolá-las, e muito menos descrevê-las, pois seria cansativo, tanto quanto o foi para Roberto; basta dizer que elas vão se seguindo num crescendo, até Roberto, estafado e desesperado, dar-se conta de que não há mais nada a fazer, a não ser hospedar esse intruso sem meios de sobrevivência por mais uns tempos, até que ele aprenda espanhol e possa arranjar um emprego e… se mandar.

Como se comunicavam por gestos, Roberto resolve um dia pedir comida chinesa e aproveitar-se do entregador, também chinês, para comunicar-se mais a fundo com o seu indesejado hóspede. É aí que Roberto fica conhecendo a sua estória: deixara o seu país de origem porque, num acidente de barco, perdera a moça com quem ia casar-se.

Faltou dizer que Roberto, esse niilista incorrigível, possui um hábito estranho, talvez nem tanto, considerado o seu temperamento – o de colecionar notícias verídicas mas absurdas que acontecem em todo o planeta. São casos reais cujo completo nonsense funciona, para Roberto, como terapia, como se dissesse a si mesmo: ´a vida é realmente absurda; para que tentar lhe dar lógica?´ Quando Jun lhe pergunta o que é que ele coleciona naqueles álbuns, com fotos e recortes de jornais, Roberto passa a lhe contar algumas das estórias absurdas que recortara. Ouvindo as estórias, Jun alega que para tudo existe uma razão de ser, ponto de vista naturalmente refutado por seu anfitrião e suas estórias veridicamente absurdas.

Como o meu leitor pode não ter ainda visto o filme, prefiro sonegar o surpreendente desenlace, dizendo apenas que tudo tem a ver com uma vaca que caiu do céu. Sim, isso mesmo. E, atenção: lembrando que, malgrado as aparências, aqui, e no título desta matéria que se lê, o filme é baseado em uma notícia rigorosamente verídica!

Entre o tom cômico e o dramático, o filme mantém o espectador atento do começo ao fim. Os personagens, todos eles, são incrivelmente reais, verdadeiros, e nada no filme, em nenhum momento, nos soa forçado – sequer a vaca referida.

E vejam que a situação diegética do hóspede indesejado é bastante velha na história do cinema. Em dado momento (exemplo: quando Roberto empurra Jun para dentro de num táxi e o despacha ao bairro chinês), o filme nos lembra aqueles primeiros momentos de “O garoto” (1921)em que Carlitos– lembram? – tenta, por meios nada edificantes, se livrar do bebê recém encontrado na rua, e até um buraco de esgoto é cogitado como possibilidade.

O que fazer com um intruso que, mesmo sendo do bem, denega o nosso sagrado direito à privacidade? Essa dívida – se é que há uma – para com todos os filmes que já trataram dessa situação diegética e suas eventuais conseqüências filosóficas, ideológicas, morais ou de outra ordem não impede “Um conto chinês” de ser uma obra original, autêntica, verdadeira, extremamente convincente, empolgante, humana e bela. Um exemplar à altura do bom e prolífico cinema que se vem praticando na Argentina de hoje em dia, infelizmente uma cinematografia pouco conhecida de nós, vizinhos brasileiros.