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Ettore Scola (1931/2016)

21 jan

Faz menos de dois meses que comentei, aqui, o belo documentário que Ettore Scola fez com Fellini “Que estranho charmar-se Federico” (2013) e, agora, me chega a notícia de sua partida.

Dois ou três anos atrás, concluído o documentário, o cineasta Scola anunciara à imprensa a sua aposentadoria, o que me motivou a matéria “Saudades do cinema italiano”, que publiquei no Correio das Artes, suplemento literário do jornal “A União”.

Ettore Scola

Ettore Scola

Um pouco mais para trás, escrevendo sobre o cineasta Robert Altman, também no Correio das Artes, foi a Scola que o comparei, com o seu requinte, sua elegância, e sua mania de trabalhar com elencos enormes, dentro de um mesmo cenário.

Ou seja, estou sempre citando Scola, isto para não falar dos ensaios que dediquei exclusivamente a seus filmes, dois deles com os seguintes títulos: “Nós que amávamos tanto Ettore Scola” e “Um filme muito especial”. Ao fã de Scola acho que não preciso dizer que filmes, respectivamente, foram enfocados nestes ensaios, que foram publicados em jornais, mas hoje estão no índice do meu livro eletrônico “Emoção à flor da tela” (2011)

De qualquer forma, aproveito para dizer que tudo isto está postado neste Blog, se o leitor tiver a paciência de procurar.

Não tenho dúvidas de que Ettore Scola é o cineasta italiano que mais cito, o que não é estranho, pois é o cineasta italiano que mais amo.

Na minha lista pessoal dos dez filmes mais amados em todos os tempos e lugares ele não está, porém, a razão é simples. Sendo eu fã incondicional do cinema clássico, minha lista começa em 1945 e termina em 1962, data em que Scola, embora já fosse roteirista experiente, ainda nem pusera a mão numa câmera.

Contudo, venho sendo tentado a fazer uma segunda lista, que seja referente à segunda metade do século XX, e o que acontece? Nunca cheguei a fechá-la por causa de Scola: é que três filmes seus ficam brigando para se fazerem presentes.  Estes filmes são: “Um dia muito especial” (1977), “O baile” (1983) e “Splendor” (1989). Como penso que, numa lista dessas, não deveria haver repetições de diretores… desisto do projeto, ou, se for o caso, o adio.

À guisa de homenagem a um cineasta que nunca esqueceremos, relembro três imagens amadas em Scola, no caso, personagens, sem coincidência, dos três filmes citados acima.

y 1

A dona de casa Antonieta (Sophia Loren) que, deixada sozinha num feriado, descobre outra vida no pequeno apartamento de seu vizinho acanhado Gabriele (Marcelo Mastroiani), enquanto, lá fora, a Roma fascista de Mussolini recebe a visita de Hitler. (Una giornata particolare, 1977).

y 2

A moça míope e feia (Monica Scattini), que, em três décadas de um baile ininterrupto, ninguém tira para dançar, embora ela se insinue o quanto pode entre os dançantes, até quando estes são inimigos e do mesmo sexo (“Le bal”, 1983).

y 3

O projecionista Luigi (Massimo Troisi), cinéfilo viciado que, na casa da noiva, devia pôr o garotinho para dormir e, ao invés disso, o mantém acordado na marra, lhe contando o enredo adulto de “A montanha dos sete abutres”…

Se contarmos documentários e curtas, Ettore Scola rodou, ao todo, 41 filmes, o que não é muito, mas também não é pouco. Fecho esta matéria com uma relação, em ordem cronológica, de dez de seus filmes que não foram citados no corpo deste texto:

 

Fala-se de mulheres (1964)

O comissário Pepe (1969)

Ciúme à italiana (1970)

Nós que nos amávamos tanto (1974)

Feios, sujos e malvados (1975)

O terraço (1979)

Casanova e a revolução (1982)

A família (1986)

A viagem do Capitão Tornado (1990)

O jantar (1998)

 

Em tempo: esta matéria é dedicada à família Espínola.

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Que estranho chamar-se Federico

6 nov

Não veio ao circuito comercial local, mas, acabou de entrar na programação da TV paga o belo e comovente “Que estranho chamar-se Federico” (2013), filme-homenagem de Ettore Scola ao seu colega, amigo e compatriota Fellini.

