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RELATO DE OFÉLIA

14 ago

Em Shakespeare, vocês lembram, o personagem de Ofélia é – apesar de seu poético poder sugestivo – ambíguo, fugidio, misterioso…

Já no filme da cineasta australiana Claire McCarthy, “Ofélia” (2018), a personagem é alçada à condição de protagonista que, sem papas na língua, conta ao espectador sua própria história, com todos os detalhes.

E que história é essa? Bem, no mínimo uma que nenhum leitor ou espectador da peça jamais imaginaria. Os personagens têm os mesmos nomes (Hamlet, Gertrudes, Claudio, Polônio, Laerte, Horácio, etc, o local é o mesmo, o Castelo de Elsinore, na Dinamarca medieval), porém, esses personagens não agem exatamente da mesma forma que conhecemos, o que equivale a dizer que não são exatamente os mesmos.

E, claro, a primeira e maior diferença actancial entre peça e filme recai sobre Ofélia. O filme começa com o seu corpo, boiando inerte nas águas do lago, rodeado de flores, porém – mais tarde saberemos – isto é só uma pista falsa.

Esta não é a circunstância de sua morte, e aí é que entra a narração em voz over, em primeira pessoa, ela mesma, vivinha da silva, relatando sua autobiografia, que se inicia quando ela, ainda adolescente, teria sido descoberta pela rainha Gertrudes e trazida à Corte de Elsinore, como dama de companhia.

Acontece, sim, o romance entre ela e o príncipe Hamlet, mas, com quanta diferença! O que vemos agora são dois apaixonados que mais lembram Romeu e Julieta, os dois se encontrando em locais furtivos e fazendo planos astuciosos para ficarem juntos. Muito longe da opaca e indefinida relação entre o casal da peça.

Não vou me dar ao trabalho de contar o enredo do filme, mas, para se ter uma ideia das transformações engendradas, basta ver como aquela frase de Hamlet, “vá para um convento”, dita a Ofélia como uma espécie sem sentido de insulto de uma mente desesperada, no filme não tem nada disso: com existência diegética, o tal convento aqui é uma dica bem definida do local em que o casal poderia se encontrar mais tarde, e, aliás, é o local concreto para onde se dirige Ofélia depois de tudo terminado, depois de todos mortos, com a invasão da Dinamarca pelo exército norueguês de Fortinbras.

Referi-me, acima, aos amantes de Verona, pois o que o filme de McCarthy tem de curioso são elementos de outras peças de Shakespeare, ironicamente contribuindo nas transformações. Como no caso de Julieta, é uma poção química “que adormece o corpo sem lhe tirar a vida” o que salva Ofélia da perseguição de Cláudio. A bruxa misteriosa que vive na floresta e que está na raiz da vida pregressa de Cláudio e, depois, no seu plano criminoso, foi, com certeza, arrancada de “Macbeth”, e o disfarce de Ofélia, cortando o cabelo para parecer masculina, vem de “Rei Lear” e de tantos outros textos shakespearianos.

Inevitavelmente, o filme tem muito menos hesitações morais (tipo “ser ou não ser”) e muito mais determinação de espírito, ação e violência, talvez para agradar às plateias de hoje em dia, acostumadas aos super-heróis invencíveis e nada ambíguos do cinema americano atual. É possível.

No grosso, o que fica evidente é que a diretora McCarthy não foi ao cânone para servi-lo; foi lá para ser servida e criar, para o bem ou para o mal, uma obra toda sua, supostamente nova. Vejam que, se a peça shakespeariana pertence ao gênero da tragédia, aqui o relato de Ofélia – em que pesem as mortes finais – termina com um final quase feliz: ela é acolhida pelas freiras do tal convento referido, e o derradeiro e belo fotograma a mostra praticamente venturosa, percorrendo um idílico prado verdejante, levando pela mão uma linda criança que – se deduz – deve ser filha do amante Hamlet. E com uma vida pela frente…

Para nós, espectadores, a questão é se o filme resultante valeu a pena ou não.

De minha parte, creio que não valeu, porém, deixo ao meu leitor a sugestão de assistir e decidir por conta própria. “O resto é silêncio”…

Daisy Ridley e George MacKay em OFÉLIA.

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