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Cinquentões em 2015

9 jan

 

 

Neste 2015 que começa, quais são os filmes que estarão completando cinquenta anos? Aqui proponho uma mexida no baú do passado, aquele baú em cuja fechadura está gravado o número 1965.

Acho que de chofre todo mundo vai lembrar-se de “A noviça rebelde” (“The sound of music”, Robert Wise), “Dr Jivago” (David Lean) e “A maior história de todos os tempos” (“The greatest story ever told”, George Stevens), os três maiores sucessos de bilheteria de 1965, mas, claro, a lista é grande e pede uma triagem.

Omar Sharif e Julie Christie em "Dr Jivago".

Omar Sharif e Julie Christie em “Dr Jivago”.

Sugiro que comecemos com as cinematografias menores, e a primeira pode ser a brasileira. Em 1965, auge do chamado Cinema Novo, pelo menos quatro filmes não podem deixar de ser mencionados: “A grande cidade” de Carlos Diegues, “A hora e a vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos, “Menino de engenho” de Walter Lima Jr, e “São Paulo S/A”, de Luiz Sérgio Person.

No Japão, o grande Akira Kurosawa lançou o seu drama hospitalar “O barba ruiva”, filme de tom existencial, baseado no escritor Shugoro Yamamoto, com o seu ator predileto Toshiro Mifune.

Na Índia é a vez do não menos grande Satyajit Ray mostrar ao mundo ocidental o comovente drama conjugal “A esposa solitária”, título, aliás, bem sintomático para todas as estórias (no viés de “Desencanto” ou “Casablanca”) sobre mulheres apaixonadas fora do casamento.

Música nas montanhas em "A noviça rebelde".

Música nas montanhas em “A noviça rebelde”.

Já no México, e quase solitariamente, o sempre perturbador Luis Buñuel lança a sua fantasia pseudo-religiosa “Simão do deserto”.

Com o que passamos à Europa. Na Checoslováquia, um país até então sem grande destaque cinematográfico, um certo boom ocorria na época e um dos seus mais ativos cineastas era um jovem ainda pouco conhecido no mundo, chamado Milos Forman, que em 1965, produziu o interessante “Os amores de uma loura”.

Na França ainda se estava em plena Nouvelle Vague, embora o ano de 1965 não tenha sido particularmente significativo. É verdade que Jean-Luc Godard lançou, neste ano, dois petardos bem típicos de sua proposta cinemática, “O demônio das onze horas” e “Alphaville”, mas, foi só. A não ser que se queira citar a comédia aventuresca de Louis Malle “Viva Maria”, com as musas Bardot e Moreau.

"Thunderball" - James Bond e suas mulheres.

“Thunderball” – James Bond e suas mulheres.

A Itália era outra cinematografia em ebulição, que, no ano em questão, estranhamente também não foi lá muito expressiva. Dignos de nota são apenas: o drama social “De punhos cerrados” de Mario Bellocchio, o esteticamente indeciso “Vagas estrelas da Ursa” de Lucchino Visconti, e o fraco “Julieta dos espíritos” de Federico Fellini. Por outro lado, na terra das massas finas começava a dar os primeiros passos um novo gênero, o faroeste spaghetti de Sérgio Leone, e o seu representante do ano foi “Por uns dólares a mais”.

Quem balançou o coreto no ano foi certamente a Inglaterra, com produções próprias, engrossadas por co-produções interessantes. Considerados expressões do movimento Free Cinema foram os filmes “Darling a que amou demais”, de John Schlessinger, “O ente querido” de Tony Richardson, “Help” e “A bossa da conquista”, estes dois últimos do criativo e inovador Richard Lester. Isso era o lado cult da ilha, mas também houve o comercial, com uma das maiores bilheterias do ano: “007 contra a chantagem atômica”, de Terence Young. Somem-se a isso as muitas co-produções, principalmente com os Estados Unidos, por exemplo: “O espião que saiu do frio” (Martin Ritt), “Bunny Lake desapareceu” (Otto Preminger), “Lord Jim” (Richard Brooks) e “Repulsa ao sexo” (Roman Polanski).

"Pierrot le fou - Belmondo e Ana Karina.

“Pierrot le fou” – Belmondo e Ana Karina.

