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A ÚLTIMA GARGALHADA

29 set

Devorador de livros de cinema, sempre li sobre o papel do “kammerspiel” do dramaturgo Max Rheinhardt junto ao expressionismo cinematográfico alemão. Tive a sorte de ver filmes como O gabinete do Dr Caligari, Metropolis e outros representativos desse movimento, porém, onde poderia assistir à obra prima de F. W. Murnau, A última gargalhada (Der letzte Mann, 1924) que resume as características do estilo kammerspiel?

Ora, na sua versão original, inteira e autêntica, o filme de Murnau entrou no repertório de uma das redes de televisão paga – um fato que, nos velhos tempos dos cineclubes, seria comemorado como um evento.

Originário das artes plásticas, o Expressionismo, como se sabe, passou pela literatura e teatro de vanguarda da década de vinte e desembocou no cinema. No teatro, o seu mentor foi Rheinhardt, que bolou a ideia de uma sala de espetáculo mínima onde uma plateia mínima pudesse assistir à encenação nos seus mínimos detalhes, vislumbrando com igual nitidez, o conjunto da cena e o detalhe do dedo de um ator. Essa espécie de teatro de closes ganhou a denominação de kammerspiel (teatro de câmera), mas qual não foi a epifania do próprio Rheinhardt ao se dar conta de que, melhor que o palco, a tela podia cumprir essa função de se expressar por detalhes, já que o olho ubíquo da câmera podia substituir o limitado olho do frequentador de teatro.

O roteirista Carl Mayer, o fotógrafo Karl Freund e o cineasta Murnau, além de Rheinhardt, são alguns dos nomes que praticaram o (desculpem: nova denominação!) “kammerspielfilm”, isto é, o filme em estilo de teatro de câmera. Como na ribalta, esse filme devia estar contido num espaço unitário, povoado de objetos expressivos, mostrados por uma câmera móvel que desse conta dos efeitos dramáticos, sem intervenção das até então legendas explicativas.

Para dispensar o verbal e limitar a narração ao plástico, a estória devia ser relativamente simples, contendo um conflito básico. Esses ingredientes podem ser confirmados em A última gargalhada de modo quase exemplar. O filme conta a estória de um porteiro do luxuoso Hotel Atlantic, em Berlim, que, orgulhoso de seu pomposo uniforme, conduz os hóspedes e seus pertences através da enorme porta giratória, até o dia em que, notando a sua senilidade, a gerência o transfere para a função rebaixada de zelador de banheiro, e ele perde o uniforme, a honra e, se não for demais dizer, a razão de viver.

Altamente respeitado no subúrbio pobre onde reside com a filha e seu noivo, passa a ser ridicularizado com gargalhadas estrondosas no dia em que a notícia de seu rebaixamento se espalha na vizinhança. Sua postura se transmuda da altaneira forma de andar de antes para uma curvatura que quase toca o chão, e agora sua figura contorcida, no piso do lavatório masculino do hotel, mais parece a de uma alma condenada ao inferno.

Tudo isso, narrado – lembremos – sem som e sem uma única legenda explicativa, salvo o comunicado da gerência informando sobre a transferência de função, aliás, um elemento interior à narração. Em acordância com o estilo kammerspiel, o filme pode ser inteiramente reconstituído a partir dos objetos, alguns deles: o uniforme do porteiro, a porta giratório do hotel, a porta que conduz ao inferno do sanitário masculino, o botão perdido do uniforme, os sapatos dos clientes que o empregado é obrigado a lustrar, etc. Às vezes os próprios atores são objetivados, como quando os vizinhos manifestam seu desprezo pela queda do porteiro, e suas bocas, descomunais cavidades abertas tomando todo o quadro, os substituem.

Curioso é notar que se foi o teatro filmado o primeiro procedimento equivocado do cinema primitivo, o que se tinha com a proposta dramatúrgica original de Rheinhardt era o contrário: um teatro com vocação cinematográfica, um palco que queria ser tela. Tanto é que no típico kammerspielfilm, e isso ainda em 1924, decisiva é a radicalização do movimento de câmera, como dito, substituindo o ponto de vista estático do espectador. A cena da embriaguez do ex-porteiro, na festa de casamento da filha, é sempre dada como exemplo disso; nela não é o ator Emil Janning quem cambaleia: a câmera o faz por ele.

O filme tem um prólogo happy end, mas esqueçam-no: foi imposição da produtora UFA, que, aliás, Murnau ridicularizou com um tom de paródia. Obra prima impactante, A última gargalhada faria sucesso no exterior, chamando a atenção da vertiginosamente ascendente Hollywood, onde o próprio Murnau iria mais tarde desaguar, lá rodando, em 1928, o seu sublime Aurora (Sunrise).

Bertrand e Rebeca

13 set

Experiência agradável ver, em tela grande, “Rebeca, a mulher inesquecível” (1940), o primeiro filme americano do mestre Alfred Hitchcock.

