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Sete dias com Truffaut

21 out

De 20 a 26 deste mês de outubro, a cinefilia de João Pessoa está em festa, com a exibição, nos cinemas do Shopping Manaíra, do Festival François Truffaut.

São sete filmes, um por dia, recobrindo a carreira desse genial cineasta francês, um dos pais da Nouvelle Vague, aquele movimento cinematográfico que abalou o mundo cultural e artístico nos anos sessenta.

Seguindo a cronologia dos lançamentos, a exibição começa com o inaugural “Os incompreendidos” (1959), findando com o “O último metrô” (1980). No meio ficam: “Jules et Jim” (1961); “Beijos roubados” (1968); “A noiva estava de preto” (1968); “Domicílio conjugal” (1970), e “Amor em fuga” (1979).

François Truffaut, um dos fundadores da Nouvelle Vague.

François Truffaut, mentor da Nouvelle Vague.

De minha parte, lamentei a não inclusão de um dos melhores filmes de Truffaut, “A noite americana”, e a inclusão de um dos piores: “A noiva estava de preto”. Mas, como diz o clichê, nada é perfeito. Ao menos a mostra começa com duas obras primas: os dois primeiros filmes.

Aproveito a ocasião para relembrar a trajetória fílmica de Truffaut. A sua história é bem conhecida dos cinéfilos: salvo da marginalidade pelo crítico André Bazin, final dos anos quarenta, o jovem cinéfilo Truffaut é introduzido aos bastidores da Revista Cahiers du Cinéma, para a qual passa a escrever artigos cada vez mais agressivos contra o cinema dito “de qualidade” de seu país. René Clair, René Clément, Marc Allegrét, Marcel Carné, Claude Autant-Lara… quase ninguém escapa de suas garras afiadas, todos acusados de cometer um cinema artificial, fundado em regras de estúdio e numa dramaturgia congelada e falsa.

Nessas críticas violentas, partilhadas por outros jovens críticos como Jean-Luc Godard e Claude Chabrol, ia embutida uma proposta de cinema inovadora, que seria chamada, mais tarde, de “cinema de autor”. Segundo esses jovens críticos, o cineasta devia ignorar regras de estúdio e usar a câmera como o poeta usa sua caneta. Era o que estava dito num texto, também publicado nos Cahiers du cinéma, do teórico Alexandre Astruc. Isto seria possível? Possível ou não, é essa ideia de “caméra-stylo” (´câmera-caneta´) o que gera, em 1954, um ensaio fundamental de François Truffaut, “Uma certa tendência do cinema francês”, ensaio este que funcionou como o verdadeiro manifesto da Nouvelle Vague.

"Os incompreendidos" (1959), inaugura a Nouvelle Vague.

“Os incompreendidos” (1959), inaugura a Nouvelle Vague.

No final dos anos cinquenta, esse “cinema de autor” começa a desabrochar em forma de filme, primeiro curtas, depois longas. O primeiro dos longas é o belo e amado “Os incompreendidos”, onde Traffaut ficcionaliza a sua vida privada. O filme ganha o Festival de Cannes e, desde então, Trauffaut não para mais de filmar. O engraçado é que, se suas críticas contra o cinema francês eram agressivas, o cinema que ele passa a cometer não o é de forma alguma. Ao contrário, com Truffaut vai se ter um cinema doce, suave, humanista, dramático às vezes, mas sempre terno e poético.

Outra coisa interessante, comum a Truffaut e aos outros nouvellevaguistas, foi o amor ao cinema americano. Enquanto a maior parte dos cineastas franceses não valia nada para eles, Otto Preminger, Howard Hawks, William Wyler, Billy Wilder, George Stevens, Alfred Hitchcock lhes pareciam gênios que driblavam as regras de Hollywood para produzir grandes filmes, exaustivamente analisados nas páginas dos Cahiers du cinéma.

Cena em "Jules et Jim" (1961).

Cena em “Jules et Jim” (1961).

Não só aos grandes, Truffaut também era ligado aos pequenos e obscuros diretores hollywoodianos de filmes B, de quem recebeu admitida influência. Um caso que ilustra bem isso está no filme que será exibido hoje (sexta, 21), “Jules et Jim”, considerado pela crítica sua realização mais perfeita. Truffaut havido lido o livro homônimo de Henri-Pierre Roché em meados dos anos 50, e, mesmo deslumbrado com a escrita e a temática, julgou que essa estória de amor a três fosse “infilmável”. Até o dia em que entra num cinema de Paris, para ver a reprise de um faroeste de um de seus obscuros diretores B.

