Tag Archives: estupro

Centenário de Ingmar Bergman

10 jul

No dia 14 deste mês de julho comemora-se o centenário de nascimento de um dos maiores cineastas do planeta, o sueco Ingmar Bergman (1918-2007). Para celebrar, reproduzo crônica que publiquei na ocasião da morte do cineasta, onde relato o meu primeiro impactante contato com sua obra cinematográfica, no caso, com “A fonte da donzela” (1960).

Nunca esquecei o meu primeiro contato com Ingmar Bergman. Foi em 1961, ou 62, no Cine Sto Antônio, no bairro de Jaguaribe, João Pessoa. Consumidor voraz de cinema, eu estava, pelas estatísticas das exibições locais, acostumado a um modelo de cinema americano onde, pelo menos até então, contundência tinha limites. Por mais noir que fosse o policial, por mais selvagem que fosse o western, por mais ousado que fosse o melodrama – vocês lembram – as cenas de violência eram sempre suavizadas pelas lentes auto-censuradas de Hollywood. Pekimpah, Altman e Kubrick só seriam possíveis bem mais tarde…

Pois foi então que assisti a “A Fonte da donzela” (Junkfraukällen, 1960). Num acesso de lucidez da Meca, ele havia ganhado o Oscar de melhor filme estrangeiro, em 1961, e creio que somente por essa razão entrara no nosso circuito comercial de exibição.

O impacto foi tão grande que, de repente, me vi obrigado a reconsiderar as minhas ideias de realismo cinematográfico e a questionar o modelo de cinema que o acaso me impusera. Tudo bem, àquela altura eu já conhecia um Eisenstein aqui, um Kurosawa ali, um Clouzot acolá, porém nada que, fora do modelo clássico, tivesse me provocado tamanho abalo.

Ainda hoje me recordo de como, depois de ver “A fonte da donzela” saí do cinema estremecido, e como passei vários dias sob efeito do impacto. Lembro que tentei contar o filme em casa a um irmão, e meu relato, depois de alguns esforços, virou um gaguejado confuso, do qual desisti, com medo de que a família começasse a desconfiar que ir a cinema estava atrapalhando minha sanidade mental. Aquela criança vomitando depois de ter presenciado um estupro e assassinato só podia vir da Suécia.

Mais tarde vi outros Bergmans, inclusive alguns cronologicamente anteriores a “A fonte”, como “Morangos Silvestres”, mas a impressão inicial persistiu, e para mim, na maior parte do tempo, Bergman era “A fonte da donzela”.

A ideia que não consegui transmitir a meu irmão era a de que um filme tão contundente, com cenas de estupro e assassinato mostradas tão cruamente, fosse ao mesmo tempo – e por causa disso mesmo! – tão belo. Como era possível esse milagre de casar a infinita crueldade do tema com a suprema beleza da imagem? Onde residia o ponto de tensão entre conteúdo e forma? Como era possível, em cinema, ser tão inseparavelmente primitivo e requintado, explosivo e contido, pulsional e estruturado?

Hoje em dia, quando a contundência virou regra, o filme pode ter perdido parte de seu impacto, mas duvido que a sua beleza. Revê-lo uns tempos atrás foi uma experiência e tanto, a oportunidade de constatar que não perdeu qualidade com o passar do tempo e que, ainda hoje, se alinha entre o melhor cinema que se fez no século inteiro.

Uma curiosidade sobre essa obra prima, no meu entender e da crítica em geral, quase irretocável, é que tenha sido renegada pelo seu próprio autor. Em “O cinema segundo Bergman” (Paz e terra, 1977), o cineasta considera o filme com certo desprezo como “um acidente de percurso”, segundo ele, “um filme para turista ver”, “imitação miserável de Kurosawa”.

Claro que levei um choque ao ler isso pela primeira vez. Gastei tempo e energia refletindo sobre o assunto e fiquei com questões que sempre lanço aos cinéfilos que, como eu, amam “A fonte da donzela”.

E as perguntas vieram: agnóstico assumido, Bergman não estaria apenas refutando a premissa cristã que o desenlace do seu filme encarna? A alegada imitação de Kurosawa, afinal nem tão visível assim, não seria o pretexto para a renegação? Outra coisa, renegar “A fonte” não é renegar Hollywood, que o premiara? Sejam quais forem as respostas, de uma coisa não tenho dúvidas: é de que o affair Bergman versus “A fonte da donzela” ilustra um desses casos – afinal nem tão raros assim na história das artes! – em que o autor se equivoca redondamente sobre sua própria obra. Umas vezes o equívoco consiste em superestima, outras vezes, como aqui, em subestima.