Em processo de transformação, Hollywood hesitava entre superproduções (as citadas na abertura desta matéria) e filmes menores, dirigidos a públicos específicos. Podiam ser filmes históricos, como “O senhor da guerra (Franklin Schaffner) e “Agonia e êxtase” (Carol Reed); ou dramas existenciais como “A nau dos insensatos” (Stanley Kramer); ou suspenses tipo noir, como “Eu vi que foi você” (William Castle) e “O colecionador” (William Wyler); ou policiais mais convencionais como “O gênio do mal” (Robert Mulligan); ou dramas raciais como “Quando só o coração vê” (Guy Green), ou filmes de guerra, como “A colina dos homens perdidos” (Sidney Lument), ou então comédias faroeste como “Dívida de sangue” (“Cat Ballou” de Elliot Silverstein)…

Um óbvio sintoma de que a velha Hollywood clássica estava cansada de guerra vinha numa estória de amor com grande elenco (Elizabeth Taylor, Richard Burton, Eva Marie Saint e Charles Bronson) e bela música, dirigida por um dos grandes do passado, ninguém menos que Vincente Minnelli, mas que não conquistava mais ninguém, nem críticos nem público. Refiro-me melancolicamente a “Adeus às ilusões” (“The sandpiper”), localmente exibido no nosso saudoso Plaza, a que assisti junto com alguns poucos espectadores tão melancólicos quanto eu mesmo.

E, assumido o risco das omissões, fecho o baú.

Liz Taylor e Richard Burton em "Adeus às ilusões".

Liz Taylor e Richard Burton em “Adeus às ilusões”.

 

 

 

 

 

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Alô, quem fala?

23 jan

Na maior parte dos casos, o aparelho telefônico aparece, no cinema, como um mero elemento da diegese, igual a outro qualquer – uma cadeira, uma janela, um carro – e, em princípio, não haveria razão para lhe dar destaque.

Acontece, porém, que certos filmes o destacam como um fator importante da trama. Justamente por se tratar de um canal comunicante, muito pode se investir na sua função semiótica e, se bem usado, seu rendimento pode vir a ser particularmente dramático, ou cômico, ou trágico, ou patético, ou poético, além de propiciar, aos atores, performances especiais.

É neste sentido que pergunto ao leitor: nos filmes que lembra, que cenas de telefone foram marcantes para a sua experiência pessoal com o cinema?

Desconfio que meio mundo de cinéfilos vai citar aquele telefone fora do gancho, pendurado e balançando no ar, do qual sai uma voz masculina histérica querendo confirmar se a capital francesa havia sido incendiada. Vocês lembram muito bem: era o final da Segunda Guerra Mundial, a sala ficava num edifício da Paris tomada pelos nazistas, a voz era de Hitler, e o filme – do francês René Clément – se chamava justamente: “Paris está em chamas?” (“Paris, brûle-t-il?”, 1966).

Cena de The Cameraman, 1928

Cena de The Cameraman, 1928

Pois é, a pergunta que fiz ao leitor, também fiz a mim mesmo, e aqui passo a mencionar, em ordem cronológica e com comentários, algumas das ´cenas de telefone´ que, por razões diversas e de modos e graus diversos, me emocionaram.

Começo com um Buster Keaton de 1928. Em “The Cameraman”, mero fotógrafo de rua, ele finge ser um grande repórter, para poder conquistar a sua musa, que era atriz de cinema. No dia em que a moça liga para a modesta pensão onde reside, o que faz ele? Ao ouvir as primeiras palavras no telefone, seu entusiasmo é tal que deixa o fio do aparelho pendurado e já sai correndo feito um louco cidade a fora; enquanto a moça fala para ninguém, ele, em velocidade estúpida, corta ruas e mais ruas da cidade, até, completamente sem fôlego, chegar à residência de sua musa, no momento exato em que esta, só agora notando que falara para o vazio, desliga; espantada, a moça o vê a sua frente, sem entender o que acontecera. Acontecera o amor, mais veloz que uma ligação telefônica, mas só mais tarde ela entenderá isso.

A minha segunda cena é dos anos trinta e está em “Ziegfield, o criador de estrelas” (Robert Z. Leonard, 1936), sobre o grande profissional do show business do título e suas aventuras teatrais e amorosas. Quase final e altamente dramática, a cena é feita pela atriz Louise Rainer, no papel sofrido da ex-esposa de Ziegfield. A extensão e densidade da cena (ao ex-marido, ela fala durante um longo e dolorido tempo, sem que se veja o outro lado da linha) deram à atriz o Oscar do ano.