O filme de um cineasta que amo sobre um cineasta que amo. Vocês não imaginam a ansiedade com que me preparei para ver, e a alegria com que o vi, a mesma com que escrevo.

Sem mais nem menos, “Que estranho chamar-se Federico” é o esperado, um filme com a sofisticação de Scola e a fantasia de Fellini, as duas coisas juntas e inconsúteis. Sim, porque o filme é sobre os dois, e não apenas um. De forma solta e imaginativa, sem se preocupar em ser documental, Scola faz questão de centrar-se na amizade e nos pontos de contato entre os dois, deixando o resto de lado.

1

Para tanto, inventa um narrador que, primeiro se insinua como voz, e depois de corpo inteiro. Não um narrador qualquer, mas um que tem todo aquele jeito de personagem felliniano, inclusive, o de intrometer-se no narrado. Uma vez encontra-se num café da época e a garçonete vem lhe trazer a conta, e ele retruca que “sou o narrador, e narrador não paga”, ao que a moça responde que sim, senhor.

O filme começa com o mestre Fellini em sua cadeira de diretor, de costas para nós, olhando a paisagem a sua frente, que deve ser o mar de sua Rimini natal. E aí, magicamente, uma luz de cenário se acende, e passam a desfilar diante dele, dançarinos, saltimbancos, palhaços, acrobatas, tudo como se num show circense.

A partir daí, mas sem obedecer a cronologias, vai-se narrando episódios na vida do cineasta. O primeiro deles, e talvez o mais demorado, é a sua entrada na revista romana de humor “Marc´Aurelio”, como chargista. Seus desenhos e suas charges são motivos de pequenas encenações e o espectador tem a chance de constatar o cineasta inventivo que esses rabiscos prometiam.

Jovens intelectuais na Roma dos anos 50

Jovens intelectuais na Roma dos anos 50

Seis anos depois, à mesma “Marc´Aurelio”, chega o jovem Ettore Scola, com o mesmo propósito, sendo aceito do mesmo modo. A essa altura Fellini já saíra do jornal e já fazia sucesso como cineasta premiado, mas isto não impede que os dois se encontrem e se tornem companheiros de trabalho e amigos. Até porque são muitos parecidos: como assegura o narrador, “ambos meio abstratos, sem jeito para atividades físicas, nunca chutaram uma bola, os dois apaixonados por desenho, pintura e cinema”.

E não podiam faltar os percalços. É o que se tem nos primeiros sketches de um Fellini ainda tateante, encenados no palco modesto de um teatro de revista: sem achar graça no humor dos textos, a platéia começa a jogar lixo no velho ator que performatiza o quadro. Claro, tudo muito felliniano!

Muitas das cenas em que os dois cineastas aparecem juntos soam como fictícias, sem que isso tenha propriamente importância. Para quem conhece a filmografia de Fellini, são, na verdade, cenas poeticamente necessárias, como aquela em que, numa noite qualquer, a dupla dá uma volta pelas ruas de Roma, e, na calçada das putas, oferece carona a uma delas, a qual, no banco de trás do carro, lhes relata quase toda a sua vida. Se se prestar atenção, nesse relato descontraído estão elementos que alimentariam muitos dos roteiros fellinianos, entre os quais o de “La strada”, ou de “Noites de Cabíria”.

Sempre o teatro de revista...

Sempre o teatro de revista…

Pontos comuns entre os dois também são pessoas. Marcelo Mastroiani, por exemplo. E o filme remonta a “A doce vida” para o qual o ator indicado pela produção era Paul Newman, e não o “tipo comum” (palavras de Fellini) Mastroiani, por sua vez, quase recusado, anos mais tarde, por Scola, para o seu “Casanova e a revolução”. Uma canja histórica são as verídicas ´auditions´ que Sordi e Gassman fizeram para ganhar o papel.