Quem quiser constatar que reveja “A fonte da donzela”!

Anúncios

A pioneira Ida Lupino

25 ago

Hoje em dia, no mundo inteiro, o número de mulheres dirigindo filmes está próximo ao número de homens. Mas não foi sempre assim. Até a primeira metade do Século XX, mulher por trás das câmeras, só se fosse continuísta, ou maquiadora, ou figurinista.

A primeira mulher a romper a barreira profissional e impor-se como diretora de cinema foi a até então atriz Ida Lupino (1918-1995). E isto já nos anos quarenta/cinquenta. Nos Estados Unidos, antes dela, uma ou outra havia experimentado a mise-en-scène, mas sem sucesso nem prosseguimento – exceção feita apenas a dois nomes: Lois Weber e Dorothy Arzner.

Entre 1949 e 1966, Ida Lupino rodou seis filmes de longa metragem, e – por razões óbvias – nem estamos contando sua participação na televisão.

Ida Lupino, pioneira na direção.

Ida Lupino, pioneira na direção.

Com o título de “Never fear” (no Brasil, “Quem ama não teme”, 1949), seu primeiro filme era a estória de uma dançarina acometida de Polio que ficava paraplégica, e com muito sofrimento, recuperava a capacidade de se locomover.

No ano seguinte, enfrenta um tema difícil, sobretudo para a época, o estupro. O filme – que comentarei com mais detalhes adiante – é “Outrage” (´ultraje´), entre nós, “O mundo é culpado”, 1950.

Em 1951 vem “Laços de sangue” (“Hard, fast and beautiful”) a estória de uma tenista hesitante entre a profissão e o amor. Em 1953 ela se rende ao gênero noir e faz esse “Hitchhiker” (“O mundo odeia-me”), sobre um carona que se revela psicopata – tema, como sabemos, de muitas refilmagens posteriores. Neste mesmo ano também roda um filme de tema curioso em que um homem bem casado, mas sem filhos, é descoberto como pai em outro casamento: “The bigamist” (“O bígamo”).

O cartaz de "Outrage" : "O mundo é culpado", 1950.

O cartaz de “Outrage” : “O mundo é culpado”, 1950.

Seu último filme para o cinema passa-se todo em um convento onde três noviças cometem uma traquinagem atrás da outra, até o dia em que vestem o hábito e, então, passam a dar lições de vida. “Anjos rebeldes” (1966) só não fez mais sucesso por causa de “A noviça rebelde”, lançado no mesmo ano.

Voltando a “O mundo é culpado”, o filme conta a trágica estória de Ann Walton, essa mocinha de família modesta, filha única que ajuda os pais como funcionária de uma firma local. Tem um namorado e agora que o rapaz conseguiu um aumento de salário, resolvem pedir aos pais o consentimento para o noivado.

Tudo vai bem, até aquela noite em que, saindo do trabalho mais tarde, Ann é perseguida por um estranho. O estupro se consuma e, a partir de então, a vida de Ann passa a ser um inferno. Sentido-se observada por todos, na rua, no trabalho, onde vá, ela entra em crise e, embora o noivo mantenha a ideia de casamento, ela foge e vai viver anônima noutro lugar, bem longe de casa. No dia em que um rapaz de sua nova vizinha, cortejando-a, tenta beijá-la ela, apavorada, o atinge com um golpe fatal e vai terminar no tribunal de justiça, na condição de ré.

Como os outros filmes dirigidos por Lupino, “O mundo é culpado” é uma produção barata, distribuída pela RKO, realizada por um grupo pequeno, chamado de “The filmakers”, do qual faziam parte amigos e o então esposo de Lupino, Collier Young, na função de co-roteirista e produtor.

Cena de "Outrage", o estupro discutido.

Cena de “Outrage”, o estupro discutido.