O filme foi exibido no Cine Bangüê, quinta-feira passada, dia 8, ocasião em que também foi lançado o livro do fotógrafo e cineasta Bertrand Lira, “Cinema Noir – a sombra como experiência estética e narrativa”.

Coube-me a missão dupla de apresentar livro e filme, mas, como tive pouco tempo para a apresentação, aqui completo o que faltou dizer.

Parte de sua tese de doutorado, o livro de Bertrand analisa o funcionamento artístico da fotografia no filme noir, e o faz à luz das propostas contidas na obra de Gilbert Durand, “As estruturas antropológicas do imaginário”, onde se investiga a simbologia das sombras na cultura universal.

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Grade teórica escolhida com sabedoria e aplicada com sensatez e competência. E vejam que Bertrand não escolheu bem somente a grade teórica, como também o corpus. Para close reading, privilegiou cinco filmes que foram particularmente importantes na formação do gênero, a saber “Relíquia macabra” (John Huston, 1940), “Almas perversas” (Fritz Lang, 1945), “Envolto nas sombras” (Henry Hathaway, 1946), “Maldição” (Lang, 1950) e “A marca da maldade” (Orson Welles, 1958).

Os filmes de Huston e Welles são emblemáticos no sentido de estarem nos extremos do período atribuído à vigência do cinema noir. Contando a estória de uma secretária que ajuda o patrão a se livrar de uma acusação criminosa, o filme de Hathaway ilustra o gênero de modo exemplar. E por fim, “Almas perversas” e “Maldição” são de autoria de uma figura chave, Lang, alemão de origem que foi, nos anos vinte, cabeça do Expressionismo e que, de modo pessoal, trouxe para Hollywood as sombras desse movimento artístico.

Em suma, um belo livro, bem montado e bem escrito, que deve ficar como referência para os estudiosos da arte cinematográfica, em nível local e nacional.

Laurence Olivier e Joan Fontaine

Laurence Olivier e Joan Fontaine

Como já disse, adorei ver “Rebeca” em tela grande, porém, a meu ver, o ideal seria que o filme escolhido para exibição tivesse sido um daqueles estudados no livro de Bertrand. Para o espectador presente à sessão e futuro leitor do livro, “a aula”, então, teria sido completa.

A rigor, “Rebeca” nem é um noir típico. Como se sabe o filme noir era “B”, ou seja, tinha orçamento baixo, o que, aliás, dava a seus realizadores mais liberdade para criar, sem a fiscalização que recebiam os projetos de alto custo. Eram filmes para completar cardápio, geralmente curtos (entre 70 a 90 minutos), exibidos em dias de semana, entre segunda e quarta-feira. O cenário era quase sempre urbano e noturno, cheio de sombras, iluminação oblíqua, e trilha sonora desconcertante, para dar certo com a temática disfórica. Tratando de crime, sedução, culpa, e castigo, seus personagens podiam ser bandidos, policiais ou o cidadão comum envolvido em trama maldosa.

“Rebeca”, por sua vez, foi rodado com pompa e circunstância.

O grande produtor americano David Selznick convidou o grande cineasta inglês Hitchcock, e lhe ofereceu condições privilegiadas para filmar, em seus estúdios hollywoodianos, um romance que estava virando best-seller, e isto com um elenco de primeira: o shakespeariano Laurence Olivier, a estrela em ascensão Joan Fontaine, e até os coadjuvantes eram chique: o refinado George Sanders e a impressionante Judith Anderson, que faz a governanta mais assombrosa da história do cinema, no papel da Sra Danvers.

Capa do livro de Bertrand e convite ao lançamento.

Capa do livro de Bertrand e convite ao lançamento.

Selznick havia acabado de produzir o estrondoso “E o vento levou…” (1939) e ainda estava na tarefa da distribuição e exibição, quando Hitchcock – que havia muito já ganhara prestígio internacional com suas produções inglesas – aportou em Hollywood, com um contrato e a perspectiva de grande trabalho em comum.

O filme começa com o casamento de uma moça pobre com um aristocrata, mas esse cheiro de “Cinderela” vai, aos poucos, sumindo e tomando os tons de terror a que nos conduzem, tanto o cenário (a suntuosa mas funesta mansão de Manderley), como o mistério da trama, suscitado pelo espírito da ex-esposa, e encarnado de modo concreto, na governanta.

Segundo a biógrafa de Daphne du Maurier – a autora do livro adaptado por Hitchcock – antes de escrever “Rebeca”, ela havia lido os originais de um certo livro intitulado “A sucessora”, enviado para a sua editora, e que contava mais ou menos a mesma estória. A autora? A brasileira Carolina Nabuco. Mas este é outro problema, que fica para outra hora.

Por enquanto é bom lembrar: “Rebeca” continua em cartaz no Bangüê, e o livro de Bertrand está à venda na Livraria do Luiz e na Livraria do CCHLA, na UFPB.

Patroa e governanta, em "Rebeca, a mulher inesquecível" (1940)

Patroa e governanta, em “Rebeca, a mulher inesquecível” (1940)