Uma das poucas cenas documentais é o funeral de Fellini que, encerraria o filme, não fossem os protestos dos produtores. E então, Scola dá um jeito de jogar em cena mais uma de suas licenças poéticas. Matreiro, Fellini dribla os dois enfeitados carabinieri que guardam o féretro, e às escondidas, escapole pelos becos da cidade, até chegar ao que queria, um carrossel onde vai se divertir feito menino. E com o movimento do carrossel vêm as imagens de seu mundo fantasioso, um caleidoscópio frenético com que dele nos despedimos a rever as cenas mais queridas de suas películas…

É claro que essa licença poética não foi exigência dos produtores. Com certeza, ela já estava no roteiro que o hoje idoso Scola bolou com a ajuda preciosa de suas duas filhas queridas, Paola e Silvia.

Em tempo: a frase que intitula o filme (no original: ´Che strano chiamarsi Federico´) é reprodução de um certo verso de um poeta espanhol que foi xará de Fellini: Federico Garcia Lorca.

O mestre Fellini.

O mestre Fellini.

Saudades do cinema italiano

9 jan

Li outro dia que o cineasta Ettore Scola teria afirmado à impressa estar se aposentando. Seu fã inconteste, lamentei, porém, confesso que, no  momento, me ocorreu que não é só Scola que se aposenta: o cinema italiano, salvo prova em contrário, está aposentado há algum tempo.

Eu sei que, aqui e acolá, fala-se de um novo filme italiano, dirigido por não sei quem, com não sei que elenco, que alguém viu não sei onde, mas, nada que, nem de longe, engrosse o caldo de uma cinematografia, no sentido de ´produção conjunta de um país´. Até porque não há caldo a engrossar.

Pois eu e os de minha geração temos razões especiais para perguntar o que aconteceu com o cinema italiano, e mais que isso, para lamentar o vazio de hoje em dia.

Na nossa juventude – quando avidamente aprendíamos o que era cinema – curtimos o cinema italiano da forma mais entusiasmada e intensa. Sim, nos saudosos anos sessenta, víamos por aqui, tantos filmes italianos quanto americanos, e, aliás, os italianos com mais gosto, já que, na época, a Hollywood dos grandes estúdios já era sinônimo de franca decadência, ao passo que o que nos chegava da Itália tinha cheiro de inovação e criatividade.

Cena de Rocco e seus irmãos

Cena de Rocco e seus irmãos

Aquela era a época das vanguardas (a nouvelle vague francesa, o free cinema inglês, o cinema novo brasileiro…) e a Itália estava na frente de todas, fazendo mais e melhores filmes, embora, intrigantemente, a grande movimentação cinematográfica ocorrendo então nesse país não tenha recebido um nome. Podia muito bem ter se chamado, digamos, ‘o novo cinema italiano´ ou coisa assim, mas, ninguém da imprensa ou do meio fílmico teve a idéia de jogar a expressão no ar e o movimento (sim, o movimento) ficou inominado mesmo.

É possível que para isso tenha contribuído o peso do passado, digo, o daquele movimento cinematográfico do pós-guerra que ficou marcado, para o mundo todo, como Neo-realismo Italiano. Parece que ninguém teve a coragem de admitir o que de fato estava acontecendo – que o cinema italiano dos anos sessenta estava suplantando o neo-realismo.

Era toda uma gama de grandes cineastas realizando, um atrás do outro, filmes ótimos, a que assistíamos encantados, às vezes chocados, ou perplexos. É verdade que muitos desses cineastas vinham diretamente do neo-realismo, como Fellini, Visconti, Antonioni, DeSica, porém, nem todos tinham esta origem, e outra coisa, mesmo os que tinham, como os citados, cometiam agora um cinema essencialmente diferente, novo, pessoal, original, que pouco ou nada mais tinha a ver com o conceito de neo-realismo.

Sei dizer que esse cinema italiano – que, na minha cabeça, delimito entre 1960 e 1969 – marcou uma época e criou um estilo como se fosse uma grife. Claro que, prolífero como era, foi diversificado e múltiplo, porém, ainda que indefinida, uma constante estilística prevaleceu e entrou no imaginário de toda uma geração, a minha. Se não isso, ao menos uma atmosfera.

Cena de Oito e meio

Cena de Oito e meio

Como já sugerido, dos diretores italianos que deram aos anos sessenta esse vigor e essa coloração nem todos foram inaugurais, nem pararam de fazer cinema uma vez a década finda. Acontece que o meu enfoque aqui não é a história do cinema italiano – meu enfoque é a década de sessenta e, sobretudo, sua caracterização como um movimento cinematográfico.