O terceiro caso está em “Silêncio nas trevas” (“The spiral staircase, 1945, de Robert Siodmak) onde a jovem mudinha Dorothy McGuire está ameaçada de morte por um serial killer cujas presas preferidas são, justamente, mulheres com algum tipo de deficiência física. Várias haviam sido assassinadas e pistas sugerem que Dorothy, que reside nessa sombria mansão com a escada em espiral do título original, será a próxima vítima. No momento do ataque, o telefone se torna a única possibilidade de salvação e, com o aparelho à mão, a muda precisa… falar. Tome suspense.

Morta por um fio de telefone: Curva do Destino

Morta por um fio de telefone: Curva do Destino

O telefone foi muito funcional nos filmes noir, mas, será que houve algum em que ele constituísse a própria arma do crime? Por incrível que pareça, sim. Em “Curva do destino” (“Detour, 1945, Edgar G Ulmer) o protagonista e narrador da estória (Tom Neal) involuntariamente estrangula uma moça com o fio do telefone. Como? Estavam os dois discutindo, ela ameaçando chamar a polícia, e ele, que tinha culpa no cartório, tentando impedir. Num momento em que ele se distrai, ela agarra o aparelho telefônico, corre para o compartimento vizinho e se tranca, ficando o fio por debaixo da porta. Desesperado, ele puxa esse fio com toda a sua força e… sem querer nem saber, a mata, pois, o fio ficara enrolado no pescoço da moça.

Cena impactante também está em “A dama do lago” (“Lady in the lake”, 1947), adaptação que Robert Montgomery fez do romance de Raymond Chandler e filme curioso por ter sido todo rodado em câmera subjetiva. Acidentado na estrada, o protagonista Phillip Marlowe se arrasta, com extrema dificuldade, até a cabine telefônica mais próxima, põe uma moeda e, para a telefonista, balbucia o número que deseja. Uma voz feminina atende e ele, sempre ofegante, diz onde está e pede ajuda, em seguida, sem mais força, desabando no chão, ficando o fone pendurado, do qual se ouve uns gritos de “alô, alô, alô…” O detalhe é que, como em todo o filme, o espectador não vê o rosto, nem o corpo de Marlowe, somente o que ele vê: sua própria mão e o aparelho telefônico.

O próximo exemplo, também um noir, já traz referência ao telefone no título, tanto o original (“Sorry, wrong number” / ´Desculpe, número errado´), como o brasileiro (“Uma vida por um fio”). Dirigido por Anatole Litvak em 1948, o filme conta a estória dessa esposa inválida (a insuperável Barbara Stanwyck) que, ao tentar uma ligação telefônica, cai numa linha cruzada em que dois homens acertam o planejamento de um crime. Já seria grave se a vítima fosse outrem, mas, pior que isso, a vítima é ela mesma, e o mandante, quem? Sim, o marido, Burt Lancaster.

Três ao fone em Assim estava escrito

Três ao fone em Assim estava escrito

Depois disso me ocorre aquela cena final em “Assim estava escrito” (“The bad and the beautiful”, 1952, de Vincente Minnelli) em que uma atriz, um diretor e um roteirista são convidados, por telefone, para voltar a trabalhar, os três juntos, com um certo produtor maquiavélico (Kirk Douglas), de quem já haviam sido vítimas, os três, cada um em seu turno. Reagem os três negativamente, e, no entanto, no momento mesmo em que a voz do Maquiavel formula o convite, os três, juntos, aproximam o ouvido do telefone, como se fosse impossível resistir ao fascínio do Mal. Genial.

Outro filme que tem referência a telefone já no título é o hitchcockiano “Disque M para matar” (“Dial M for murder”, 1954). Vocês lembram: o marido (Ray Milland) contrata assassino para dar fim à esposa (Grace Kelly) em seu apartamento, e a deixa para o ataque é o momento em que o telefone tocar e ela, sozinha em casa à noite, se levantar para atender. Ele mesmo, o marido, fará a discagem, o que lhe servirá de álibi. Na ocasião, porém, a coisa se reverte: com uma tesoura doméstica, a vítima mata o agressor, e o marido é, a partir daí, obrigado a apelar para um plano B.

Grace Kelly discando M para...