Vocês hão de convir que, em pleno 1950 deve ter sido difícil rodar um filme com tal temática, e enfrentar o rigoroso e ainda vigente Código Hays de Censura. Tanto é assim que não há, na narrativa, nada que se diga explícito e, da atriz que faz Ann (Mala Powers) muito se exige em termos de expressões faciais, sem qualquer enfoque em outras partes de seu corpo.  Por exemplo: a cena da perseguição da vítima é longa e cheia de suspense, mas, o ataque mesmo acontece off-screen, e, mais tarde, em toda a sequência do júri, o crime de estupro é sempre referido pelo advogado como “Criminal attack” ou “Assault”, nunca como “rape” – a palavra inglesa para ´estupro´.

De todo jeito, uma coisa que impressiona em “O mundo é culpado” é a sua (lamentável) atualidade.

É possível que Ida Lupino não seja muito lembrada como cineasta, mas, com certeza, o espectador/leitor de mais idade recorda-se dela como a grande atriz que foi, trabalhando com astros de primeira grandeza e dirigida por mestres da direção em filmes que fizeram a história do cinema clássico. Ao todo, entre os anos de 1932 e 1978, ela atuou em mais de sessenta filmes, dos quais, para refrescar a memória do leitor, cito apenas cinco, sem coincidência, todos noir, um gênero em que ela sempre esteve muito à vontade:

“Seu último refúgio”, 1941, de Raoul Walsh, com Humphrey Bogart; “Dentro da noite”, 1940, de Walsh, com George Raft; “A taverna do caminho”, 1948, de Jean Negulesco, com Cornell Wilde: “Cinzas que queimam”, 1951, de Nicholas Ray, com Robert Ryan; “No silêncio de uma cidade, 1956, de Fritz Lang, com Dana Andrews.

A atriz Mala Powers: expressões faciais.

A atriz Mala Powers: expressões faciais.

Anúncio de tempestade

21 ago

Na televisão ou nos cinemas, quando a programação do dia ou a local não atrai, o jeito é ir atrás de um velho clássico… É o que sempre faço, e foi o que fiz esta semana.

O filme que vi já começa lhe amarrando a atenção. Vinda de Nova Iorque, essa moça desce do ônibus nessa pequena cidade do Interior americano, e procura a casa da irmã, que vem visitar depois de muito tempo.

É noite escura e, antes de achar a casa, ela, sem ser vista, testemunha, apavorada, um assassinato: numa esquina qualquer, um homem é morto a tiros pela KuKluxKlan, e diante do cadáver, dois ou três deles retiram as máscaras que lhes cobriam os rostos. Ao chegar na casa da irmã, a moça descobre o mais grave: que o cunhado – que ela não conhecia – tinha o rosto do assassino.

1

Ora, um filme que começa com uma cena dessas, pode até não ser grande coisa, mas, vai  envolver-nos de modo completo, se for o caso, até o fim. Esse é o tipo de roteiro que obriga o diretor a dar o máximo de si, bem como os atores.

O que faz a pessoa numa situação dessas? Denuncia o cunhado e destrói o feliz casamento da irmã querida? Ou cala-se e, sem ninguém saber, será conivente com um crime hediondo, cometido por um dos membros de uma seita tenebrosa?

O título dado ao filme no Brasil expressa a situação da protagonista: “Dilema de uma consciência”, mas, o original inglês é mais sutil: “Storm warning”, que significa ´aviso, ou anúncio, de tempestade´, sugerindo que, seja qual for a decisão a ser tomada pela moça que visita a irmã, vem mau tempo por ai, sobre essa cidadezinha do sul americano, chamada Rockpoint, dominada pelo obscurantismo.

Produção de 1951, o filme é um noir bem típico da Warner, e tem Stuart Heisler na direção. Como não podia deixar de ser, sua fotografia, de Carl Guthrie, é preto-e-branco, com predomínio de sombras sobre os claros. O elenco é que é inesperado: Ginger Rogers (sim, ela mesma) faz Marsha, a modelo novaiorquina que vem ver a irmã e cai numa fria. A irmã, Lucy, é Doris Day, e o marido assassino, Hank, é Steve Cochran. O promotor público que, mais adiante na estória, deverá enfrentar a KKK é o ator Ronald Reagan, provavelmente em seu melhor desempenho.

Ginger Rodgers, Doris Day e Steve Cochran em querela familiar

Ginger Rodgers, Doris Day e Steve Cochran em querela familiar

O filme quer ser uma denúncia da famigerada KKK, mas também é a estória pessoal de duas mulheres, duas irmãs em perigo, e o seu enredo se equilibra nesse meio tom entre documento e melodrama. E o faz muito bem. Não tive surpresa em saber que um dos roteiristas era o grande Richard Brooks, mais tarde um cineasta de filmes impressionantes, como, “Sementes da violência” e “Doce pássaro da juventude”.