O diretor era Edgar G. Ulmer, e o filme, “Madrugada da traição” (“Naked dawn”, 1955), contava, com certa ambiguidade sexual, o caso de um estranho triângulo amoroso, nas brenhas do México, entre um bandido e um casal de agricultores. Rodado precariamente em 10 dias, com resultado visivelmente pífio, foi o único filme em cores de Ulmer e o único papel principal de Arthur Kennedy. Pois em entrevista à crítica Anne Gillain (Cf. o livro “O cinema segundo François Truffaut”, Nova Fronteira, 1990), Truffaut conta que saiu do cinema convencido pelo filme de Ulmer de que o livro de Roché poderia ser filmado. E, logo que pôde, filmou. Irônico que um filme tão fraco tenha motivado um tão forte.

Enfim, resta aos cinéfilos pessoenses aproveitar a chance rara de ver – acho que rever é mais o caso – o cinema sui generis de François Truffaut, que, se não foi o maior cineasta do mundo, foi, com certeza, o mais cinéfilo de todos.

Em tempo: esta matéria é, com afeto, dedicada a Carlos Aranha.

"Jules et Jim": em um fotograma emblemático...

“Jules et Jim”: em um fotograma emblemático…

Esquinas de Jaguaribe

29 nov

Tinha doze anos de idade e já trabalhava. Seus pais possuíam uma pequena padaria, na verdade, uma “gangorra”, como se chamava padaria de pobre, e a ele cabia entregar o pão em mercearias e em algumas residências do bairro.

Bem cedo da manhã, quase madrugada, o pão tinha que ser entregue, e isto, em sacolas de pano branco, o amontoado de sacolas pendurado em torno de seu corpo franzino lhe dando um jeitão ridículo de Papai Noel, apelido que lhe jogavam os meninos do bairro.

Esse cansativo ofício matinal tinha, naturalmente, uma compensação: a mesada semanal, que lhe garantia o acesso aos três – sim, três! – cinemas do bairro: o Sto Antônio, o São José e o Cine Jaguaribe.

Uma das esquinas de Jaguaribe: O Cine Sto Antônio.

Uma das esquinas de Jaguaribe: O Cine Sto Antônio.

Situado na Av Primeiro de Maio, número 146, esquina com a Vasco da Gama, o Sto Antônio, era vizinho ao Grupo Escolar onde estudava e todo dia podia ver a programação da semana e fazer seus planos. Um pouco mais longe, o São José ficava na Rua Senador João Lira, número 697, esquina com a Floriano Peixoto, e o Cine Jaguaribe, s/n, por sua vez, estava na Capitão José Pessoa, esquina com a Aderbal Piragibe.

Três esquinas, três cinemas… Para tantos filmes a ver, a sua mesada não bastava, mas assistia ao que podia, e também, ao que a censura permitia.

Seu pai não aprovava de bom grado esse vício de cinema, mas, por outro lado, não punha objeções, talvez pelo fato de ele ser aplicado na escola e tirar boas notas. Logo que percebeu isso, ele mais se aplicou, não porque gostasse de estudar, mas para consolidar o seu direito de ir a cinema quando quisesse. Sua mãe era neutra, e seus irmãos – também eventuais frequentadores – eram coniventes, de modo que não encontrava impedimentos de circular em torno daquelas três esquinas cinematográficas, a não ser na eventual falta dos 500 ou 800 réis que pagavam o ingresso.

A igreja do Rosário, vizinha ao Grupo e o ao cinema.

A igreja do Rosário, vizinha ao Grupo e o ao cinema.

Uma sessão imperdível no Cine Sto Antônio era a matinal de domingo, sempre às nove e trinta, horário conveniente, pois a missa da Igreja do Rosário, obrigatória para os alunos do Grupo, era nesse dia, mas, às sete, terminando cerca das oito: depois do “amém”, era só correr para casa, tomar café com o pão quentinho de fabricação própria, e se mandar para o Sto Antônio, a ver o que estivesse em exibição: algum faroeste, um Tarzan qualquer, filmes de aventura, reprises de Chaplin, fosse o que fosse, que tudo dentro daquele enorme templo de imagens era encantamento.

