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O CORRIMÃO QUEBRADO (ou UM CONTO DE NATAL)

24 dez

Então é natal, e aproveito pra contar a história de meu amigo George.

O sonho dele era viajar. Nascido e criado nessa cidadezinha do interior, adorava sua família, mas – sabe como é – era jovem, tinha a vida pela frente e não queria morrer ali. Queria empreender grandes coisas, conhecer o mundo, estourar a boca do balão.

Por isso não lhe agradava nem um pouco a ideia de casamento. Casar, ter filhos, constituir um lar – tudo isso seria criar raízes naquele lugar sem futuro e dar adeus a todos os seus planos de grandeza.

Assim, quando ela se insinuava com trejeitos românticos, ele desconversa e escapulia. Não adiantou: a moça era bonita e ele terminou casando. E, mais grave, sem condição, foram morar numa casa velha, cheia de goteiras, e tiveram muitos filhos.

Evidentemente, seu sonho de viajar foi por água abaixo, e ele – não houve jeito – virou o pai de família típico, com um trabalho burocrático e uma vidinha rotineira e convencional. A contragosto, teve que assumir a direção da Cooperativa que havia sido do pai, agora falecido.

E, infelizmente, as coisas pioraram. Um dia, o tio – que o ajudava na contabilidade – inexplicavelmente, perdeu uma soma de dinheiro que devia depositar e, com esse gesto descuidado, levou a Cooperativa à completa falência.

Era véspera de natal, mas a data não ajudava em nada. Ao contrário, piorava tudo. De repente, tudo dentro de casa enervava George – o barulho das crianças, a bagunça, a decoração de natal… Tudo virara um inferno nesta casa velha onde até o corrimão da escada estava quebrado… Maldito corrimão quebrado que ele, irritado até a medula, teve gana de lançar ao chão e terminar de destroçar. Sim, porque, de repente, aquele corrimão quebrado lhe pareceu uma metonímia de toda a sua desgraça.

Assim, fora de si, desiludido de tudo, sem saída, George tomou a dura decisão de se matar. Pra que viver mais? Com esse intento, dirigiu-se à ponte do rio que corta a cidade, porém, no momento de jogar-se na correnteza fria, deu-se algo estranho: alguém se jogou antes dele. Pois ele pulou na água, não mais para morrer, mas para salvar aquele outro suposto suicida.

Era um velhinho que, depois de estarem os dois a salvo e enxutos, lhe revelou uma coisa curiosa: que estava na água de propósito, só para evitar o suicídio dele, de George. E prosseguiu lhe dizendo um bocado mais de coisas estranhas. Que era um anjo sem asas, diretamente enviado do céu para ajudá-lo, e assim, ganhar suas merecidas asas.

George, claro, achou tudo baboseira desse velhinho amalucado… e não deu a mínima. Ironizando, até perguntou se o velhinho porventura não dispunha dos 8000 dólares que salvariam sua vida, e o velhinho calmamente lhe explicou que no céu não se mexia com dinheiro.

Pois não é – pasmem! – que o velhinho era mesmo um anjo!

Quando George, cada vez mais desiludido, fez a sua afirmação mais drástica, dizendo que, “eu nunca devia ter existido”, foi só o que o velhinho quis: nesse exato instante, usando de todo o seu angélico poder, procedeu a uma operação metafísica e criou, para George, um mundo paralelo, o mundo tal como seria se ele, George, nunca tivesse existido.

E aí, coitado do meu amigo George, foi um choque atrás do outro. Nesse novo mundo feio, um irmão querido que ele salvara na infância, e que acreditava vivo, estava morto e enterrado; sua esposa, que não o reconheceu, era agora uma coroa neurótica; sua mãe, que tampouco o reconheceu, era dona de uma pensão suspeita; seus filhos e seu lar não existiam, e, pra resumir a sua longa via crucis, a cidade inteira perdera sua inocência e se mostrava, agora, como um antro de imundície, maldade e safadeza.

Perdido por horas intermináveis nesse mundo horrendo e hostil, George não se segurou mais: desabou numa crise de nervos e, aos prantos, viu-se rogando a Deus que o devolvesse ao mundo que ele conhecia, que desse fim a esse pesadelo, que o retirasse dali… Mesmo que fosse pra enfrentar a falência e a prisão.

E, – ufa! – ainda bem, foi atendido. De repente, olhou em torno e tudo voltara ao normal – miraculosamente a cidade estava do jeito que ele a conhecia, tudo do jeito que era antes. E só agora, pôde George tomar consciência de que a sua cidade era pacífica e feliz porque ele, George, existira, porque lá vivera e porque lá atuara.

Eufórico, saiu correndo feito um desvairado pelas ruas de sua cidade tão amada, gritando “FELIZ NATAL” a tudo e todos, em direção certeira à sua casa, aquela mesma casa velha cheia de problemas em que a família e os problemas o esperavam, e, uma vez dentro de casa, antes mesmo de abraçar a esposa amada e os filhos queridos, pondo os pés nos primeiros batentes da escada, não esqueceu de desferir um beijo comovido no corrimão quebrado.