A respeito da diversidade das realizações nesta década e da inexistência de um programa, aproveito para lembrar que os outros movimentos cinematográficos da época (os já citados, Nouvelle Vague, Free Cinema e Cinema Novo Brasileiro) tampouco tiveram a unidade suposta e muito menos ainda, a definição de um programa.

Pois é, passando a um nível mais pessoal, ainda hoje me vejo, entusiasmado, acertando com os amigos para irmos à sessão das 16:30 do Cinema de Arte do Cine Municipal, aquele organizado pela ACCP (Associação de Críticos Cinematográficos da Paraíba). O filme podia ser Accatone” (Pasolini), ou “Kapo” (Pontecorvo) ou “O eclipse” (Antonioni)… Pouco importava – tratava-se de cinema italiano e, sendo assim, já era garantia de qualidade, com certeza motivo para os animados papos subseqüentes nas mesas do Luzeirinho ou de outro bar qualquer da cidade.

Recordo-me como era charmoso aprender a pronunciar os nomes de todos aqueles cineastas, quase todos terminando na desinência /ini/, ou pelo menos no sonoro /i/ que caracteriza a língua de Dante: Fellini, Zurlini, Pasolini, Comencini, Bolognini, Damiani, Antonioni, Visconti, Ferreri, Monicelli…

A própria língua italiana, com sua bela entonação cantada e suas sílabas fortes, passou a entrar no nosso vocabulário de cinéfilos e daí a pouco, nem precisávamos ler as legendas para saber o que era ´capiche´, ´bambini´, ´stanco´, ´paura´, ´ Che cosa far´…

Cena de Os companheiros

Cena de Os companheiros

De repente, os ídolos do cinema americano que reverenciávamos – os Gary Cooper e Liz Taylor da vida – começavam a abrir a rodinha do estrelado para lá caber os Marcelo Mastroiani, Vittorio Gassman, Claudia Cardinale, Monica Vitti de agora. Sem falar nos que já se confundiam com Hollywood, como Sophia Loren, Ana Magnani e Gina Lollobrigida…

Enfim, para não me estender mais, encerro com uma listinha pessoal de 20 filmes italianos que gostei de ter visto na época de suas estreias. São filmes de temáticas, gêneros e estilos variados que ilustram, ao mesmo tempo, a diversidade e a força do inominado – que aqui estou denominando – “movimento italiano de cinema dos anos sessenta”.

“Rocco e seus irmãos” (Luchino Visconti, 1960)

“A doce vida” (Federico Fellini, 1960)

 “O belo Antonio” (Mauro Bolognini, 1960)

“A moça com a valise” (Valerio Zurlini, 1961)

“Duas mulheres” (Vittorio DeSica, 1961)

“Dois destinos” (Zurlini, 1962)

“Os dias são numerados” (Elio Petri, 1962)

“A ilha dos amores proibidos” (Damiano Damiani, 1962)

“Oito e meio” (Fellini, 1963)

“Os companheiros” (Mario Monicelli, 1963)

“O leopardo” (Visconti, 1963)

“O leito conjugal” (Marco Ferreri, 1963)

“O evangelho segundo São Mateus” (Píer Paolo Pasolini, 1964)

“De punhos cerrados” (Marco Bellochio, 1965)

“O incrível exército de Brancaleone (Monicelli, 1965)

“A batalha de Argel” (Gilo Pontecorvo, 1965)

“Blow up” (Michelangelo Antonioni, 1967)

“A China está próxima” (Bellochio, 1967)

 “Queimada” (Pontecorvo, 1969)

“Teorema” (Pasolini, 1969)

Cena de Duas Mulheres

Cena de Duas Mulheres

O palhaço

3 out

Houve risos? Com que frequência e em que proporção? Lamento não ter assistido a “O palhaço” (Selton Mello, 2011) em um cinema da cidade e não ter podido constatar a reação do público local a uma comédia que, afinal, já teve três milhões de espectadores no país…

Eu que o vi em ambiente privado me indago sobre a sua recepção, pois o palhaço Pangaré – o protagonista de quem o filme trata – tem menos de engraçado e mais de triste. O que, aliás, por tabela também vale para o filme.