Para voltar à dupla principal, urbana e modelo de profissão, Marsha é uma moça moderna, acostumada a dizer a verdade na ponta da língua, a quem quer que seja. Residente no Interior e sem muita instrução, Lucy, ao contrário, está habituada a dizer sim ao marido dominador, e a não questionar suas atitudes ou o que quer que seja.

O drama se intensifica porque, logo que chega à casa da irmã, Marsha lhe conta o crime que acabara de testemunhar na rua. Em seguida, chega Hank, o marido culpado, e a esposa por sua vez, ainda sem saber que ele era o autor do delito, lhe narra o que ouvira de irmã. A culpa está na cara de Hank e não precisa muito para que a verdade estoure (a primeira tempestade, digamos assim), dentro dessa casa, verdade que – supostamente – deveria ficar entre suas quatro paredes.

KuKluxKlan: terror em Rockpoint.

KuKluxKlan: terror em Rockpoint.

É claro que tal não é possível e logo a cidade vai aos poucos tomando conhecimento de pequenos detalhes que, mesmo confusos e obscuros, conduzirão a uma tempestade maior, a do título do filme. Enquanto isso, o espectador sofre com a angústia de uma irmã que se move, desequilibrada, entre a obrigação moral de delação e o apego a um ente querido inocente; tanto quanto com a dor de uma jovem esposa apaixonada que de repente descobre o que nunca imaginara: a faceta homicida do cônjuge…

O homem assassinado não é – como se poderia supor – de raça negra (alvo habitual da KKK), mas, um jornalista que, corajosamente, vinha se posicionando contra o domínio da seita local.

Não pretendo contar o resto da estória, para que seja mantido o interesse do leitor. Só lembrar que tão corajoso quanto a vítima do KKK, é o próprio filme, rodado numa época em que o WASP era o valor possível no país. Para quem não lembra ou não sabe, estas iniciais significam ´White Anglo Saxon Protestant´, ou seja ´Protestante anglo saxão branco´, o padrão racial, social e religioso, entendido como superior.

“Dilema de uma consciência” não é nenhuma grande obra, porém, um filme bastante apreciável em sua pequenez. Recomendo.

O promotor público Ronald Reagan.

O promotor público Ronald Reagan.

Cine Tambaú

4 jun

 

Por que nunca escrevi sobre o extinto Cinema Tambaú, eu que tanto escrevo sobre cinemas extintos? Alguns amigos já reclamaram e eu não soube o que responder.

É, de fato, estranho, pois fui, desde a sua abertura, no começo dos anos setenta, um frequentador assíduo daquela elegante casa de espetáculos, tão elegante quanto o Hotel todo.

Não sei que filme o inaugurou e não devo ter comparecido a essa estreia festiva, porém fui lá, sim, nas primeiras semanas de seu funcionamento, entusiasmado de estar adentrando um novo cinema em João Pessoa, numa época em que os mais antigos já estavam fechando suas portas.

Eu morava em Jaguaribe, bairro afastado da praia, e naquela época, as distâncias em João Pessoa eram bem maiores. Devo ter ido de ônibus, mas não me arrependi. Ao contrário, adorei o cinema e o filme, e logo senti que aquela trajetória de ônibus iria se repetir muitas vezes.

Vista parcial do Hotel Tambaú, que abrigava o cinema.

Vista parcial do Hotel Tambaú, que abrigava o cinema.

Anos depois, mudei-me para Manaíra e o acesso ficou mais fácil.

Das minhas boas lembranças cinematográficas fazem parte coisas ocorridas no Cinema Tambaú, quase todas nos anos oitenta, por exemplo: uma mostra Glauber Rocha, quando do falecimento do cineasta baiano; uma mostra do alemão Fassbinder, também recém falecido; e uma mostra Hitchcock, na ocasião da liberação dos seus filmes embargados, entre os quais “Janela Indiscreta” e “Um corpo que cai”. E, enfim, exibições de outros tantos clássicos (“Vidas amargas”, por exemplo) que a gente – ainda sem a invenção do VHS – não tinha chance de ver ou rever de outro modo.