“I HAVE A POEM”

13 nov

Filmezinho interessante este “A professora do jardim de infância” (Sara Colangelo, 2018) que acabo de assistir em DVD. Nada especial, mas acho que merece um comentário.

Na Nova Iorque de hoje, uma professora primária se entusiasma com o comportamento de um aluno de sete anos que “fala” poesia. Digo “fala” porque o garoto não escreve as belas frases que, inexplicavelmente, lhe saem da boca – ele simplesmente diz os “poemas”, sem mais nem menos, nos momentos menos previsíveis. Fascinada com essa misteriosa manifestação lírica numa criatura tão tenra e frágil, ela, a professora é que toma notas e, mais que isso, estimula o quanto pode o potencial poético do pequeno aluno.

Até aí tudo bem. O problema é que a coisa não fica por aí. Na verdade, a professora vai se tornando obsessiva com o surpreende talento do aluno – um talento que, para o espectador às vezes parece de natureza sobrenatural – e passa a ter um comportamento um tanto e quanto fora do comum.

Sendo casada e com dois filhos adolescentes, ela começa a exibir em casa uma certa atitude hostil. Dá-se bem com o marido, porém, a filha começa a lhe parecer vulgar e o filho, alienado. E essas impressões terminam aparecendo nas relações familiares e motivando conflitos.

Mesmo antes do aluno poeta, a nossa professora já frequentava um Curso de Poesia para adultos, onde os poemas que escrevia e apresentava nunca tinham boa acolhida. O que faz ela? Passa a levar para a classe os poemas do aluno, como se seus fossem, e, previsivelmente, é aplaudida por colegas e, sobretudo, pelo professor.

Com dificuldade, ela faz contato com o pai do garoto, um empresário que não vê com bons olhos esse lance de poeta na família. Mas, enfim, quanto mais objeções à poesia, mais ela se empenha em estimular o garoto e a ficar perto dele, até mesmo quando o pai o muda de escola.

No dia em que ocorre, na cidade, um evento literário com recital de poesia, ela praticamente rapta o garoto e o leva para o evento onde ele, para surpresa e encanto dos presentes, recita os seus poemas e é calorosamente aplaudido. É aí que o professor da professora descobre que sua participação no Curso de Poesia era fake – que os poemas que ela recitava não eram de sua autoria.

Estranhamente, ela não se incomoda muito com isso, e o sem sentido de seu comportamento vai crescendo, até beirar algo parecido com insanidade. Mas, vamos parar por aqui no relato do enredo.

Maggie Gyllenhaal and Parker Sevak in The Kindergarten Teacher by Sara Colangelo,

Uma coisa boa no filme é a colocação do contraste entre, de um lado, o mundo prosaico, material, vulgar da vida cotidiana, e do outro, o mundo criativo, inovador, misterioso, dos voos poéticos. Em dado momento, a professora explica ao aluno que as pessoas em geral vão tentar conduzi-lo para a materialidade e coibir seu pendor poético, e completa: “como fizeram comigo”. O que faz o espectador imaginar que nossa professora seria uma personalidade frustrada, uma poeta de nascimento, tolhida pelas circunstâncias da vida.

Se é ou não, o desempenho dado pela atriz Maggie Gyllenhaal é extremamente eficiente em nos passar o drama dessa mulher atormentada que se entrega a uma causa perdida com o heroísmo dos suicidas e, por que não, dos poetas.

E por falar em poesia, o comportamento do garoto poeta, em si mesmo, nos faz pensar nas teorias românticas e místicas que estão em Wordsworth, especialmente no seu “Intimations of immortality” em que se defende o encanto da infância como uma lembrança do paraíso onde a criança estava antes de vir ao mundo. Essa lembrança (e foi talvez o que quis explicar a professora a seu aluno) é, com o passar dos anos e com o contato com os adultos, logo cedo anulada e, na maior parte das pessoas, desaparece para sempre.

Tanto é assim que a cena que mais dói no filme é o seu último fotograma, quando o garoto, resgatado pela polícia e jogado no banco do carro, sozinho, diz o que já dissera várias vezes ao ser atacado pela inspiração: “I have a poem”. E o espectador, entristecido, deduz que este novo poema não será mais ouvido nem anotado por ninguém…

Uma crítica que li de “A professora do jardim de infância” foi que, a rigor, o comportamento da protagonista não tem lógica. Concordo, mas será que essa falta de lógica não seria um recurso expressivo, no caso, uma alegoria diegética para a própria poesia? Não sei, mas que o filme é interessante, isto lá é. E legal para se pensar o ensino de literatura no nível elementar… e, se for o caso, em quaisquer níveis.