No palco ou no picadeiro do mambembe “Circo Esperança”, Pangaré comete as suas performances com a competência esperada, porém, fora daí, o pobrezinho vive ´sem graça´ (palavras suas), cada vez mais melancólico. E mesmo no palco, a sua ´graça´, que tanto diverte o respeitável público, sai – para ele, pelo menos – sem gosto.

Qual o problema com Pangaré (interpretação excelente de Selton Mello)? Com certeza não é só por que lhe falte um ventilador – o que lhe insufla ao pé do ouvido essa maldosa Lola (Giselle Motta), namorada desonesta do seu pai, o também palhaço Puro Sangue (Paulo José), seu companheiro de palhaçadas circenses.

É verdade que imagens de ventiladores vão perseguir Pangaré filme afora, mas, esse objeto eletrodoméstico parece coisa menos concreta, algum símbolo vago de uma insatisfação indefinida. A busca de novos ares? A rigor, Pangaré parece buscar algo mais íntimo, mais fundo, como, por exemplo, a sua identidade, e aqui a palavra tem, inevitavelmente dois sentidos: um concreto, o RG que o tornaria cidadão com endereço, e o outro, mais importante, abstrato, a essência mesma de sua personalidade.

Seja o que for, Pangaré não está satisfeito consigo mesmo e, por isso, lhe ocorre a ideia, ao mesmo tempo temerosa e tentadora, de afastar-se das lonas do “Esperança”  e – quem sabe? – virar um cidadão normal, com CPF e comprovante de residência…

Vertiginoso e rápido, o afastamento acontece somente para provar ao próprio Pangaré que sua vocação é ser clown mesmo, e a estória desse palhaço triste se fecha circularmente com ele, em pleno picadeiro, em desempenho epifânico, agora piscando o olho para uma moça da platéia, uma cortadora de cana que ele conheceu no caminho de sua queda, e que, nós, antes dele, conhecemos no primeiro fotograma do filme.

E o ventilador, afinal comprado, vai ter outro endereço… que não revelo a quem ainda não viu o filme.

O roteiro, como se vê, é simples, mas o filme todo é uma pequena obra prima de mise-en-scène, com tudo o que a expressão implica, inclusive o extremo capricho do cenário, da coreografia, da fotografia, da trilha sonora, da montagem, das interpretações, e tudo mais.

Lírico, requintado, ritmado, fluente, “O palhaço” é um filme “de personagem”, e o personagem é Pangaré. Mas não apenas Pangaré: também a trupe inteira do “Esperança”, junto com os habitantes das cidades visitadas, uma galeria de tipos originais onde realismo, caricatura e kitsch se misturam de modo perfeito. Para dar apenas dois exemplos: o “homem magro” que vive sonhando com cabras é uma figura impressionante, para assombrar a imaginação de qualquer frequentador de circo, ou de cinema, assim como, noutra escala, o é o casal formado pelo Prefeito e a esposa, com seu filho prodígio e seus poeminhas infames.

Embora possa lembrar certa tradição cômica do cinema brasileiro (Oscarito, Didi Mocó, etc) “O palhaço” possui um charme sofisticado que nos faz pensar em Chaplin, Tati, Fellini, e, sem dúvida, no Ettore Scola de “A viagem do capitão Tornado”. Sim, imaginário, feérico, fantasioso, não é somente um filme “de personagens” – é também, com muita propriedade, um filme “de atmosfera”.

Construído com empenho autoral, esmero, delicadeza, e sentido poético, o que se observa de fato é que, sem o deboche desbundado a que estamos acostumados nas nossas comédias nacionais, “O palhaço” não tem propriamente tradição no cinema brasileiro.

Disse acima que gostaria de ter testemunhado a reação das platéias a “O palhaço” numa sala de cinema. Uma coisa é certa: decididamente o filme de Selton Mello não foi feito para arrancar gargalhadas. Talvez um risinho no canto da boca, suave, complacente, tristonho… e encantado.

Não deixa de ser sintomático, e talvez instrutivo, o fato de que tenha sido o filme selecionado pela equipe do MEC para representar o Brasil na disputa ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013.

Suas chances de entrar na lista final não sei quais são, mas, já vale o prazer de, no cinema ou em casa, tê-lo apreciado.