A rigor, todas as sessões, em qualquer horário, diurno ou noturno, naquelas três esquinas do bairro eram imperdíveis, só perdidas quando não havia jeito.

Uma circunstância toda especial acontecia quando lhe incumbiam o doce papel de acompanhar as irmãs mais velhas que – a ordem paterna era clara – não tinham permissão de irem ao cinema à sós com o namorado ou o noivo, e, no caso, o acompanhante obrigatório geralmente era ele, que – privilégio dos privilégios – usufruía dessa chance de ver filmes sem pagar, pois o namorado, claro, não abria mão da elegância de ser o patrocinador. Geralmente, o casal, a fim de carícias não permitidas em casa, sentava lá atrás, nas últimas filas, enquanto ele, ávido de meter-se tela adentro, procurava as poltronas da frente, indiferente ao seu papel de fiscal da moralidade familiar.

Mas essa era uma circunstância especial. No geral, o ingresso lhe custava o peso das sacolas carregadas.

O velho prédio onde funcionou o Cine São José.

O velho prédio onde funcionou o Cine São José.

Naquele dia, 28 de maio de 1958, quarta-feira, estava completando doze anos de idade. No seio de sua modesta família – residente à Rua Alberto de Brito, uma casa humilde não muito distante da Praça Onze – não havia o hábito de se comemorar aniversários, porém, sua irmã mais velha, casada e residente em Sta Rita, aparecera e lhe pusera na palma da mão um dinheirinho extra, que dava para algumas pequenas extravagâncias.

Já tinha visto que o Cine Sto Antônio estava anunciando para o fim de semana “Orgulho e paixão”, um filme histórico, em cujo cartaz um enorme canhão, sobreposto aos rostos de atores afamados, Cary Grant, Frank Sinatra e Sophia Loren, definia o seu gênero, guerra. No São José estava programada a exibição de “O homem que sabia demais”, e no Jaguaribe, o grande épico “Alexandre Magno”. Até então estava pensando em escolher só um deles, e esperar pela possível reprise dos outros dois. Agora, com o agrado da irmã, considerava a possibilidade de ir aos três.

Circos, lapinhas, festas de ruas, o bairro de Jaguaribe não era desprovido de diversões, porém, para ele, não havia nada que superasse a magia escondida naquelas três esquinas.

Em tempo: esta matéria é dedicada a Martinho Moreira Franco.

O cartaz de "Orgulho e paixão",

O cartaz de “Orgulho e paixão”,

Não dê bronca

31 jul

Do anedotário brasileiro faz parte a gozação com os títulos que os filmes estrangeiros receberam em Portugal. Os cinéfilos que consultam livros de cinema editados naquele país adoram citar esses títulos para provocar o riso. E provocam.

É fato que em todo país – e não apenas em Portugal – os filmes estrangeiros recebem por vezes títulos estapafúrdios, mas, mantém a lenda que os portugueses seriam mais engraçados.

Digamos de início que, nas brincadeiras dos cinéfilos brasileiros, há verdades e mentiras. A mentira mais frequente é que “Psicose” tenha sido reintitulado em Portugal como ´O filho que amava a mãe´. Não é verdade: o título lusitano do filme é só a tradução literal do original: “Psico”.

"O rapaz que vendeu a pomba" é o título lusitano do filme de Oshima

“O rapaz que vendeu a pomba” é o título lusitano do filme de Oshima

Muitas vezes o engraçado do título lusitano consiste na diferença vocabular entre Brasil e Portugal. Por exemplo, aquele drama do japonês Nagisa Oshima, de 1959, sobre um jovem que vendia aves (no original: “Ai to kibou no machi” : `a cidade do amor e da esperança´) teve em Portugal um título para nós ambíguo e ridículo: “O rapaz que vendeu a pomba”.

Poucos contêm o riso, é fato, ao ler ou ouvir o título daquela comédia de Roman Polanski sobre mortos vivos, que traduzimos do original como “A dança dos vampiros” (1966). Em Portugal o título do filme é mais longo: “Por favor, não me morda o pescoço”.

Certamente, um que está perto de ser o campeão da criatividade é o título lusitano dado ao filme de Richard Lester, com os Beattles, “Os reis do ye ye ye” (1964). O título português (juro) é: “As quatro cabeleiras do Após-Calipso”.

