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Tatuagem

4 fev

Nos anos setenta, um soldado do exército conhece, se envolve e é conquistado por uma turma de gente libertina e marginal que, com muito sexo, escândalo e música, contesta o status quo.

Não já vimos esse filme? Não se chama “Hair”?

Pois é, não sei até que ponto a equipe de “Tatuagem” (Hilton Lacerda, 2013) está consciente disso, mas, o filme pernambucano, que estreou esta semana em João Pessoa, tem um argumento semelhante.

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Por outro lado, o filme de Lacerda, que levou três prêmios em Gramado – inclusive o de melhor filme – talvez não precise de comparações. Conta a vida difícil da troupe ´Chão de Estrelas´ que, nos arredores de Recife, encena seus espetáculos debochados para uma platéia sempre fiel e incrivelmente participativa.

Clécio, o cabeça do grupo (Irandhir Santos), é descasado, com filho adolescente e, como quase todos na troupe, é gay. Sua vida toma novo alento ao ser apresentado a esse soldado raso, Fininha (Jesuíta Barbosa), cunhado de seu colega Paulete. É amor à primeira vista, e, depois de pouco papo, os dois já estão dançando, se beijando e fazendo amor, uma transa tórrida, da qual se permite que o espectador veja tudo.

Um ator gay e um soldado do exército brasileiro no tempo da ditadura, os dois apaixonados? É possível imaginar como as coisas vão se complicar, e mesmo, como as complicações serão previsíveis.

Não conto o resto da estória, mas devo dizer que as performances no ´Chão de Estrelas´ vão ficando cada vez mais ousadas, sexualmente e, por tabela, politicamente. O grande show sobre ´a democracia do ânus´ (a palavra usada, naturalmente, é a outra, aquela que começa com /c/ e termina com /u/) é o ápice do deboche, que leva a polícia a proibir o espetáculo, e, na ocasião de uma apresentação teimosa, fechar o recinto.

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Enquanto isso, para provar o seu amor – questionado pelo companheiro, em vista de seus compromissos militares – Fininha fizera uma tatuagem no peito com a letra “C” (de Clécio) e não só isso, passou a integrar o quadro de atores da troupe, dançando, como todos, despido e mostrando o – digamos – elemento democrático ao público.

Num filme onde o deboche é chave, tinha que haver um certo nível de caricaturização, tanto dos personagens como dos ambientes. Notem como a casa de Fininha é maldosamente brega e chapada, isto na proporção direta em que o Cabaré é desbundado e feérico. Um tom dissonante nessa dicotomia é mesmo a figura de Fininha (excelente desempenho do jovem Jesuíta Barbosa), que, sem ter o deboche da troupe, não se enquadra em casa, e muito menos no terceiro cenário do filme, o quartel.

As cenas finais não são tão drásticas quanto a de “Hair”, mas, são igualmente desiludidas: sem perspectivas profissionais, Clécio cuida da família, enquanto tem notícia de que, Fininha, agora em São Paulo, não consegue arranjar emprego… por causa da tatuagem no peito.

Como dá para perceber, o roteiro é simples e pode ser resumido na fórmula tradicional ´X conhece Y´, porém, o interessante em “Tatuagem” é, além da construção dos personagens, a criação e manutenção da atmosfera, grande parte da qual advém do palco, o que concede ao filme um jeito indisfarçado de musical. Com efeito, sem os seguidos shows dos dançarinos e cantores, “Tatuagem” seria um curta… e, suponho, de menor qualidade.

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Resta lembrar que “Tatuagem” não saiu do nada; é – digamos assim – “um filme de contexto”, e o contexto é o efervescente atual cinema Pernambuco, do qual Hilton Lacerda vem sendo um partícipe fundamental, até então na condição de roteirista. Produções significativas como “Baile Perfumado”, “Amarelo manga”, Árido movie”, “Baixio da bestas”, “A festa da menina morta” e “A febre do rato” foram roteirizadas por ele e, inevitavelmente, trazem seus traços.

Só para ilustrar, um exemplo pode ser dado com um certo lance brincalhão de pregação ideológica, que vem claramente de “A febre do rato”, filme sobre um ideólogo epifânico, conscientizando o povo nas ruas de Recife através de um jornaleco e de seus discursos poético-filosóficos. Em “Tatuagem”, o correspondente é aquele personagem que, no início da estória, fazia apenas parte da platéia do cabaré, mas que é depois chamado ao palco para suas recitações e que, no desenlace, se revela – a nós e à imprensa – o cineasta que vai fazer o filme metalinguístico sobre tudo o que aconteceu até agora…

A respeito das cenas de sexo explícito, não nos escandalizemos: em salas vizinhas, elas também estão acontecendo, no dinamarquês “Ninfomaníaca” e no americano “O lobo de Wall Street”.

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Na Suécia nem tudo é Bergman

1 ago

No território do cinema, às vezes acontece de as pessoas limitarem uma cinematografia inteira ao nome de um único cineasta. Principalmente no caso de países de produção menor.