Um telefonema para Grace Kelly : Disque M para matar

O meu próximo exemplo é uma comédia romântica que Michael Gordon dirigiu em 1959, “Confidências à meia noite” (“Pillow talk”) e que conta o caso engraçado de como uma linha telefônica comum pode trazer transtornos para duas pessoas, principalmente se se trata de adversários que se detestam, e ainda mais, de sexos opostos, no caso Rock Hudson e Doris Day. Foi “Confidências” que deu início à série de filmes com esta dupla no elenco, mas, sem dúvida, é o melhor de todos.

Obviamente numa lista destas tinha que haver um filme em que a protagonista tivesse a profissão de telefonista, caso da Judy Holliday em “Essa loura vale um milhão” (“The Bells are ringing”, 1960, Minnelli), comédia semi-musical em que a nossa telefonista se apaixona por uma certa voz masculina, e parte do roteiro vai ser sobre como voz e corpo se unirão num mesmo ser.

Eu vi que foi você: o trote fatal

Eu vi que foi você: o trote fatal

Um elemento do universo do telefone é o trote, que está no suspense-terror de William Castle “Eu vi que foi você” (“I saw what you did”, 1965). Nele, duas adolescentes desocupadas se divertem ligando para desconhecidos, pronunciando a frase do título. Dão boas risadas das reações dos interlocutores, até o dia em que o cara no outro lado da linha (John Ireland) era mesmo assassino e passa a procurá-las.

Já em “Sonhos de um sedutor” (“Play it again, Sam”, 1972, Herbert Ross), quase ubíquo, o telefone aparece de modo esquisito. O desajeitado Woody Allen começa um romance com a mulher (Diane Keaton) de seu melhor amigo. O casal adúltero tem mil afinidades, enquanto o marido traído é pintado com atitudes estapafúrdias – uma delas é viver, o tempo inteiro, tratando de negócios e, como o celular ainda não havia sido inventado, a todo lugar que vai, ele faz inúmeras ligações, seja de telefone caseiro ou público, sempre deixando os números para contato, os do momento e os próximos – isto durante o filme todo. Um saco.

Cena de Por um fio: tudo numa cabine telefônica

Cena de Por um fio: tudo numa cabine telefônica

O filme mais diretamente ligado ao assunto se chama mesmo “O telefone” (“Telefon”, 1977, de Don Siegel), e é um drama ´guerra fria´ em que um espião russo (Charles Bronson) está encarregado de brecar plano de compatriota que, por telefone, hipnotiza pessoas comuns e as induz a sabotagem nos Estados Unidos. A frase hipnotizante é um belo verso de um poema de Robert Frost: “I have promisses to keep / And miles to go before I sleep” (´Tenho promessas a cumprir e milhas a percorrer antes de adormecer´).

Mas, com certeza, uma das cenas mais curiosas, envolvendo telefone, está em “Era uma vez na América” (“Once upon a time in America”, 1986, de Sergio Leone), até porque não se vê o aparelho, ninguém atende, e ele toca, toca, toca… e seu som transcende a cena de modo completamente anti-diegético. Da sala de ópio onde a chamada começa, passa-se a outros locais sem que o telefone pare de tocar, e claro esse soar ininterrupto é um símbolo sem o qual o filme não pode ser interpretado – provavelmente um indicador da consciência pesada do protagonista Robert DeNiro, que havia traído os amigos e…

Encerro a minha lista com “Por um fio” (“Phone booth”, 2002, Joel Schumacher), filme de extremo suspense onde, ao entrar numa cabine telefônica e tirar o fone do gancho, um cidadão comum (Colin Farrell) vai ser alvo da arma de um franco atirador que, de uma janela de edifício à distância, o obriga a ali permanecer por um tempo que vai coincidir com o do filme inteiro. O roteiro é de Larry Cohen, mas, com certeza, nasceu de uma tirada de Hitchcock: em sua famosa entrevista a Truffaut nos anos sessenta, disse o mestre do suspense exatamente isto: “eu adoraria fazer um filme que se passasse inteiramente dentro de uma cabine telefônica”.

No cinema, como na vida real, nem sempre a articulação das palavras “Alô” ou “Quem fala?” implica grandes estórias. Os casos citados – algumas cenas, como visto, sem palavra nenhuma pronunciada! – são bons exemplos de como um roteirista criativo, um fotógrafo competente, atores talentosos e um diretor visionário podem dar dimensão maior a um mero e prosaico telefone.

Enfim, deixo ao leitor a oportunidade de completar a lista com seus filmes preferidos.

Doris Day e Rock Hudson em Pillow Talk: Confidências à meia noite

Doris Day e Rock Hudson em Pillow Talk: Confidências à meia noite