Nada mais agradável do que sair da sessão do Tambaú, atravessar a rua e ir tomar umas cervejas com amigos, na Lanchonete Nutritiva, ou então, comer ou beber em qualquer barraca da então chamada Feirinha de Tambaú.

Eu falei em cinema extinto, mas o caso do Tambaú é atípico: o cinema morreu, mas a sala ainda está no mesmo lugar, hoje com o nome do construtor do hotel, Sérgio Bernardes. Sala que, aliás, acolheu, durante quatro ou cinco anos, o nosso querido “Fest-Aruanda”.

Cartaz de "O passageiro da chuva" (1970).

Cartaz de “O passageiro da chuva” (1970).

Voltando ao início da crônica, o filme que vi na minha primeira visita ao Cinema Tambaú foi um delicioso thriller francês do veterano René Clément, “O passageiro da chuva” (“Le passager de la pluie”, 1970), cujo charme, na minha cabeça sonhadora, associei ao charme do cinema, como se um tivesse sido feito para o outro.

Na estória, essa dona de casa (a pequenininha e frágil Marlene Jobert) era estuprada dentro de casa por um estranho e o matava, jogando seu corpo num lago. Logo em seguida, aparecia esse Mr Dobbs (o grandão e forte Charles Bronson), dando a pinta de que sabia de tudo o que ocorrera, embora “Love-love”, como ele a chamava (por causa de uma inscrição em sua camiseta) negasse o crime até o fim. O resto era uma interminável briga de gato e rato, e o delineamento de um caso de amor mais escondido que o próprio crime.

Eu conhecia René Clément de longas datas. Ele foi um daqueles cineastas franceses execrados pela Nouvelle Vague, e, no entanto, tinha talento, tanto ou mais, que muitos nouvellevaguistas. Além de talento, era – como os mesmos nouvellevaguistas – um fã incondicional de Hitchcock, e a ele fez várias homenagens. Aliás, uma ironia do destino é que o filme com que presta homenagem ao mago do suspense fez, no mesmo período da inauguração da Nouvelle Vague, muito mais sucesso que os lançamentos de Truffaut, Godard, ou Chabrol. Digo sucesso, ambos, de crítica e de público: refiro-me a “O sol por testemunha” (1960).

Marlene Jobert e Charles Bronson em ação.

Marlene Jobert e Charles Bronson em ação.

Pois é, não dá para entender a indisposição dos nouvelleguistas para com Clément, pois os seus filmes dos anos quarenta e cinquenta são clássicos que honram a história do cinema francês, basta citar “Brinquedo proibido” (1952) e “A batalha dos trilhos” (1946).

Em “O passageiro da chuva” o intertexto hitchcockiano perpassa tudo; por exemplo, é com bebida que Mr Dobbs tortura Love-love (Cf “Intriga Internacional”), a qual sofre de lampejos culposos da infância (Cf “Marnie”). Esse intertexto é indicado pelo próprio cineasta, ao dar ao criminoso o nome de Macguffin. Confesso que, na época em que vi o filme eu não conhecia esse curioso conceito teórico, tão importante em Hitchcock, e, como todo mundo por aqui, teria que esperar anos pelo lançamento do livro “Truffaut/Hitchcock: entrevistas”… Não disponho de espaço para explicá-lo, e deixo ao leitor a curiosidade de pesquisar o significado do termo “macguffin” em linguagem cinematográfica.

Revi agora em DVD “O passageiro da chuva”, para mim, um retorno ao Cinema Tambaú e, com “macguffin” e tudo mais, um prazer em partilhar a brincadeira hitchcockiana de René Clément.

Um serial killer chamado Macguffin...

Um serial killer chamado Macguffin…

 

Poesia

8 ago

A crítica é cheia de paradoxos. Ou seria o crítico? Às vezes filmes ruins me instigam a escrever, e, às vezes, um filme ótimo me sugere ficar calado.

Uma sugestão de silêncio – mas de silêncio respeitoso – me deu esse excelente “Poesia” (“Shi”, 2010) do sul coreano Chang-dong Lee, que tive a sorte de ver nesse novo Canal Arte-1 da televisão paga.