Como o assunto é vasto, vou, por questão de economia, aqui me limitar a mencionar e comentar brevemente alguns títulos que os distribuidores portugueses deram a filmes produzidos em Hollywood. Vejamos.

"As quatro cabeleiras do Após-Calipso": sem comentários.

“As quatro cabeleiras do Após-Calipso”: sem comentários.

“A culpa foi do macaco” é, com certeza, um título engraçado para o filme de Howard Hawks “O inventor da mocidade” (1952), com a justificativa de ter uma palavra chave do original “Monkey business”. “Doido com juízo” também é curioso para o filme de Frank Capra “O galante Mr Deeds” (em inglês “Mr Deeds goes to town”). “A menina dos telefones” soa igualmente hilário para designar a protagonista do filme de Vincente Minnelli “Bells are ringing” (1960), entre nós “Essa loura vale um milhão”. “Não há como a nossa casa” eis um título lusitano impensável para “Meet me in St Louis” (1944), do mesmo Minnelli, e que nós traduzimos de modo igualmente estranho “Ainda seremos felizes”. “A mulher que viveu duas vezes” é outro título lusitano que é motivo das chacotas cinéfilas, dando pistas sobre o que acontece à protagonista de, em inglês “Vertigo” (´vertigem´), no Brasil, “Um corpo que cai” (1958).

Com certeza, a gozação predileta dos cinéfilos brasileiros recai no título lusitano do faroeste de Fred Zinnemann, “High Noon” (´meio dia em ponto´) que no Brasil se chamou “Matar ou morrer” (1952). Em Portugal o filme foi intitulado como “O comboio apitou três vezes”, com o constrangedor detalhe de que, na estrutura do enredo, a quantidade de apitos do trem que chega a essa pequena cidade do Oeste, não tem absolutamente nenhuma relevância.

"Faça a coisa certa", em Portugal: "NÃO DÊ BRONCA".

“Faça a coisa certa”, em Portugal: “NÃO DÊ BRONCA”.

Ao invés de rir, há quem dê bronca das intitulações lusitanas. De minha parte, ao contrário, reservei para este artigo um título solidário aos portugueses, o mesmo que eles deram ao filme “Faça a coisa certa” (1989): “Não dê bronca”.

Pois, digamos a verdade: nem sempre os títulos portugueses são risíveis, e, nem sempre os nossos são melhores que os deles. Para a consideração do leitor, faço seguir uma lista de 18 (re)intitulações lusitanas e brasileiras de filmes famosos. De propósito não cito os títulos originais, apenas o ano da produção, em ordem cronológica. E decida você, leitor, quem deu títulos mais impertinentes a estes filmes americanos, se Portugal ou Brasil.

“Duas feras” vs “Levada da breca” (1938); “Cavalgada heróica” vs “No tempo das diligências” (1939); “A raposa matreira” vs “Pérfida” (1941); “O mundo a seus pés” vs “Cidadão Kane” (1941); “Mentira” vs “A sombra de uma dúvida” (1942); “A casa encantada” vs “Quando fala o coração” (1943); “Suprema decisão” vs “Um retrato de mulher” (1944); “Do céu caiu uma estrela” vs “A felicidade não se compra” (1946); “Há lodo no cais” vs “Sindicato de ladrões” (1953); “Fúria de viver” vs “Juventude transviada” (1955); “A terra em perigo” vs “Vampiros de almas” (1956); “A desaparecida” vs “Rastros de ódio” (1956); “O espírito e a carne” vs “O céu é testemunha” (1958); “Corações na penumbra” vs “Doce pássaro da juventude” (1962); “Música no coração” vs “A noviça rebelde” (1965); “Fim de semana alucinante” vs “Amargo pesadelo” (1972); “Juventude inquieta” vs “O selvagem da motocicleta” (1982).

Em tempo: para mais sobre a temática, consultar meu livro “Hollywood em outras línguas: a tradução de títulos de filmes e seus problemas” (Editora da UFPB, 2009), inteiramente disponível neste blog.

"O comboio apitou três vezes" - A quantidade de apitos é irrelevante em "Matar ou Morrer".

“O comboio apitou três vezes” – A quantidade de apitos é irrelevante em “Matar ou Morrer”.