Acontece, por exemplo, com o Japão, que a maioria das pessoas identifica a Akira Kurosawa e a mais ninguém. Sempre constato isso em conversas com pessoas que gostam de cinema – quando falo em Yasujiro Ozu e Kenzo Mizogushi é muito comum que os meus interlocutores não saibam de quem estou falando. E, no entanto, são cineastas tão grandes quanto Kurosawa.

Mas, de longe, o caso mais típico é o da Suécia. Para todo mundo, ninguém faz ou fez cinema nesse país escandinavo, salvo o genial Ingmar Bergman. Claro que Bergman é o maior cineasta de seu país, porém, há outros.

Pois hoje trato de um outro cineasta sueco, que não Bergman. Refiro-me a Bo Widerberg de quem me ocorreu, há pouco, ver um filme clássico dos anos sessenta. E não precisa ver muito de Widerberg para constatar sua qualidade, em tudo próxima a de seu compatriota afamado.

elvira poster

Eu ouvira falar de “Elvira Madigan”, mas não o conhecia. Baseado em um caso verídico, acontecido no século XIX, o filme conta a estória de Elvira (Pia Deggermark) uma jovem acrobata de circo que se apaixona por Sixten Sparre (Thommy Gerggren), um jovem tenente da cavalaria sueca, casado e com dois filhos pequenos. Os dois fogem, e vão viver sua grande estória de amor nas paisagens deslumbrantes da Dinamarca, mas, em que pese à beleza do cenário escolhido, não demora para o idílio ir tomando cores sombrias.

O casal simplesmente não tem como se manter financeiramente, já que, sendo ele desertor, não pode conseguir emprego algum, nem ela, procurada pela família e pelos donos do circo. Passam a levar uma vida de marginais, comendo, esfomeados, as frutinhas do campo. Enfim, chegam a um impasse e quando entendem isso optam pelo suicídio. Com dinheiro ganho de uma queda de braço, fazem uma refeição final sobre a relva, de vinho, pão e queijo, depois da qual, conforme combinado entre os dois, ele usa a sua arma de militar, primeiro nela, depois em si mesmo.

Pia Deggermark como Elvira

Pia Deggermark como Elvira

Rodado nas florestas da Dinarmarca em 1967, “Elvira Madigan” parece um filme de hoje, com sua montagem elíptica, suas falas ambíguas e suas interpretações contidas. Um detalhe é que, embora um filme sobre paixões avassaladoras, rodado numa data em que a ousadia no terreno erótico já era permitida, não contém uma só cena de sexo gráfico, nem precisa disso. A cena em que ele interrompe o barbear para beijá-la, e, os dois, sujos de espuma, rolam sobre a relva nos parece hoje inocente.

Um momento antológico é aquele em que, saudosa de sua profissão e aplausos, Elvira, sozinha, rouba da pensão vizinha, as cordas do varal e vai se equilibrar entre as árvores da floresta, sua imagem pairante sobre a paisagem lembrando um anjo a levitar, naturalmente, um anjo que escolheu outro céu.

Thommy Grerggren no papel de Sixten Sparre

Thommy Grerggren no papel de Sixten Sparre

Um dado interessante na construção da narrativa é como esta começa em “media res” (Cf Aristóteles), ou seja, o tempo passado não nos é dado – nem o militar de Sixten, nem o circense de Elvira – sequer em flashback: dessa fase anterior da vida dos personagens só ouvimos falar no diálogo, em trechos nem sempre muito claros. Ou quando o casal recebe a visita de um amigo de Sixten e o assunto da vida de casado deste vem à tona, gerando, aliás, a quase única crise numa paixão incondicional. A outra crise é quando Elvira procura emprego de dançarina e é confundida com prostituta.

A respeito do tempo: num país frio como a Dinamarca, não ocorrem chuvas ou neve – e por quê? Simplesmente porque a duração do caso amoroso, interrompido pela morte, é, diegeticamente falando, um verão. E, óbvio, esse dado ganha significação simbólica na temática, como a sugerir a luminosa efemeridade do amor.

A fotografia "impressionista" do filme

A fotografia “impressionista” do filme

Lembrando pintura impressionista, a fotografia das paisagens dinamarquesas é uma obra de arte à parte, porém, mais que isso, depois de finda projeção, a gente fica lembrando o filme – se já não fosse pela qualidade artística – pela trilha sonora, o supremo concerto para piano número 21 de Mozart, tão bem usado no filme para sugerir os enlevos do casal, que a gravadora alemã, ao reeditá-lo em disco, chamou-o de “concerto de Elvira” e o nome pegou até hoje.

Aliás, leio que para os muitos fãs do filme, ele vem a se enquadrar naquela categoria que os anglófonos chamam de “date movie”, traduzindo com explicação: ´filme apropriado para ser visto por quem está começando namoro´.

Não sei se é.

Enfim, “Elvira Madigan”, filme sueco disponível em DVD – recomendo.

O casal de fugitivos lendo sobre o seu desaparecimento, no jornal

O casal de fugitivos lendo sobre o seu desaparecimento, no jornal