Sim, alimento a sensação de que escrever sobre esse doce e terno filme é como maculá-lo. E, paradoxalmente, escrevo, pois me vejo no afã de divulgá-lo. Se pudesse, ao invés de escrever, tiraria cópias, e carinhosamente distribuiria entre os amigos.

poetry poster 1

Devo começar dizendo que, neste cinema do terceiro milênio que me chega, poucas vezes vi um personagem, cativante e verdadeiro, tão bem construído como essa Sra Misha, de sessenta e seis anos de idade que, acometida de lapsos de memória, se matricula num curso de poesia. Caminhando devagar pelas calçadas de Seul, Misha destoa da pressa reinante, com sua elegância e sua delicadeza – seu rosto de sessentona ainda é bonito, seu corpo ainda é esguio e o chapéu branco, ligeiramente antiquado, que teima em usar, lhe concede um ar vagamente aristocrático.

Não sei se vou conseguir passar a sua beleza interior, mas começo com o óbvio, o que o enredo me fornece, até porque o enredo é outro enorme mérito do filme.

poetry 5

Viúva há muito, Misha viveria sozinha, não fosse por esse neto, filho de pais separados, que ela praticamente é obrigada a hospedar – um adolescente hostil, com quem não consegue se entender, embora faça todos os esforços.

Um dia Misha ouve a notícia de que uma jovem de dezesseis anos cometera suicídio, jogando-se da ponte no rio que banha Seul. Não apenas tem a notícia como, indo ao hospital para exames, testemunha uma cena terrível: a mãe da moça morta, enfurecida pelo desespero, gritando e se arrastando pelo chão como uma louca.

Logo depois, vem o pior: Misha é secretamente procurada por uma comitiva de pais, cujos filhos haviam estuprado a jovem, e o neto de Misha estava entre eles. Os pais a procuram porque, juntos, estão – sem que a polícia ou a imprensa o saiba – coletando dinheiro para uma indenização.

Sem maiores recursos, Misha não tem como levantar a quantia pedida. Vive de pensão, e de um eventual trabalho de cuidadora – cuida de um senhor idoso que, acometido de AVC, mora só em seu apartamento de classe média.

poetry 4

Todos esses problemas – inclusive os lapsos de memória, diagnosticados como início de Alzheimer – não impedem Misha de continuar freqüentando o curso de poesia, onde o professor afirma que todo mundo é capaz de fazer poemas, pois a poesia está dentro de nós. Misha sempre gostou de flores e de palavras estranhas e isso lhe dá a ilusão de que possa vir um dia a escrever um poema. Gasta tempo fitando a natureza em busca de uma inspiração, que nunca vem. Ou (devo contar o resto da estória?) vem tarde.

Enquanto isso, impressionada com a morte da jovem, Misha vai até o local do suicídio, a ponte sobre o rio, e – triste prolepse – o vento arranca-lhe o chapéu, que cai nas águas sombrias.

Incumbida pela equipe dos pais, visita a mãe da jovem, no campo, porém, a visita não dá frutos, salvo um, literal, que Misha apanha do chão e mastiga. As duas mulheres conversam sobre frutas maduras e Misha volta como foi, sem soluções. Uma única, precária, é que furta o retrato da garota morta e o leva para casa, pondo-o à mesa, diante do neto delinqüente.

Ainda que por meios nada edificantes – espécie de estupro consentido – Misha consegue, com o senhor de quem cuida, enfim, o dinheiro para a cota indenizadora, o que não impede que, um dia, a polícia apareça em sua rua e leve o neto preso.

poetry 7

No fim do curso, nenhum aluno cumpriu a tarefa do professor, a de escrever um poema, salvo Misha, que não comparece a essa aula final, e, com um buquê de flores, envia o poema – o seu primeiro e (lembremos o chapéu no rio) último.

Enquanto se ouve a voz que lê o poema de Misha (primeiramente a do professor, depois a dela, depois a da adolescente morta), a câmera vai se deslocando na direção da ponte do suicídio e nós, espectadores, entendemos que houve outro. Não apenas as águas turvas do rio, filmadas assustadoramente de perto, nos dizem isto, como também as palavras estranhas e belas do poema que se escuta.

Desliguei a tv meio engasgado, me lembrando de outra vítima feminina do mundo dos homens, que a cada revisitação, me faz chorar, a Cabíria de Fellini.

Comecei esta matéria falando dos paradoxos da crítica. Um a mais é não atingir, na composição do texto, o nível de qualidade do filme, como é o caso aqui.

Portanto, vejam o filme e esqueçam a crítica.

Poetry 3