Galinho de ouro

9 out

Se não gosto de boxe e não aprecio a produção comercial da Globo Filmes, por que fui ao cinema assistir a “10 segundos para vencer” (José Alvarenga Jr, 2018)?

O motivo é estritamente saudosista. Acontece que entrei na adolescência na primeira metade dos anos sessenta, quando o país – vocês lembram – era um palco de otimismo e esperança. Saíramos do progressismo de Juscelino e (apesar de Jânio), estrávamos numa fase promissora, cheia de coisas novas e boas acontecendo em todos os setores. No esporte e nas artes, pelo menos, era uma notícia boa atrás da outra: as copas de 58 e 62, o prêmio em Cannes para “O pagador de promessa”, as vitórias das nossas misses, o badalado advento do Cinema Novo, Brasília, a poesia concreta, a Bossa Nova… era tanta coisa levantando a nossa moral que dava gosto, sobretudo para um adolescente como eu, curioso e interessado. E claro, no meio disso tudo, Eder Jofre, o campeão mundial de boxe, carinhosamente apelidado de “o nosso galinho de ouro”.

Pois bem, Eder Jofre – ou melhor, sua vida – é o assunto de “10 segundos para vencer”, e foi isso – sua lembrança dentro desse contexto de otimismo – que me levou ao cinema.

E ainda bem que fui, pois o filme – meu saudosismo à parte – tem alguma qualidade. Começa em 1946, quando Eder era um garoto pobre e acompanhava os penosos esforços do pai para transformar o irmão mais velho num grande pugilista. Esforços inúteis, pois o rapaz não passava de um boêmio brigão que não levava a profissão a sério. Ainda criança, Eder pede ao pai para fazer dele o boxeur que o irmão não foi. Já adulto, opta por ser desenhista, mas, a coceira do boxe em família grita mais alto.  E, a partir daí, o filme, seguindo de perto a vida verídica do atleta, vai nos contar todo o difícil percurso até a glória.

Todo não, mas ao menos os itens mais decisivos e dramáticos. Por exemplo: o rigor espartano do pai/treinador que, em muitas ocasiões, põe a saúde do filho em risco; a luta que o consagrou em território nacional, ao ponto de ninguém mais querer enfrentá-lo; a sofrida e heroica vitória em Los Angeles, que lhe concede a definitiva fama internacional; o casamento, a vida doméstica, a crise e o melancólico afastamento do ringue, fato que quase mata o pai. E, obviamente, o retorno em grande estilo, em 1973, com a famosa luta, durante a qual, o pai, de tão emocionado, desmaia e é levado ao hospital. Nessa luta, um detalhe: alguém avisa a Eder que o Presidente Medici, presente na plateia, quer ficar com suas luvas, e ele responde, categórico: diga a ele que estas luvas já têm dono.

Não conheço de perto a vida de Eder Jofre e não posso garantir que tudo no filme seja biográfico. Mas, se não é biográfico, é ao menos cinematográfico.

Um exemplo, creio eu, de equilíbrio entre dado biográfico e lance de roteiro está na sequência que antecede a luta em Los Angeles. Num quarto frio de hotel, com apenas duas semanas para chegar aos 53 quilos exigidos, vemos o desumano tratamento a que o pai/treinador submete o filho: sem beber água havia dias e sendo obrigado a cuspir sem parar (“em cada cuspida se perdem muitos gramas”, lhe garante o pai), o jovem atleta enfraquece. e é fraco assim que irá ao ringue, e, sob as vaias de uma plateia hostil, que o chama de “macaco da Amazônia”, vence o conceituado boxeur mexicano em luta que virou história.

Momentos mais subjetivos e/ou íntimos na vida do pugilista são, naturalmente, criações dos roteiristas, por exemplo, o que se passa na sua cabeça antes de cada luta: sempre o rosto em close dele mesmo quando criança, primeiramente sério e apreensivo e, logo em seguida, abrindo um sorriso promissor – suposta garantia de sucesso.

Eder Jofre, o galinho de ouro.

Curiosa foi a escolha do elenco. Vejam que os atores que fazem os irmãos de Eder Jofre são, de fato, normalmente feios e têm o mesmo nariz ossudo e saliente que a gente ainda hoje lembra da família do pugilista. E, no entanto, justamente o ator que faz Eder (o galã Daniel de Oliveira) nem tem esse nariz saliente nem é feioso. Exigências mercadológicas da Globo Filmes, com certeza. Com relação às interpretações, quem se destaca mesmo é o grande Osmar Prado no papel do obsessivo pai/treinador.

Como disse, nunca curti boxe, e, no entanto, a expressão “galinho de ouro”, ouvida tantas vezes na minha adolescência, ficou como um dos sons que me evocam a festa que foi a primeira metade dos anos sessenta no Brasil.

Mas enfim, mesmo para quem não viveu a época, acho que vale a pena ver “10 segundos para vencer”.